Palimpsesto - Dramione
15 Frutas vermelhas.
Notas iniciais
Wilthsire, Inglaterra.
17 de setembro de 2004.
O dia anterior havia se passado quieto e calmo. Hermione havia decidido passar o dia no quarto, recuperando-se do choque do dia anterior. Draco, por sua vez, passo a tarde em sua sala de poções, estudando tudo que poderia fazer efeito contra a dor de cabeça que sentia, e as costumeiras poções de Hermione. Pouco se falaram. O homem sabia do peso que havia jogado sobre as costas dela, havia decidido deixa-la em paz, ao menos até que sua mente se organizasse.
Antes de dormir, lembrava-se de ter desejado a Hermione uma boa noite, antes de deixar sobre os pés de sua cama uma gigante leva de roupas para o frio que havia separado para a castanha, que o agradeceu com um esboço de sorriso nos lábios.
Era o começo da manhã quando uma coruja cinzenta fez um estrondo ecoar pela mansão inteira. Draco, que ainda dormia, levantou devagar e em meio a resmungos de desprezo jogou os edredons para o lado da cama, sentindo a brisa gelada do ambiente o pegar por completo.
Abriu a janela para dar passagem a ave, que se sacudiu, jogando a neve para todos os lados do quarto. O alvo quis, naquele momento, puxar o animal pelo pescoço e o lançar com toda força para os terrenos da mansão, mas sabendo de quem deveria ser, limitou-se a revirar os olhos, tal gesto que pareceu ter sido retribuído no mesmo tom pela coruja insolente.
O homem puxou o pergaminho enrolado na pata da coruja e a enxotou para fora, ainda mal-humorado por ter sido acordado em uma hora tão inconveniente.
Senhor Malfoy.
Sua presença está sendo requisitada, ainda nessa manhã, na prisão de Azkaban. Aparentemente uma prisioneira está enlouquecida e grita durante a noite toda, o que está prejudicando o sono dos guardas de plantão.
Atenciosamente.
Draco bocejou conforme lia o bilhete. Jogou-o em qualquer canto do quarto e foi em busca de qualquer roupa apresentável.
Em sua mente perambulavam todas as comidinhas gostosas que Aysha havia prometido para o café da manhã, que ele acabaria por não ter como participar.
Maldito você-sabe-quem e toda sua corja de imbecis.
Com muito mais frio do que queria, desceu as escadas até sua sala de estar, onde o cheiro do café já podia ser sentido com maior facilidade. Na cozinha, os sons a serem ouvidos eram os costumeiros de Asyha para lá e para cá entre fogões e panelas.
—Aysha...
A elfo se materializou em frente a seu mestre, seus olhinhos violetas mais brilhantes do que nunca. Andava feliz até demais devido aos modos com que seu mestre havia a tratado, sem punições, ou sequer gritos. Draco havia se limitado a olhar feio para a criatura ao invés de pendurá-la pelas orelhas na chaminé, como fazia de costume.
—Pois não, senhor Malfoy...Aysha pode ver que vai sair, senhor Malfoy...
—Vou sim, quando a Granger acordar você e ela podem tomar café e... Que porra você está fazendo, Aysha? —A pequena se envolveu em um abraço mal-ajeitado com a canela de Draco, que sacudia a perna como quem espantava um mosquito. Sua calça, antes jeitosa, já era carregada de um catarro de elfo que fez todos os músculos da face do loiro se retesarem, mas ela não o largou.
—Nenhum Malfoy nunca convidou Aysha para tomar café em sua mesa, senhor, o senhor é o primeiro a permitir que Aysha se sente como um igual em sua mesa, senhor Malfoy! —Exclamava, ignorando os solavancos que Draco fazia com a perna conforme caminhava novamente para o seu quarto, para trocar de calça.
Ao chegar no quarto, empurrou a perna com toda força que tinha, fazendo com que Aysha se lançasse diretamente contra o tapete ao lado de sua cama.
