Notas iniciais
Olá! Tudo que tenho a dizer aqui é que tenham uma ótima leitura, e que converso com vocês nas notas finais! Até lá!

Chedworth, Inglaterra.

15 de setembro de 2004.

Havia começado a nevar.

Draco ainda caminhava, e poderia até mesmo ter visto o sol sobre sua cabeça se não começasse a nevar. Seus sapatos, não mais lustrosos nem sequer jeitosos, afundavam-se alguns centímetros abaixo da camada branca que se deitava e espalhava-se no chão.

Se encontrava em uma trilha em meio a pinheiros que seguravam como cabides os flocos que lhes eram depositados, se não fosse a neve, sabia que aquele lugar seria uma floresta abandonada. Havia caminhado sem parar, sem rumo, desde a hora que saia da pousada. Teria desistido a horas caso não avistasse no chão o líquido vermelho que se destacava no branco da neve, formando uma trilha que o levara a alguns metros de onde estava.

Queria dizer que alguém havia passado ali há não muito tempo, esperava.

Seguiu a curta trilha de sangue e ali se encontrava, em meio ao nada.

Seus lábios finos haviam tomado para si um leve tom arroxeado, doentio. Seus olhos lacrimejavam em resposta ao frio que sentia, e as lágrimas escorriam quentes perante a pele onde o vento batia com violência, causando rachaduras que forçavam pequenas linhas vermelhas a serem expostas.

Seus dentes tremiam descontrolados violentamente, formando pequenos machucados em sua boca e o fazendo sentir o gosto amargo de ferro dentro de sua boca.

Estava abraçado a si mesmo. A cabeça doía. Os olhos pareciam não ter espaço dentro de seu próprio ser.

A comida parecia ter sumido como um feitiço, e a fome voltara com maior ferocidade.

E continuava caminhando. Os olhos baixos, a esperança também.

Apertava com força a varinha em sua mão, esperando qualquer sinal de vida ao seu redor. Olhou ao seu redor, procurando qualquer lugar que parecesse confortável o suficiente para descansar. O máximo que avistou era um pequeno montinho de neve ao lado de uma árvore, e ali repousou. Fechou os olhos e esperou algum sinal de Merlin pelo que não viria.

Ao longe, ouviu um ruído que poderia ser um animal, e com velocidade menor do que havia tentado, arrastou-se para o som. Sua visão estava turva, e pouco podia enxergar além de poucos metros de distância. Um barulho seco em meio ao nada pareceu ecoar por entre as árvores. Se era bom ou mal sinal não sabia, mas precisava descobrir.

Em meio a neve, as árvores e ao frio que chegava a fazer os ossos gritarem por socorro, um corpo pequeno e franzino permanecia no chão, o rosto virado diretamente para a neve e as mãos repousando ao lado do corpo.

Os olhos de Draco dilataram-se violentamente e o homem correu o que pode até alcançar Hermione. Os cabelos da castanha arrastavam-se no chão e se misturavam a neve de forma melancólica, contrastando entre a saturação e o vazio de cores. Vista a distância poderia até mesmo ser comparada a uma criança, de tal forma que seu corpo era minúsculo.

O coração de Draco palpitou algumas vezes durante o trajeto até Hermione, e no momento que seus olhos se depararam com a cena, pareceu desistir por completo de bombear sangue.

Sua pele pálida estava quase azulada, e trajava uma roupa que Draco tinha certeza não ser apropriada para se usar na neve. Apenas uma camiseta clara e uma calça de moletom que sequer descia todo o comprimento das pernas, descansando sobre as canelas.

Merda, por que havia dado roupas tão mesquinhas para ela? Por que não se preocupou sequer com a temperatura que sentiria? Sequer se preocupou se ela sentiria frio dentro da mansão.

—Droga, Granger...—Rosnou, sentando-se ao seu lado e puxando seu corpo leve até demais, para si. Conseguia ser ainda mais gelada do que a própria neve, suas pálpebras repousavam sobre seus olhos, mantendo-os fechados. Não havia sequer uma pista de que suas bochechas recebiam sangue. Não havia o rubor característico que Hermione sempre trazia consigo em seus momentos de raiva ou timidez, até mesmo medo. Não havia sinal algum ali.

