Palimpsesto - Dramione
23 Pecados.
Notas iniciais
Lavardin, França.
02 de outubro de 2004.
A música que dançavam, antes ensoada na direção do antigo rádio no canto de um minúsculo quarto, por um instante se aquietou, substituída pela voz monótona de um radialista, que passara a noticiar com grande empolgação as notícias do dia, mesmo que os ouvintes daquela minúscula casa não prestassem a menor atenção no que se falava. No entanto, os pés de Draco continuaram a se balançar para um lado e para o outro, acompanhados pelo corpo de Hermione, que por vergonha, ou talvez por comodidade, não havia tirado as maçãs do rosto do peito de Draco um só segundo.
Um bom conhecedor de Hermione Granger saberia que havia um pouco de cada motivo em seu ato pensado.
O calor do corpo de Hermione ecoava pela pele de Draco, irradiando a quentura diretamente até seus dedos finos, que em algum momento daquela dança despreparada, haviam parado de tremer, e passavam a suar frio.
Draco manteve sua postura firme, e com os olhos fechados e a cabeça sob os cabelos castanhos, continuou a se movimentar. Não pareceu haver qualquer resistência da castanha, que por um mísero instante, ao menos, sentiu uma sensação de sobriedade misturada à certa segurança surgindo em seu âmago. A imagem de seus pais dançando na sala ainda era presente, no entanto, havia tomado uma certa distância considerada saudável dos pensamentos de Hermione.
Tudo que passava na mente de Hermione se resumia àquela antiga canção trouxa, que havia tomado novos significados ao se deparar com a presença de Draco Malfoy, o notável aroma amentoado que emanava dos braços do platinado, e aquela simplória dança, tão singular quanto tudo que havia acontecido nos últimos anos da vida da grifina.
Com os olhos mais avermelhados do que podia considerar um bom sinal, estava encarando o homem à sua frente. Um sorriso de gratidão perpetuava em seus lábios trêmulos.
E Draco soube que havia feito algo realmente certo, não se lembrava ao certo quando havia sido a última que vez havia tirado um sorriso semelhante àquele de alguém na sua vida, e poderia até mesmo ponderar a ideia de ter sido a primeira vez que recepcionava algo daquele porte.
E queria fazer algo a mais.
Quis, por um segundo, tomar todas as preocupações que perpetuavam sobre Hermione para si, e fazer com que aquele mísero sorriso grato se tornasse algo parte de sua rotina. Realmente, não era algo com que estivesse acostumado.
—Mademoiselle. —curvou-se em uma perfeita imitação de um trejeito de cavalheirismo, e com um sorriso ladino em seus lábios, puxou a mão de Hermione para si. Com a maior suavidade que seu corpo lhe permitia ter, tocou seus lábios sob o nó nos dedos pequenos, e como uma resposta automática, Hermione soltou uma breve gargalhada, como personificação do nervosismo, timidez e graça que aquele momento a trazia.
E ele riu também, os lábios ainda sobre a mão da grifina.
—X—
03 de outubro de 2004.
Hermione sonhava com algo que não lhe parecia muito palpável. Vultos e sombras sem significado algum voavam em meio ao que seria um jardim muito vívido e colorido, e uma música semelhante ao hino de Hogwarts, cantado por um coro especial de crianças redigidas pelo professor Flitwick ecoava ao fundo de sua mente. Estava sentada em um banco de praça velho e enferrujado, e podia jurar naquele momento que era capaz de sentir o cheiro do ferro úmido. Com o decorrer do sonho, o banco foi se diluindo, e ao se dar por si, Hermione se encontrava sentada sobre um imenso vazio, cercada de escuridão, como se alguém superior apagasse as luzes. As vozes do coro de alunos se transformaram de forma fantasmagórica em tons trêmulos e quase esganiçados, assemelhando-se severamente à um filme de terror que se lembrava vagamente, de sua infância.
Não via nada, não sentia o chão sob seus pés, e sequer sabia se deveria ir a algum lugar, apesar de ter a breve sensação de que deveria apenas esperar por algo, ou alguém, que ainda não chegara, mas que sabia que viria.
Com muito esforço, permaneceu em pé sob o próprio ar, procurando ocupar sua mente com palavras que não teriam a menor semelhança com aquelas pronunciadas pelo coro de aluninhos, o que agora poderia julgar como um grupo de trasgos urrando de fúria.
