Palimpsesto - Dramione
24 Os efeitos do bracelete.
Notas iniciais
Wiltshire, Inglaterra.
03 de novembro de 2004.
Uma grande mesa de madeira escurecida e talhada ocupava espaço no centro da sala da mansão Malfoy. Os homens que ali rodeavam trajavam vestes escuras, longas e quentes, e no meio de conversas sobre economia e posses, grossas gargalhadas surgiam, esganiçadas.
Há tempos a mansão malfoy não exalava tamanha exuberância perante os comensais.
Nagini jazia enrolada em sua própria cauda, parecendo esperar pelo momento em que teria permissão para transitar entre os convidados presentes naquela reunião de tamanha importância, e até mesmo a cobra podia perceber o ar de seriedade que aquele momento possuía.
Taças de vinho rodeavam os comensais, e como se possuíssem pensamento próprio, repousavam com leveza a sua frente sobre a mesa, passando a ter a coloração do que seria o tipo preferido de quem o tomaria.
Sobre a madeira, diversos pratos servidos com comidas de extremo requinte eram o convite do lugar. O aroma do jantar era tão notável quanto os guizos de Nagini, esbaldando-se em desejo, não pelo alimento servido nos pratos, mas pela carne dos homens e mulheres, com os quais já havia se acostumado a usar como alimento.
Seriam esses os destaques da noite, se não fosse aquela frágil criatura flutuando acima de todos. Aysha parecia estar entre o sono e o desespero, com os olhinhos violetas fechados, mas as pálpebras descontroladas em aflição. Os bracinhos, mais finos do que nunca, estavam grudados contra suas costas com um forte nó. A única coisa que lhe cobria o corpo era um fino tecido, quase transparente, que tornava ainda mais evidente os ossos a flor da pele enrugada. O semblante de desespero e o sangue escorrendo pela linha que consistia em sua boca.
A algazarra tomava conta da sala de jantar, e o corpo flutuante de Aysha era notado pelos comensais que soltavam olhares de desprezo e sons enojados pela criatura, isso quando suas respostas perante a visão da elfo pendurada de forma violenta não eram risos debochados.
No entanto, um indivíduo de vestes negras adentrou o ambiente, e mais depressa do que se podia esperar, o silêncio tomou conta, ninguém ousaria intrometer-se naquele momento.
—Olá, queridos. —Lord Voldemort quase sussurrou, sentando-se na maior cadeira, que se encontrava no extremo da mesa. Esboçava em seu rosto um sorriso sem vida alguma, tal como a falta de luz em seus olhos de cobra.
—Boa noite, lorde. —Responderam em uníssono, tomando uma notável posição de seriedade.
E o sorriso de Voldemort se endureceu, se possível ainda mais, e após respirar profundamente em uma clara preparação de seu discurso, passou a soltar suas palavras de forma lenta e bem colocada.
—Como devem imaginar, o motivo de nossa reunião é para, a princípio, discutirmos sobre o destino do nosso possível ex companheiro, Draco Lucio Malfoy. —Um burburinho percorreu pela mesa ao ser citado o nome do sonserino, mas um breve respirar profundo do lorde foi o suficiente para que o silêncio se instaurasse. —Então...Nossa companheira Bellatrix Lestrange está comandando nossa missão de busca para com seu sobrinho. —O homem apontou para a bruxa, que sorriu de forma orgulhosa, estufando o peito. —Portanto, nesse momento, todas as informações que temos sobre o paradeiro deste homem serão ditas.
Houve uma breve pausa onde todos guiaram seu olhar até a face de Bellatrix, que após demonstrar demasiada felicidade por ser apontada por seu mestre, endireitou-se na cadeira, e olhando firmemente para Voldemort, pronunciou-se tal como um felino que recuava perante um evidente perigo, tão manhosa quanto predadora.
—Eu e Dolohov descobrimos seu paradeiro na cidade de Lavardin, MiLorde. —Checou brevemente a feição de Voldemort, e ao perceber um sorriso surgindo, continuou. —E chegamos a encontrar o traidor dançando com aquelazinha de sangue-ruim na sala em que o MiLorde esteve pouco antes o ataque ao menino Potter! Percebe a petulância do garoto?! E ainda por cima, nós, os comensais mais antigos, sabemos a importância de um objeto que permanece escondido naquela casa tem! —Exclamou de forma acusadora, e o sorriso do Lorde se fechou enquanto burburinhos voltavam a percorrer a mesa de jantar.
