Notas iniciais
Hey, corujas! Espero que tenham uma ótima leitura. Até as notas finais!

Wiltshire, Inglaterra.

Hermione estava deitada em sua cama, suas pálpebras fechadas e o corpo relaxado sobre os lençóis de seda, apesar dos pesares, tinha de admitir a si mesma o conforto inigualável que aquele lugar oferecia a ela. Ao seu redor, os archotes iluminavam o quarto, deixando-o em tom avermelhado, aquecendo-o gradativamente. O silêncio permanecia na mansão Malfoy desde sua chegada com Draco. Aysha cochilava no tapete, na espera de qualquer sinal de que seria útil após a noite anterior.

A respiração de Hermione era o único sinal de vida na casa, apesar de não ser a única ali.

Quieto e cabisbaixo, Draco adentrou o cômodo. Em suas mãos uma bacia de água e um lenço que usaria para abaixar a febre da mulher.

Respirou fundo, observando a cena.

Se aproximou devagar, ignorando por completo as dores de cabeça que sentia, juntamente ao incômodo na garganta. Puxou um canto do lençol e se sentou na beirada da cama, ocupando o menor espaço que poderia. Não pode evitar revirar os olhos antes de mergulhar o lenço dentro da bacia e torce-lo em suas mãos, ainda trêmulas.

Encarou Hermione por um ou dois minutos, e ao perceber a quietude, concluiu que estava dormindo.

—Olha o que me faz fazer, fedelha...—Suspirou.

A água gelada sobre a pele fervendo de Hermione a fez remexer-se sobre os lençóis, murmurando meia-dúzia de palavras inteligíveis.

—Quem diria que a sabe-tudo teria a brilhante ideia de fugir sem levar sequer comida...—Resmungava para si, apertando o pano contra a testa e a face da castanha. —Para quem já foi a bruxa mais inteligente de sua idade, essa foi a ideia mais ridícula já teve, Granger.

A voz de Draco ecoava pela mente de Hermione. Uma ou outra palavra solta pode ser ouvida até que a última frase lhe foi compreendida com sucesso. Não abriu os olhos. Limitou-se a ouvir tudo que o homem tinha a falar, mesmo que ele não soubesse que tinha uma ouvinte.

—Sabe, fedelha, você me fez caminhar por quase um dia inteiro até te encontrar... você me deve essa, Granger. Sequer imaginou a gravidade do que estava fazendo? E se alguém te encontrasse?

As sobrancelhas morenas vincaram-se em uma só.

—Quer dizer que eu ainda tenho do que me esconder lá fora, Malfoy? —Sua voz saiu baixa e rouca, mas o que surpreendeu Draco foi o tom de ousadia que poucas vezes havia ouvido após reencontra-la.

Um calor desconfortável atingiu o peito do homem como um soco forte. Tirou o lenço da testa de Hermione e torceu-o com maior força do que seria necessário. Engoliu com força o nó que aumentava cada vez mais em sua garganta, e mesmo que seu instinto lutasse para que uma resposta fosse dada, nada lhe passou pela mente.

Calou-se.

Minutos se passaram. Aysha ainda cochilava no tapete felpudo. Draco, ainda em silencio, passeava com o pano pelos braços e face de Hermione, que, apesar de acordada, mantinha os olhos fechados e o semblante sério. O único som a ser ouvido era o lenço, que era torcido sobre a bacia, fazendo um pouco de água espirrar na cama.

Do lado de fora, ainda nevava. Os flocos caindo de forma ritmada como se dançassem entre si, rodopiando e caindo sobre o batente da janela, que já estava completamente coberto pela camada branca e espessa.

O homem evitava olhar para Hermione, sabendo que seu olhar pesaria. Estava acordada, esperando por uma resposta que não sabia se deveria oferecer. Admirava a neve, fitando cada floco em sua queda contínua.

Num rompante, se levantou, levou a bacia consigo e ergueu os pés para passar por cima da elfo.

—Por que eu estou aqui, Malfoy?

Ao olhar para trás, encontrou Hermione com os olhos castanhos encarando de forma violenta sua presença.

—Em uma hora venho trazer seus remédios e sua janta, Granger.

Sua voz saiu rouca conforme o som arranhava sua garganta com violência.

Atravessou a porta e rumou até seu próprio quarto, na outra ala. Também precisava de um banho, e ainda mais trocar suas vestes que continuavam completamente molhadas.

Caminhou a passos rápidos até sua suíte, jogou suas roupas de qualquer jeito no chão e encaminhou-se para o chuveiro de forma violenta. A água quente parecia cortar sua coluna, ainda gelada. Repousou sua testa no box gelado e deixou que o líquido escorresse por seu corpo e levasse consigo os calafrios que faziam questão de se mostrar presentes nos fios quase transparentes de seu braço.

O som estrondoso ecoou pela casa enquanto Draco esmurrava a parede.

O rápido momento de felicidade que teve ao ver Hermione viva, logo se esvaiu, substituído pelo costumeiro sentimento de desprezo, que era misturado com uma espécie de culpa e um emaranhado de coisas que o loiro não compreendia.

