Palimpsesto - Dramione
16 Fronhas e penas.
Notas iniciais
Wiltshire, Inglaterra.
18 de setembro de 2004.
O corpo de Hermione se mexia sem cessar em sua cama, fazendo os lençóis se soltarem de suas extremidades e os edredons quentes voarem diretamente ao chão. Os archotes estavam apagados e as janelas fechadas, devido a ventania que fazia com que os vidros tremessem descompassadamente.
Seu corpo se debatia, tremia e suava.
De sua boca, pequenos murmúrios de lamento eram audíveis de forma quase imperceptível. Seus lábios se mexendo rápidos e tão descompassados quanto seus batimentos cardíacos.
Ninguém poderia ver o que ela via, sentir o que ela sentia naquele momento. Estava só.
O conforto do colchão não podia ser sentido por sua pele, que repousava em um lugar bem mais frio em forma de concreto batido.
Estava em sua cela, em Azkaban.
Comia com pressa os restos de uma sopa, que haviam sido deixados por um guarda que por algum motivo naquele dia havia decidido ter um ato de misericórdia. Sua cela fedia a urina, e o cheiro podia ser sentido a metros de distância dali, misturando-se com o sabor do alimento.
Ainda não havia adquirido o hábito de contar, mas sabia que pelo som dos passos, alguém se aproximava cada vez mais, assobiando em um ritmo lento, etéreo.
E então o homem chegou ali, em frente sua cela. Com um sorriso gutural nos lábios e um olhar fixo como o de um predador prestes a atacar sua presa. Em suas mãos, um pedaço de pão pelo qual Hermione poderia até mesmo dar sua vida. Sequer se lembrava de como era comer algo sólido.
“Está com fome, querida?”
Hermione assentiu, desesperada. Agarrou-se as celas e tentou alcançar o alimento entre os dedos caludos do homem corpulento. Ele puxou a mão para trás, como um adulto que brinca com uma criança de lhe tirar seu brinquedo favorito e esperar que ela tenha altura para conseguir alcança-lo.
Sem falar, a prisioneira lhe ofereceu um olhar de súplica, sacudindo as celas já sem força.
O sorriso debochado do guarda se abriu ainda mais, tomado pela sensação de êxtase que sentia em ser presentado com tamanha submissão.
Como um animal, adentrou a cela de Hermione, que estava cega pela fome e pela inocência de esperar que qualquer vida que passeasse por fora das celas possuísse realmente um coração por baixo de seu peito.
Ela o seguiu pela cela, engatinhando e implorando pelo alimento. A sopa, que não havia a sustentado em nada, virou-se da tigela e escorreu seu caldo por baixo das celas.
E o homem sorria, abria seus dentes gradativamente conforme aproximava seu rosto da pele da prisioneira.
Tudo que vinha a seguir era trazido por vultos fracos na mente da morena, que se resumiam no ofegar gutural do homem, a saliva com gosto de cigarro misturado ao álcool que a jovem jamais havia saboreado. O peso sobre seu corpo magro, a dor que rasgava e irrompia de seu ventre, seus pedidos de socorro ignorado por todos aqueles que sondavam os corredores, a dor que irradiava de seus seios machucados. O sangue quente que escorria de seus seios e pingava no chão, formando um lago embaixo de si.
Era frio, gelado.
Por dentro e por fora.
O homem levantou, sorriu satisfeito, cuspiu sobre a mulher e foi embora.
No chão, sem roupas e com frio, Hermione esperou por uma morte que se negou a chegar naquele momento, sendo confundida com o sono e o cansaço que sua respiração baixa e falha anunciava.
Afundava-se em sua própria dor, implorando a Merlin que lhe tivesse compaixão e deixasse que, caso viesse a morrer, deixasse de sentir aquela dor que se alastrava por dentro de suas vísceras.
Havia se preservado tanto, esperando pacientemente pelo dia em que se deitaria com um homem, para no fim acabar nos braços de um imundo que sequer sabia o nome, que belo fim o destino havia a reservado.
Já em sua cama, na mansão Malfoy, sua reação era diferente. Debatia-se contra o homem imaginário. Suava, tremia e urrava de acordo com a dor que mesmo não estando lá, podia ser sentida.