—Bellatrix, querida, você conferiu, para ter certeza de que esta jóia permanece lá?
Por um instante, a bruxa hesitou, mas após focar seus orbes escuros no ar, pareceu decidida que a resposta seria sim, tal como sua cabeça balançava, mesmo que seus olhos falassem o oposto.
—Calem-se!... MiLorde, ao encontrá-lo em um óbvio envolvimento com a garotinha Granger, eu e Dolohov providenciamos um motivo de fuga rápida deles, para que não possam se estabilizar em lugar algum e para que não conseguissem encontrar a Horcrux escondida, da forma como o senhor ordenou que fosse. —Endireitou-se novamente, e com um pequeno acenar de cabeça, concluiu sua fala, piscando atônita para o além.
Voldemort não mais sorria, e sim demonstrava em seu semblante uma mistura entre a decepção e a fúria.
—Esse garoto...confiei tanto em sua palavra...É realmente decepcionante que acabe por perder tudo que tem por culpa de uma sangue-sujo como aquela…Bellatrix?
A bruxa encarapitou-se sobre a mesa, seu corpo totalmente direcionado ao bruxo.
—Sim, MiLorde?
—Acho que o garoto já teve sua lição quando precisou fugir da cidade, e conhecendo-o como conheci, acredito que esteja com medo de voltar e implorar pelo meu perdão… É um covarde assim como seu pai foi. —Concluiu vagamente, acariciando a pele gosmenta de Nagini.
Novamente vozes desgostosas perpetuaram sobre a sala.
—Oras, poucos de vocês foram sempre fiéis ao meu nome! —Levantou a voz. —No caso do menino Malfoy, daremos ao garoto apenas uma chance de se explicar, e caso seja realmente a traição que imaginamos ser, irei direcioná-lo à Azkaban.
Bellatrix sacudiu a cabeça fervorosamente, a boca aberta de forma quase encantada.
—No entanto, se o garoto se negar a implorar pelo meu perdão, podem fazer o que quiserem com a garota, matá-la, ou seja lá o que decidirem, e depois tragam-no para mim. —Pronunciou-se de forma fria. —E se ele quiser mesmo voltar, ele que a mate em prova de sua fidelidade.
Os rostos sorridentes dos comensais pareciam satisfeitos com o veredito de Voldemort. Bellatrix e Dolohov voltaram a conversar de canto, bolando um novo plano para ser usado quando encontrassem o novo paradeiro do casal.
Em um extremo da mesa, Astoria Greengrass sorria de tal forma com os lábios avermelhados que parecia embasbacada, seus dedos com unhas longas e bem feitas passeando pela perna de um comensal de meia idade ao seu lado, que julgava-se dono de grandes posses.
Pansy Parkinson, no extremo oposto, parecia seriamente dividida entre o que seria um riso trêmulo e um semblante de confusão, enquanto saboreava seu vinho tinto.
Dolohov levantou uma taça de vinho seco, e ao ser saudado pelos colegas, falou:
—Ao sortudo que achar a sangue-sujo primeiro, que seja ela nosso prêmio!
E Voldemort levantou sua própria taça, claramente aprovando a ideia.
—X—
Dean Florest, condado de Gloucestershire, Inglaterra.
04 de novembro de 2004.
A barraca em que estavam Draco e Hermione havia tomado um forte tom de aconchego durante a madrugada, e isso se dava graças ao fogo que Hermione havia conjurado dentro de um pequeno frasco de vidro.
Em meio a tons bege e pastel, que eram as cores que a barraca fornecia, um lampejo vermelho e alaranjado tamborilava pelo ar, fazendo sombra nas paredes finas, e somado ao sol que acabara de se mostrar timidamente no céu, fez com que os olhos de Draco se abrissem.
Se havia se acostumado ou sua memória havia se tornado boa de repente, não sabia, mas no mesmo instante pode reconhecer seu novo lar temporário. Mexeu seu corpo pela cama de solteiro, e agradeceu mentalmente a Merlin por esta barraca ter oferecido duas camas, afinal suas costas passaram a doer com veemência devido às noites em uma cama de solteiro com Hermione.
Se lhe dissessem alguns meses atrás que naquele dia estaria em uma barraca precária, sem garantia alguma, sem o conforto de seu lar, jamais acreditaria.
E lamentava que isso fosse necessário.
E por um segundo desejou estar novamente em sua casa, as cobertas macias e o colchão que lembrava nuvens. As belas mulheres que podia levar quando bem entendesse, os comes e bebes entregues pontualmente por Aysha… Seus instantes a sós, unicamente com seu céu particular.
