Palimpsesto - Dramione
6 Uma reunião repentina.
Notas iniciais
Wiltshire, 4 de setembro de 2004.
Draco relaxou seus pés sobre o sofá macio, recusando-se a tirar seus sapatos engraxados. Mais tarde os elfos cuidariam da bagunça. Espreguiçou-se, esticando e relaxando cada músculo ainda tensionado. Sentia-se exausto.
Havia sido um longo dia.
Frustrado e após ter passado aquela manhã com Hermione, o loiro sequer prestou atenção nos pacientes os quais atendeu, limitando-se a fazer uma breve triagem e manda-los novamente para cela, prometendo a si mesmo que no próximo dia seria um profissional melhor.
—Aysha...—Sussurrou, tendo plena certeza de que a elfo logo se materializaria à frente.
—Sim, mestre. —A pequena elfo surgiu em um estalar, esbugalhando os olhos violetas em admiração ao seu dono. Desta vez a criatura trajava um pedaço estraçalhado de cortina, provavelmente encontrada em alguma viela.
—Aquela mesma sopa de abóbora da noite anterior. Por favor.
Se pegou soltando um sorriso sarcástico em relação à sua educação com um elfo insignificante.
Aysha apenas assentiu, se curvando, e antes que Draco piscasse, a criatura já havia desaparecido.
Levantou-se do sofá, aproveitando o movimento para que estralasse os ossos do pescoço e das costas, causando a si mesmo uma leve sonolência. Sentiu uma sensação estranha ao imaginar que as situações em que está desacompanhado em sua própria casa são raras, afinal ao menos uma vez por semana acaba arrastando-se bêbado com uma qualquer para seu quarto. Apesar de estranha, a sensação de singularidade era confortável.
Até poderia parar para admirar a beleza da sala da mansão Malfoy, que permanecia faustosa e imponente, se não fosse um barulho de batida sem ritmo que chamavam da grande porta de mogno.
Aguardou, sem a menor paciência, que o som se esvaísse, sendo por magia ou seja-lá-quem for fosse embora. Não aconteceu.
—Por Merlin que eu não tenho o direito de permanecer em paz na minha própria casa! —Praguejou, marchando em passos pesados até a porta.
Quando a abriu, não havia ninguém a sua espera. Exceto por uma pequena coruja marrom e elegante de olhos amarelados que carregava consigo uma bolsinha, onde Draco imaginou haver uma carta a qual puxou para si, ignorando a impressão que teve de ter sido julgado pela coruja.
Deu as costas e bateu a porta com força a poucos milímetros da face do animal, cujo pode ouvir batendo asas alguns segundos depois.
O pergaminho esbranquiçado e as letras prateadas foram irreconhecíveis aos olhos da mesma cor, que odiava receber este tipo de cartas.
Cartas dele.
As letras encurvadas e finas logo transformaram-se em palavras que Draco leu com desânimo.
Caro dr. Malfoy.
O ministério da magia tem o prazer de convidá-lo para uma reunião de extrema urgência com o prezado ministro Lord Voldemort, onde sua presença é de extrema importância. A reunião acontecerá às 21:00 desta noite.
Aguardando sua presença, Amanda Carrow.
Então era esse o nome da mulher da noite retrasada.
O sonserino não pode evitar revirar os olhos ao ler a palavra “convite”, afinal sabia que não era exatamente isso. Odiava reuniões com Voldemort, e odiaria ainda mais em uma noite como esta ser obrigado a suportar a presença de uma mulher forçada como Amanda, sabia como esse tipo de mulher funcionava.
Checou seu relógio de pulso, eram oito e quarenta e cinco da noite.
Assim como ele, Voldemort odiava atrasos.
—Deixe a sopa para mais tarde, Aysha. —Balbuciou, buscando seu paletó pendurado e vestindo-o rapidamente.
Londres, Inglaterra.
Estava sentado na mesma poltrona de couro a qual havia estado algumas noites atrás, o que o fez perguntar qual seria a boa notícia da vez. Tamborilava novamente seus dedos sobre a mesinha, que percebeu ter sido lustrada. Escorou-se na própria mão e fechou os olhos, aproveitando os minutos de silêncio para descansar sua mente.
Não pode aproveitar, afinal uma voz artificialmente aguda o retirou de sua calmaria.
—Olá, Draco.
A secretária falou em um tom de voz provocativo, sorrindo entre os lábios avermelhados. Fez questão de desfilar sem rumo com seus saltos altos, deixando a mostra metade de suas coxas, as quais o loiro observou sem pudor, apenas para o livrar da tensão que o ambiente lhe trazia.
—Doutor Malfoy para você, Amanda. —Respondeu com acidez, ajeitando-se na poltrona.