Os berros irradiavam na escuridão da mansão, carregados de dor e urgência.
Draco acordou assustado, a voz de Hermione havia se tornado tão alta que poderia até mesmo jurar que ela estava ali mesmo, dentro de seu quarto, gritando contra seu ouvido e explodindo seus tímpanos.
Pulou de sua cama de qualquer jeito e empunhou sua varinha, se perguntando o que estaria acontecendo de tamanha atrocidade para que a morena estivesse obtendo tal reação, e correu entre os corredores de sua própria casa, esbarrando vez ou outra pelos carpetes, paredes e escadas que se tornaram turvos sem a iluminação costumeira dos archotes.
O barulho dos baques abafados de seus passos sequer podia ser ouvido em meio à voz de Hermione.
Ao se deparar com a porta de Hermione, empurrou o trinco, mas nada aconteceu. Estava trancada.
—Alohomora! —Pronunciou a todo ar, e a porta se escancarou, batendo com força contra a parede ao lado.
E lá estava ela.
A pele corada com violência devido ao se debater, o rosto claramente úmido de suor.
Draco se aproximou devagar e tentou tocar sua testa, mas foi impedido por socos e chutes para todos os lados. Juntou toda a força que tinha, e ignorando as agressões, segurou Hermione pelo ombro, erguendo-a numa tentativa de a fazer sentar.
Sacudiu seu corpo, sem deixar de reparar no quanto seus ombros já não estavam tão ossudos, e sua pele, mesmo corada devido as lágrimas, possuía mais carne na mandíbula.
Seus olhos abriram rapidamente, como quem se assusta com o solavanco. E ele a segurou firme, observando cada gesto de aflição.
Hermione recuou, os olhos vidrados na presença do homem alvo. Remexeu-se para ter seus ombros livres e acuou-se, encostada na cabeceira da cama.
O coração de Draco remexeu-se desconfortavelmente dentro de seu peito.
—Saia...de perto...de mim...seu monstro! —Rosnou para o platinado, tendo em sua mente a visão perfeita do mesmo guarda que a abusou. Sua cama não lhe trazia conforto nenhum, e o que podia sentir era o chão duro de Azkaban, as grades contra suas costas e seu sangue sob seu corpo.
E Draco engoliu seu ar.
Tinha completa noção de que a moça delirava, tendo ainda em sua mente as imagens alucinantes que havia tido durante seu sono, mas afinal, não estava errada em afastar-se de si de tal forma, como poderia culpa-la por pesadelos que não havia decidido ter?
Poderia não ser o mesmo guarda que a usou, mas se aquilo aconteceu, foi porque ele havia a trancafiado lá.
—Hermione...
Aproximou suas mãos abertas, mostrando que nada havia ali.
Hermione piscou, atônita. Uma fumaça tênue separava sua realidade da imagem que havia tido em seus pesadelos.
A mão em sua frente nada tinha a ver com os dedos grossos e cheios de calos do guarda de Azkaban em questão. Pelo contrário, eram dedos longos, finos e pálidos. Trêmulos devido a tentativa em excesso de não produzir movimentos bruscos.
E o alvo prosseguia, seus orbes tempestuosos focados no rosto de Hermione, que reproduzia o que seria a perfeita representação do medo e pavor.
—Sou eu...Draco...Eu não sou um monstro...
Mesmo contrariado, pronunciava as palavras apenas e unicamente na intenção de acalmar a mulher em sua frente. Sabia no fundo de seu âmago que era realmente um monstro, mas não precisava assusta-la ainda mais do que já estava.
Hermione piscou descompassadamente. A nuvem escura que escondia sua realidade se afastou e a luz azulada da lua tornou-se a iluminar a face de Draco, empalidecendo-o, se possível ainda mais.
Fitaram-se por um instante, momento esse em que os olhos nublados de Draco transformaram-se em prata líquida enquanto passeava com suas mãos pela testa de Hermione, procurando sinais de febre, mas para sua surpresa estava tão gelada quanto o vento que fazia eco do lado de fora da janela.
