Notas iniciais
Olá, corujas! Primeiramente, desculpas pela demora! Estou em processo de mudança de casa e isso está me fazendo ficar SUPER SEM TEMPO, mesmo! Enfim, abraços e quero comentários, viu? hehehe

Wiltshire, Inglaterra.

06 de novembro de 2004.

Draco estava em seu quarto, e dormia em um sono profundo e muito mais calmo do que haviam sido suas últimas noites mal dormidas na calejada barraca à qual vivia. Respirou fundo, e juraria poder sentir o ar quente do verão adentrando suas narinas, acompanhado do aroma adocicado de alguém que lhe causou uma forte aceleração no peito.

Sabia que precisava ir trabalhar, afinal, era seu trabalho como medibruxo. No entanto, seu corpo pedia por outra coisa, e algo clamava pela pele a qual exibia aquele cheiro, cada vez mais presente. Tateou sobre as cobertas macias e acolchoadas, e tocou com a ponta de seus dedos uma pele morna e macia.

Naquele mesmo instante uma sensação saborosa adentrou seus pulmões, inflando-os.

E então Draco se virou.

Encontrou a face de Hermione tão perto quanto gostaria que estivesse. Suas pálpebras cobriam aqueles olhos castanhos que tanto que ver, mas não havia pressa em seus movimentos. Ele apenas a fitou. Hermione respirava pausadamente e com uma calma que apenas ela poderia expressar.

E quando Draco esticou os dedos para acariciar aquelas bochechas que no mesmo instante coraram e se diluíram em um sorriso preguiçoso, ele quis sorrir também. Ela abriu os olhos, deixando a mostra o motivo de espera do homem, e agora sua meta era poder ouvir aquela mesma voz. Calma, doce e ao mesmo tempo firme.

Hermione se movimentou na cama, e então, antes que seu sorriso desse lugar a sua fala, ela desapareceu.

E não havia mais nada lá. Nem os travesseiros macios e plumosos, nem as cobertas acolchoadas leves e ligeiramente frescas, e tampouco aqueles olhos castanhos os quais tanto havia esperado para admirar. Sequer a cama estava lá, não havia nada além do escuro e da sensação de cada osso de seu corpo remoendo-se e se contorcendo de forma que não se podia identificar qualquer parte onde não existisse dor.

Tudo que podia ver era o chão empoeirado próximo a seus olhos, e naquele momento era como se o mundo se resumisse a aquela imensa escuridão fétida.

Tentou mover seu dedo indicador, no entanto, este pareceu se negar friamente a obedecer sua ordem. Sentia cada parte de seu corpo, e isso o fazia saber que ao menos estavam todas presentes. Usou de toda sua força para que sua perna direita se mexesse, e com maior dor do que poderia esperar, sentiu-a movendo-se alguns milímetros.

Não pode evitar um gemido de dor.

Sentiu o chão gelado e úmido calejando seu corpo, e grossas gotas de suor misturado ao cheiro do sangue escorriam por sua face e pingavam grosseiramente contra o chão.

O cheiro de ferro fez com que o coração de Draco se acelerasse e a estúpida sensação de desespero lhe surgisse. E então se afogou. Tossiu fortemente, cuspindo grossas camadas de sangue que surgia como água dentro de sua boca.

Teria permanecido horas forçando o líquido vermelho que jorrava de sua garganta para fora, se não ouvisse sons de passos se arrastando para perto.

—Quem está aí? —Soluçou, cuspindo um último jorro de sangue. Sentiu seus lábios arderem com o sal do suor que escorreu por cima da pele aberta.

Uma risada gutural foi sua resposta.

—Eu perguntei quem está ai... —Murmurou mais baixo do que desejava, e sua voz saiu falha.

Uma dor excruciante se apossou de suas costas enquanto as galochas do comensal que lhe pisava afundavam contra sua pele ensanguentada. Seu rosto foi aproximado contra sua vontade do piso gelado, onde foi esfregado com violência. Sentiu a pele de sua face arder em resposta ao sangue que jorrava.

—Quem diria, ãhn... O queridinho de Lorde Voldemort submisso a um comensal de segundo grau. —Riu-se Dolohov. Draco não conseguia se mover, e o peso acima de seu corpo parecia exercer cada segundo mais pressão.

Sentia o desespero se assomando em cada parte de seu corpo.

Era seu fim, morreria ali.

