Palimpsesto - Dramione
7 Sopa de abóbora.
Notas iniciais
Wiltshire, Inglaterra
5 de setembro de 2004.
O corpo de Draco se remexia inquieto, sobre o colchão. Eram três e meia da madrugada e o homem sequer havia pregado os olhos. Havia comido sua sopa de abóbora na companhia da elfo, na esperança que lhe surgisse alguma ideia do que fazer com a mulher que tomaria como escrava, mas tudo que conseguiu foi uma Aysha extremamente eufórica por ganhar alguns minutos de atenção de seu mestre
Estava aflito.
Como iria conviver com Hermione Granger, e ainda por cima, como contaria para a fedelha que ela seria obrigada a conviver com ele, e caso se rejeitasse, seria comprada por alguém ainda pior? E ainda por cima, sabendo como a garota se encontrava, sabia que era impossível ter uma convivência saudável, afinal ela sequer conseguia se pronunciar.
Seria o inferno dentro de sua própria casa.
Socou o colchão com brutalidade, na esperança de descontar a frustração que sentia tomando conta de sua mente, infelizmente, o único resultado foram penas de um dos travesseiros flutuando pelo quarto.
O escuro sua cólera quase claustrofóbica, se não fosse o vento que invadia a sacada e empurrava as cortinas de renda com violência contra as paredes. A luz da lua invadia o quarto com violência, iluminando as íris do loiro, resultando em um brilho quase sonhador, se não estivéssemos falando de Draco Malfoy.
Se revirou na cama e encarou o teto, puxando todo o ar que suas narinas permitiam.
A constelação que flutuava como se fosse real no teto havia sido invenção de sua mãe, quando ainda viva. A constelação de Draco. Apesar de morar sozinho, o loiro jamais havia tomado o quarto de seus pais para si, preferindo manter seu quarto de infância, afinal o tamanho oferecido era mais do que o suficiente.
Lembrou-se momentaneamente de sua mãe, a qual evitava com todas suas forças retornar sua memória.
Draco podia jurar que se sentiu amor alguma vez na vida, esse amor era destinado à sua mãe. A mulher o criou com todo carinho, apesar do ambiente em que viviam. Narcisa Malfoy jamais foi um exemplo de bondade, não às vistas grossas de Lucio e os outros comensais, exceto para Draco, que a via como realmente era: uma mulher que casou-se por medo e manteve sua postura por sobrevivência.
Ao morrer de varíola de dragão juntamente ao seu pai, Narcisa deixou seu legado para o filho.
Misture-se e faça o que for preciso para que acreditem na sua fidelidade. Sobreviva. Mas jamais seja um monstro como eles.
Draco havia seguido o conselho da mãe durante toda sua vida. Jamais negou os ideais de Voldemort e sempre seguiu suas ordens cegamente, apesar de repudiar seus atos.
Recordava com clareza do ápice da guerra, quando encontrou Hermione e a entregou aos comensais sem se questionar, sequer sentiu pena ou pensou em outra alternativa, era o que precisava ser feito. Nunca havia pensado nos seus motivos, mas hoje, como um homem adulto, sabia que tudo foi uma questão de sobrevivência. Precisava que acreditassem na sua lealdade.
Se levar Hermione Granger para sua mansão, em condições de escrava, não afetava sua sobrevivência, não teria porque se preocupar.
Por um instante Draco imaginou que sua mãe se orgulharia dele, um homem fazendo uma boa ação sem prejudicar sua existência e seu nome.
E nesse instante de redenção, os olhos aflitos se fecharam em sinal de calmaria.
Azkaban.
O sonserino precisava realizar os atendimentos que tanto havia evitado, afinal havia um prazo de entrega dos escravos, e ao chegar em seu escritório, o primeiro prisioneiro que ordenou que levassem era Ronald Billius Weasley.
Precisava acabar logo com isso.
Ouvira boatos de que o ruivo estava louco, mas ao ver os indícios do que um dia foi um homem adentrando o ambulatório, uma vontade imensurável de rir de nervoso invadiu as vísceras de Draco. O ruivo, que resguardava poucos fios de cabelo, aproximou-se do loiro como quem contaria um segredo, e ao ser solto pelo guarda, sussurrou com a voz rouca e falha.
—Eles estão chegando, não estão?