Uma grande mancha vermelha era notada sobre a camiseta de Hermione, o que trouxe ao homem uma esperança de que ainda estivesse viva, visto que ainda podia sangrar. Ao mesmo tempo, uma onda de preocupação lhe inundou.

Se estivesse mesmo viva, quanto tempo duraria naquele frio dos infernos?

Tomou coragem e puxou a camiseta para cima, deixando a vista um ferimento em sua barriga. Apertou levemente o local, e ao ver que expulsava o líquido vermelho dali, soube que ainda havia vida. Soltou todo o ar que não havia reparado que segurava.

Se ela havia se cortado ainda em seu portão, como conseguiu migrar por tanto tempo em um frio infernal? A única resposta que teve para si mesmo foi o medo que ele mesmo causava em Hermione. Se ela havia conseguido sobreviver horas caminhando durante o frio, foi porque era preferível morrer desta forma do que viver naquele inferno de mansão.

Não devia pensar nisso agora, devia se concentrar.

Pense, Draco, pense...

Concentre-se.

Você deveria saber o que fazer, estudou para isso...

Ou seria um inútil até mesmo ali, perante uma cena a qual deveria saber exatamente como agir?

Puxou os vidrinhos de poções de seu bolso, em busca de qualquer um que possuísse algo para o sangramento excessivo. Puxou com força a tampa da poção e a depositou sobre o ferimento de Hermione, observando a pele se fechando levemente. Puxou outros vidrinhos e encontrou os que ela havia deixado de tomar, empurrou-os sobre a boca de Hermione, ainda desesperado, esperando alguma espécie de reação.

O líquido esverdeado da poção preencheu todo o comprimento da boca de Hermione e não se demorou a derramar, escorregando pela mandíbula da morena vagarosamente e caindo direto na neve, a manchando.

O corpo de Hermione pareceu tomar proporções rijas, fazendo com que a leveza se tornasse algo pesado. O peito que antes subia e descia com fraqueza, parecia ter desistido por vez de buscar por vida, tornando-o imóvel.

Empurrou o peito dela de formas repetidas, esperando uma resposta, mas não teve.

Apontou sua varinha e conjurou todos os feitiços que poderia ter conjurado, mas a cena que via permaneceu a mesma.

Esmurrou a neve em resposta ao descontrole que tomava conta de seu corpo.

Por Merlin, se tivesse agido um pouco mais rápido...

O que sua mãe pensaria se acabasse por deixa-la morrer?

A sacudiu, não com força nem com brutalidade, mas em uma tentativa desesperada de que pudesse a salvar. Redimir a si mesmo. Se ela morresse, o que seria de sua consciência?

—Vamos Granger, resista... —Sua voz rouca soava de forma desesperada, fazendo eco por entre as árvores, que pareciam lamentar junto a morte que presenciavam. —Sua fedelha de sangue ruim! Como pode fazer isso? —Nem reparava que estava a gritar, cuspindo as palavras com força que não cabia em sua garganta calejada.

Aquela voz que insistia em criar residência em sua mente gritava, fazendo com que cada parte de seu corpo pudesse ouvir internamente os julgamentos e palavras que sua própria mente o enviava.

Se a tivesse tratado bem, não teria fugido.

Se não a tivesse enfiado em Azkaban para depois salva-la, ela sequer teria de onde fugir.

Por que se preocupa agora? Por que não se preocupava enquanto ela definhava como um animal abandonado em uma cela escura? Hipócrita.

É sua culpa, Draco.

Tinha perfeita convicção de que o cadáver que encontrava em suas mãos era fruto de sua covardia e desumanidade. Ali, fria, sem vida, os lábios arroxeados e a pele pálida. O abdome não mais sangrando, mas deixando para trás uma camada grossa e escura de sangue nas roupas.

Os lábios de Draco tremiam em resposta ao que enxergava. Sentia-se impotente, fraco. Sentia como se seus anos de curso não fizessem o menor sentido, do que adiantava ser um médibruxo se não podia sequer salvar uma vida?

O loiro derramou uma lágrima, que desceu quente e ao cair no chão, misturou-se com a neve, formando uma pequena forma redonda de gelo.

Puxou o peso de Hermione para si, depositando sua cabeça sobre suas pernas. Não mais se preocupava em sentar-se no chão. Qual era o problema em sujar as vestes?