É apenas um sonho, Hermione.
Falou a si mesma, usando seu antigo e conhecido tom insatisfeito de quem dava broncas aos colegas quando não se empenhavam em realizar os deveres de casa.
Você nunca acreditou nessas coisas, lembra?
Repetia a si mesma, recordando-se vagamente das aulas da prof. Trelawney, onde era acusada de não possuir o menor espírito, ou seja lá o que fosse toda aquela baboseira de aritmancia.
O chão sob seus pés surgiu novamente, e o coro de trasgos cantantes pareceu silenciado perante os gritos e estampidos que ouvia com frequência. Seus olhos, já acostumados com a escuridão anterior, precisaram de alguns segundos para se ajustarem a forte iluminação a que havia sido submetida. Estava novamente em Hogwarts, e seu corpo corria, mesmo que sua mente pedisse que não se movimentasse, em direção à Harry e Rony, que a esperavam impacientes ao final de um corredor, as faces riscadas com linhas vermelhas, e o olhar focado em algo além do que podia ver.
Um bruxo que parecia muito enraivecido, caminhava com a velocidade que se permitia em direção a castanha, que por poucos milímetros conseguiu escapar do raio vermelho que se explodiu ao seu lado, seguido de um verde-limo que sabia muito bem do que se trataria.
Com os poucos milésimos que teve observando o rosto do comensal, teve certeza de que se tratava de um Antonio Dolohov, alguns anos mais jovem. Estava vivenciando novamente um de seus últimos momentos ao lado dos amigos, e nada parecia pior do que aquela sensação.
Viu Rony ao seu lado, com certeza mais saudável do que aparentava na noite do dia das bruxas, na mansão Malfoy. Corria com destreza, e seus pés pareciam terem um ótimo direcionador para onde iriam, diferente do Rony de atualmente, que mal sabia como pronunciar meia dúzia sem palavras sem gaguejar, e parecia não ter muito controle sobre onde seus pés iriam.
Harry, por sua vez, aparentava uma maturidade que Hermione não havia percebido naquela época no amigo. Parecia determinado e altivo, tinha uma meta a cumprir, e naquela mesma noite havia prometido à amiga que não a deixaria só. E foi realmente entristecedor precisar lembrar de que poucas horas depois o corpo inerte de Harry foi jogado, de qualquer jeito, sob uma vala abandonada, onde sequer teve a oportunidade de visitar, afinal foi encaminhada diretamente à Azkaban, sem a menor chance de dar um último adeus ao amigo.
Em meio aos passos rápidos e pequenas fagulhas colorido-prateadas, avistou os cabelos platinados de Luna Lovegood, que empenhava-se profundamente em lutar contra certa multidão de comensais. O olhar sonhador parecia ter se esvaído, substituído por uma mescla entre medo e urgência.
Hermione também não imaginara que seria a última vez que teria a chance de encontrar aquela corvina ainda em vida, afinal poucos segundos após ter perdido-a de vista, uma luz verde se apossou daquela pequena sala.
Novamente seus pés flutuavam, e a escuridão peculiar voltou ao seu ápice. As vozes dos tragos, no entanto, eram substituídas pela característica voz de Draco Malfoy, pronunciado palavras, que mesmo bem formadas, não eram abstraídas pela mente da castanha, que ainda vagava por outros lugares.
Por que Draco Malfoy está falando comigo?
Havia pensado, se esquecendo durante seus sonhos da parte em que o herdeiro Malfoy se encaixava naquela história.
Novamente a voz de Draco perpetuou-se em sua mente, agora fazendo um pouco mais de sentido.
—Eles...vin...es...eles...vin...
Piscou atordoada, ainda sem compreender o sentido das palavras recém ouvidas. Deparou-se com um Draco Malfoy, que possuía um semblante extremamente diferente da noite anterior. A leveza e um típico brilho nos olhos pareciam ter abandonado aquela face pálida, substituídas por algo semelhante ao que o homem carregava em seu rosto costumeiramente.
Draco caminhava com passos firmes pela casa, pronunciando-se tão rápido que a mente de Hermione, ainda em processo de acordar, mal podia captar meia dúzias de palavras jogadas ao ar. Foi até a cozinha, e em menos de cinco segundos já havia voltado, os braços carregados de todos os alimentos que havia conseguido saquear ainda no dia anterior.
