Palimpsesto - Dramione
5 Sutilezas.
Notas iniciais
Azkaban.
Draco rumou ao banheiro que havia descoberto ser dos funcionários, sentia passos quase inaudíveis alguns metros à suas costas, e sabia a quem pertenciam.
Adentrou o banheiro, sentindo seu estômago embrulhar quando o forte odor que lhe invadiu as narinas. Não conseguiu se concentrar nas dimensões do ambiente, uma vez que as paredes eram cobertas de musgo e um líquido escuro e nojento que decretou ser limo. Sabia que o local não seria higienizado, afinal a limpeza era mantida pelos seguranças, que não davam a mínima para higiene. Imundos.
—Limpar. —Murmurou com pressa, para que o odor lhe fugisse e para que não causasse ainda mais desconforto na castanha que estava por vir.
Com o banheiro limpo, o loiro pode observar o cômodo de tamanho médio. Possuía uma banheira que apesar de simples, serviria para o caso. O local possuía azulejos brancos e cinzas, e era claro a intencionalidade de quem o construiu de economizar em materiais de luxo, tudo parecia de segunda – ou terceira – mão. Nada era comparado com o banheiro que possuía em sua mansão, onde haviam banheiras que poderiam caber facilmente algumas pessoas.
Sentiu a morena se aproximando à suas costas. Detectou rapidamente suas pupilas amendoadas, ainda dilatadas pelo susto e medo que havia sentido. Esperou que ela adentrasse totalmente o banheiro e fechou a porta em suas costas.
—Abaffiato. —Não queria que nenhum guarda os ouvisse, ou poderia pensar coisas que não deveria, então ele acabaria por fazer coisas que não devia, o que seria melhor evitar.
Seus olhares se cruzaram, Hermione o observava com o olhar de quem pedia permissão. Draco assentiu.
O silêncio era ensurdecedor, parecia torturar com vontade os tímpanos do sonserino.
Hermione retirou sua camisa longa com uma dificuldade angustiante, jogando-a num canto, o sonserino, por sua vez, encarou novamente aquela cicatriz em seus seios, logo acima do sutiã.
—Foi um guarda, doutor. —A voz falha de Hermione cortou o silêncio, transpassando o banheiro e fazendo Draco encarar seu rosto.
—Imaginei. —Bagunçou seu próprio cabelo, em sinal de inquietação.
Hermione sentia vergonha de ficar nua em frente ao seu maior inimigo na época de escola, no entanto, sentia ainda mais vontade e urgência de ter sua pele sendo tocada pela água morna. Limpeza. Despiu sua parte superior por completo, deixando à mostra seus seios.
Draco abaixou o olhar, não queria faze-la sentir medo.
—Vou precisar de ajuda. —Concluiu Hermione, após uma longa tentativa de desfazer o nó que prendia a calça na cintura, lhe faltava força. —Por favor.
Se encararam novamente.
—Com licença. —Draco tossiu ao se aproximar, estava decidido a fixar seu olhar apenas no nó que havia na corda da calça. Desfez o nó com certa dificuldade, o que o irritou profundamente após um longo e incômodo minuto de proximidade.
A calça caiu como pó, deixando Hermione apenas com uma calcinha de tecido fino, e que assim como o resto do uniforme, grande demais para seus quadris e pernas magros.
—Como fazem durante seu período menstrual? —A pergunta escapuliu com notável curiosidade dentre a boca do sonserino, que após faze-la decidiu que seria prudente esperar uma resposta ao invés de mudar de assunto bruscamente.
—Poções para que não aconteça, doutor. —Hermione respondeu, abraçando seu próprio corpo em sinal de timidez.
Draco fez uma nota mental do comentário, lembrando-se que as poções que impediam a menstruação causavam efeitos colaterais doloridos no útero e fígado. Se lembraria de alertar seja-lá-quem fizesse isso mais tarde.
—Aguamenti—Draco encheu a banheira com uma água morna e confortável, terna.
A garota apoiou-se nos ombros de Draco para que pudesse entrar na banheira, fazendo-o usar um pouco de sua força para ergue-la, retirando suas mãos das costas da morena assim que se tornou possível.
O contato físico a causava medo. Para Draco, causava desconforto.
Ao adentrar, abraçou suas próprias pernas e esperou que a água morna fizesse efeito em seu corpo, causando calafrios que pareciam subir e descer pelo comprimento de seu tórax.
Em resposta, Hermione soltou um sorriso quase pequeno demais para não ser notado, exceto pelos olhos meticulosos do sonserino, que esboçou um sorriso leve em troca, mantendo cuidado para que não fosse percebido.
—Trouxe xampus e sabonetes. —O loiro falou após alguns minutos de silêncio observando à parede contrária onde estava fixa a banheira que Hermione se encontrava.
Os orbes amendoados de Hermione brilharam em comemoração.
Externamente, apenas assentiu com a cabeça, tentando alcançar os potes com as mãos pequenas, o que a foi negado com um puxão.
