Palimpsesto - Dramione
12 Por que, Granger?
Notas iniciais
Azkban
14 de setembro de 2004.
Draco organizava diversos papeis que pareciam ter se bagunçado espontaneamente em sua mesa. Havia acabado de assinar a papelada para liberar Ginevra Weasley e seu irmão, Ronald.
Estavam livres de Azkaban, e isso não era algo bom.
Bellatrix havia feito questão de buscar sua serva pessoalmente na prisão, e com gritos e pontapés levou a ruiva que lhe soltava olhares furiosos até sua casa, onde serviria como escrava de limpeza.
Draco sabia que o nada mais era do que um cargo onde a Weasley seria humilhada.
Fenrir Greyback, por sua vez, enviou um escravo de baixo nível para buscar o ruivo, e Draco pode jurar ter ouvido o jovem louco insultando-o enquanto era arrastado pelos braços pelos grandes portões que separavam Azkaban de uma longa ponte que levaria a cidade.
Imaginou momentaneamente como seria se Hermione fosse comprada por Dolohov, qual seria o olhar que ela lhe lançaria, de que forma seria arrastada para fora de Azkaban.
Sacudiu a cabeça assim que a imagem lhe veio à cabeça, graças à Merlin havia conseguido livra-la das mãos de um comensal que a abusaria. Não que sentisse um grande apreço pela mulher, mas sabia que isso era incabível. Tinha seus motivos para odiar o que seria feito com a prisioneira, e acreditava que seria o certo que todos os homens pensassem assim.
Respirou fundo, passeando com seu olhar sobre a sala de ambulatório, agora totalmente vazia. Do lado de fora, nenhum prisioneiro doente esperando. Todos devidamente medicados e se curando seja lá do que for para permanecerem mofando nas celas.
Ao menos seus serviços em Azkaban agora seriam completamente facultativos.
Deveria permanecer alerta à possíveis corujas em sua mansão ou onde quer que estivesse e seria chamado até o local toda vez que algo muito grave acontecesse ou um dos prisioneiros fossem requisitados. Caso contrário, poderia ocupar-se qualquer outra coisa, que tinha certeza de que não seria ficar em casa com a garota.
Havia sido uma semana difícil.
Sequer havia trocado palavras com Hermione Granger, e nos poucos momentos que a viu, foi recepcionado com um olhar nada convidativo, e em troca devolveu à castanha seu costumeiro olhar de desprezo e algumas frases ácidas para faze-la colocar em seu lugar.
E ela se calava, sempre se calava.
Draco não sabia, mas Hermione vinha chorando todas as madrugadas em seu quarto, o que explicaria seus olhares nada convidativos sobre bolsas escuras que nasciam em sua face.
As poções eram deixadas na cozinha para que a mulher tomasse, junto a um pergaminho onde haviam dicas de o que tomar de acordo com o que sentia.
Nenhuma conversa era mantida entre eles.
Não que Hermione não tivesse tentado, um dia após o ocorrido do jantar. Poucas palavras da castanha foram necessárias para que percebesse que sua função naquele ambiente era permanecer calada.
Aysha, por sua vez, continuava cozinhando três vezes durante o dia, no entanto, deixava que seu mestre jantasse sozinho e corria para os braços de Hermione, que havia se acostumado a jantar na biblioteca. Lá permaneciam até as onze horas da noite, conversando baixinho enquanto Draco tentava dormir em seu quarto.
Em uma das noites, pode ter certeza de que ouviu Hermione contando à Aysha como era Hogwarts antes da guerra, e a pequena elfo deliciando-se com a ideia de trabalhar naquele lugar que atualmente era substituído por um instituto de magia das trevas.
Ingratas.
Endireitou sua gravata e desaparatou.
Wilthire, Inglaterra.
Encontrou-se em sua sala, agora mais limpa do que nunca e com um cheiro característico que nunca havia sentido ali. Menta. Hermione Granger parecia ter se ocupado tanto com a limpeza que havia se tornado um de seus maiores passatempos, sem contar o fato de que repudiava a ideia de deixar que Aysha limpasse aquela mansão gigantesca sozinha, mesmo que para ajuda-la não pudesse usar magia.
O jantar já estava posto, apesar de ser cedo demais para comer algo. Ignorou a variedade de comidas que quase o chamavam e caminhou escada a cima, na esperança de tomar um banho quente. Teria pisado seu pé direito sob o topo da escada e rumado até seu caso a pequena elfo não estalasse em sua frente com um olhar choroso.
—Mestre...A senhorita Hermione ela...ela foi...Aysha pediu que não, mas...
Aysha gaguejou e soluçou, no entanto, nenhuma frase em que houvesse sentido foi percebida pelo loiro.
Draco revirou os olhos.
—Não estou com paciência para vocês duas hoje, Aysha.