Continuava a tamborilar com os pés pela casa, e parecia não ter percebido que Hermione se levantara da cama, e agora esperava, em pé, por alguma palavra que pudesse compreender, os braços cruzados e o semblante de perfeita confusão.
Draco voltou a atravessar o pequeno corredor, e espiando pelo lado de fora da janela, tornou a falar de forma tão rápida que apenas pequenos trechos podiam ser entendidos. Bateu a janela com força,de forma que toda a casa respondeu ao tremor, e teria continuado a andar para lá e para cá, bagunçando ainda mais seus cabelos platinados, se Hermione não batesse o pé sob o chão.
Os orbes cinzentos focaram-se mais uma vez sob a face atônita de Hermione, e engolindo seco, parou por um instante.
—O que está acontecendo, Draco? —Perguntou Hermione, buscando a pouca sanidade que esperava haver em seu tom de voz.
E o loiro a fitou. Parecia estar em um impasse, perguntando a si mesmo se deveria ou não falar o que acontecia. Suas pupilas, levemente dilatadas, passearam por todo o ambiente do quarto, parecendo procurar algo de extremo risco.
Respirou com profundidade novamente, e após tossir duas ou três vezes, parecia decidido a responder.
—Eles sabem onde estamos.
Naquele momento os pensamentos de Hermione pareceram não acompanhar a gravidade da situação. Já estivera à mercê da presença dos comensais algumas vezes, e de tal forma a ideia parecia tão aterrorizante que se negava a encaixar-se na mente da castanha.
Sem ideia do que pensar, esperou que Draco voltasse a caminhar de um lado para o outro, conversando sozinho como fazia, mas muito pelo contrário, permaneceu estático.
Por um mísero instante pareceu ter recuperado sua habitual postura, puxando todo o ar para si e fechando os olhos por tantos segundos que parecia não mais respirar, mas no momento em que as íris cinzentas se deixaram à mostra, não havia a menor estabilidade ali.
Gotas cristalinas passaram a cair com lentidão no chão, o rosto, antes pálido, se avermelhara gradativamente.
Hermione encolheu-se contra a cama, e sem coragem o suficiente para falar algo, abaixou a cabeça para permitir que seus pensamentos fluíssem para algum lugar.
O homem encolheu-se ao o chão, e ao recostar suas costas na parede, abraçou as próprias pernas enterrando seus fios loiros no meio.
Era a perfeita representação de uma criança em prantos. Tudo que podia ser notado era o tremor nos ombros do homem, que se movimentava, balançando seu próprio corpo.
Nada na mente de Draco parecia fazer sentido naquele instante, e as imagens de sua face estampadas contra os muros da cidade, alguns minutos mais cedo, lhe comprovava que seu maior temor havia se tornado uma realidade. Voldemort sabia onde estavam. E ele morreria em consequência disso.
Sequer se lembrava do quão rápido havia retornado à humilde cabana, os pés coordenando a si mesmos, os semblantes assustados dos cidadãos para com ele, acusando-o, do mesmo que estava escrito nos cartazes, de roubo.
Não era aquilo que ele era. Não era um assassino, como centenas de vozes gritavam contra seus ouvidos, no entanto sem coragem para se aproximar o suficiente para entregá-lo aos seus superiores.
E um sentimento estranho de injustiça se somava em seu peito, onde diversas outras sensações pareciam tomar conta.
Lembrava-se da face de Genevive ao encontrá-lo, já fugindo do centro da cidade. Era uma perfeita representação do que seria o semblante de sua mãe ao saber da mesma notícia.
—Você sabe que estão mentindo, não sabe, Mademoiselle? —Perguntou enquanto se abaixava na intenção de encarar o rosto da menina. Genevive corou fortemente, e após olhar para trás e ver a feição de sua mãe, respondeu de forma quase inteligível.
—Mamãe disse que não posso conversar com homens que matam, Monsieur.
Havia sido humilhante.
Um Malfoy não deve passar por tamanha humilhação.
Trincando seu próprio maxilar, endireitou-se em pé, e ao meio de xingamentos e gritos em sua direção, caminhou o mais rápido que pode em direção à cabana.
Era como rejeitar os xingamentos que recebia, chamando-o de comensal, durante o sexto ano. Devia apenas fingir que não escutava, passar reto, como se não se importasse com o que ouvia.
Ninguém precisava saber que se importava.