—Eu passo isso em você, Granger. Você sequer consegue mexer os ombros sem fazer essa cara de desgosto. —A voz de Draco saiu quase acusatória perante o semblante de dor que Hermione emitia.
Draco derramou o creme por suas mãos e as aproximou dos cabelos de Hermione, agora úmidos. Mecha por mecha, esfregava com firmeza e sutileza os fios. Pode perceber o quanto os cabelos da morena escureciam perante à pureza da água quente, tornando-os quase pretos. Após perceber uma cabeleira totalmente ensaboada, juntou uma caneca de sua maleta e ocupou-se em juntar a água da banheira e despejar sobre os cabelos.
Jamais havia imaginado ter tanto cuidado com uma mulher nua em sua frente, sobretudo caso essa mulher nua se chamasse Hermione Granger.
Pode perceber o quanto o corpo de Hermione encolhia-se instintivamente à cada toque que ele realizava, sem querer, em seus ombros. Também pode reparar que a castanha permanecia, durante o tempo todo, com os olhos pregados e os lábios semicerrados, o rosto encurvado para o chão.
Hermione arrepiou-se quando a água da caneca chegou a tocar sua pele, escorrendo pela clavícula. Estava surpresa com tamanha sutileza que os dedos longos do sonserino rumavam em seus fios bagunçados.
À essa altura o silêncio não constrangia, chegava a ser confortável.
Camada por camada, as bolhas de shampoo deixaram os cabelos de Hermione, tornando-o novamente da cor escura que absorvia a água.
Respiraram fundo simultaneamente.
Draco puxou o creme que usava como condicionador. Antes de passar pelos cabelos de Hermione, aspirou com força o cheiro que o produto exalava. Era notavelmente masculino, porém agradável, tanto que ele o havia escolhido para ser seu.
Umedeceu as mãos e tornou a leva-las para os cabelos da moça, massageando-os de forma plural. Todos os fios emaranhados sobre suas mãos jaziam embolados em nós impossíveis de serem desfeitos.
—Vou precisar cortar o comprimento, Granger. —Sua voz saiu tão áspera quanto ele havia desejado, exceto a rouquidão que lhe feriu a garganta.
—Sim, doutor.
Draco não pode evitar o revirar de olhos. Exigia normalmente ser chamado de doutor até mesmo antes do término de seu curso, mas agora as palavras vindas dos lábios de Hermione tornavam-se um mártir insuportável. Sua submissão era torturante, sobretudo vindo de quem ele menos esperava.
Sacou a varinha e passou-as sobre as costas de Hermione, formando uma linha horizontal de ombro a ombro. O cabelo abaixo dessa linha caiu imediatamente, dando à Hermione uma sensação de leveza.
—Está bom assim para você? —Draco perguntou, e logo após percebeu o quanto seu questionamento era ridículo, afinal a morena provavelmente não se enxergava em espelho algum há anos, e se enxergasse, o último de seus problemas seria seu cabelo.
—Sim, doutor.
Bufou, havia acabado de chegar a conclusão de que tinha pavor de ser chamado assim por Hermione.
—Vou passa o sabonete em você, Granger. —Percebeu o quanto a frase saiu invasiva, afinal, o corpo não era dele para ele decidir o que faria, e imaginou o quanto uma frase como essa causaria calafrios na castanha, ainda assustada—Eu posso? —Pigarreou
Hermione concordou com a cabeça, ignorando os sinais que seu corpo a enviava para sair correndo e pedindo socorro.
Draco pegou a pedra de sabonete entre suas mãos, e encostou de forma lenta nas costas de Hermione, observando sua reação.
Uma lágrima escorreu do olho esquerdo de Hermione, que passou a fitar a parede à sua frente, sem sequer piscar.
Massageou com leveza os ombros da castanha, tornando seu cuidado ainda maior quando aproximava seus dedos dos sinais roxos esverdeados que jaziam entre as omoplatas. Hermione parecia recuar à cada toque, mas depois seu corpo relaxava vagarosamente. Draco puxou os cabelos úmidos de Hermione para si e os jogou para frente, para que tivesse acesso à sua nuca. Ao se deparar com a coluna pálida de Hermione já ensaboada, tornou-se a buscar a caneca para derramar a água, enxaguando.
Era torturador para Draco se deparar com um ser humano em tamanho nível de acuamento, como se fosse um animal surrado demais, reagindo aos seus próprios extintos. Sentia-se um monstro à cada vez que aproximava sua mão do corpo de Hermione e podia a observar recuar, mesmo que contra sua vontade. Havia percebido as lágrimas da garota, e usou todas suas forças para evitar limpa-las, deixando que a água morna fizesse seu papel.
—Granger, eu... —Precisava pedir que ela não tivesse medo, oras! Ele era um MediBruxo, não causaria mal a ninguém exceto se o fosse pedido por Voldemort. —Você não precisa ter medo de mim.
—E por que não, doutor? —Aquele tom desafiador o qual Draco sentiu falta apareceu como magia. Era levemente ácido e ainda assim havia conseguia manter um tom maior de submissão. Era como se Hermione estivesse debochando de suas próprias condições de prisioneira. Estava resignada.