—Faça isso mais uma vez e te proíbo de tomar café e jantar por um mês inteiro...—Rosnou enquanto escolhia outra calça.
Aysha sequer se preocupou com a ameaça, e seguiu saltitante até a cozinha.
Tendo avisado que sairia, Draco aparatou de seu próprio quarto, ainda de estômago vazio.
Azkaban, Inglaterra.
Foi parar onde era sua sala. A falta de higiene e o cheiro de limo permaneciam os mesmos, desde sua última visita. Em sua mesa, uma pequena pilha de relatórios encadernados o esperava.
Se ele era o médico, quem havia os feito? Perguntou-se.
Na capa dos documentos, um enorme “direcionado ao doutor Malfoy” redigia seus pensamentos.
Com seus dedos longos e gelados, não se demorou a puxar os papéis para si e examinar os relatórios que se tratavam dos bruxos que haviam permanecido presos, e alguns que haviam entrado nos últimos dias. Entre tantos, um de capa vermelha e letras gritantes o chamaram mais a atenção, imaginando que seria o motivo de ter sido acordado em plena sete horas da manhã.
Molly Weasley, cinquenta e cinco anos.
A prisioneira tem se queixado de fortes dores de cabeça, também como tem mantido os guardas acordados durante toda a madrugada devido a seus gritos, cada noite mais altos. Em suas palavras, pede a volta de seus filhos para suas devidas celas, ou que seja levada como ambos foram. Não tem noção do tempo que está sendo mantida sob vigilância.
Durante a madrugada, vem conversando aos gritos com os prisioneiros das celas ao lado, vulgo Jorge Weasley e seu outro filho, Gui Weasley.
Os filhos, por sua vez, têm feito comentários sobre a falta da presença de Arthur Weasley nas conversas, sem saber que o bruxo está falecido há três noites devido ao frio.
Colado ao pergaminho, um bilhete cor de rosa gritante trazia a mesma caligrafia do pergaminho, no entanto ainda mais caprichada.
Senhor Malfoy, o corpo do velho Weasley já foi despachado por mim, e como hoje é minha folga, pedi ao ministério que lhe enviasse uma carta pedindo sua ajuda com a velha.
Com saudades, Astoria.
Um bolo se formou na garganta do homem ao ler o nome ao final do bilhete, junto a uma marca de batom vermelho que se destacava no papel cor de rosa.
Ninguém havia o falado que teria outra médica.
Sequer que essa médica seria Astoria.
Conhecendo o pouco que conhecia da bruxa, sabia que o motivo de ter sido chamado ao ambiente nada mais seria do que sentir um pouco do veneno que ela poderia oferecer.
Buscando por algum motivo para querer continuar trabalhar naquele lugar, lembrou-se de Molly Weasley. Pouco sabia sobre a bruxa, a menos de que era mãe do ferrugem e da Weasley menor, e que havia pertencido a ordem da fênix, tal o motivo para que estivesse apodrecendo como algo descartável naquele pedaço de inferno.
Por um momento, sentiu uma espécie de dó se aflorando em seu peito, coisa que tinha certeza absoluta de que sua mãe também teria sentido.
Engoliu seus sentimentos de raiva, dó e qualquer outra coisa que poderia existir, puxou o papel para si, rasgando o bilhete de Astória, e saiu de seu escritório, batendo a porta com força o suficiente para acordar os guardas que esperavam no grande saguão.
—Vão trabalhar, imundos! —Berrou à suas costas, subindo as escadas e sentindo-se completamente perdido dentro de si mesmo.
A torre de Molly Weasley era do outro lado da prisão, lado este que jamais havia visitado. Era levemente mais arejado do que o corredor de Hermione, e exceto os camundongos que passeavam livremente pelo ambiente, poderia ser considerado até mesmo mais limpo.