Não haveria mais horcruxes para destruir, tampouco os dias que se arrastavam ao lado de Hermione. Tudo que havia vivido, todos os luxos que havia conquistado, em poucos segundos se esvairiam em nada.

E a isso se resumia sua vida naquele momento.

—Me mata logo. —Arfou em tom de súplica. —Por...Favor.

O comensal, cujos passos pesados circulavam seu corpo tão frágil naquele momento, sequer esboçou um sorriso. Em seu olhar havia nojo, como se Draco não passasse de um saco de sujeira.

—Você é fraco. Como seu pai. Um covarde. —Anunciou o bruxo, entredentes. Rosnava as palavras com o mesmo asco que seu semblante gritava.

O pulmão de Draco já não tinha ar para uma resposta a altura do homem, e tudo que conseguiu fazer foi fechar os olhos e relaxar os músculos das costas. Sentiu uma lágrima escorrer de seus olhos em direção a seu queixo, trilhando um caminho árduo e doloroso pelas carnes a mostra.

Dolohov se abaixou, ficando poucos centímetros acima do semblante sem vida de Draco, e sem a menor cerimônia, empurrou-lhe os cabelos loiros e manchados pela terra que havia no calçado do comensal.

—Quero que peça desculpas por ter abandonado seu mestre em defesa a uma sangue ruim. —Foi claro, e não havia o costumeiro tom de riso em sua fala. Não havia nada senão aquela ordem, e Draco sabia que haveriam ainda mais ameaças encobertas abaixo daquela fala. Sabia ainda mais, sabia que não seria perdoado, e tampouco sairia vivo daquele lugar.

Respirou fundo, imaginando se teria chances de sair vivo caso Hermione estivesse ali.

E então sua mente se acendeu com uma ideia, questionando-se sobre o que Hermione faria.

Uma linha fina escapou dos lábios de Draco e prolongou-se até as covas de sua bochecha. Apenas aquele movimento fazia com que seu corpo protestasse em resposta a dor, mas sair por baixo de Antônio Dolohov era a maior das humilhações possíveis. O comensal jamais havia sido considerado próximo de seu lorde, e se alguém lhe matasse naquele momento, desejaria que fosse alguém de culhão o suficiente.

Um Malfoy jamais se entregaria daquela forma.

—E porque eu faria isso? —Questionou, forçando sua voz. Sua garganta queimou e os lábios arderam com a pronúncia.

Estava mais do que satisfeito. Sua voz esbanjara o mesmo desdém o qual esperava, não havia submissão como temia que houvesse, e o tom presunçoso com o qual havia desacostumado a falar surgiu no momento que mais desejava.

Abriu os olhos a tempo de ver a ponta da bota de couro de Antônio Dolohov se aproximando rapidamente de seus lábios. Fechou novamente as pálpebras com força, mas descobriu que nenhuma dor poderia ser pior do que a que já sentia. O chute foi apenas um pequeno baque o qual já não mais fazia efeito. Estava anestesiado pela própria dor.

Tudo que podia sentir era o sangue jorrando com força de seus lábios, o sabor de ferro escorrendo por seus dentes e pingando calejadamente, misturando-se ao suor, as lágrimas, e à face alva de Draco.

Não tinha mais o que temer, pensou, era seu fim, e qualquer momento que prolongasse sua chegada seria como uma dádiva dada de bom grado pelo destino.

Esforçou-se para rir, mas por fim acabou-se apenas gorjeando e tossindo grossas camadas ensanguentadas para fora, e ao abrir os olhos, não mais conseguir diferenciar o chão negro de seu sangue, que se espalhara por todos os cantos.

—Onde estamos? —Alguns segundos passaram até que conseguisse pronunciar algo. Suas pernas e braços tremiam e Draco sentia como se a qualquer mísero instante seu corpo fosse capaz de desmoronar para um lugar ainda mais subterrâneo que o próprio chão.

—Você não está no direito de fazer perguntas, traidor de sangue.

Draco revirou os olhos, mesmo que não pudesse ser visto, contra o chão.

—Ótimo. —Respondeu por fim, torcendo para que a necessidade de atenção de Dolohov se pronunciasse com maior força. Seu esforço para falar era claro e dolorido, mas cada célula de seu corpo implorava para que fosse válido. —Vou ficar quieto para morrer então, pode voltar quando Voldemort decidir te obrigar a fazer mais uma tortura.

Draco pode jurar que via os olhos de Dolohov se alertarem quando o nome de Voldemort foi pronunciado, e a julgar pelo silêncio que pronunciava sua glória, a boca do comensal poderia estar formando um perfeito “O”. Dolohov odiava receber ordens, e ainda mais, precisar assumir que as recebia.