Observou a castanha com sensibilidade pela primeira vez. Sua face, mesmo calejada, ainda trazia consigo a mesma beleza dos quinze anos. O rosto fechado trazia a rebeldia que sempre carregou em sua essência, sendo sempre quem quis ser. Dos vinte e tantos anos que viveu, seis foram jogados fora como lixo. E ali estava ela. Frágil, a sua mercê. E naquele momento Draco quis, tentou, até mesmo se esforçou para culpa-la por fugir como uma louca, sem suprimentos, remédios ou vestuário, mas que direito tinha de negar a liberdade de um ser que nasceu livre?

Respirou fundo, tomando coragem para permitir que os pensamentos o inundassem. Precisava saber o que fazer, não sabia para onde leva-la e sequer o que fazer. Precisava haver alguma forma de salva-la, impossível que não existisse. A poucos segundos ainda sangrava, ainda respirava, o que a impedia de esforçar-se para viver?

Sentia-se mal, culpado, inútil como sempre havia sido, e tinha certeza de que permaneceria sendo.

A voz de seu já falecido pai ecoava por sua mente, assombrando-o. O xingando de todos os pronomes que conhecia tão bem desde sua infância.

Poucos segundos foram necessários para que tantos pensamentos perambulassem pela mente do sonserino.

Um segundo foi necessário para mudar o destino que havia fadado para si mesmo.

Uma rufada desesperada de ar fugiu do peito de Hermione, e então Draco sorriu, assustado. Sacudiu o corpo da morena novamente, esperando qualquer sinal maior de vida, que teve como resposta a tosse seca que a garota expulsava de sua garganta dolorida.

As pálpebras deram espaço à coloração âmbar que trazia em sua íris.

Hermione havia até mesmo abrir a boca para pedir por socorro, ainda sem enxergar com clareza o que acontecia, mas seus lábios logo foram preenchidos pelo líquido gosmento da poção que Draco havia trazido consigo. E com esforço, engoliu.

O alvo não se demorou a recompor sua postura formal e secar as lágrimas que haviam escorrido.

A garota olhou para os lados, buscando alguma explicação para o que havia acontecido consigo.

Tudo que lembrava era de ter fugido, machucado a barriga e continuado correndo, ignorando as pontadas que lhe rasgavam. Lembrava-se de seus últimos dias da mansão com clareza, o clima ruim que permanecia e a forma como se sentia uma intrusa atrapalhando a vida de Draco. Emendava em sua memória como fugiu de forma sorrateira, mesmo que já tivesse avistado Aysha. Sabia que havia sido um ato falho, e sabia que a Hermione de dez anos atrás não teria o feito, mas que escolha tinha? Não era mais aquela menina. Havia corrido por horas, parado apenas para pedir comida para os trouxas e voltando a andar o mais rápido que suas pernas permitiam, de forma que havia ido parar ali, naquela floresta. Naquele momento seus pés já não obedeciam ordens de sua mente, e suas mãos jaziam trêmulas entrelaçadas uma na outra.

De repente, tudo havia apagado.

Um vulto claro e trêmulo havia perambulado pela sua mente poucos segundos antes de que não sentisse mais o ar em seus pulmões.

Mas estava ali, a visão e a audição voltando lentamente para dentro de si, juntamente ao ar que seus pulmões imploravam para receber.

E Draco estava bem a sua frente, observando com cuidado cada sinal que seu corpo emitia. Hermione tentou levantar, mas suas mãos não lhe permitiram, sequer sua coluna tinha força o suficiente para se mover.

Os olhos cinzas do homem a encararam como quem reprova um ato. E reprovava, odiava o fato de ter que sair de sua mansão para buscar uma escrava que com certeza seria capturada, mas odiava ainda mais o fato de encontra-la praticamente morta em uma floresta vazia. Sentia dentro de si uma mescla de irritação e algo bom que nunca havia sentido.

A mesma voz que havia o acusado com ira, parecia ecoar por todos os lados da Inglaterra, mesmo que pudesse ser ouvida apenas por ele. Ela está viva.

—Vamos para casa, Granger.

Notas finais
Então pessoal, como vocês devem ter percebido, esse capítulo foi UM POUCO mais curtinho que o comum. O motivo: estou realmente com pouquíssimo tempo para escrever. A solução que tomei foi manter a frequência de postagem e encolher um pouco, minimamente, os capítulos. Adoraria saber o que vocês acharam desse estilo de escrita. Até o proximo cap!