Empurrou a elfo para o lado e, ignorando seus passinhos curtos audíveis logo atrás, caminhou até seu aposento. Bateu a porta com força e se jogou de qualquer jeito em sua cama, bagunçando os lençóis, agora verdes escuros e aveludados. Espreguiçou-se e aproveitou o momento para retirar sua gravata e arremessa-la para algum lugar distante do lugar.
Um estrondo foi ouvido da porta.
—Suma daqui Aysha! —Gritou após sentir o baque ecoando fortemente dentro de sua cabeça.
—O senhor precisa ajudar Aysha! É urgente! —Exclamou a voz fininha do outro lado da madeira escura.
Draco não respondeu. Limitou-se a fechar os olhos e tentar com todas suas forças ignorar as batidas repetidas que ecoavam pela casa.
Retiram-se uma, duas, três vezes.
Repetiram-se de forma que Draco sequer conseguiu contar quantas batidas estavam acontecendo naquele momento.
—Aysha se você não sumir daqui, eu vou...
Draco tentou usar sua voz mais amedrontadora sobre a criatura, que por um instante pareceu se calar, mas não aconteceu.
—A senhorita Hermione sumiu! —O agudo ainda mais forte em sua voz fez seu mestre perceber que ela estava choramingando.
—Procure na biblioteca.
—Aysha já olhou por toda a mansão! Berrou seu nome por toda a casa! Entrou em cada parte, mas a senhorit...
Droga, sangue-ruim, nunca vai deixar de atrapalhar?
E então a porta se abriu.
O loiro ofereceu seu maior olhar de desaprovação à pequena criatura enquanto abria de porta em porta e encontrava todas as luzes apagadas e nenhuma presença de Hermione.
—Tem certeza que ela não está na mansão, Aysha?
—Sim mestre...eu...sinto...muito...Aysha não acreditou...—Soluçava copiosamente segurando de forma teatral um lencinho ensebado e apertando-o contra seu rosto quando de repente parou. Sabia que havia falado demais.
E então Draco parou em meio ao corredor e a encarou.
—Não acreditou no que, Aysha?
Aysha se encolheu contra a parede. Pareceu hesitar por alguns segundos até engolir seco e tomar coragem para falar.
—Quando a senhorita Hermione disse para Aysha que fugiria da mansão...
Um baque pareceu rugir de dentro para fora em Draco, que não foi capaz de esboçar nenhuma emoção. Uma mistura de raiva e medo se construía devagar em seu peito.
Por que esta fedelha havia fugido?
Sua mansão chegava a ser pior do que a própria Azkaban?
Engoliu em seco. Tudo pareceu vir à tona de forma brusca, várias perguntas perambulando pela mente do loiro enquanto caminhava em círculos em seu próprio corredor, uma mão roendo as unhas e a outra bagunçando violentamente seus próprios cabelos.
Pois deixa que vá, oras!
Não estava nem um pouco disposto a sair em busca da morena a essas horas da noite, quem mandou que fugisse?! Sujeita insolente.
No entanto, sabia que encontrassem fora dos muros da mansão, com certeza estaria morta. Se Dolohov a encontrasse, então...É como se todo o trabalho que havia tido para conseguir a falsa escravatura de Hermione fosse jogado fora.
Um vulto lhe passou pela cabeça. A imagem da castanha desmaiada na torre de astronomia. Seu sorriso presunçoso enquanto caminhava com Hermione em seu colo em direção à Azkaban. O momento em que a encontrou. Dolohov explicando seu desejo por ser seu mestre.
Não poderia deixar isso acontecer, seria tudo sua culpa. Sabia disso.
Aquela sujeitinha de sangue-ruim!
—Aysha, fique aqui e caso Hermione apareça você deve aparatar na mesma hora para me avisar. —Ordenou, andando pela mansão e enfiando nos bolsos do paletó os pequenos frasquinhos de poção que Hermione precisava tomar com frequência, para as dores.
Draco sequer conseguia pensar com exatidão, mas tinha certeza de que precisaria ser rápido. Não sabia por onde começar, mas sabia que precisava começar, então obrigou-se a ir para o lado de fora da mansão.
Desceu a escadaria a passos rápidos e não se deu ao trabalho de farejar as comidas que ainda permaneciam na mesa, agora geladas. Abriu a porta com raiva e, ignorando a chuva torrencial que lhe batia contra a face, caminhou pelos terrenos, observando cada detalhe que poderia ter sido deixado para trás.
Estava escuro demais.
Frio demais.
A chuva parecia lhe estapear a face, cada pingo se equivalendo ao tamanho de uma bola de gude.
Draco não se incomodou com a chuva.
Espiou entre cada sebe, planta e cerca viva que havia na imensidão de seu terreno, e nada lhe dava indícios de que a castanha havia passado por ali. Espiou no alçapão, no labirinto de sebes e entre os pinheiros que barravam a entrada para o campo de golfe, que também estava vazio.
Chegou até seu portão, perguntando a si mesmo como ela havia conseguido escapar, e como se o universo lesse sua mente, um pequeno rombo entre as grades do portão lhe trouxera a resposta. Entre as grades pintadas de preto, o vermelho se misturava de forma aquarela às gotas da chuva.