—Eu saio daqui quando bem entender. —Concluiu mais para si mesmo do que para Draco.

—Faça o que você quiser. —Murmurou Draco, tendo certeza de que cada segundo de fala calejava ainda mais sua garganta, mas lhe garantia mais um minuto de vida. —Aqui ou lá, não fará diferença.

—Pois eu vou ficar aqui mesmo.

—Onde? —Insistiu, torcendo para conseguir uma informação do comensal.

—Na masmorra da mansão, com você.

Dolohov não percebeu a gravidade do que havia falado, mas muito mais do que rápido Draco havia conseguido descobrir onde estava. Evitou o sorriso que insistia em lhe cortar os lábios ainda mais, e resignado, cerrou os olhos. Esperou Dolohov ir embora, desejou que seus passos fossem ouvidos ao se distanciar, mas podia ouvir com clareza a respiração pesada do homem, em pé a sua frente, encarando-o como se decidisse o que fazer com um pedaço de carniça.

—Nós conseguimos a garota. —A voz de Dolohov veio, desta vez, em um tom diferente. Não parecia estar mentindo, e tampouco blefando. Havia um riso miserável escondido naquela frase, o que fez com que a atenção de Draco voltasse ao bruxo.

—Está mentindo. —Rosnou, esforçando-se para se levantar com os cotovelos. Sentiu uma pontada sobre sua coluna, e mais uma vez sua face era esfregada diretamente ao chão.

Draco sentia a necessidade de se levantar. Precisa levantar. Sentia que se não levantasse e desse um fim no comensal, suas células arderiam eternamente naquele maldito fogo que lhe cobria todo o corpo. Estava mentindo, precisava estar mentindo.

Não aceitaria que tocassem em Hermione.

O riso de Dolohov mais uma vez ecoou nas paredes úmidas da masmorra, e mais quente do que nunca, Draco sentiu-o se aproximando de sua face. Levantou o olhar a tempo de encarar o bruxo, tão perto, mas ainda tão escuro que tudo que enxergava eram meros semblantes em meio ao forte odor de cigarro e whisky barato.

Os olhos negros do bruxo encontraram os de Draco, e sem piscar, sorrir ou desafixá-los dos olhos azuis, ele pronunciou, tão pausadamente o quanto sua voz grave lhe permitia.

—Ela está onde era seu quarto, sabe? Agora, na verdade, é meu. Está amarrada nas alças da cama, e por Merlin...aquele corpo...Conheci ele todinho, ainda nessa manhã. Você foi um homem de sorte, garoto, uma pena que agora aquela vadia seja min...

Dolohov não conseguiu terminar a frase, Draco havia se levantado tão rápido quanto nem imaginava ter forças para fazê-lo, e no outro instante estava empurrando o comensal contra a parede, ignorando o cheiro pavoroso, aproximando-se o suficiente para que conseguisse enxergar cada poro do homem.

—Solte...ela... —Rosnou para o bruxo, e antes que conseguisse falar mais alguma coisa, os nós de seus dedos curvavam-se em direção ao estômago do bruxo. Foi apenas um soco, tudo o que conseguiu oferecer, quando o homem o levantou pelo colarinho da camisa e empurrou-o, desta vez, contra a parede oposta.

E ao tentar se mexer, Draco descobriu que havia desperdiçado toda força que lhe restara. Encarou Dolohov com a pouca dignidade que lhe restava, e como o último recurso que conseguiria imaginar, cuspiu contra a face suada do bruxo.

Um soco irrompeu contra sua face, e foram tantos chutes contra seu estômago que já não conseguia diferenciar o sangue que escorria dos lábios e o sangue que irrompia de suas vísceras, fazendo com que vomitasse.

E estava no chão naquele momento, sentindo chutes irrompendo em todo seu corpo, e não sabendo diferenciar as partes sólidas de seu corpo do líquido vermelho que irrompia e jorrava para todos os lados. Era pior do que o sectumsempra. Era pior do que a dor de perder seus pais. Só não era pior do que imaginar o que Hermione havia passado naquela manhã.

Ouviu o som de algo semelhante a água em abundância, e sem forças para abrir os olhos naquele momento, e também sem vontade de enxergar mais uma vez a asquerosa face de Dolohov, preferiu mantê-los fechados. Ouvia a água se aproximando cada instante mais, como se pudesse inundá-lo, e desejou que assim fosse.