Seus orbes cinzentos sequer se deram o trabalho de acompanhar a face da loira, mas soube por sua visão periférica que a mulher reproduzia um semblante decepcionado que sumiu em instantes, substituído por um sorriso falso que poderia representar uma noite ganha para Draco.
—Não me lembro de você ter reclamado enquanto eu gemia seu nome, doutor. —Deu ênfase a palavra doutor, aproximando-se com movimentos quase ensaiados.
Draco fechou os olhos, aproveitando a deixa para virar o rosto, que sentiu ser tocado por longas unhas, as quais teve certeza que estravam pintadas de vermelho, todas elas pintavam de vermelho. Seu rosto foi puxado com leveza pelas garras da mulher, que o fez encará-la irritado.
Os olhos esverdeados da mulher possuíam um brilho característico, o que poderia ser confundido com luxúria.
O hálito quente e levemente alcóolico da moça pode aquecer a pele alva de Draco, que agora se encontrava a poucos milímetros da loira.
—Adoraria repetir nossa noite. —A moça sussurrou, de forma quase velada.
—Não repito noites mal aproveitadas, Amanda. —Não era exatamente verdade, afinal Draco repetia anualmente encontros sugestivos com Pansy Parkinson, mas o que se tratava ali não era esta questão, e sim o fato de Draco estar impaciente.
Foi a vez de Amanda se afastar, encarando-o com uma feição de desgostosa. O silêncio voltou a reinar na sala de espera, o que para Draco foi reconfortante. A mulher que o fuzilava com o olhar a cada dez segundos parecia surpresa demais com a rejeição, a julgar pela inquietação que o que seu corpo transparecia, batendo os saltos incontáveis vezes no chão e
—O ministro mandou avisar que o senhor pode entrar, Doutor. —A voz antes aveludada saiu como lâminas, intencionadas diretamente a ferir o ego de Draco, que sequer percebeu o desdém.
Rumou então ao escritório de Voldemort, desta vez sequer passeou com seus orbes pelos quadros, focado demais em entender o que estava se passando ao seu redor. Antes que pudesse bater na porta, ouviu seu mestre avisando-o que podia entrar.
Respirou fundo e fixou seu olhar no chão, empurrando a porta.
—MiLorde... —Uma breve reverência o anunciou.
—Sente-se, querido. —A voz de Voldemort era calma e falsamente terna.
—A que devo a honra de seu convite, senhor? —Levantou o olhar pela primeira vez, sentando-se na poltrona e se arrependendo ao encarar aquela face asquerosa. Era sorridente demais, enérgico demais. E como bem o conhecia, Draco soube no mesmo instante que não iria gostar da reunião forçada.
—Draco, querido... O que você pode observar em Azkaban até o presente momento? —Suas fendas se iluminaram em curiosidade, enquanto debruçava-se na escrivaninha, lançando todo seu corpo para frente.
—Bem... —Focou seu olhar para o alto, imaginando quais pontos seriam do interesse de seu lorde. —Os prisioneiros, em sua maioria, estão em estados graves ou intermediários. Pude diagnosticar a minoria como aptos, e esses terão alta e serão encaminhados para o senhor em poucos dias.
Voldemort assentiu a cada detalhe, parecendo encantado com a notícia, a cada milésimo de segundo os cantos externos de seus lábios se alargavam mais.
—Pois bem, querido. Como você deve imaginar, existem bruxos dentro daquela prisão que são de extremo interesse de certos comensais que se sentem pessoalmente ofendidos por sua existência, correto? —A voz do ministro soava arrastada, como quem explica a uma criança uma brincadeira muito complexa.
Draco precisou de alguns segundos de raciocínio para compreender o que Voldemort falava.
—Temos colegas que querem alguns prisioneiros como escravos pessoais!? —Soou como uma dúvida, embora a tentativa de Draco era transparecer seu domínio no assunto. Esbravejou mentalmente ao perceber o tom de voz falho.
—Correto. Agora, Draco, espero que possa imaginar quais são os prisioneiros mais desejados... —Um sorriso particularmente assombrador surgiu nos lábios de Voldemort.
—Sequer tenho ideia, MiLorde. —Draco engoliu seco, ignorando o nó que se formava em sua garganta conforme o medo lhe surgia, sabia que Voldemort não tinha paciência para raciocínios lentos.
O ministro esboçou uma expressão decepcionada conforme abria com seus dedos longos um pergaminho talhado, o qual ofereceu para Draco com desdém.
Ginevra Molly Weasley, 23 anos de idade.
Requerida por Bellatrix Lestrange.
Valor de mercado: trezentos mil galeões.
Data estimada de entrega: 15 de outubro.
Draco pode ter a visão de Voldemort sorrindo para o caderno, como se fosse algo a se orgulhar.
