Palimpsesto - Dramione
30 Luzes delirantes.
Notas iniciais
Wiltshire, Inglaterra.
Draco sentiu uma mão macia e quente lhe puxar os cabelos do rosto e arrastar os fios até o topo de sua cabeça. Uma sensação ardilosa percorreu todo seu corpo, parecendo caminhar e dançar entre sua face e sua coluna.
Puxou o ar em resposta a dor, e percebeu que ainda existia ar nos seus pulmões, mesmo que defasados pelo calor do fogo.
Então estava vivo.
A mão empurrou-o contra algo, e colocou seu corpo contra o chão. Imaginou que fosse Hermione, e desejou conseguir ao menos firmar os músculos para que ela não precisasse levantar tamanho peso.
A mesma mão tocou seu pescoço, e mesmo sem conhecer tão bem o toque de Hermione, sabia que não era ela. Os dedos eram mais longos e talvez mais grossos, enquanto tinha certeza que os da castanha eram de extrema delicadeza, e beiravam os limites da fragilidade, enquanto aqueles que pareciam realizar algum procedimento doloroso possuíam pequenos e notáveis calos de esforço físico.
Mexeu a cabeça em direção a dor que sentia, e então pode notar o que de mais estranho havia.
Deparou-se com luzes.
Diversas formas, cores e imagens se mesclavam e dançavam frente a sua visão. Pequenas estrelas que se mesclavam em cores que pareciam ser a mistura de tudo que ele já havia visto, transformavam-se em galáxias que piscavam, aumentando e diminuindo, tudo frente a seu olhar.
Imaginou se poderiam ser frutos de sua imaginação, afinal conhecia aquelas estrelinhas imaginárias, sabia, por suas aulas de medibruxaria, que seriam sintomas delirantes ou de desmaio.
Mas ainda estava consciente.
Lembrou-se de quando criança, quando, antes de descobrir as graças da magia, brincava às escondidas de seu pai, apertando os olhos com força para que conseguisse enxergar aquelas mesmas estrelas, galáxias e formatos. Era lindo.
No entanto, nada podia ser mais desagradável do que aquela sensação neste momento. Era difícil definir se o que via era claro ou escuro, ou até mesmo se eram todas as cores mescladas, ou nenhuma cor.
Era extremamente escuro e desesperador, em meio tempo, a claridade parecia camuflar-se ao breu.
Não sabia o motivo daquilo.
Teve a certeza de estar delirando. As imagens se camuflavam em outras, de forma delirante e quase psicodélica. Sentiu sua cabeça doer, e acompanhada a dor, diversas partes de seu corpo se mostraram tão machucadas quanto sua visão.
Tentou falar. No entanto, nada lhe ocorria. Não sabia o que falar. Não sabia sequer se era o certo a se fazer.
É apenas um sonho, Draco. Nada mais do que um mísero sonho.
Mas e se fosse realmente um sonho?
Aceitar que estava sonhando era aceitar que estava inconsciente enquanto Hermione precisava de socorro. Ela estava com ele. Estava com Dolohov. Ele precisava ajuda-la, mas em seu ápice de egoísmo, esqueceu-se e perdeu tempo analisado ridículas luzes coloridas e inebriantes.
Mas se estivesse realmente sonhando, não teria a capacidade de pensar nisso, teria?
Sabia que havia sido salvo de um incêndio. Caso contrário, seria impossível estar pensando, afinal, sequer vivo estaria. Havia sentido uma mão arrastando seu corpo para longe do calor enquanto sua pele parecia deixar um rastro ensanguentado pelo caminho, cortando-se contra o chão irregular. Tinha certeza de que estava vivo.
Sentia cada célula de seu corpo doer, queimar. Era como se a cada instante o fogo ameaçasse voltar a suas origens, e assim tomar o resto de seu corpo. O fogo parecia queimar, não mais sua pele, mas suas entranhas.