E até aquele momento ainda não havia ousado pensar nas perdas que havia tido.
Olhando para trás, para os luxos e mimos, e comparando-os com o lugar que estava agora, Draco sentiu uma forte pressão sobre seu peito, acompanhado da falta de ar que se mostrava presente.
Seus olhos cinzas passaram pela pequena cabana. As paredes de tecido balançando-se com leveza contra o vento do lado de fora, a pequena chama que se acendia entre sua cama e a de Hermione, que dormia emaranhada de tal forma que nenhuma parte de seu corpo podia ser visto, exceto um estranho objeto que depois tomaria nota de questionar o que seria.
E uma estranha raiva se apossou de sua mente.
A que estava se prestando?
Seus pés pareceram tomar o rumo da saída, e quando se deu por si estava do lado de fora, os pés descalços sobre a neve quase derretida, e o olhar tão vago que mal podia se dizer que aqueles olhos cinzentos tinham vida.
Caminhou quase mecanicamente até um pinheiro, que derramava grossas camadas de neve sobre a barraca, e sem pensar muito, descarregou toda a força de seu punho diretamente na madeira escura e espinhosa.
E mais uma camada líquida caiu sobre a barraca.
E mais um soco tomou partida contra a árvore.
E mais uma camada líquida caiu dos olhos de Draco.
Por que estava passando por isso? Por que havia se sujeitado a tamanha humilhação? Jamais seria essa a forma que um Malfoy deveria aceitar ser tratado.
Ignorando a neve que derretia em seus pés, e a água salgada que fugia de seus olhos, permitiu-se esmurrar o pinheiro até o último instante, xingando a si mesmo, no desejo que alguém respondesse, mas jamais esperava obter uma resposta.
—O que você está fazendo, Draco? —Questionou Hermione, observando curiosa da entrada da barraca. Seus cabelos estavam desgrenhados e suas roupas eram claramente maiores do que seu corpo pedia. Em sua face a perfeita representação de confusão se mostrava presente.
E um sorriso debochado escapou dos lábios crispados do homem.
—É óbvio, não? —Perguntou, direcionando seus braços conforme apresentava a floresta ao seu redor. —Tudo isso aqui não é pra mim, Hermione! Você não vê? Eu sou um Malfoy, fedelha! —Esbravejou, apontando para si mesmo. —Você acha que um homem como eu deveria estar passando por isso? Você acha que eu deveria me prezar a tamanha humilhação? Você realmente acredita que eu nasci pra isso?
E a testa de Hermione se franziu.
—Você quer dizer que não consegue continuar fugindo? —Perguntou com todo o cuidado do mundo.
—Mas é óbvio! —Naquele momento, Draco já não tinha controle sobre as palavras que escapavam de sua boca. Tudo que conseguia era permitir que fugissem, esbravejando e sentindo o desespero se esvair juntamente as palavras. —Granger, eu tinha tudo, você está entendendo? Eu tinha tudo na minha mansão, com um elfo ótimo, mulheres, fama, eu tinha tudo que eu queria, Granger! E abri mão de tudo para vir pra esse fim de mundo!
—Pode voltar à sua vida, então, Malfoy. —Concluiu Hermione, voltando para dentro da tenda. —Pode ficar tranquilo, eu não vou mais ser seu empecilho.
E Draco estava novamente só, cercado da imensidão branca.
E sem coragem para falar um sim ou um não, Draco preferiu não falar nada.
Sentou-se sobre a neve, e ignorando totalmente a umidade e o frio que seu corpo recepcionou de mau-agrado, jogou sua cabeça sobre os joelhos.
Estava decidido. Se Hermione fosse embora, iria se entregar.
Estava certo daquilo, seria fácil.
Deveria apenas fazer como sempre fazia. Poderia inventar para o lorde que havia matado a garota, e assim ninguém a seguiria, ou poderia mentir qualquer outra desculpa que poderia pensar mais tarde.
Não havia sido feito para aquilo. Não era um homem corajoso, não possuía a coragem dos grifinos e era ousadia demais para um homem como ele esperar que tamanha coragem surgisse sem motivos aparentes.
Seria melhor. Hermione estaria livre e ele voltaria a ter sua vida, perfeita e estável. Teria as mulheres, o dinheiro, a fama e os olhares invejosos, e seria perfeito.
Ao menos é o que tentava convencer a si mesmo.
Ouviu um baque do lado de dentro, e em seguida os cabelos castanhos de Hermione foram a primeira coisa a sair da cabana.
