Palimpsesto - Dramione
37 O Distrito da Luz Vermelha.
Notas iniciais
Azkaban
As sombras dos soldados que rondavam a prisão serpenteavam pela parede. Tornavam-se grandes, e pequenas logo em seguida, de acordo com seus passos.
Era o mesmo silêncio de sempre em Azkaban.
A família Weasley, cujo os cabelos cor de fogo reinava em sua cela, permanecia estática. Sabiam que horas eram, e também sabia o que significava. Seus estômagos, já cansados de rugir por comida, se contorciam apenas, em protesto contra a fome.
Azkaban jamais fora tão assustadora.
Gina se fora a meses, assim como Ronald, e após noites sem dormir pelos gritos de desespero de Molly e a voz baixa de Arthur, que a acalentava, suas olheiras se tornaram tão fundas e escuras que sequer pareciam ter vida.
A única coisa boa era que ainda estavam vivos, e juntos.
Na última semana, Azkaban havia recebido tantos novos prisioneiros que os guardas, em uma tentativa falha de organização, amontoaram todos os Weasleys em uma pequena cela individual. Não era espaçosa, mas a toca também nunca fora.
George estava deitado, seus olhos fixos no teto da cela, repleto de goteiras e rachaduras. Jogava uma bola de tecidos para o alto e a pegava quando caia. Esperava pelo momento perfeito para fazer uma piada com o guarda gorducho que era incapaz de intimidá-lo.
No canto mais escuro da sala, Gui, Carlinhos e seu irmão pródigo, Percy. Todos os irmãos com enormes hematomas no rosto e em seus corpos magros, cujo os ossos pareciam tão bem definidos. Não havia mais nada a se falar, depois de tanto tempo sem ver a luz do sol. Os salvava o momento em que George fazia piada com o novo soldado, um senhor gorducho que parecia incapaz de tortura-lo, diferente dos outros.
Quando passos se aproximaram, George olhou para a família e sorriu, sinalizando para que fizessem silêncio. Molly fez sinal de reprovação, mas um sorriso escondido em seus lábios dizia o contrário.
O soldado parou em frente à cela, encarando-os com os olhos esbugalhados. O tom arroxeado em sua pele indicava que sabia do que se tratava.
—Está lindo hoje, soldado Holderg. —Elogiou George, com uma seriedade exagerada.
—Cale a boca, garoto. —O soldado desaprovou, ainda encarando-o numa tentativa de intimidá-lo.
—Por acaso conheceu a mulher gorda em Hogwarts, soldado? —George insistiu, sem tirar os olhos da bola de tecidos que jogava para cima.
—Não sei do que está falando, não estive em Hogwarts...Estudei em Ilvermorny. —Recuou o soldado, remexendo em sua varinha no bolso da calça.
—Pensei que fossem gêmeos, soldado. —George falou em meio tom, desafiando-o. A família Weasley soltou um curto riso de aprovação, disfarçado em uma tosse que havia atingido todos os ruivos. —Parecem tanto quanto eu parecia com meu irmão gêmeo, você sabia, soldado Holderg?
Havia amargura em sua pergunta. Era dolorida. Trazia um peso diferente à conversa distraída.
Os risos da família logo se transformaram em um silêncio que parecia estar até mesmo dentro deles. Tamanho era o silêncio que eram capazes de ouvir seus próprios órgãos debilitados funcionando, lentamente.
George encarou o soldado, deixando que a bola de tecido caísse num canto da cela.
—Você tem irmãos, soldado?
O soldado, que já se tornava da cor de um tomate, negou. Seus dedos giravam em torno de sua varinha, esperando qualquer deslize daquele ruivo debochado.
—Então o senhor não conhece esse tipo de felicidade.
Holderg exitou. Parecia tentado a responder, ou a soltar um feitiço no garoto, mas nada aconteceu. Um alarme tocou alto o suficiente para que fosse ouvido da torre mais profunda da prisão, e então o soldado soltou a varinha em seu bolso e encarou o Weasley.
—Tem sorte demais, sarnento.
George sorriu para o bruxo. Um sorriso digno de um gêmeo Weasley. Era o sorriso que Fred daria. E então, deitou-se novamente encarando o teto, encontrou sua bola de tecidos e voltou a joga-lá a esmo para o alto.
E então o silêncio novamente tomou conta da cela.
A pouca diversão que tiveram naquele dia seria a última, até que o soldado gorducho voltasse.
—X—
Paris, França.
—X—
Um, dois, três, quatro…
Hermione podia ouvir Gina caminhando pela casa, com Rony logo as suas costas, explicando-se. Sentia-se mal por estar ali, por não ter movido sequer um músculo desde que Draco se fora, o que fazia exatamente três horas, quarenta e sete minutos e doze segundos, de acordo com as suas contas.
Gina havia tentado a tirar dali, mas não tivera sucesso. Sentiu enquanto a ruiva a puxava pelo braço, e até mesmo tentava pegar-lhe no colo, sem sucesso.