O cheiro de tecido queimado era inconfundível, e de forma ainda mais desesperadora, o de pele também.
Recordou-se mais uma vez das palavras do comensal, Dolohov. Pode repassar todas as cenas em sua mente. O bruxo o circulando, ameaçando-o. Recitando e se vangloriando de seus momentos com Hermione Granger.
Ele não podia estar daquele jeito. Precisava sair dali. Seja onde for que estivesse, precisava levantar.
—Fe...lha —Foi tudo que conseguiu suspirar ao descobrir que sua garganta parecia ter guardado o fogo que havia restado.
—Ele está delirando. —Resmungou uma voz conhecida, no entanto tão distante que não poderia decifrar quem seria seu dono. Sentiu sua testa franzir. Era feminina e aguda, mas não era Hermione, não naquele tom imperativo.
—Não está não, eu sei que não. —Respondeu outra voz, mas essa Draco reconhecia. Sentiu seu corpo murchar quando percebeu que estava junto com os Weasleys e não com Hermione, o que provava onde ela estaria. Com dolohov. Ainda com Dolohov.
E teve uma ligeira certeza de que levando em consideração o tempo que já haviam perdido, teve certeza de que Hermione estaria morta.
E ele também desejou estar, conforme um peso lhe espremia a garganta fazendo-o sufocar, e desejou que aquilo não cessasse.
Não queria levantar. Não via sentido em correr daquele inferno em direção a um cadáver.
Não sentiu mais vontade de falar nada. Não sentia vontade sequer de respirar, e numa tentativa decididamente infantil, achou que seria conveniente prender a respiração.
Não demorou para que sentisse seus pulmões arderam e respirasse profundamente, arqueando o corpo e sentindo que tudo parecia quebrado e mutilado.
—Eu disse que estava delirando, tentou parar de respirar. —Afirmou Gina com convicção e Draco sentiu seu corpo sendo puxado novamente contra o chão. Sentiu suas costas tocarem o piso com força e não conseguiu obter nenhuma resposta de objeção.
—Isso não é delírio. —Desdenhou Rony, e Draco sentiu que sua voz chegava a tremer com um riso nervoso. —Ele é um idiota.
Draco quis levantar. Desejou estar bem o suficiente para socar a cara do weasley. Será que não compreendiam a gravidade daquela situação? A esta hora, Hermione provavelmente já estaria morta por Dolohov, e caso não o tivesse feito, estaria, no mínimo, sendo violentada mais uma vez.
Ela não merecia aquilo. Não mais uma vez. Não por sua culpa.
Imaginou, contra sua vontade, a cena que seria seu pior pesadelo. Enxergou, entre as galáxias e pontos coloridos em sua mente, a imagem de Hermione se debatendo contra o corpulento bruxo. A viu gemer de dor. Lembrou-se seu corpo nu e magro, de todos os ferimentos, as linhas de sangue e hematomas, e sentiu uma ânsia se apoderando de suas vísceras.
Sem permissão de nenhuma parte de si, virou-se contra o chão. Sentiu jatos de sangue sendo expulsos de seu corpo diretamente no chão, e percebeu que não conseguia parar de vomitar.
Estava apoiado contra o chão. Seus braços tremiam e seu corpo arquejava. Lágrimas involuntárias escapavam de seu olho enquanto toda sua pele ardia em resposta.
Não sabe ao certo quanto tempo ficou assim.
Sentiu olhares firmes sobre seu corpo e uma mão, desta vez não a de Ginevra mas a de Ronald, puxando-o para o chão mais uma vez pela nuca. Sentiu seu coração batendo tão forte que o fez ter certeza q romperia sua pele, e suas costelas pareciam fazer força para continuarem no mesmo lugar.
Ergueu o rosto e tentou abrir os olhos, no entanto, não sentia vontade de enxergar. Não queria enxergar um mundo onde Hermione não estivesse bem, e tampouco exibia qualquer desejo em encontrar a feição de Ronald Weasley.