Os orbes confusos de Draco fitaram o ruivo, aproveitando o afastamento para dirigir-se até sua mesa. O loiro jamais admitiria para si mesmo, mas naquele momento sentiu medo.
—Sente-se. Ronald Weasley, vinte e quatro anos, correto? —Sequer sabia o motivo de ter perguntado, julgando pela insanidade do ruivo, que se sacudiu negativamente na sua cadeira em resposta. Revirar os olhos foi inevitável para Draco.
—Tenho dezoito anos, fuinha.
O riso de nervosismo fazia a garganta de Draco coçar, mas o loiro o segurava com toda a força que lhe cabia, pigarreando para controlar sua vontade.
Vontade de socar a face sardenta do Weasley. Não por raiva, mas em uma tentativa de traze-lo a sanidade.
—Certo, ferrugem... você sente dor em alguma parte do corpo?
A formalidade que o momento requeria causava náuseas em Draco, que estava convicto de sua perda de tempo.
—E por que eu deveria? Você sabe com quem está falando, Malfoy? —Um sorriso convencido apareceu nos lábios do ruivo, que ajeitou sua postura magra jogando os braços magros para trás da nuca e cruzando as pernas para o alto.
—Adoraria saber. —A essa altura, Draco comprovou a insanidade do Weasley, deixando-se levar pela situação. Sentia seu maxilar enrijecido devido a insensatez que o momento trazia. Apoiou seu queixo sobre sua mão, em sinal de um falso interesse.
—Eu sou o rei! Weasley, o rei! Já ouviu falar de mim, é claro.
As pupilas do ruivo passeavam pelo ambiente, sem conseguir se manter fixas por mais de dois segundos. Deveriam estar verdes, se não fosse a dilatação que traziam. Balançava-se para frente e para trás em um ritmo quase obsessivo enquanto ria de algo cujo Draco ainda não havia achado graça.
Paciente em estado de psicose e possível esquizofrenia, inapto para atividades fora de Azkaban, exceto em caso de uso de poções e feitiços de uso crônico.
Draco encarou o ruivo por mais alguns segundos antes de o pedir que se retirasse. Ronald sorriu em resposta, encaminhando-se a porta com passos saltitantes acompanhados pelo olhar julgador do loiro.
Antes que saísse endureceu sua expressão sorridente, encarando Draco como um leão encara sua presa. Seus orbes pareceram tornar-se verdes novamente, e em um lapso de sanidade, dirigiu sua palavra ao médico de forma ameaçadora.
—Tire-a daqui, Malfoy.
O baque da porta fez o sonserino voltar a realidade após alguns segundos. Por instantes, Draco esqueceu que deveria prosseguir com o atendimento.
Anotou em sua pasta dados médicos que diagnosticou sobre o ruivo, na tentativa falha de ignorar as últimas palavras que lhe foram lançadas.
Do que este acéfalo estava falando?
Ou melhor, de quem?
O homem quis muito entender do que se tratavam as palavras do louco, mas sabia que seu tempo dentro daquele inferno era mais do que precioso.
—Mandem chamar a Weasley menor! —Berrou impaciente de dentro de sua sala, ajeitando a bagunça que havia feito mesmo sem notar sobre a escrivaninha.
Não demorou mais que dez segundos para que uma Ginevra Weasley magra e animalesca adentrasse o ambulatório vagarosamente, encarando o médico com seu olhar mais feroz e logo após analisando o ambiente, como quem busca uma fuga. Draco engoliu algum comentário ácido que faria sobre os cabelos raspados da ruiva e dirigiu-se a sua mesa, onde fez sinal para que a mulher sentasse do outro lado.
—Weasley, preciso que me conte se sente alguma dor, primeiramente.
—Na cabeça a maior parte do tempo, Malfoy. —Sinalizou a ruiva, encarando-o com o mesmo olhar, mantendo-o firme.
Que audácia! Se dirigir a um médico sem sequer chama-lo de doutor! E isso que a sardenta gozava de sanidade mental.
Sua imponência incomodava a Draco, porém não tanto quanto a submissão que havia recebido de Hermione. A diferença estava na parte em que Ginevra parecia saudável, enquanto a castanha parecia ter desistido de sua saúde, de sua vida e de si mesma.
O loiro assentiu e anotou, sentindo-se pressionado pela arrogância da garota.