A primeira cela pela qual passou avistou um homem ruivo de cabelos longos, o qual deduziu ser o mais velho devido as linhas de expressão que se formavam enquanto mirava o chão com uma preocupação no olhar. A segunda cela era a de Molly, que jazia em sua parte mais escuras, os olhos abertos e vidrados em algo além da presença de Draco, que sequer pareceu ter sido notado.
Pigarreou.
Ainda ignorado.
Pigarreou novamente.
Nada.
Na cela a sua esquerda, um movimento chamou a atenção de Draco, que já estava nervoso até demais em frente aquela bruxa. Caminhou, e em poucos passos estava lá.
Jorge Weasley encarou Draco. Um brilho em seus olhos claros apareceu instantaneamente e o canto de sua boca se repuxou num sorriso torto.
—Agradeçam bruxos! O médibruxo mais respeitado de toda geração veio nos salvar!
E então a risada descompassada de Jorge Weasley ecoou por todo o corredor. Começou empolgada, alta. O ruivo havia chego até mesmo a colocar as mãos magras sobre a barriga para controlar o riso. Do outro lado da cela, Draco o encarava com rancor, como quem estaria prestes a esmurra-lo. Poucos segundos se passaram, e então todos os archotes do corredor se apagaram simultaneamente.
Um frio superior ao do clima pareceu entrar nas vísceras de Draco, que tornou seu olhar ao Weasley.
Escondido atrás de um jornal velho, apenas a voz de Jorge pode ser ouvida.
—Bem vindo a Azkaban, Malfoy!
Em poucos instantes, os vultos escuros e altos dos dementadores adentraram o ambiente.
Tudo ao redor dos olhos cinzentos pareceram girar incansavelmente.
Em sua mente, podia ouvir vozes distintas, uma gritaria que latejava seus ouvidos com violência.
O espaço no olhar de Draco, que era ocupado pela imagem do ser gigante que o seguia lentamente, foi substituído por centelhas verdes e vermelhas. Estava novamente em Hogwarts. Corria contra o fluxo de alunos, que choravam e se lamentavam da morte de Harry Potter.
Em sua mente, a frase que seu pai ecoava.
Salve seu nome, Draco. Mostre a eles que a família Malfoy tem muito a oferecer. Mostre a Voldemort que merece sua confiança, Draco. Não seja um covarde, garoto...
Eu tenho vergonha de ser seu pai, garoto insolente!
Nosso nome está nas suas mãos, seu ingrato!
Tenho nojo de ser seu pai.
Sem saber como, havia chego a torre de astronomia, lugar o qual costumava afogar suas mágoas nas madrugadas frias após a morte de Dumbledore. E como por um milagre o corpo de Hermione jazia desmaiado de qualquer jeito no chão, como um prêmio a ser entregue ao primeiro sortudo que o encontrasse.
“Por favor, Malfoy”
A imagem em sua mente se esvaiu com a mesma velocidade a qual havia aparecido. Substituída por uma Hermione ainda saudável, trajando as roupas dos prisioneiros em seu próprio julgamento. Lançava para Draco um olhar de súplica, que ele fazia questão de devolver com um sorriso de deboche.
Como uma fumaça, a cena saiu de sua mente.
E o ser de capuz escuro o encarava, poucos centímetros de distância de seu rosto.
Buscou em sua mente por qualquer pedido de socorro, veemência ou qualquer coisa que o livrasse da visão que estava tendo.
Recordou-se, então, de suas aulas de médibruxaria contra espíritos depressivos e agourentos. O patrono. Jamais havia conjurado um, sequer sabia se teria como fazê-lo. Precisava de uma lembrança feliz...
O dia em que seu pai lhe deu uma firebolt, no segundo ano em Hogwarts.
—Expectum Patronum! —Berrou com a voz falha contra o dementador, que não se afastou sequer um milímetro, pelo contrário, pareceu ter se aproximado ainda mais, abrindo a boca lentamente como quem iria se deliciar.
Draco fechou os olhos com força.