Contrariado, forçou seus olhos a se abrirem.
O que havia ali era um esboço da feição de Gina, enquanto sentiu que metade de sua visão continuava a lhe exibir aquelas malditas estrelas e formas, a cada instante mais incômodas e irregulares.
Sentiu um desespero crescer em seu peito.
Involuntariamente ergueu seus dedos até a altura de seu olho esquerdo, e a primeira coisa que percebeu foram a ausência dos cílios ao primeiro toque, e aprofundando-se, tateou a pele irregular e dolorida. Sentiu seus dedos contra o contorno de seu olho, e teve certeza de que não havia mais íris ali.
Parecia estar tocando o rosto de outra pessoa.
Não podia ser ele.
Era ridículo.
Olhou para sua própria mão, como se milagrosamente seu olho esquerdo fosse aparatar ali, mas não aconteceu.
Precisava fazer alguma coisa. Não poderia ficar daquela forma.
Mas tinha coisas mais importantes para lidar naquele momento, muito mais importantes do que seu maldito olho esquerdo.
Mais uma vez encarou Ginevra, que estudava com cautela cada movimento do loiro, e pouco depois de engolir seco, sua voz saiu rouca e falha.
—Hermione.
E então Gina sorriu fraco.
—Ele mentiu pra você, ela não está aqui.
E sem conseguir evitar, Draco também sorriu, sentindo o nó em sua garganta se afrouxar.
—É... foi uma loucura quando você chegou. —Foi a vez de Rony falar, com um sorriso travesso nos lábios. Parecia contar uma aventura emocionante e aquilo fez que Draco sentisse ainda mais vontade de soca-lo, se não estivesse tão confuso.
—Você estava...
—Louco? —Gina riu como se ouvisse uma boa piada, jogando a cabeça para trás, os cabelos curtos e falhos alcançando sua nuca. —Ronald é um sobrevivente.
Draco estava confuso. Olhou para o casal de irmãos que sorriam com cumplicidade um ao outro, sem entender nada do que acontecia. Ronald estava louco, lembrava-se disso, ele mesmo o havia diagnosticado.
Com muita dor, conseguiu levantar do chão e caminhar pela masmorra que sua própria família havia criado, e agora o encarcerava. Odiou aquele lugar com todas suas forças, e mesmo com a visão turva conseguia enxergar baratas e aranhas caminhando em meio as poças de um sangue tão seco cujo teve certeza de que estava ali a mais tempo do que ele possuía de vida.
E mais uma vez, aquela voz que o maltratava o encontrou.
É essa a podridão de sua família, Draco.
Isso que sua família fazia com os sangues sujos e traidores de sangue, e você sabe que se fosse necessário, teria feito também.
Você é ridículo.
A semanas que não a ouvia com tanta clareza, mas tamanho era seu ódio, tamanha sua fúria, que sequer impediu-se de ouvi-la. Precisava daquilo para fomentar sua ira, para dar um motivo para que desejasse socar as paredes.
Com passos lentos, sentindo que a qualquer momento desabaria, alcançou um balde de água, cuja aparência lhe causava náuseas. Era escura e macilenta. Encarou seu próprio reflexo no líquido, e agora a causa das náuseas era a visão de sua face.
Todo o contorno de seu olho esquerdo parecia ter desmanchado e sido substituído por uma ridícula e frágil camada de carne. Onde antes existia sua íris clara, cuja qual se orgulhava, agora nada havia senão uma córnea perolada cercada pela esclerótica avermelhada e sem vida.
Era horrível.
E mais uma vez a voz que lhe habitava foi capaz de acusa-lo de forma que concordava.
Agora sim parecia o monstro que era por dentro.
Engoliu em seco mais uma vez, sentindo sua garganta sendo cortada pelo ar.
—O que é essa água? —Perguntou ao sentir mais uma vez os olhos azuis dos Weasleys o cercando.