Ouviu finalmente os passos de Dolohov se afastando, e junto aos pingos de sangue que escorriam de seu rosto, conseguiu conta-los.

Um...

Dois...

Três...

Quatro...

Cinco...

A luz que emanava da porta aberta não cessou quando a mesma fechou-se em um baque surdo, e assim que imaginou que estaria seguro, Draco sentiu sono. Sentiu cada mísera parte de seu corpo implorando pelo momento em que sua consciência se tornasse anuviada.

Mas também sentiu a água se aproximando, e junto a ela, um calor que teve certeza que já não era mais confortável comparado ao frio que sentia poucos minutos antes.

Tendo certeza de que não se depararia com Dolohov, abriu os olhos, e então descobriu que o som que ouvia não era de água, e o calor também não era o que salvaria sua vida.

O fogo que Dolohov havia invocado parecia se apossar de cada centímetro conhecido daquela maldita masmorra, e o calor que trazia passou a fazer com que a pele de Draco, antes pingando sangue, misturasse o líquido vermelho ao suor.

Draco arrastou-se pelo chão, realizando todas as tentativas que pode para que levantasse, mas seus ossos pareciam desmotivados a sair dali, e era como se seu corpo implorasse pelas chamas que se aproximavam como uma cobra preparada e ansiosa para seu bote.

Sentiu a fumaça se aproximando de suas narinas, e desejou que naquele momento desmaiasse por fim, para que não fosse capaz de sentir as chamas de apossando de seu corpo, mas não foi o que houve.

Sentiu seus sapatos derretendo em proximidade com o fogo, e um desespero crescente apossando-se de seu coração, que antes acelerado, falhava duas ou três batidas. Virou o rosto com urgência, no mesmo instante em que uma labareda se aproximava de seus olhos.

E sentiu como era a sensação de estar no inferno. Teve a capacidade de sentir sua pele, antes ensanguentada, sendo dilacerada pelas chamas como se nada fosse. Sentiu o motivo de sua fama com as mulheres se esvaindo, e em um momento de desilusão, questionou-se se Hermione ainda o desejaria daquela forma.

Foi quando se lembrou de que nem ele nem Hermione sobreviveriam aquilo.

Arrastou-se mais uma vez, sentindo o fogo perseguindo-o a ponta dos pés, e metade de seu rosto dilacerada de forma que não podia ter certeza se havia alguma pele ainda naquele corpo.

Sentiu a morte ainda mais próxima, sentiu que seria naquele momento que sua vida acabaria, e sentiu seus olhos se fechando, mesmo sem ter certeza se iria ou não acordar mais tarde, ou se seria aquela a última visão que teria, o fogo em brasas perseguindo-o, o fogo maldito correndo atrás de sua presa como se fosse um alimento muito desejado.

Sentiu seus músculos relaxando, e quando o calor do fogo passou, teve certeza de que não haveria mais nada que lhe restasse de vida.

Então seria assim a morte? Um vazio, escuro e desesperador?

A sensação de liquidez, de que seu corpo flutuava sobre o mar gelado?

Esperou para que aquela sensação fosse embora, desejando que após ela, uma espécie de paraíso existisse, mas nada daquilo foi, e sim assomou-se cada instante mais.

E quando sentiu um par de mãos puxando seu corpo em algum lugar que sequer podia nomear, soube que ainda não havia acabado.

—X—

Paris, França.

—X—

Hermione caminhava pelas vielas da cidade. Não sabia bem, ao certo, como havia aparatado logo naquela cidade, mas tinha certeza de que devia estar naquele lugar. Abraçava-se a si mesma enquanto se protegia do frio, carregando apenas um grosso casaco de lã batida no corpo, e uma mochila que, pela aparência, não parecia carregar tudo que havia conseguido colocar dentro dela, antes de fugir, deixando a barraca para trás.

Havia ouvido tudo. Ouviu cada crucio conjurado no corpo de Draco, e desejou do fundo de seu ser poder sair para ajuda-lo, mas sabia que daquela forma, teria o feito sofrer sem nenhum motivo. Teria entregue tudo aquilo que ele lutou para proteger.

Carregava no bolso da blusa a varinha de Draco, e ainda sem se acostumar em carregar uma varinha novamente, conjurava pequenos feitiços não verbais a cada instante em que se via só pelas ruas, transformando pequenas baratas em grandes ratazanas, e em um momento ajudando um pássaro com a asa machucada a voltar a voar.