Draco sequer se moveu, e se limitou a seguir os movimentos da castanha com o olhar. Ouviu passos se aproximando, e ao levantar a cabeça encarou os joelhos de Hermione parada logo a sua frente.
—O que é agora? —Questionou, sua voz tão falha quanto o vento que ecoava.
—Isso provavelmente é seu, Malfoy. —Respondeu de forma fria, oferecendo um pequeno bracelete. —Bom, tem o nome da sua família cravejado na parte de cima, então concluí que deve ser.
E Draco pegou o bracelete entre os dedos, levantou-se e caminhou até a tenta. Poucos antes de entrar, perguntou, encarando o lado de dentro:
—Mais alguma coisa?
E Hermione encarou seus próprios pés. Em uma clara confusão entre falar o que pensava ou guardar apenas para si. Abriu os lábios para falar duas ou três vezes, e na quarta vez, decidiu que seria o que faria quando mais jovem.
—Na verdade, tenho sim.
E os olhos cinzas se encontraram com os castanhos.
—Pois então fale.
Hermione engoliu em seco.
—Você é um covarde, Malfoy.
Por algum motivo encolheu-se conforme pronunciava sua frase, como se esperasse um tapa, mas Draco apenas a encarava, os olhos ainda vermelhos.
—Ah sou? O que mais, Granger?
E por um segundo os olhos de Hermione perderam o foco, passeando entre o pinheiro, a neve, e Draco.
E uma onda de coragem lhe invadiu o peito, e a cada frase que viria a falar, daria um passo para trás, acolhendo-se como uma criança que esperava por seu castigo.
—Você é um covarde, Malfoy. Você se sente mal por não ter mais o conforto da sua mansão? Pois saiba que eu fiquei anos trancada em uma cela podre em Azkaban, ou será que você esqueceu?
E os olhos nublados de Draco voltaram a gotejar.
—Eu que tirei você de lá, Granger. —Afirmou, mais para si mesmo do que para a castanha, e sequer na sua mente aquilo pareceu algo a se gratificar.
—E você quer uma medalha por isso? Você fez apenas o mínimo que um ser humano decente faria, Malfoy, e se você está aqui agora, é porque você quis, eu nunca te pedi pra me tirar de lá! Se você é covarde o suficiente para não conseguir ao menos assumir as consequências dos seus atos sem me culpar por eles, Malfoy, você não precisava nem me tirar de lá! —Exclamou, gritando sem perceber.
Hermione sentia um crescente desespero se apossar de seu peito. Sentia que estaria só, e no fundo a falta da presença de Draco a incomodava, havia se tornado alguém em quem havia decidido confiar, para naquele momento estar precisando fugir daquele que tanto a ajudou. Sentia que a solidão daquela cela se aproximava novamente, e por cima de tudo, sentia que mesmo fora da cela, estaria presa caso fosse embora.
Mas é o que faria.
Não queria ser o fardo de ninguém.
E Draco apenas a observava, seus olhos pequenos para tantas lágrimas que pediam para escapar. Queria ser corajoso o suficiente. Queria poder ajudar.
Sentia-se o pior ser humano do mundo.
Hermione observou-o por alguns segundos, esperando por um pedido de desculpas que não viria. Encarou o chão por um instante, e sentindo-se o suficiente desagradável, virou as costas e caminhou em direção à barreira que os separava.
No próximo momento que olhou para trás, não havia mais barraca, nem Draco. O feitiço de proteção havia funcionado perfeitamente.
Do lado de dentro da barreira, Draco encarou Hermione, tendo absoluta certeza de que nada ela poderia enxergar. E virando-se de frente, encarando a floresta, a castanha sentiu que deveria seguir seu caminho.
E do lado de dentro, Draco Malfoy jogou o bracelete em suas mãos contra o pinheiro, e ali, esquecido, o objeto permaneceu, pequenos flocos de neve, quase desmanchando-se, cobriram a relíquia.
Foi quando algo gelado e trêmulo tocou o braço esquerdo de Hermione, e ao olhar para trás, ela não pode enxergar nada, mas sabia do que se tratava.
Draco estava a puxando de volta.
—Desculpe. —Ouviu a voz do homem rouca próxima a seu ouvido, e desejou muito poder enxergar Draco.
Sentia-se devastada.
E sem saber como, nem quando aquilo surgiu, sabia que ele poderia ser sua cura.
Draco observava as feições confusas de Hermione, e sabia que ela não conseguia enxergá-lo. E desejou que assim fosse, afinal ela não poderia enxergar seus olhos ainda tão marejados.