Sua mente parecia correr a quilômetros, da mesma forma que Hermione correu na noite anterior. Nada que pensava fazia sentido, ao menos se tivesse controle de tais pensamentos...

Não tinha.

As vozes que normalmente lhe gritavam na cabeça, pareciam misturar-se de forma que nada pudesse ser ouvido com clareza. Mil vozes o acusavam aos berros, com palavras que ele já conhecia muito bem, chegando a ter nojo delas. Entre elas, uma pareceu fazer mais sentido.

Recomponha-se, Draco.

E assim o fez. Engoliu toda a raiva que sentia de si mesmo e voltou ao seu banho, expulsando o máximo que podia seus maus pensamentos.

A hora se passou silenciosa na mansão. Não haviam mais vozes, conversas ou balbucios. A noite havia chegado, apesar de quase não ter sido notada em consequência de um dia escuro por completo.

Uma tosse aguda ecoou pelas paredes da ala leste.

Draco estava em sua sala, preparando as poções rotineiras de Hermione, assim como fazia todos os dias, apesar de ter se recusado a entrega-la pessoalmente. Acreditava que apesar da pouca vontade que tinha de esbarrar com ela, não teriam mais como conviver da forma que vinha acontecido nos últimos dias.

Entregaria, mesmo que a contragosto, a poção pessoalmente.

Sabia que o orgulho em excesso de sua parte era o motivo de tudo que aconteceu.

Ao fim da poção, moeu a pedra de lua com mais intensidade do que seria necessário e jogou-a sobre o caldeirão, que expeliu uma fumaça prateada característica. Ao olhar por dentro do recipiente, encontrou a cor verde escura que já conhecia com prontidão. Estava pronta.

Depositou o líquido no vidrinho transparente e o tampou. Enfiou de qualquer jeito no bolso de sua calça e desceu até o andar inferior, onde sabia que Aysha preparava o jantar.

Granger e pequenas panelas se lavavam sozinhas na pia da cozinha enquanto a criaturinha com uma cara entristecida estava na ponta dos pés sobre um banquinho para alcançar o fogão. Aysha não havia comentado com Hermione, mas tinha certeza de que seria punida ou até mesmo morta por sua irresponsabilidade na noite anterior.

—Aysha, o jantar está pronto?

—Ainda não, senhor Malfoy...Aysha está fazendo uma sopa de cordeiro para a senhorita Hermione, senhor Malfoy. —A elfo evitou até mesmo mover sua cabeça na direção de seu mestre, que se encostou na parede da cozinha, observando a consistência da sopa. —Mas pode deixar, senhor Malfoy, que Aysha vai se punir depois que terminar a sopa, senhor...Aysha pode se pendurar pelas orelhas na chaminé, senhor...Ou até mesmo passar as mãos a ferro...Se o senhor quiser, Aysha pode também se jogar do segundo andar e...

—Não será necessário, Aysha. —Remexeu seus cabelos, desconfortável com a suposição de que puniria a criatura. —Se quiser, pode até mesmo provar a sopa depois que terminar. Aqui na cozinha, claro.

Respirou fundo, ajeitando suas mãos dentro dos bolsos da calça.

Aysha tentou não demonstrar a felicidade que sentia ao ser convidada a jantar pelo seu dono, mas a carinha emburrada que expunha não mais podia ser encontrada entre suas rugas.

O jantar não se demorou a ficar pronto. Draco serviu-se em um grande prato de porcelana, e com cuidado subiu as escadas para a ala oeste. Empurrou a porta com o cotovelo e adentrou, estabilizando-se para a sopa não derramar.

Hermione estava deitada. O olhar baixo e a mente passeando pelos lugares que esteve, onde teve certeza de ter sido observada com estranheza. O prato de sopa lhe foi oferecido, e apesar de não conseguir sentir o aroma agradável que parecia conter, puxou-o para si, ajeitando seu corpo na cama.

Draco sentou na ponta da cama, olhando para a castanha enquanto ela comia, devagar. Quando o líquido estava quase no final, pigarreou uma ou duas vezes antes de expulsar sua voz para fora de si.

—Precisamos conversar, Granger.

Hermione levantou o olhar, fitando os orbes cinzas a sua frente. Limitou-se a assentir para o homem, que a observava com cuidado.

—Você não deveria ter fugido...É perigoso lá fora.

—E como eu saberia que é perigoso se ninguém sequer me avisou? —Deixou o prato ao lado de sua cama e cruzou os braços sobre as cobertas felpudas.

—Granger, o que você sabe sobre o mundo bruxo desde que tudo aconteceu?

Ao exterior, poderia parecer que Draco estava tentando provar a castanha o quanto era mais inteligente com a pergunta, ou até mesmo ridicularizando sua inocência. Em seu interior, o alvo sentia uma curiosidade sobre os pensamentos que mulher tinha sobre o mundo fora de Azkaban desde sua prisão.

—Sei que Voldemort é o ministro, sei também que você é algo importante lá dentro, apesar de não saber o motivo.... —Deu de ombros levemente em sinal de sua pouca informação.