Mas ali, em frente ao semblante de Hermione, não conseguia mais esconder o desespero que sentia. Podia-se finalmente permitir chorar. Permitir que as lágrimas corressem pesadas por sua face, e sem previsão para acabarem, seguirem caindo com demasiada teimosia.
Sua cabeça pesava tal como o dia em que sua mãe havia morrido. Lembrava-se de ter ido dormir em meio aos prantos, o rosto avermelhado e a face inchada em decorrer ao líquido salgado que escorria de seus olhos, tão avermelhados quanto a face. No entanto, orgulhava-se do fato de não ter derramado sequer uma lágrima em frente ao público, o que acabou se assomando em seus atos de coragem.
Onde estava sua coragem agora? Onde estava a coragem que havia tido no dia da morte de sua mãe, que agora já não se mostrava presente? Perguntava-se infinitamente.
E como uma brisa que soprava em seus ouvidos, soube exatamente o que acontecera com ela.
Nunca esteve verdadeiramente lá.
Agora, no entanto, podia permitir que surgisse.
Com os lábios trêmulos e o corpo igualmente cansado, levantou-se e caminhou até Hermione, que não chorava, mas sim encarava o chão em demonstração de completo transe pensativo.
Secou as próprias lágrimas, e ocupando o pouco espaço que o quarto permitia, sentou-se agora de frente para Hermione. Os olhos castanhos se focaram na face do homem, e neles havia uma certa opacidade de desespero. E Draco puxou sua varinha do bolso da calça, e fazendo tamanho esforço que sentiu que seus músculos se debatiam contra sua vontade, forçou um sorriso.
E um sorriso semelhante ao que Hermione havia lhe oferecido na noite anterior pareceu transpassar rapidamente o rosto da castanha.
E Draco sentiu ter algo por que lutar.
—Vamos sair desse lugar, fedelha.
—X—
A humilde cabana em Lavardin já não possuía nenhum morador. Os trapos usados como lençóis e cobertas haviam sido abandonados a esmo no chão podre, e a cozinha parecia tão suja quanto na noite em que haviam acabado por desaparatar naquele lugar. Não havia mais nenhuma proteção sobre a casa, coisa com que Draco havia tomado o cuidado de fazer parecer que havia sido descuido.
Foi quando um par de sapatos lustrosos adentrou a porta, fazendo com que rangisse fortemente, e logo atrás, o par de botas de salto de Bellatrix Lestrange.
Dolohov e a comensal adentraram os poucos cômodos que a casa podia oferecer, e ao constatar que não havia ninguém ali, Antônio apertou a própria marca em seu braço.
—Eles caíram direitinho. —Esganiçou-se Bellatrix, seguida pelo riso frouxo do homem.
—X—
Dean Florest, condado de Gloucestershire, Inglaterra.
Muito longe de Lavardin, Hermione Granger e Draco Malfoy caminhavam por entre a neve cristalizada e os pinheiros, que insistiam em derrubar grossos galhos cobertos pela densa camada branca. Ambos haviam conseguido roupas de frio, o que havia sido fruto dos feitiços de Draco sobre o dono de uma loja de artigos esportivos. Junto deles havia uma barraca e alguns utensílios trouxas.
Hermione segurava entre o nó de seus dedos algo que havia encontrado na cabana, poucos segundo antes de aparatarem, escondido embaixo de uma tábua frouxa. Não sabia ao certo o que era, mas tendo em vista a elegância que o bracelete dourado e verde trazia, tinha certeza de que não era fruto daquela cabana tão pacata.
Criou uma nota mental de mostrar a pequena relíquia ao sonserino mais tarde, quando se encontrassem seguros na barraca, e guardou-o no bolso da calça estranhamente larga.
—Por que nós temos que usar essas roupas estranhas? —Perguntou Draco, analisando a própria jaqueta esverdeada como se fosse um animal peçonhento.
—Porque assim, caso algum grupo trouxa nos veja, vão pensar que nós somos montanhistas. —Hermione respondeu como se fosse óbvio, caminhando logo a frente.
Trilharam um longo caminho, para algum lugar que Draco não fazia ideia e onde era. Ao se depararem com o que seria uma campina coberta pela neve, Hermione decidiu que seria uma boa ideia armas a barraca ali mesmo.
Com certa dificuldade, a barraca foi montada de forma que pareceu suficientemente convincente de sua capacidade de não desmoronar, e ao analisar bem, por fim, Hermione concluiu:
—Você pode usar o feitiço indetectável de extensão agora, Draco.