—Pra tomar. —Respondeu Ronald, que parecia não ver mal algum em ingerir aquele líquido nojento.
—X—
Durante aquela manhã, horas foram necessárias até que o estômago já vazio de Draco desistisse da ideia de vomitar a cada olhar que passava pelo lugar. Sentia seus lábios, estômago e corpo arderem como nunca, e a cada movimento seu, alguma cicatriz de queimadura se rompia.
Mas como havia dito Gina, estavam vivos.
—O que vocês estão fazendo aqui embaixo? —Perguntou depois de um tempo, quando o silencio voltara a ser o maior som das masmorras.
—Aconteceram muitas coisas ontem. —Rony se adiantou. Mesmo em estado de sanidade, Draco percebeu que o ruivo ainda possuía o costume de mover-se de forma repetitiva, como se os anos de atuação não saíssem sem deixar alguma marca. —Chegaram com você aqui. Riddle ficou possesso quando soube que você ajudou Hermione a fugir e mandou todos os comensais pra casa.
—E então ele proibiu os comensais de levarem a gente, falou que não merecem servos. —Completou Gina. —Mas ele também queria ficar a sós com a nova esposinha dele. —Gina fez aspas com o dedo, franzindo o rosto com a feição enojada. —Então mandou a gente descer.
Draco estava prestes a perguntar quem seria a esposa do Lorde quando seu pensamento foi interrompido.
—E pra sua sorte, acharam que não iriamos ajudar você pelo que você fez... Não que eu não quisesse, mas eu acho que Hermione iria querer então...
Rony foi interrompido pelo riso irônico de Draco.
—Não seja ridículo, Weasley.
Ginevra arregalou os olhos, sua pele se avermelhando.
—Você não pense que porque ajudou a Mione a fugir daquele lugar, a gente vai perdoar você, Malfoy. —Foi a vez da ruiva bradar, tão alto que Draco teve certeza que a mansão inteira poderia ouvir. A ruiva se aproximou com velocidade e o loiro por um instante imaginou que ela o empurraria com o impulso, mas a pouco centímetros de seu rosto Gina parou, o encarando tão de perto que fez com que seu olho lacrimejasse. —E eu acho que você não fez mais do que sua obrigação, para ser sincera.
Draco estava fraco e ainda sentia a sala a seu redor girando e o deixando com tontura, mas precisava responder. Não aguentaria aquilo quieto.
Sentia que a única pessoa capaz de lhe julgar era Hermione, e permitir que outra pessoa o fizesse parecia quase um ultraje.
—Eu ia ajudar vocês, enferrujada, você e esse seu irmão ridículo, antes de tudo aquilo acontecer, e se eu não tivesse tomado aquela maldita amortenti...
O lado direito de seu rosto estalou com o tapa que lhe foi proferido, e por um segundo Draco imaginou que seu outro olho estivesse cego. Sua visão se turvou, e no momento em que seus dedos tocaram o próprio rosto, encarou Gina mais uma vez nos olhos, focando com dificuldade.
—Você não entende, não é mesmo? Não entende que enquanto você ficava se pegando com a vadia Parkinson, eu e o Rony estávamos sendo torturados. Não entende que seus caprichos não são nada comparado ao que nós sentimos, Malfoy.
Draco não sabia o que responder. Ela estava certa.
—Desculpe. —Respondeu simplesmente, ainda mantendo o olhar fixo da ruiva.
Gina assentiu com a cabeça, e logo após se voltou ao irmão que observava a cena esperando para intervir.
Ronald havia aberto a boca para falar algo quando o som de uma porta se abrindo na sala de estar ecoou pela masmorra. Gina fez sinal para que se calassem e Draco só conseguia enraivecer-se imaginando que naquele momento pessoas não solicitadas caminhavam pela sua própria casa.