Uma lembrança boa... uma lembrança boa...
A imagem da tarde do dia em que encontrou a castanha lhe tomou a consciência, o segundo em que achou que teria sido responsável pela morte de Hermione, e o instante seguinte, o qual teve certeza de que ainda estaria viva.
Uma pequena fagulha de esperança havia o tomado naquele dia.
Ainda de olhos fechados, empunhou sua varinha com força e a apontou contra a criatura que podia até mesmo lhe passar o frio que esbanjava.
—Expectum patronum!
E então tudo se aquiesceu novamente.
Abriu os olhos, encarando a perfeita imagem do corredor desocupado. Os archotes nas paredes voltaram a se acender e o ambiente já não parecia tão frio.
Do outro lado da cela, Jorge espiava por cima da folha de jornal rasgada.
O loiro se sentou no chão oposto ao da grade e fitou o ruivo por instantes, ainda ofegante.
—O que você vê? —Jorge perguntou, irrompendo o silêncio.
—Meus pais morrendo. —Mentiu, ainda recuperando seu tom de voz usual. —E você?
—Fred morrendo.
O silêncio era quase ensurdecedor.
De um lado, Draco Malfoy respirava lentamente, a cabeça jogada para o teto como quem esperava uma resposta de Merlin para seu momento de fraqueza.
Do outro lado, Jorge Weasley relendo o jornal como se a situação já houvesse se tornado costumeira.
Pesarosamente Draco se levantou, sacudiu a poeira de suas roupas e voltou à cela de Molly Weasley. As vozes da cena que havia acabado de ver ainda anuviando sua mente como fantasmas.
—Molly Weasley, correto?
A senhora, antes ruiva, agora esbanjava seus cabelos brancos e longos, cujo provavelmente nunca haviam sido cortados. Era magra como uma criança e não esboçava mais seu sorriso convidativo. Levantou seu olhar para Draco, e em tom de dúvida, balançou a cabeça.
—Certo, Molly... —Coçou a cabeça como quem não sabia dar a notícia.
—Ele está morto, não está? Arthur está morto...Não o ouço mais cantar para mim... Ele está com Fred agora, não está?—A senhora agarrou-se com força a grade oposta, encarando Draco de perto. O loiro recuou, temeroso, e balançou a cabeça positivamente, um bolo se formando em suas vísceras como um soco forte.
A senhora colocou-se a chorar sobre o chão. Nas celas do lado, apenas o som de fungar podia ser ouvido dos filhos mais velhos.
Draco sentia-se totalmente fora do ambiente, como se não fizesse parte daquilo. Sentia como se estivesse sendo um intruso entre a família.
Lembrava-se da morte de seus pais, e lembra-se de como chorou apenas sobre o caixão de sua mãe. Seu pai, por sua vez, foi diretamente enterrado, sem floreios e nada demais, ninguém sentiria sua falta.
—Eu sinto muito...—Falou baixo, já acostumado com o número de vezes que havia falado essa frase nas últimas semanas, como se cada vez que as pronunciasse, seu peso se tornasse ainda maior.
A senhora apenas assentiu.
E Draco soube que ela não estava louca, estava em plena razão por chorar pelo marido, pelos filhos.
Loucos estavam os monstros que viviam fora de Azkaban, e a cada morte de comensal planejavam uma festa com vinhos e mulheres em comemoração da alma do monstro que havia existido anteriormente, esses sim, eram loucos.
Aproximou-se da cela, esperando Molly parar de chorar, o que não aconteceu por alguns minutos.
—E Gina e Rony...
—Estão vivos. —As palavras escaparam de sua boca antes mesmo que pudesse pensar em uma resposta melhor
Uma centelha de esperança surgiu nos olhos da mulher. Um brilho característico semelhante ao que os olhos de sua mãe traziam consigo. Imediatamente Draco os identificou.
Seu coração passou a bater dois tons mais rápido.