Sangue.
O coração do loiro falhou ao menos três vezes ao ver aquelas minúsculas gotas de sangue, que pareciam chorar, se agarrando ao portão antes de pingarem contra a estrada e serem levadas para longe.
Abriu os portões com magia e resmungou enquanto caminhava os longos quilômetros que separavam sua casa da cidade, já não estava mais em Wiltshire.
Purton Stoke, Inglaterra.
15 de setembro de 2004.
A badalada que a grande catedral da cidade de Purton Stoke emitia avisava a Draco que eram três horas da madrugada. Havia caminhado desde a hora em que chegou de Azkaban.
A chuva parecia ter se acalmado, sendo substituída por leves pingos que dançavam enquanto caiam graciosamente. Mas não faria diferença no estado em que o loiro se encontrava. Suas vestes estavam encharcadas, seus cabelos caiam sobre sua face de forma que chegavam a quase cobrir os olhos cinzentos, que mal podiam permanecer abertos.
Draco abraçava a si mesmo, junto ao pedaço de pano que havia encontrado a quinze quilômetros dali, da mesma cor de abóbora que a primeira roupa que havia vestido em sua casa, uma semana atrás. Era a única pista que teve, e seguiu o caminho esperando encontrá-la.
Podia sentir seu queixo se batendo fortemente contra os dentes, e uma dor de cabeça exagerada devido as horas à mercê da tempestade. Seus sapatos sociais, antes lustrosos, traziam consigo uma água gelada, e a cada passo inundavam-se ainda mais.
A cidade em que Draco estava, permanecia dormindo.
Ao chegar no centro, pode perceber um único estabelecimento aberto sendo denunciado pelas luzes acesas que a janela emitia, era como uma miragem com cheiro de comida que atraia o loiro para si instantaneamente. Estava morto de fome.
Era uma pousada.
Iria apenas se alimentar e voltar a busca, estava decidido.
O interior do ambiente era iluminado, e diferente do lado de fora, quente e confortável. Uma bruxa velha e gordinha repousava suas bochechas sobre a bancada, roncando baixinho. Quando ultrapassou certo ponto da porta, um sininho tocou, avisando que Draco estaria ali. A bruxa acordou atordoada e examinou Draco com seus olhos verdes.
Após segundos, parecia não se incomodar com as roupas do homem, que pingavam no assoalho recém encerado.
E então sorriu.
—Venha querido! Está encharcado. —Puxou o loiro para perto de uma lareira, usando sua mão gorducha. Draco estava cansado demais para recusar, mesmo sem saber quem era a mulher que lhe oferecia a mão. Acomodou-se em frente ao fogo que lhe trouxe uma sensação morna instantânea, e observou, cuidadoso, a senhora procurando algo atrás da prateleira. —Me diga, que um rapaz bonito como você faz nessa cidadezinha a essas horas?
—Estou procurando alguém. —Explicou-se usando a pouca força que ainda tinha.
A senhora se virou, uma enorme xícara em uma mão e um pratinho na outra.
—O meu nome é Eleonor Ogden, querido, e o seu?
Ofereceu o lanche para Draco, que aceitou no mesmo momento.
—Draco Malfoy.
A senhora pareceu hesitar, dilatando suas pupilas esverdeadas.
O silêncio tomou conta do ambiente, mas para compensar, uma onda de conforto adentrou o loiro quando percebeu que suas roupas haviam secado e seu estômago estava forrado. A bruxa continuava quieta, o que o fez deduzir que o nome trazia alguma lembrança ruim para ela. Não era de se duvidar.
—Quanto lhe devo? —Perguntou de forma ácida. A senhora virou o rosto para o lado oposto ao de Draco, sem responder.
O homem depositou alguns sicles sobre a mesa e estava prestes a sair.
—Lucio Malfoy torturou e matou minha filha.
Draco parou em frente a porta. Pode sentir uma grossa camada de fel passeando por sua garganta, tornando-a amarga e dolorida.
—Quem era? —Usou o tom de voz mais calmo que pode encontrar dentro de si.
—Catherine Ogden. Lufa-lufa. Tinha treze anos. —Pronunciou a frase como se já houvesse a repetido centenas de vezes, tornando-a cansativa.
—Sinto muito por sua filha, Eleonor. —Draco evitou olhar a reação da senhora, mas pode ouvi-la desmanchando-se enquanto saia do estabelecimento.
E sentia.
Era apenas uma criança.
Ao sair da pousada, pode perceber que não havia passado mais de uma hora. O chuvisco parecia invadir novamente sua face, e o vento que batia com força em seu rosto trazia pequenos arranhões sobre a pele alva do homem.
Abraçou seu próprio corpo e seguiu a caminhar sem rumo, escondendo de si mesmo o desespero que rugia dentro de seu peito.
Sentia frio.
Sentia medo.
Por que está fazendo isso, Granger?
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