—Eu não devia ter falado essas coisas, fedelha. —Afirmou, observando Hermione se virar novamente em direção à barreira. Estavam próximos, e apenas uma linha quase transparente os separava.
Hermione abaixou a cabeça, e com os olhos marejados e vazando ainda mais que os do platinado, afirmou entre soluços:
—Por que você decidiu falar tudo isso agora? Por que me trouxe pra cá, pra depois me falar tudo isso?
Draco também não sabia o motivo de ter falado aquelas coisas. Sentia aquele sentimento de fúria escapando gradativamente de seu seu corpo, e algo diferente que nunca havia percebido em si mesmo se aflorava em seu peito.
E sua mão subiu até o rosto de Hermione, onde secou as lágrimas que se preparavam para cair. Hermione recuou no primeiro toque, sem saber de qual direção vinha, mas no próximo instante permitiu ser tocada.
—Eu não tenho ideia, fedelha. —Respondeu. —Mas sinto muito, não é o que eu penso, eu juro...Eu não acho que nada daquilo que eu tinha tenha um verdadeiro valor, Hermione.
E um soluço fraco escapou dos lábios de Hermione.
E estavam tão próximos.
E de forma que jamais havia acontecido, o coração de Draco parecia se acelerar cada vez mais, falhando inúmeras vezes.
E podia enxergar as pequenas sardas no nariz da castanha.
—Você é tudo que eu tenho agora, Draco. —Hermione sussurrou, entre lágrimas e soluços fracos.
—Você também é, fedelha. —Respondeu, os olhos fixos, mesmo contra sua vontade, nos olhos amendoados que procuravam um foco para observar.
Draco puxou Hermione novamente para dentro da barreira, e ela pode o enxergar novamente. Podia ver as lágrimas que cobriam os olhos que já haviam sido envidraçados, mas desta vez possuíam um terno brilho líquido, como se um mar calmo se apossasse das íris, ponderando-se entre o cinza e o azul.
E estavam tão perto.
E o coração de Hermione também estava acelerado, tal como não se lembrava de ter acontecido alguma outra vez. E uma necessidade de chegar, talvez um pouco mais perto daqueles olhos tão vivos...
E o nariz de Draco tocou uma bochecha de Hermione, e aquele ar gelado que Draco exalava misturou-se com o calor da raiva de poucos segundos atrás de Hermione, transformando-se em um agradável morno.
E um leve sorriso escapou dos lábios da castanha, que já não media consequências do que fazia. E um riso frouxo fugiu do homem.
Quando os lábios de Draco tocaram os de Hermione, eram tamanhas as sensações que a visão era apenas algo do qual não precisavam no momento.
Sentiu o calor dos lábios da castanha, a maciez que traziam, enquanto ela saboreava de algo tão diferente quanto bom, misturando o frio e a delicadeza.
Não sabiam ao certo o motivo de estarem fazendo aquilo. Não se recordavam de quando aquele sentimento se aflorou em ambos os corações, mas ali, naquele momento, era como se houvesse uma latência naquele pedido.
Foi delicado e calmo. Draco não ousou experimentar de algo que Hermione não gostaria, e tamanha sua surpresa em perceber que naqueles olhos castanhos, poucos segundos atrás, não havia medo, que algo semelhante a gratidão se irradiou em seu corpo. Draco mal poderia medir o tempo, apenas soube que não queria abandonar aquele lugar tão cedo, enquanto o calor da castanha irradiava diretamente para seu corpo.
Em um ato de ousadia, permitiu-se abraçar as costas de Hermione e puxá-la para mais perto, de forma lenta e gradual, com total cuidado para não espantá-la. E sem pensar duas vezes, ela se aproximou ainda mais, tocando aqueles fios loiros com uma vontade que surgiu de repente, mas parecia estar tomando conta de seu coração havia tempos.
Por que ela havia deixado?
Perguntou-se.
Por que estava se sentindo tão bem naquele momento? E por que ela não havia fugido?
Poderia ser um milagre, mas nenhum fantasma da mente de Draco pareceu pertinente a perturbá-lo naquele momento. Não haviam demônios nem comensais, e era como se os mesmos respeitassem aquela cena de tamanha peculiaridade.
Havia a neve, um beijo misturado a um abraço, o sentimento de desespero, de desejo e de medo.
E havia ali, em um canto da neve, sendo coberto a cada minúscula gota branca, uma Horcrux a ser destruída.
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