Estava com os olhos abertos quando Ronald se aproximou e pediu desculpas, não obtendo resposta nenhuma da castanha, exceto lágrimas que caiam descompassadas de seu rosto, pingando no chão ao seu redor, onde já havia formado uma pequena poça.
As lágrimas não acabavam, e tampouco pareciam perto de seu fim.
Sentia culpa.
Se ao menos tivesse tentado. Se pudesse explicar ao sonserino que seu medo não era resultado de seu descontrole de raiva, mas sim de todo o contexto. O sangue. Os socos, a tentativa de Rony de beijá-la. Era coisa demais para sua cabeça.
Mas sabia que não sentia medo de Draco, não era isso, nem de longe.
E agora não sabia onde ele estava.
Poderia muito bem ter se entregado à Voldemort, cedendo a própria morte.
Sabia que não a trairia, não falaria nada sobre sua localização, sequer sobre seu plano, mas sentia seu coração se contraindo contra o próprio peito ao imaginar Draco se entregando, sem ao menos ouvir a explicação que a castanha teria.
Queria gritar. Queria sair daquela casa pequena e sufocante, e que parecia menor a cada segundo, e correr pela rua, atrás do sonserino.
Seus olhos passeavam sistematicamente pela cozinha, observando o chão ainda manchado de sangue, e encontraram a varinha que Draco havia deixado para ela. Estava desprotegido.
Cinco, seis, sete, oito…
Os passos se afastavam em direção aos quartos, e Hermione era grata por isso.
Queria ficar só.
Sem Draco, era como se ainda estivesse em Azkaban.
Era como se celas invisíveis, porém dez vezes mais fortes, a prendessem contra o chão da cozinha ensanguentada, empurrando-a com força contra si mesma. Machucando-a.
Fechou os olhos e deixou que as últimas lágrimas escorressem por suas bochechas, ardendo contra sua pele irritada.
Estava disposta a permanecer ali por quanto tempo fosse necessárIo. Na verdade, não tinha previsão de saída.
Draco havia levado o bracelete, o que a fazia sentir um pouco segura em relação ao seu paradeiro. Não colocaria uma Horcrux à risco dos comensais.
A única coisa que a faria sair dali seria saber onde estava aquele homem pálido de cabelos claros e olhos cinzentos como um mar calmo, e qualquer outra razão para se levantar daquele chão úmido parecia insuficiente à castanha.
O gato preto que havia observado de longe toda aquela briga, parecia interessado em se aproximar de Hermione, agora que os Weasleys haviam ido para seus quartos. O bichano caminhou até Hermione, evitando as poças de sangue e de lágrimas. Seus olhos verdes, fixos na castanha, espelhavam os castanhos de Hermione, que o viu chegando.
E então o animal deitou no colo de Hermione, ronronando até pegar no sono, e deixando para trás uma Hermione estática.
—X—
Redlight district, Amsterdã.
—X—
Draco caminhava sem olhar para os lados, e sequer podia ver um palmo à sua frente.
A chuva caia com agressividade sobre seu rosto, cegando-o ainda mais. Podia ver os chuviscos dançando logo a sua frente, impossibilitando sua visão.
Caminhava desde o segundo que havia aparatado naquele lugar o qual não estivera a anos. Caminhava rápido, esbarrando nas pessoas e não se preocupando em pedir desculpas. Não se importava. Não era problema seu.
Era um monstro, e agia como tal.
Monstros não se importavam com os outros. Não ligavam para trouxas como aqueles. Não pediam desculpas.
As luzes vermelhas, a música erótica que se misturava ao som da chuva, os prédios altos e elegantes, e os homens de terno e gravata, trouxas, que passeavam pelas ruas, observando as mulheres nas vitrines. Tudo isso fazia com que a mente de Draco girasse em círculos.
Não sabia ao certo o motivo de estar lá. Sequer havia pensado nesse lugar no momento de aparatar, mas era para lá que havia sido levado.
Parecia errado.
O mundo desmoronando em água ao seu redor, e Draco lá, naquele motel público.
Segurava com força o bracelete em suas mãos, apertando-o para senti-lo seguro.
Seus pensamentos estavam confusos, turvos.
Não sabia a quanto tempo caminhava naquelas ruas, mas sabia que faziam horas. Sua roupa estava grudada em seu corpo, em resposta àquela maldita chuva sem fim.
A imagem de Hermione chorando grudada à seu próprio corpo rondava sua mente. Parecia a mesma Hermione que Draco havia encontrado abandonada em Azkaban, e essa era a pior parte.
A cada passo que dava, sentia estar deixando a castanha abandonada. Sabia o peso do que estava fazendo, mas ainda assim, parecia o certo.
A água que caia contra sua cabeça parecia trazer um pouco da sanidade que precisava naquele momento, não sendo o suficiente. Seus pés formigavam de dor pela caminhava, e sua mão tremia pela força que fazia contra o bracelete.
Sentia que a qualquer momento, desabaria.