Um grito estridente fez com que os pelos do braço de Draco se arrepiassem, seguido de gemidos que reconheceu serem resultado da maldição cruciatus.
—Mi...Miilo...MiLorde. —Esganiçou-se Bellatrix no intervalo entre as maldiçoes conjuradas em seu corpo. —Eu resolvo, MiLorde.
—Pois eu quero que resolva mesmo, Bella. —Bradou Voldemort de forma que há tempos não fazia. —Quero que vá até a França, onde sabemos que aquela sangue ruim já vai estar, e vasculhe cada pedaço daquela cidade para descobrir onde estão aquelas malditas armas.
Draco soube que se tratava dos dentes de basilísco.
Um silvo de relaxamento correu pela sala e os prisioneiros souberam que Bellatrix havia sido libertada da maldição.
—Mas MiLorde...Não estava em Hog...
Os três se encararam, e souberam o que fazer.
—X—
Paris, França.
—X—
Draco está vivo. Eu e Gina ajudamos ele a escapar do fogo maldito.
Ele nos contou sobre as Horcruxes, e pelo que eu e minha irmã andamos ouvindo por aqui, o que vocês procuraram pode estar em Paris. Se eu fosse você, aparataria agora mesmo por lá.
Estamos com você.
W & M
—X—
Hermione sorriu fraco ao ler as palavras proferidas. Ele estava bem. Os três estavam. Não apenas Draco, mas Rony e Gina também.
E por fim, estava no lugar certo. Sabe-se lá como seus amigos saberiam disso, mas ao menos seu palpite havia sido, pela primeira vez em anos, certeiro.
Aproximou o pergaminho amassado de seu rosto na intenção de sentir o que seriam fragmentos do cheiro amentado de Draco, mas o que lhe veio era um perfume conhecido, muito peculiar.
Era grama cortada e pergaminho novo. Era Ronald Weasley.
E naquele momento aquilo mais a incomodou do que qualquer outra coisa. Amava o amigo, mas não saberia explicar a decepção que sentia ao sentir seu cheiro.
Momentaneamente encarou o gato ao seu lado. Os olhos verdes pareciam aguardar por uma resposta que não viria, enquanto lambia sua pata dianteira em total desdém.
Era Ronald Weasley. Era o garoto no qual havia desperdiçado horas pensando em sua adolescência. E se isso tudo terminasse bem? Ficaria finalmente com o garoto que tanto amara?
Para Hermione, nada fazia menos sentido do que criar essa expectativa. E mesmo que ele a quisesse, mesmo que a loucura não o tivesse possuído, pelo que havia notado em sua mesma caligrafia de anos atrás e o cheiro do autor do pergaminho, um aperto em sua garganta aproximava-se quando imaginava anos a frente, o lorde das trevas derrotado e sua própria pessoa em um vestido branco, subindo em um altar com o ruivo ao seu lado.
Aquela mesma imagem a havia assombrado por anos, e até mesmo se transformado em tema de suas lamúrias no diário, mas agora havia um véu escuro sobre essa cena, e a castanha tinha certeza de que não era resultante de sua fome.
Draco estava lá. Estava entre eles. Não podia negar.
A lembrança de seu beijo com Rony parecia repousar em uma outra vida, tão distante cujo parecia quase um pecado ainda pertencer a sua mente. Lembrava-se do momento alegre, da forma como aqueles olhos azuis a encararam pouco antes de um beijo desesperado, que havia esperado anos para acontecer, finalmente se realizasse.
Mas não eram os olhos azuis que ela conhecia tão bem. Não eram aqueles olhos azuis claros, quase transparentes, que mais lembravam uma tarde nublada de chuva. Não havia sido o desespero de anos de espera que a teria feito feliz naquele momento. Talvez o desespero de conviver com Draco Malfoy e ainda deseja-lo fosse mil vezes mais tentador.
E então Hermione se deu conta do quão ridículo era imaginar tais coisas enquanto deveria estar salvando aqueles que já haviam feito o mesmo por ela.