Levantou-se e andou poucos passos até a poltrona no canto do quarto, onde tinha visão completa, pelo vidro, de seu jardim lá fora. A neve que se desmanchava lentamente, caindo aos montes no chão e se transformando, em seguida, em água.
Os floquinhos de neve já não eram mais tão densos, caiam de sutil e acabavam por sumir antes mesmo de encontrar o chão.
Sentado na poltrona, Draco deitou sua cabeça no encosto, e ainda com os olhos abertos, ficou esperando Hermione dormir.
—Como você sabia que eu não estava falando com você? —Perguntou Hermione, virando-se na cama e tornando sua face de frente para o homem.
Estava envergonhada por ter gritado, acordado possivelmente até Aysha, que dormia no alçapão da casa.
Draco evitou revirar os olhos, sabendo do sono que sentia e a pouca vontade de conversar. Recitou sua explicação como quem já sabia de cor uma frase bem decorada de um livro.
—Sinais vitais alterados, pupila dilata, olhar sem ponto fixo... todos esses são sintomas de alucinações.
Hermione bocejou, lenta e preguiçosamente.
Draco imitou o gesto.
—Você consegue dormir agora, fedelha? —Soltou a frase entre o bocejo, já se levantando.
Hermione sacudiu a cabeça em concordância, mas algo em seu olhas fixo dizia a Draco que ela estava mentindo.
Apesar de saber que nada aconteceria ali, a garota sentia medo. E se sonhasse novamente com tudo? Daria sua própria vida para não trazer a sua memória as cenas quais havia acabado de recordar.
O homem acomodou-se novamente na poltrona, jogando a cabeça para trás e encarando o teto.
Foram necessários vários tiques e taques do relógio. O alvo, que já sentia suas pálpebras pesarem, escorria a cada segundo alguns centímetros da poltrona, se ajeitando toda vez que percebia que pegaria no sono. Hermione, que se revirava para lá e para cá na cama, desistiu e voltou a encarar o homem.
—Há algo de bom nesse mundo pós Voldemort? —Hermione perguntou, cessando o silêncio e encarando Draco com aquele semblante curioso o qual ele estava voltando a se acostumar.
E então o homem colocou-se a pensar.
Havia algo de bom naquele mundo em que vivia?
Se a pergunta se relacionasse a pessoas boas, poderia apontar para ela mesma, a sua frente, deitada e com os olhos ainda avermelhados. De uma inocência tão grande, que se ele mesmo quisesse poderia matá-la sem dificuldade. Sabia que nem de longe poderia ser considerado um bom homem, mas aos olhos de todos aqueles que viviam naquele mundo bruxo, ele era tão bom quanto Potter havia sido em vida.
—Tem a Aysha. —Brincou, bagunçando os cabelos.
Um riso fraco de Hermione ecoou pelo quarto. Draco riu baixo, em sua companhia.
—Falando sério...Nada sobrou? —Insistiu em sua pergunta, deixando claro seu tom de quem não havia desistido de sua dúvida.
Draco pigarreou, pensando seriamente.
O que ele poderia ter considerado bom depois que Voldemort tomou o poder?
O dinheiro que recebia, com certeza, era algo bom.
Mas bom para quem, se a única pessoa a qual era beneficiada era ele mesmo?
A fama, inegavelmente era algo a se deleitar. A sensação de sair pelas ruas e ser tratado tal como um herói era realmente algo que o fazia sentir bem.
Bem, até o momento em que deitava sua cabeça sobre os travesseiros e sentia que todas as glorificações nada mais eram do que prêmios por ter acabado com a vida de inocentes, apoiado aquele que nada de bom tinha.
Involuntariamente, imagens das mulheres que conhecia vaguearam por sua mente. Todas elas seguiam um notável padrão. Loiras, altas, corpos cheios e cinturas extremamente finas. Seriam elas consideradas algo de bom em meio a aquele inferno?
E então, um novo pensamento adentrou a mente de Draco. A quanto tempo não dormia com outras mulheres? Obviamente, mais do que duas semanas.
Precisava de alguma mulher.