Assim que as palavras lhe fugiram, teve medo da resposta que viria, devido à notável arrogância que havia transpassado.
—Porque eu não vou lhe fazer nada. —O tom impaciente de Draco surgiu enquanto se ocupava em recolher seus produtos, que estavam no chão, queixando-se mentalmente da falta de resposta da castanha, que possuía um semblante vazio. —Eu não sou um monstro, Granger.
Suspirou com pesar, sabia que suas palavras contradiziam seus pensamentos, mas sua dignidade precisava ser defendida, se é que ainda havia alguma.
O silêncio de Hermione foi sua resposta, junto a seu semblante de indiferença.
Draco se deparou com a pele nua de Hermione já higienizada, e se negava até a alma de lhe tocar em partes íntimas.
—Pegue esse sabonete. —Puxou a mão da garota e lhe depositou a pedra sobre os dedos enrugados pela permanência na banheira. —Termine de se lavar, vou providenciar roupas feitas para pessoas do seu tamanho. —Soou como uma ordem, a qual Hermione obedeceu sem hesitar.
Em qualquer situação Draco zombaria do tamanho da garota, franzina e pequena demais comparada à outras bruxas. Nessa situação também o fez, no entanto, silenciosamente.
Ao ver Draco se retirando do ambiente, Hermione sentiu seu corpo relaxar totalmente, pela primeira vez. Era constrangedor precisar de outra pessoa para tomar um simples banho, o que se tornava humilhante quando o homem que lhe dava esse banho era aquele que já havia a rebaixado tanto.
Passou o sabonete por seus seios, massageando-os com leveza e cuidado. Sentiu um arrepio dolorido ao roçar suas unhas curtas e irregulares pela cicatriz que havia sido depositada ali.
Deslizou sua mão entre seu corpo, mantendo a higiene a qual tanto sentia falta. Sua pele parecia flutuar com leveza sobre a água quente. Ensaboou cada centímetro que sua mão pode alcançar, o que a provocou dores nas costas, mas nada que ela não fosse capaz de aguentar.
Relaxou seu pescoço, encostando-o sobre a banheira. Imaginou o quanto teria sorte, comparada a outros prisioneiros, por ter direito a um banho como aqueles. Sabia que se qualquer um descobrisse, poderia ser morta, e preferiu não adivinhar o que fariam com Draco caso soubessem que ajudou uma sangue-ruim.
Sem saber o que fazer, e na tentativa de eliminar as ideias de sua mente, decidiu contar o som das gotas de um encanamento furado em algum lugar dentro daquele banheiro.
Ao chegar à gota de número 173, foi retirada dos seus devaneios quando o indivíduo pálido surgiu novamente na porta, com um emaranhado de tecidos embolados em sua mão.
—Acho que já se limpou o suficiente, saia daí Granger. —Alertou de forma costumeiramente arrogante, aproximando para uma possível queda ou escorregar da morena.
Não aconteceu.
Hermione se levantou lentamente, juntando suas forças. A água, que antes lhe cobria o corpo nu, esvaiu-se, deixando à mostra seus seios avermelhados devido ao calor.
Draco fixou seu olhar no chão.
Ao se levantar por completo, rumou até Draco, mancando levemente com a perna machucada, o platinado entregou uma toalha encardida – havia sido tudo que pode encontrar – para a castanha. Ainda com os olhos fixados sobre o chão.
Com o corpo apoiado na banheira, esfregou a toalha em sua pele, expulsando qualquer resquício liquido que ainda poderia existir. Sentiu pela primeira vez o cheiro que seu shampoo emanava, era masculino, amentado e deliciosamente agradável.
—Trouxe uma calcinha para você, tome. —Depositou a peça sobre a banheira, juntamente ao resto do uniforme. Hermione o olhou, sugestiva. Não demorou para que Draco entendesse sua sugestão e se virasse de costas para a garota, ignorando toda a visão que teve do pescoço para baixo de Hermione.
Uma pontada de curiosidade surgiu sobre os pensamentos de Draco, o que o fez balançar a cabeça, expulsando a imagem mental que lhe surgiu, afinal, qual a necessidade de imaginar uma mulher como Hermione totalmente nua, quando poderia ter qualquer outra que desejasse.
Esperou tempo o suficiente para que pudesse virar, encontrando uma Hermione seca e consideravelmente limpa. Sua roupa, apesar do cheiro de mofo que guardava, nada se comparava às peças jogadas no chão, sujas de sangue e com odor de urina.
A castanha sentia-se inebriada. Seu cheiro agradável lhe causava arrepios, e o efeito da água morna sob sua pele por fim lhe fez efeito. Bocejou.
—Pode ir para sua cela, amanhã lhe chamo para uma nova consulta, Granger. —Foi categórico, juntando sua varinha e organizando tudo que estava fora do lugar no banheiro. Não se deu o trabalho de dirigir o olhar à castanha.
—Obrigada, doutor Malfoy.
Naquela pequena frase não ouve acidez, sequer ironia ou sarcasmo. Estava sendo sincera.
Draco sentiu-se limpo.
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