Não haveria, desta vez, um Ronald Weasley para contar piadas em meio a guerra, ou até mesmo seu mau humor diário e suas ideias geniais tão aleatórias. Rony estava preso, precisava ajuda-lo.
Não haveria o garoto Harry Potter para salvá-los, tal como havia feito em todos seus anos de heroísmo, tampouco haveria a possibilidade de ouvir suas linhas de pensamento, tão lentas comparadas a de Hermione, ou suas ideias corajosas tão repentinas que poderiam ter salvo o mundo bruxo. Harry estava morto, precisava honrar seu nome.
Havia apenas Hermione Granger. Uma Hermione Granger mais velha, e pelos anos longe da magia, ainda se acostumando com as mudanças no mundo exterior. Suas ideias já não eram tão inteligentes, e sim beiravam o desespero, e seu medo parecia gritar mais alto.
Ainda assim, precisava ser ela.
Encarou o gato mais uma vez, e em seguida percebeu que o pequeno pássaro que havia ajudado ainda a esperava, como se aguardasse, assim como o gato, uma resposta.
Hermione enfiou o braço em sua mochila e não se demorou a retirar um pergaminho de sequencia rápida, rabiscou as palavras e entregou-as com delicadeza ao bico da ave, que piou alegre antes de alçar voo.
Estou bem, onde vocês me falaram para estar.
R está são? Você é realmente surpreendente, me enganou todos esses anos.
G, sinto sua falta.
D, não se preocupe, consigo me virar.
Com saudade de todos, HM.
Poderia ter escrito de forma mais carinhosa, pensou, mas como o faria com as poucas pistas que poderia dar?
Sentiu-se envergonhada no mesmo instante em que não pode mais alcançar o pássaro. A ideia de misturar seu nome ao de Draco repentinamente havia sido por pura camuflagem, como havia convencido a si mesma, mas imaginar um Malfoy logo após seu nome fez com que seu coração acelerasse, mesmo contrariado.
Com certeza estava delirando.
—Vamos nessa? —Perguntou ao felino, que em tom de tédio sacudiu a cabeça de forma positiva. —Bichento. —Concluiu, nomeando o gato de forma não sugestiva, mas como se apenas o informasse que este seria seu nome dali em diante.
O gato miou, e assim que Hermione se levantou, seus passos leves a seguiram pela cidade.
—X—
Hermione adentrou a hospedagem.
O chão rangeu.
O cheiro era de forte perfume europeu, misturado a cerveja trouxa e também lã batida.
Um longo corredor por ela esperava, tendo em seu fim uma pequena placa indicando que a esquerda seria a recepção.
Seria simples. Precisava simplesmente confundir o trouxa para que acreditasse que ela havia o pago. À àquela altura da guerra, seus próprios ideias de honestidade haviam se alterado. Estaria ajudando o homem por isso.
Respirou fundo antes de caminhar pelo chão de madeira, sentindo seu pé se afundar nas tábuas podres e falhas. O cheiro era substituído por mofo, e um cheiro peculiar do qual não conseguiria se recordar de onde conhecia. Apenas sabia que já havia o sentido.
Deu-se frente a frente com a placa que indicava a recepção, e lá havia um homem alto e forte, de costas para a entrada, encarando a janela na parede. Limpava e polia uma taça com as mãos caludas, e por um momento Hermione imaginou que seria uma certeza de que não demoraria para que o cristal se rompesse.
—MiLorde avisou que você virria... —A voz grave do homem ecoou, seu sotaque tão forte era inconfundível aos ouvidos da castanha, que sentiu um calafrio se apossando de suas entranhas. —Hermionini.
E então o homem se virou.
E parecendo não ter envelhecido sequer um ano, seu semblante era tão jovem quanto no baile de inverno enquanto um sorriso conquistador se apossava de sua face.
—Krum.
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