Palimpsesto - Dramione
28 Novos planos.
Notas iniciais
Wiltshire, Inglaterra.
05 de novembro de 2004.
Mais uma vez a mansão Malfoy era povoada pelos homens e mulheres elegantes, cujas capas flutuavam em suas costas a cada passo dado. Para Voldemort, o local em que se encontravam nada mais era do que a prova de que ele, sim, tinha cunho o suficiente para delimitar os lugares onde escolhia se reunir.
Seria imprudente, no entanto, não compará-lo ao jovem Tom Riddle que ainda habitava aquele corpo. Estava inquieto, e ainda assim, ao se movimentar em torno da gigantesca mesa cor de mogno, mantinha o olhar frio e os passos flutuantes e calmos. Os comensais o observavam, o olhar tão admirado quanto temeroso. E ele adorava aquilo. Adora a servidão a qual se submetiam em sua presença, e ainda mais, adorava aquele sentimento de posse pela mansão, pelos comensais e pela nova sede do que havia tornado seu reinado no mundo bruxo.
Sorriu entredentes, sentindo Nagini serpentear entre seus tornozelos no que parecia uma dança em perfeita sincronia enquanto caminhava em direção a cadeira mais alta e luxuosa que a mansão oferecia.
Ao se sentar observou o rosto de cada comensal ali presente. Bruxos e bruxas sentavam-se formalmente nas cadeiras e aguardavam por uma ordem, que seja lá qual ordem fosse, seria obedecida cegamente.
E ele adorava aquilo.
Pigarreou baixinho, e até mesmo a respiração dos bruxos se calou.
Ao seu lado direito a imagem da mulher de pele pálida e cabelos escuros respirou profundamente, como se o respeito ali oferecido fosse a ela também. Astoria Greengrass, sentada ao lado de Voldemort, soava como a nova princesa dos comensais, e nada lhe era oferecido senão o maior luxo que poderia receber.
Bellatrix Lestrange, agora longe de seu mestre, desdenhou o olhar com leveza para Astoria, que não percebeu, afinal, nada mais encarava senão seu futuro marido.
—Hoje...Nos reunimos novamente. —Começou Voldemort, a voz imponente tal como se ainda fosse o jovem Tom. —Nossa companheira, Bellatrix Lestrange, tem novas informações sobre o traidor de sangue e de causa, Draco Lúcio Malfoy.
Bellatrix aprumou-se enquanto ganidos enojados e infantis eram ouvidos pela mesa em notável desaprovação a Draco Malfoy. Sua face permaneceu fria.
—Malfoy está em uma floresta no condado de Gloucestershire, de acordo com minha informante. —Suspirou teatralmente ao fim de sua frase, e fingindo ter o olhar pesado e falho, continuou. —Queridos, hoje pedirei a vocês um favor que jamais pedi a alguém. Pedirei que encontrem o jovem Malfoy, e em nome do amigo fiel que fui, tragam-no para mim. —Levantou-se novamente da cadeira, e caminhando entre os convidados, seguiu falando trágica e pausadamente. —Jamais imaginei que um rapaz como o jovem Malfoy seria capaz de me trair de tal maneira. Meu pobre coração dói —Murmurou enquanto tocava seu próprio peito, recostando-se sobre a parede branca. —Em saber que fui traído desta forma, e ainda mais, trocado por uma sangue ruim como Hermione Granger. Não há traição pior.
Caminhou novamente até seu lugar, evitando sorrir com as feições piedosas de seus próprios servos. Adorava aquilo. Aquele teatro, a persuasão que usava contra aqueles que nele acreditavam. Nada parecia mais fantasioso do que ter tantos bruxos aos seus pés, seja pelo amor como pela dor. Aquilo era o verdadeiro poder.
—O comensal que o encontrar, será premiado como meu conselheiro, ocupando, assim, o lugar do antigo traidor. O comensal que encontrar a jovem de sangue sujo terá como prêmio a garota para assim ousar fazer o que bem entender. —Finalizou.
Dolohov lambeu os lábios, umedecendo-o com o veneno de sua malícia ao imaginar-se tendo Hermione para si.