—Me de seu pulso, vou medir sua pressão.
A ruiva o ofereceu com desdém, empinando o máximo que podia seu nariz com sardas.
Draco realizou todos os procedimentos de forma categórica, ignorando o máximo que pode os olhares de repúdio, sem se importar em alertar a ruiva sobre sua liberação de Azkaban, afinal não era problema dele.
—Pode sair, Weasley.
Ginevra Molly Weasley, 23 anos de idade.
A paciente encontra-se com pequenas lesões corporais que serão tratadas com poções revigorantes.
Apta para ser liberada de Azkaban em uma semana.
A assinatura bem delineada de Draco confirmou o que dizia no pergaminho, que foi guardado em sua maleta para ser entregue ao ministério no próximo dia, pela manhã.
Cerca de doze prisioneiros passaram pelas mãos do médico nesse dia, os quais foram devidamente medicados e alguns propriamente encaminhados com um sorriso no rosto para fora de Azkaban, onde seriam encaminhados para um mercado de escravos que ocupava a localidade da antiga Gemialidades Weasley. Mal sabiam o que os esperava.
Alguns viriam a custar míseros sicles.
Pobres coitados.
Checou seu relógio de bolso. Eram quatro horas da tarde, precisava atender Granger antes que seu expediente acabasse para lhe entregar as poções revigorantes e antibióticas, também precisava comunicar a morena sobre sua saída de Azkaban, assunto o qual preferiu banir de sua mente durante o dia.
Saiu de sua sala batendo a porta com força, o que alarmou os guardas de plantão, que cochilavam encostados nos azulejos.
—Digam a todos que os procedimentos continuam normalmente amanhã, agora. —Rosnou para o primeiro segurança que encontrou, fazendo-o assentir bruscamente.
Ignorando os poucos prisioneiros que sobraram no saguão, Draco subiu as escadarias circulares, enquanto aspirava o cheiro de pó e mofo que o lugar emanava. Encontrou-se imaginando como Hermione lidaria com a limpeza da mansão, a qual não estava acostumada, seria um paraíso para a castanha.
Em um corredor, o loiro pode encontrar o guarda que tanto o enojava, sentindo seu sangue ferver e sua pele tremer de raiva, não custou mais que um segundo para que o homem abaixasse os olhos arroxeados devido à surra para o semblante de ódio que o platinado o lançou.
Draco seguiu seu caminho remoendo a vontade de voltar e terminar o serviço que havia começado.
Draco sentiu vontade de matar.
Hermione jazia em sua cela, ainda se esbaldando com a limpeza que permanecia desde a manhã anterior, juntamente ao odor do sabonete de Draco que ainda permanecia sobre sua pele, nem sequer se lembrava de como era o aroma, e agora que lembrou forçaria o máximo sua memória para não precisar esquecer. Resguardou para si mesma notas sobre o cheiro, como ser um cheiro masculino, ou também como era forte e cítrico, levemente acanelado.
Hermione adorava canela.
Pode ouvir passos se aproximando de forma mais rápida que o costume, fazendo com que seus músculos retesassem e a castanha involuntariamente se arrastasse até o fundo da cela, onde era vista com maior dificuldade. Tentou contar os passos para saber quando a alcançaria, mas seu coração descompassado confundiu sua mente.
—Ei, Granger. —Draco sibilou quando não a enxergou, porém, tendo certeza que a garota havia se escondido. —Sou eu.
Ao identificar a voz do loiro, Hermione esgueirou-se pela cela de forma arrastada, engatinhando como um felino cuidadoso até a beira dos metais, mantendo seu olhar fixo no chão durante todo o percurso.
—Boa tarde, doutor.
Draco revirou os olhos, e antes que Hermione percebesse, abriu sua cela pelo lado de fora.
Adentrou a cela à passos leves, avaliando se o guarda realmente havia a limpado na manhã anterior. Estava impecável, exceto as poucas cobertas emboloradas onde Hermione se enrolava para dormir toda noite, na ausência de uma cama.
Abaixou-se na frente da mulher, mantendo a distância necessária para que nenhum dos dois ficasse desconfortável, e sentou com as costas encostadas na parede paralela à castanha. Depositou ao seu lado um pequeno baú, onde havia depositado tudo que Hermione precisaria para ter sua saúde melhorada.