—Por favor...—Molly pediu, aproximando-se com a cara molhada pelas lágrimas da cela e puxando a mão de Draco para si. O homem pensou em recuar, puxar sua mão e ir embora, mas o brilho no olhar da senhora o prendeu. —Não deixe que morram...
—Não vou deixar.
Antes de soltar a mão de Draco, Molly o acariciou.
O loiro voltou para sua sala médica, engolindo o seco que havia se formado dentro de sua boca. O ar Parecia lhe faltar e a gravata frouxa não havia causado efeito algum. Entrou para o ambulatório e bateu a porta atrás de si com força. Socou duas ou três vezes a parede, alarmando todos os guardas do lado de fora, mas não se importava.
Ao menos, não teria se importado.
—Estressado, querido?
A voz de Astoria irradiou por trás do loiro.
Draco se virou devagar, ainda processando o que havia acabado de ouvir. Em sua mente, diversas formas de fugir da sala sem ser notado passeavam, fazendo-o decidir rapidamente qual seria a melhor opção, mas nada parecia viável.
Aquele era, decididamente, um dos piores dias de sua vida. Já não bastava ter sentido a culpa, os dementadores, a lembrança de seus pais e de Hermione...A materialização de sua formação como comensal estava ali, em sua frente, para acabar seu dia da pior forma que poderia ser possível.
A mulher, que vestia roupas curtas até demais para uma médica a julgar que seu jaleco era a veste mais longa, aproximou-se de Draco com sensualidade.
Draco engoliu seco, fechando os olhos e cerrando os punhos.
Sentiu sua orelha sendo mordicada pelos lábios vermelhos que ainda a pouco haviam marcado o papel cor de rosa, lhe causando um arrepio que poderia até mesmo ser te excitação, se não se tratasse daquela mulher.
—Não estava de folga, Greengrass? —Pronunciou entredentes, sua voz claramente tomando tons desproporcionais de ira.
A mulher se afastou num rompante, o semblante de decepção irradiando por seus olhos verdes claros. Um muxoxo escapou de seus lábios, numa tentativa que Draco imaginou que deveria ser sensual, mas para ela, não era.
Era igual a todas com quem havia dormido, mas pior.
—Senti sua falta e vim ver como anda aquele que acreditou no mestre das trevas... —Passeou com suas unhas longas pela jugular do homem, sentindo seus batimentos acelerados. Sorriu com os dentes brancos ao notar a reação que causava no homem, imaginando ser de desejo.
Não era.
Draco não sabia como agir, queria apenas ir embora. Engoliu em seco novamente. Sentia o asco se formando lentamente em sua garganta, esperando pela oportunidade certa de ser materializado em forma de palavras de baixo calão.
Sentiu seu próprio semblante enrugar, descontente.
A mulher, que observou a cena com um sorriso de deboche nos lábios, se afastou de Draco, rebolando os quadris de forma propositalmente chamativas, e encostou-se sobre a maca no canto da sala.
—Fique tranquilo, Draco...O dia em que eu quiser transar com você novamente, posso fazer na hora em que bem entender. —E piscou como quem dizia algo convidativo.
Draco irradiou pela sala, segurou sua maleta e estava pronto para aparatar.
—Só com a maldição imperius pra eu querer alguém do seu nível, Greengrass.
Wiltshire, Inglaterra.
Já passava das cinco da tarde quando Draco aparatou na sala de sua casa. Os archotes estavam acesos, e a mesa do café da tarde estava recém posta, a julgar pelo cheiro de café delicioso que inundou as narinas de Draco.
Aproximou-se da sala de jantar, e lá estavam as duas. Hermione e Aysha riam como crianças que conheciam o mundo agora. Inocentes apenas como elas mesmas poderiam ser.
Não sentia sequer fazer parte de sua própria casa.
Rumou até o andar superior, fazendo o menor barulho o possível. Tomou seu banho quase sem perceber a água caindo sobre sua pele, e após se vestir rumou à biblioteca, onde espera ser consolado ou ter sua memória ocupada pelos livros.