Sequer saia de casa nos últimos dias, e sabia que a isso se devia sua falta de sexo. Criou no mesmo momento uma lista mental, a qual prometia a si mesmo que em qualquer dia desses, sairia pela noite e voltaria apenas pela manhã.
Mas sabia, ao fundo de seu âmago, que nada disso seria considerado bom. Sequer ele mesmo apreciava seus atos, dormindo com mulheres que sequer perguntava o nome, e na consciência de que não precisaria se apresentar, já era conhecido mundialmente. Também sabia que era melhor assim, sem criar sentimentos, sem aprofundar raízes.
Era uma alma livre.
Livre e só.
Obviamente, não era a esses tipos de coisas boas as quais Hermione se referia.
O que mais era bom, além de dinheiro, fama e mulheres?
—A dedosdemel ainda está aberta...
O sorriso de Hermione se abriu genuinamente, e seu semblante de cansaço se transformou no mesmo instante, deixando que seus olhos cintilassem.
—Sinto tanta falta dos fios dentais de menta...E você, quais você gostava mais? —Perguntou, arqueando sua sobrancelha, que Draco pode perceber que havia sido reparada pela elfo.
—Sempre fui mais das chocobolas e das tortinhas de abóbora. —Argumentou, claramente deixando o sono para trás.
Draco sabia que precisava ocupar a mente de Hermione com coisas boas, e aproveitaria cada instante daquela conversa para provar, tanto a ela quanto a si mesmo, que poderia não ser o monstro a quem ela havia se referido, apesar de que sua própria consciência duvidasse muito disso.
A madrugada fria e sonolenta não demorou a transformar-se. Pela janela, linhas vermelhas e laranjas irrompiam por entre o horizonte, e a neve derretia gradativamente no chão, formando diversas poças entre os arbustos do jardim.
O aspecto sonolento da voz do homem acabou por se tornar um riso descarado, ao contar para Hermione suas proezas durante as viagens para Hogsmeade, no primeiro ano em que sua turma da sonserina visitou o pequeno povoado.
Havia feito uma goma de mascar tão grande que acabara por lançar como uma bola de neve diretamente contra os cabelos de uma terceiranista da grifinória de cabelos de vassoura, e por muitos dias foi exaltado por seus amigos devido a ótima pontaria.
A voz de Hermione, antes carregada de medo devido aos pesadelos, havia se transformado em uma perfeita representação do mesmo tom de reprovação que usava com seus amigos em sua adolescência quando soube que havia sido Draco que havia colado aquela maldita goma de mascar em seus cabelos, as quais precisou de diversos feitiços para conseguir consertá-los.
Lançou um de seus travesseiros diretamente na face mal iluminada do loiro, e acabou por errar por apenas alguns centímetros, fazendo com que as penas flutuassem, tomando conta de todo o quarto.
—Você tem sorte de eu não ter minha varinha, sua fuinha descabida! —Havia gritado entre risos e xingamentos.
—Você tem sorte que eu ainda tenha varinha, sua fedelha, caso contrário eu faria você juntar pena por pena... —Resmungou, apesar da clara vontade de rir que sentia, acenando com a varinha para o travesseiro e fazendo com que cada pluma retornasse dançante para dentro do tecido.
O quarto já não estava escuro. A luz do sol iluminava cada canto, e pelo som no andar inferior, Aysha já havia acordado e estava em prontidão planejando o café da manhã.
—Vou tomar meu café, Hermione, esse assunto de comida me deixou morrendo de fome. —Anunciou, levantando-se por fim da poltrona e aproveitando o momento para estalar todos os ossos que conseguiria.
O alvo saiu do quarto e desceu escada a baixo, passando a conversar com a elfo, que respondia suas perguntas animadamente.
Hermione se esticou na cama e enxergou uma solitária pena sobre o tapete felpudo. Recolheu-a e a guardou sobre a mesa, deixando que um sorriso calmo lhe escapasse dos lábios.
Foi tomar seu café da manhã.
Sua mente, antes perturbada com as imagens de seu passado, ocupava-se unicamente com as tortinhas de abóbora que haviam sido cortadas em formato de estrela, que estavam tão deliciosas quanto as de Hogsmeade.
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