Mais uma vez Voldemort pigarreou, fazendo com que os burburinhos se calassem no mesmo instante e até mesmo a respiração daqueles que o temiam.
—No entanto, nem tudo aqui são missões e notícias ruins. —Afirmou, encenando teatralmente um sorriso de conformidade. —Gostaria de pedir um brinde em homenagem a Astoria Greengrass, aquela que, logo, gerará em seu ventre uma criança de sangue puro, cuja beleza será herdada da mãe e a astúcia, do pai. Astoria Greengrass gerará o futuro herdeiro de Voldemort.
E então o lorde das trevas levantou sua taça, cujo vinho avermelhado ali presente se assemelhava severamente a sangue. E todos os comensais imitaram o ato.
Astoria sorriu com desdém enquanto Bellatrix desafiava o olhar da bruxa, o semblante frio e enojado.
Apesar de ignorados, os servos dos comensais serviam naquele momento quase como uma decoração da mansão. Eram como os troféus de Voldemort, e ele sempre amara conquistar troféus. Ginevra, Ronald e Aysha encolhiam-se contra as grades de seus próprios braços cortados. Aysha, cujos braços estavam mais finos do que jamais estiveram, cochilava sobre a perna de Gina, que encarava com ferocidade a situação. Não ousava abaixar a cabeça e tampouco retirar a expressão enojada de seu rosto, agora encoberto por fios de cabelos ruivos que cresciam gradativamente.
—Eles vão pegar a Mione. —Resmungou entredentes, enquanto acariciava as orelhas da elfo sonolenta.
—Não, não vão. O Malfoy não vai deixar.
A voz de Ronald Weasley por vez surgia, e nada naquele semblante parecia insano tal como havia se mostrado. Era firme e decidido, e naqueles olhos azuis esverdeados nada havia senão a fúria que os tornava envidraçados e sádicos.
A movimentação foi notada, e então Bellatrix virou-se minimamente para encarar os escravos.
Gina encarou a bruxa com a mesma proporção.
E então o ruivo tornou a se balançar contra o próprio corpo, recitando frases do livro de “Baddle o bardo” e sorrindo, bobo, em direção a Nagini.
Seus olhos permaneceram envidraçados.
—X—
Dean Forest, Inglaterra.
—X—
Hermione e Draco conversavam do lado de fora da barraca. Frente e a frente, recostados sobre os pinheiros que faziam sombra, seus olhos se encontravam a cada poucos milésimos de segundo, e apesar de continuar ignorando a noite em que havia dormido nos braços de Draco, a cada milésimo que aqueles olhos azuis a fitavam, uma pequena descarga elétrica se ocupava de seu corpo.
—Eu não acho que existam outras Horcruxes, sabe… —Hermione afirmou vagamente, analisando o bracelete entre seus dedos. Sentia-se perdida em meio aquela floresta, e pela primeira vez, ao falar abertamente sobre aquele simples bracelete de significado tão forte, um peso saiu de seus ombros.
Draco a observou, esperando que continuasse a falar. E após perceber isso, a castanha continuou.
—Acho que eu e você sabemos que o Harry era uma Horcrux, e ele morreu exatamente pelo fato de que essa maldita Horcrux aqui ainda existia, e então Voldemort ainda estava forte. —Concluiu, e ao se deparar novamente com o silêncio do sonserino, rapidamente retomou a fala. —Eu tenho certeza disso.
E então Draco assentiu com a cabeça, puxando o bracelete para si.
—Tão fácil e ao mesmo tempo tão impossível… —Murmurou conforme girava o metal, mais para si mesmo do que para Hermione.
—Como assim?
—Sobraram apenas três. O bracelete, Nagini e o próprio. —Respondeu, deixando o bracelete ao lado de seu corpo e fechando os olhos em direção ao céu. —Mas o problema é como destruiremos…
—A noite em que eu e Rony destruímos a taça de Helga Hufflepuff, a gente acabou deixando os dentes de basilisco na câmara… —Divagou.
Mais uma vez Draco sentiu um incômodo lhe descendo a garganta ao ouvir o nome de Ronald, e engolindo-o seco, preferiu ignorar.