Graças a Merlin, e realmente por algum milagre, Hermione não estava lá.
Sentou-se em sua mesa e acolheu um livro qualquer. Por coincidência, era o mesmo que a garota havia lido alguns dias antes.
Orgulho e preconceito.
Passeou com os olhos até que os mesmos se pesassem, sonolentos.
Lá fora, o céu antes nublado, agora mostrava apenas o breu enevoado da noite. Não haviam estrelas, e sequer uma lua. Nublado, assim como Draco se sentia.
Sua cabeça havia pendido uma ou duas vezes antes que os passos de Hermione entrando na biblioteca o despertassem momentaneamente.
Nas mãos da mulher, duas enormes xícaras fumegantes eram trazidas, o semblante da moça nada mais transparecia do que preocupação.
Sentou-se ao lado de Draco, e com um sorriso amarelo ofereceu uma xícara ao homem.
Draco aceitou, aquecendo suas mãos na porcelana quente e estremecendo seu corpo todo ao sentir o calor irradiando por todo seu corpo. Deu um gole no líquido e sentiu um gosto que jamais havia sentido, mas tinha certeza que havia gostado muito.
Morango...Amora, talvez?
Frutas vemelhas.
—Eu vi você chegando. —Comentou Hermione, após bebericar seu chá.
—Hum.
O chá foi bebericado novamente.
—Estava nervoso.
—Não estava, não. —Retrucou na mesma velocidade.
—Havia uma marca de batom na sua orelha. —Comentou Hermione, encarando o chá como se não pudesse olhar para mais nada.
—Está com ciúmes, fedelha? —Brincou, deixando escapar um sorriso ladino que foi observado por Hermione.
—Não...Com certeza não mas...Sabe, não precisa mentir para mim e para Aysha que vai trabalhar, sabe, todos aqui somos adultos e Aysha já viu muitas moças que você trouxe para cá. —Falou devagar, tomando cuidado com cada palavra que escapava de seus lábios.
—Eu fui fui trabalhar, Granger, mas digamos que fui assediado em serviço. —Comentou, afastando a risada que trazia anteriormente. Sabia que não havia sido um simples assédio, mas chamar assim tornava a situação mais aceitável para si mesmo.
—Sei como é.
E o silêncio tornou a dominar o ambiente.
Lado a lado, leram o mesmo livro, Hermione dando breves espiadas por cima dos ombros enquanto Draco passeava com as folhas rapidamente.
As luzes de toda a mansão haviam se apagado sozinhas, exceto as da biblioteca.
—Tomou suas poções, fedelha?
Hermione assentiu.
—Vou dormir, Granger...
—Me chame de Hermione. —Uma pequena dúvida surgiu na mente de Draco. —Sabe, se vou ficar aqui para o resto da vida, seria bom não ser chamada pelo sobrenome dos pais que nem lembram de mim, entende?
O alvo assentiu, seus olhos desfocados devido a breve onda de confusão que lhe pegou de surpresa.
—Boa noite, Hermione... Pode me chamar de Draco...Se quiser.
—Boa noite, Draco.
A morena passou com suas mãos sobre a pele gelada de Draco, na tentativa de tomar a xícara de seus dedos e leva-los no andar de baixo, o loiro desprezou sua atitude e empunhou sua varinha com a mão direita, e com um simples toque, as xícaras flutuaram até a cozinha.
Sorriram fraco um para o outro, como um agradecimento não pronunciado.
As mãos de Hermione repousaram de forma distraída por poucos segundos nas mãos de Draco, e então ela foi para o seu quarto.
Naquela noite, antes de dormir, o homem observou sua constelação particular. Em seu próprio céu, a noite permanecia estrelada. Repousou sua cabeça sobre os braços enquanto admirava o luar com devoção e sequer se recordava do quanto seu dia havia sido desprezível.
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