Ronald Billius Weasley, 24 anos.
Requerido por Fenrir Greyback.
Valor de Mercado: 350 mil galeões.
Data estimada de entrega: 28 de dezembro.
—Ronald Weasley está incapacitado de forma crônica, MiLorde. —Draco coçou a cabeça em resposta ao nervosismo, temendo contrariar seu mestre. —Está louco, para ser mais exato.
Voldemort sorriu em resposta, os dentes a mostra de forma sádica e gutural.
—Greyback sabe da situação do paciente e o deseja desta forma, querido, e mesmo que não fosse o caso, é sua obrigação como MediBruxo o curá-lo.
O loiro engoliu seco, tornando a ler o pergaminho. Foram alguns metros de pergaminho com nomes desconhecidos que Draco não se importava destinados a comensais os quais sequer conhecia, até que seus olhos cinzentos tomassem foco no nome que viria.
Hermione Jean Granger, 24 anos.
Requerida por Antônio Dolohov.
Valor de mercado: 2 milhões de galeões.
Data estimada de entrega: 19 de setembro.
Draco empalideceu dez tons abaixo da sua pele.
—MiLorde, gostaria de saber o motivo do valor da sangue-ruim ser tão...acima do preço. —Sua confusão era maior que a curiosidade, sobretudo, não poderia transparecer tal sentimento.
Voldemort se levantou, rumando até Draco com um sorriso sorrateiro. Por um segundo, parecia que o ministro contaria um segredo ao sonserino, julgando por sua feição.
—Digamos que a amiguinha do Potter terá funções mais... íntimas para Dolohov.
O bolo alimentar que se revirava desconfortavelmente dentro de Draco pareceu realizar uma tentativa urgente de fugir, causando-lhe ânsia.
Sabia o que Voldemort quis dizer, e lembrando-se do que descobriu sobre Hermione, não deveria ser capaz de liberá-la.
—MiLorde, seria capaz reconsiderar a questão da sangue-ruim?
O sorriso malicioso de Voldemort se fechou em uma feição desgostosa.
—E por que eu deveria fazer isso, querido? —O tom de voz do seu mestre endureceu, chegando a beirar a insanidade.
Os orbes tempestuosos do sonserino passearam pelo escritório, buscando algum sinal do que deveria fazer. Focaram-se nos quadros pelas paredes, onde os comensais falecidos pareciam encará-lo a espera de alguma resposta que parecia não querer sair de sua garganta. Seu cérebro girava em torno de si mesmo, causando-o tontura.
Pense Draco, pense.
Sabia que estava ficando louco, por que ajudar Hermione Granger?
Desde quando uma sangue-ruim traidora merecia ajuda?
Oras, pois se o Dolohov se satisfaria com o corpo dela, deixe-o que pague por ele!
Draco sabia que não era bom, com certeza já havia feito diversas coisas erradas, poderia até mesmo fazer uma lista, e inclusos nela estaria toda a família Weasley juntamente a Hermione, mas a ideia de consentir com tais atos os quais Voldemort o apresentou não lhe cabia.
—Porque eu estava cogitando comprar Hermione Granger para os mesmos serviços, MiLorde. E posso afirmar que posso pagar o triplo do valor estimado, e até mais se for necessário.
Draco mentiu.
Jamais havia cogitado se aproximar de tal forma da garota, mas aquela havia sido a única opção que havia conseguido pensar para que não se sentisse um monstro perante a situação. Se arrependeu de suas palavras assim que as pronunciou, afinal ele mesmo sabia que Hermione não tinha condições de ser liberada de Azkaban.
Os olhos sorridentes de Voldemort brilharam em resposta a proposta do loiro.
—Sabia que não iria me decepcionar, Draco.
O silêncio reinou pelo escritório, enquanto o ministro rumava novamente a cadeira e escrevia em um longo pergaminho que o loiro imaginou ser uma carta. Voldemort o entregou à uma coruja que permanecia empoleirada no canto da sala, e Draco pode perceber ser a mesma que havia o incomodado algumas horas antes.
—Querido, enviei uma carta à Dolohov explicando seu interesse na prisioneira, e caso ele não esteja disposto a negociar, será sua após o pagamento.
Draco evitou o olhar de Voldemort durante a conversa, afinal o mesmo o repulsava. Levantou-se com um sorriso falso no rosto e apertou a mão de seu mestre, gelada e áspera como sempre.
Em rumo a saída, encontrou Amanda na recepção.
—Boa noite, doutor Malfoy. —A voz da mulher era carregada de uma ironia que causou no loiro apatia o suficiente para que ele não a respondesse.
E então desaparatou para sua casa, onde sabia que uma deliciosa sopa de abóbora o aguardava.
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