Não sabia, ainda, aonde iria se alocar. Sabia o que precisava fazer, e a primeira coisa que havia carregado consigo no momento dos ataques comensais havia sido aquele maldito bracelete. Sabia que precisava destruí-lo, e sabia que a resposta, seja lá para o que fosse, estava naquela cidade.

Ouviu os homens da cidade assoviando enquanto caminhava, e apressou o passo. Pouco depois, acabou trombando com um rapaz de semblante preocupado, que no mesmo instante demonstrou um sorriso cafajeste, o que causou náuseas em Hermione.

—Desculpe. —Murmurou, tentando contornar a figura grande como um guarda roupa do jovem, que se aproximou evasivamente.

—Eu posso te desculpar se você ir ali comigo. —Sussurrou o jovem, segurando com firmeza os braços de Hermione.

A castanha pode sentir os olhos se enchendo de lágrimas antes de segurar com força a própria varinha, e fingindo usar a força dos ombros, empurrar o homem contra uma lixeira próxima, deixando-o embasbacado.

E saiu correndo novamente, tampando os lábios para que sua voz não se lamuriasse tanto quanto as lágrimas que escorriam descontroladas.

Sentia medo do lugar onde estava, e sentia-se ainda mais só ao imaginar que havia deixado Draco para trás. Sentia culpa. Sentia que tudo que estava acontecendo no mundo bruxo era sua culpa, e por um mísero instante, soube como Harry Potter havia se sentido em seus anos de vida.

Não conseguia organizar seus pensamentos. Sua consciência divagava entre os momentos que teve com Draco, os beijos que pareciam ter pertencido a outra dimensão se comparados à seu momento atual, a Horcrux encontrada, cujo não sabia merecer o sentimento de esperança ou desespero por não saber como destruí-la, e ao som dos gritos de dor de Draco, que ecoaram por entre todas as árvores daquela maldita floresta, que nunca mais seria a mesma, não após carregar tanta covardia e sofrimento.

Adentrou um beco, e ao aprofundar-se, encontrou um pequeno e magro gato preto lambendo a própria pata.

—Posso te fazer companhia, garoto? —Perguntou Hermione, secando as frágeis lagrimas que escorriam de seus olhos. O gato encarou-a por um instante, como se avaliasse sua pergunta, e por fim, caminhou poucos centímetros para o lado do papelão, deixando espaço suficiente para que Hermione pudesse sentar.

E ela se sentou ao lado do gato, observando-o com a mesma curiosidade que possuía no olhar, no entanto, dessa vez, com maior dor do que já havia sido visto.

—Essa vida é tão difícil, não? —Perguntou mais uma vez, olhando diretamente para os olhos esverdeados do bichano. O gato encarou-a com o mesmo julgamento cujo um humano lhe encararia ao vê-la falando com um felino.

Hermione suspirou, e por fim, puxou da mochila, onde precisou enfiar o braço inteiro, um saco de pães que havia conseguido usurpar a tempo. O gato, com mais interesse do que antes, aproximou-se, e cafungando no braço da castanha, conseguiu conquistar um miolo do alimento.

Hermione jogou a cabeça para trás, e imaginando onde estaria Draco, deixou que as lágrimas escorressem por seus olhos, friamente.

O gato se aproximou, e largando o pão de lado, aconchegou suas orelhas curtas contra o peito da castanha.

Pareciam ter passado segundos quando o mesmo pássaro que Hermione havia ajudado a voar assoviou logo a sua frente, fazendo com que o gato se alertasse e se direcionasse, aos pulos, até o pássaro, que por sua vez pareceu não dar atenção ao bichano. Em seu bico havia um pedaço de papel rasgado e com a ponta queimada, e ao ver um animal tão extraordinário, Hermione não se demorou a puxar o papel de seu bico.

No bilhete, em perfeita mistura de runas, que Hermione agradeceu a Merlin por ter estudado, em meio a códigos e desenhos que teve certeza que serviriam apenas para despistar seja lá quem interditasse aquele papel, se encontrava a caligrafia malfeita e apressada de Ronald Weasley.

Hermione sentiu o corpo retesar.

Draco está vivo. Eu e Gina ajudamos ele a escapar do fogo maldito.

Ele nos contou sobre as Horcruxes, e pelo que eu e minha irmã andamos ouvindo por aqui, o que vocês procuraram pode estar em Paris. Se eu fosse você, aparataria agora mesmo por lá.

Estamos com você.

W & M

Notas finais
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