As luzes vermelhas dos prédios pareciam cada vez mais fortes e ofuscantes, como se cercassem Draco e o prendessem naquele maldito lugar. A música erótica ecoava dentro de sua cabeça, fazendo com que os graves se tornassem fortes badaladas contra seu tímpano. A visão de mulheres dançando em vitrines, como se fossem mercadorias, não o instigava e tampouco chamava sua atenção. Apenas trazia a turva lembrança de que um dia, quando jovem, estivera ali com seu pai.
A lembrança parecia tão real. Parecia estar acontecendo ali, naquele exato momento. O dia em que seu pai o levou para aquele lugar para conhecer os prazeres da vida, conhecer as mulheres e descobrir a excitação que sua submissão traria.
Naquela data em específico, Draco não era mais nenhuma criança. Sabia o que era sexo, tinha mulheres, tinha a submissão que seu pai tanto falava, e não via necessidade em desfrutar de prazer com trouxas, e ainda mais com mulheres que não o queriam de verdade, mas apenas seu dinheiro.
—Elas são as melhores para isso, garoto. —É o que seu pai falava enquanto caminhavam no fim da noite, observando as vitrines de cores chamativas. —Elas não tem escrúpulos, elas querem o nosso dinheiro, e poderiam ir ao inferno e voltar por ele.
Draco andava ao lado de seu pai, ouvindo cada palavra que saia da boca de seu pai.
—Olhe.
O bruxo apontou com sua bengala para um vidro, onde uma mulher alta de cabelos ruivos chamava por Draco, sinalizando-o que deveria ir ali. Mas Draco não foi.
A ideia de pagar por uma mulher feria sua dignidade, como se precisasse pagar para que as quisessem. Sabia que não. Era um Malfoy, e teria a que quisesse, sem tirar a mão do bolso em troca. Teria a que quisesse, e não seria pagando.
Tinha garantia de si mesmo.
Podia se lembrar perfeitamente do momento em que virou as costas para a vitrine e para seu pai, ouvindo aquela frase que parecia tão clara, enquanto o homem folheava um maço de dinheiro trouxa, exibindo-o para a prostituta, que sorria com a vista daquilo que queria.
—Elas sempre estarão aqui para aqueles que a merecerem, Draco.
E então a imagem sumiu da mente do sonserino.
Apertava com mais força do que nunca o bracelete, sentindo o suor de sua mão misturando-se as gotas de chuva, que pareciam ter se amenizado.
Ela sempre vai estar disponível para aqueles que a merecerem.
A frase serpenteava por sua mente. Fazendo eco e o atraindo. Parecia o chamar.
Mais do que nunca, Draco corria. Pisava nas poças e sequer se importava em molhar ainda mais suas roupas. Sentia o olhar de alguns trouxas sobre si, estranhando uma pessoa correndo por ali.
Mas não se importava.
Sabia o que precisava, e procuraria.
Sentia cada vez mais perto.
A visão de Hermione com olhar fixo e desesperado sobre sua pessoa ainda estava presente em sua mente, maltratando-o. Não era digno de ter Hermione, não era sequer merecedor de sua presença, mas se estivesse certo, voltaria.
E apenas a ideia de a ver novamente o assustava, mas ao mesmo tempo o instigava.
Percebeu-se com a visão turva novamente. Não pelas gotas de garoa, mas pelos seus próprios olhos marejados.
Estava perto de achar um motivo para tudo aquilo.
Pense, Draco, pense.
O loiro correu. Não sabia por quanto tempo, mas correu. Seguiu pegadas que não existiam a anos, imaginando por onde havia passado com seu pai naquele maldito dia.
Devia estar perto, com certeza estava perto.
Precisava chegar logo.
Caminhou sem parar, ainda que seu corpo emitisse sinais de cansaço e exaustão. Sentia o hálito gelado sair de seus lábios e correr em direção ao ar, mas não iria parar.
E então encontrou.
A mesma vitrine que estivera com seu pai anos atrás, a mesma mulher ruiva e alta que dançava e se exibia para os espectadores, usando roupas curtas e chamativas.
Mas não era isso que estava chamando a atenção de Draco.
Era a espada usada como enfeite ao lado da mulher, na vitrine. Uma espada prateada e longa, misturada a outros objetos que deveriam simular algo medieval. A espada parecia chamá-lo, e então Draco entendeu o motivo de estar ali.
Ela sempre vai estar disponível para aqueles que a merecerem.
Era a espada de Gryffindor, aparecendo não para um grifino, mas para um sonserino.
Para Draco.
Não fazia sentido. Havia sido escondida em Hogwarts, pelos comensais.
“Você a merece, Draco” a voz de Hermione ecoou em sua mente, clara como se a própria estivesse ali.
Mas não estava.
“Você tem um espírito de coragem, Draco. É um grifino. Ela veio até você. Não pertence aos comensais.”
Draco ofegou, e um curto sorriso se formou em seus lábios.
E por um segundo, não se preocupou em como a espada havia parado ali, e sim que estava ali, logo a sua frente, esperando que a pegasse.
Voltaria para Hermione. E levaria consigo uma Horcrux destruída e uma espada para matar Voldemort e Nagini.
Precisava entrar naquela vitrine.
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