—Precisamos conversar, Granger.
A morena assentiu, encostando suas omoplatas na parede como uma criança que esperava levar uma bronca dos pais.
Curiosamente, o médico adotou a mesma postura, mantendo o olhar baixo.
—Você vai embora de Azkaban, fedelha.
Hermione piscou, perceptivelmente atordoada. Uma, duas...incontáveis vezes.
Seus olhos, antes ressecados, agora imergiam-se no líquido salgado que escorria incansavelmente pelas maçãs do rosto, formando um lago ao pingarem no chão, tornando-o úmido. Sua face contorcia-se em uma espécie de careta, a qual Draco ainda não sabia descrever do que seria. Um nó doloroso parecia se formar em sua garganta, causando um desconforto imensurável. Saber que não apodreceria em uma cela sequer tinha explicação devido aos sentimentos que podia perceber em si mesma.
Mesmo que Draco pudesse olhar seu relógio, não quis.
Os minutos passaram descontrolados na cela, onde de um lado Hermione encolhia-se abraçada em suas pernas, gotejando cada lágrima que havia segurado dentro daquele maldito lugar, enquanto um Draco Malfoy estático a observava, por curiosidade, imaginando o que deveria estar se passando na cabeça da castanha. Estava livre depois de anos de prisão, sensação esta que o loiro jamais saberia como é, afinal, por sorte, ou até mesmo por escolhas convenientes, não era Draco que havia vivido anos em uma cela, mesmo sabendo que seu lugar deveria ser ali. E como sabia.
Era Hermione, vivendo cada segundo de forma ritmada. Seca. Sem sequer poder respirar ar puro ou conviver com outros seres humanos. Beirando a insanidade à cada milésimo, brincando com sua própria saúde mental.
Draco teve sorte, no lugar da castanha, teria ficado pior do que Ronald Weasley.
Em um lapso de confusão, Draco teve uma certeza.
Não contaria a Hermione sobre Dolohov.
—Para onde vão me levar, dou...—Hermione tentava, sem sucesso, secar suas lágrimas com a manga da camisa longa já encharcada, quando foi interrompida pelo médico.
—Malfoy. —Draco engoliu seco após pronunciar seu sobrenome, encarando o teto como quem espera uma resposta divina.
—Como? —A voz da moça saiu falha, devido ao desgaste das cordas vocais.
—Você pode me chamar de Malfoy. —O loiro abraçou-se em suas próprias pernas, tornando sua atenção para as feições que a castanha exibia.
A prisioneira observou ao seu redor, buscando respostas para uma pergunta não verbalizada.
Ainda esperava a resposta do loiro, que permaneceu em silêncio.
Os olhos azuis de Draco Malfoy pareciam perfurar a alma de Hermione como uma faca. Seu semblante, ainda estático, pareceu sibilar alguns instantes até oferecer uma resposta.
—Você vai para minha mansão, Granger.
E o homem levantou, bruscamente.
Hermione sentia-se confusa, afinal, havia permanecido seis anos naquele inferno para no fim ir residir em uma mansão? E ainda mais, naquela mansão a qual havia adquirido uma de suas piores cicatrizes. O luxo do lugar lhe causava arrepios, mas afinal, quem era ela para reclamar? Estava livre das celas.
—Por qu...
O som alto das grades se chocando contra a parede interromperam o raciocínio de Hermione, seguidos da voz fria de Draco, agora do lado de fora da cela.
—Não questione, Granger, não é como se eu tivesse outra escolha. — A pose do homem era de confusão, estava notavelmente abalado, apoiando suas mãos contra a parede do corredor. —Deixei as poções revigorante no baú, tome-as até o amanhecer.
A castanha concordou, levantando-se vagarosamente, ainda tonta e dolorida após os momentos de frequeza. Ao rumar vagarosamente até o outro lado da cela, pode ouvir os passos do loiro cada vez mais silenciosos, dando sinal de que estava afastado. Deparou-se com cinco potinhos de poções, todos transparentes e do mesmo tamanho.
Exceto um.
O pote era maior e mais fundo, preto, assemelhando-se a um caldeirão pequeno.
Ao abri-lo, Hermione pode se deparar com um vapor que trazia consigo um aroma que lhe fez o estômago roncar com ferocidade.
Sopa de abóbora.
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