No entanto, os olhos do platinado permaneceram fixos na barraca.
—Eu não faço ideia de como fazer isso. —Respondeu Draco, o que pareceram alguns segundos depois de analisar bem todos os feitiços dos quais se lembrava.
E num gesto inesperado, o homem ofereceu sua varinha a castanha. Hermione a olhou bem, sem ter certeza se era o que estava imaginando.
—Você é muito melhor com feitiços do que eu, fedelha.
E Hermione soube o que fazer.
E Draco estava desarmado.
Quando a varinha tocou os dedos de Hermione, uma estranha sensação de nostalgia se apossou de sua pele. E era como se a magia jamais tivesse ousado fugir de seus dedos.
Não cabiam em palavras o quanto Hermione sentira falta daquela sensação.
E com um sorriso motivador de Draco, ela prosseguiu até o lugar onde realizou o feitiço, seguido de todos os feitiços de proteção que poderia oferecer àquele lugar.
—X—
Mais tarde, dentro da barraca, que aparentava ter o interior de cerca de trinta metros quadrados, um homem altamente claro e uma moça de cabelos castanhos desgrenhados aprumavam-se em torno de uma fogueira fraca.
Apesar do frio extremo do lado de fora, próximo àquela fogueira nada mais havia além de conversas jogadas ao vento e explicações sobre como Hermione conhecia aquela floresta.
—Uma vez viajei para cá com meus pais, sabe… —Comentou, esticando as mãos para que o calor do fogo a alcançasse, os olhos claros de Draco fixos em cada movimento que realizava. —Foi a última viagem que fiz com eles, floresta do Aldeão, o nome. Estive aqui também com Harry e Ron, sabe...Enquanto fugíamos…
Hermione não concluiu a frase, apenas permitiu-se que o vazio as terminassem.
Draco, no entanto, pareceu aguardar por um final que não chegou.
E o som da madeira se chocando ao fogo era tudo que podia ser ouvido em meio ao silêncio quase ensurdecedor.
Enquanto isso, uma dúvida se aflorava como nunca na mente do sonserino.
—Você e o Weasley...Bem...Vocês namoraram por muito tempo, não? —Questionou, e a cada palavra pronunciada tinha mais certeza de que não devia ter falado nada.
—Eu e Ron? Ah...Não, não não não...—Hermione respondeu, sentindo suas bochechas corando fortemente. Jamais havia tocado naquele assunto com mais ninguém, e jamais imaginara que seria Draco Malfoy o ouvinte de sua fracassada história de amor. —Nós nunca tivemos nada...bem...e quando tivemos, você deve imaginar, já era tarde demais. —E ajeitou uma teimosa mecha de cabelos para trás das orelhas.
—Como assim não tiveram tempo? —Perguntou novamente, sentindo da mesma forma que suas palavras não respeitavam pelo comando de seu cérebro.
Hermione respirou profundamente, ajeitando-se contra a parede de tecido da barraca, parecia decidir se devia ou não compartilhar seu segredo com alguém como Draco, e ao analisar a feição curiosa do sonserino, e perceber onde se encontravam, percebeu que nada tinha a perder.
—Eu e ele nos beijamos, no último dia da guerra. Mas então, depois disso, só fui o encontrar novamente em Azkaban, sem a sanidade...Bem, não que ele já tivesse muita.
E riu baixinho.
E Draco não quis rir.
Sentia que aquele assunto era deveras particular, tanto quanto a piada interna que escapou dos lábios da grifina.
E então a risada se transformou em um resmungo. E pequenas gotículas de água escorreram dos olhos de Hermione.
—Eu nunca tive tempo, sabe...Para essas coisas, para mim...Sempre houve algo que me impediu...—Concluiu em meio as lágrimas, ainda sorrindo tristemente.
E em um ato novamente impensado, Draco a abraçou.
E como na noite anterior, Hermione desabou sob seus ombros. E Draco sabia que não podia desabar novamente. Não ali. Não naquele momento.
—E se eles nos acharem? —Perguntou a castanha, as palavras misturando-se a soluços e lágrimas.
E o sonserino analisou a parede estática sob as costas de Hermione.
—Bom...aí você foge, sabe-tudo.
—E você?
—Eu vou. Você foge.
E Hermione soluçou fortemente.
Seria a vez de Draco Malfoy pagar por seus pecados.
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