Draco engoliu em seco, sentindo a culpa gotejando dentro de suas vísceras.

Tomou toda a coragem que se lembrava de ter para esboçar suas palavras, da forma mais saudosa que pode.

—Por sua causa.

Por um instante sentiu seus orbes sendo fitados de forma que lhe causou demasiado constrangimento. Sentiu-se avermelhar devido a vergonha que sentia por ser quem era, por carregar o nome que carregava. Os olhos de Hermione penetravam seus olhos cinzentos como quem estuda um objeto muito complicado.

—Então, por você ter me levado lá...

—Exato.

Pigarreou.

Hermione podia até mesmo ser uma prisioneira, mas jamais deixaria de ser quem era. Carregava consigo a dúvida se teria sido ela o motivo da superestimação de Draco no ministério, apesar de duvidar muito que alguém como ela tivesse tamanho valor.

Hermione abraçou a si mesma.

Sentiu as lacunas de seus olhos sendo preenchidas pelas lágrimas enquanto abaixava a cabeça para encarar os lençóis. Sentia-se um objeto. Um simples objeto cujo seu único valor era material. Apenas por ter ajudado Harry.

Harry...

Como evitava lembrar de seu amigo. Sentia um vazio em seu peito toda vez que se lembrava de sua última conversa com o garoto. Seu abraço caloroso, seu ombro que sempre foi o melhor receptor para suas lágrimas. Como precisava do amigo agora, para chorar suas mágoas e sentir a voz calma que sempre trazia o amparo que precisava.

Estava só em um mundo de trevas.

Em um mundo onde Harry Potter era visto como um vilão, Voldemort o herói e ela um objeto.

Um desespero característico se formava dentro de si. Queria fugir. Não apenas da mansão Malfoy, queria fugir de toda a obscuridade que havia se tornado aquele lugar o qual amava tanto.

A sua frente, Draco permanecia estático.

Era como se toda a culpa que havia armazenado para si, acabasse de ser recolhida, amassada e jogada contra sua face da pior forma possível. Uma ou duas vezes pensou em falar algo, mas sabia que suas palavras não eram bem-vindas, jamais haviam sido.

—Por que eu estou aqui, Malfoy? —Hermione soluçou.

Não havia contato visual. Ambos encaravam o chão, aproveitando unicamente de sua particularidade. O homem não queria responder, sentia vontade de evitar a pergunta e sair novamente do quarto, como havia feito mais cedo. Sabia que seria um ato covarde, e estava cansado de tamanha covardia.

—Se eu não te trouxesse para cá... Outros te levariam.

As chamas dos archotes balançavam-se devagar, acompanhando o ritmo que a conversa tomava.

Hermione piscou, ainda confusa.

—Como assim me levariam?

O loiro pode sentir novamente os orbes amendoados sobre si, e virou-se de costas, encarando a parede.

—Os prisioneiros estão sendo vendidos como escravos... É por isso que eu estou lá, Granger.

Hermione sentia como se as palavras do homem fossem direcionadas ao seu estômago e lhe acertassem um soco forte.

Estavam sendo vendidos.

Ela havia sendo vendida.

Por isso os cuidados médicos...

Isso queria dizer que seus amigos...

As peças pareciam se montar como em um quebra-cabeças na mente da castanha, que procurava não derramar lágrimas enquanto pensava, sem obter sucesso.

—E Ron...

—Está com Greyback.

A resposta de Draco, desta vez veio rápida. Havia evitado chegar a este assunto, sequer imaginou que o teria, mas pretendia acabar com ele o mais rápido o possível.

—Luna, ela...

—Morta desde a guerra.

O soluço abafado de Hermione pode ser escutado por toda a mansão.

—Gina está...

—Viva, com minha tia.

O clima dentro do quarto parecia ter o peso de uma guerra ainda existente. O ar que adentrava o quarto parecia mais quente que o de costume.

Não foi contado o tempo em que permaneceram daquela forma. Draco encarando a parede, Hermione encarando o breu enquanto se deixava levar pelo luto, pela tristeza.

—Quanto eu... custei?

—O bastante para Dolohov desistir de comprar você.

Foi a deixa para que o alvo se levantasse, pela primeira vez erguendo a cabeça na altura da mulher. Sinalizou ao prato de sopa com a varinha e a porcelana saiu flutuando por sua frente, rumo ao andar inferior.

—Por isso não queria que saísse, Granger. O mundo lá fora não é mais o mundinho encantado do Potter e seus amigos, lá fora eles matam os sangues ruins, torturam qualquer um suspeito de não possuir o sangue bruxo, está entendendo?

Hermione assentiu, ruborizando.

O homem virou-se em direção da porta, caminhando a passos lentos. A dor de cabeça agora mais forte do que nunca.

—Seu remédio está aí ao lado.

Hermione sentia uma mescla entre a angústia e o pouco agradecimento que sentia por ter sido salva de um lugar pior ainda do que ali podia ser.

—Obrigada, Malfoy.

—Não faço mais do que a minha obrigação, Granger.

Notas finais
O que acharam????