—E provavelmente ainda estão lá. —Concordou. —Mas levando em conta o que Hogwarts se tornou, acho difícil arranjarmos convites especiais para fazer um tour na escola.
—Quem é o diretor? —Hermione perguntou, procurando fitar nada mais do que seus pés.
—Tecnicamente quem manda lá é o lorde...—Afirmou, e sentiu-se culpado por ainda chamar Voldemort daquela forma. —Mas Aleto Caroll tem sido uma espécie de mediadora entre a escola e ele.
Hermione compreendeu. Lembrava-se de Aleto dos tempos da guerra, e sentiu seu coração apertar com a ideia de ter sua escola destruída de tal forma.
—Grifinória ainda existe? —Questionou engolindo em seco e desejando não ter a resposta que teve.
—Não.
Draco também sentiu-se mal com aquela notícia.
Um silêncio perpetuou entre as árvores e o vento correu entre seus ouvidos, ecoando e fazendo com que curtos assobios soassem como um canto fraco e tristonho, acompanhando, então, o sentimento de Hermione.
—Eu odeio tudo que aconteceu com esse mundo. —Hermione sussurrou, tomando a atenção do loiro. —Odeio não ter Harry...Nem meus pais...Nem os Weasley…
E antes que tomasse consciência de seus atos, já estava a chorar contra os próprios joelhos.
Draco aproximou seu corpo devagar, sentindo um peculiar aperto no coração.
Ela o odiava.
Era isso que ela queria dizer.
Querendo ou não, o que aconteceu no mundo bruxo era, também, sua responsabilidade.
Engoliu em seco e sentiu o peso do fel escorrendo de forma dolorida, e um gosto ruim chegou até sua boca.
Por um momento, ela se assemelhava perfeitamente com a mesma Hermione Granger que chorava ao pé da escadaria de Hogwarts, no dia da festa de comemoração do torneio tribruxo.
Jamais havia prestado atenção em como lembrava-se tão perfeitamente daquele momento, quando saia do salão principal de mãos dadas com Pansy Parkinson e se deparara com a grifina discutindo com Ronald Weasleys. Naquele dia Pansy soltou um riso estridente. Draco, no entanto, sentiu-se intruso apenas em deixar que seus olhos se encontrassem com aquele rosto lacrimoso que parecia não enxergar nada a frente.
E naquele momento sentiu-se da mesma forma. Era como se tornasse intruso aos sentimentos de Hermione, que parecia tão particular, chorando abraçada aos próprios joelhos.
Desejou sair dali. Desejou levantar e caminhar novamente até a barraca, onde esperaria até que as lágrimas de Hermione secassem sozinhas tal como na noite do baile.
Mas também desejou não ser o mesmo menino de quatorze anos que deixou uma menina chorar no primeiro baile de sua vida.
Com a maior delicadeza que seus dedos podiam oferecer, aproximou-se do rosto de Hermione e tirou-a do abraço de seus joelhos. Encarou aqueles olhos, que com tantas lágrimas inundando-os, assemelhava-se de certa forma com um chá de canela agradável e saboroso.
Não sabia se deveria falar para que se acalmasse, ou apenas encará-la, deixando claro que estava ali. Mas o que fez estava fora de seus planos.
Se aproximou devagar do rosto de Hermione e pode perceber que a castanha se afastou simultaneamente, e no instante em que ela havia decidido abrir os lábios para protestar, o sonserino fez questão de calá-los com o indicador. Se aproximou um pouco mais e ao perceber a pele quente em frente aos seus lábios, beijou, por fim, a testa de Hermione.
Era um ato que não se recordava de ter feito sequer com sua própria mãe.
Ao voltar o rosto para trás, uma expressão confusa e aturdida se apropriara do rosto da castanha.
—Porque você está fazendo isso, Draco?
—O que eu estou fazendo? —Perguntou em igual tom, tão confuso ou ainda mais que Hermione.
Ela olhou para o topo das árvores, onde seus olhos lacrimejaram contra a claridade do sol, e voltou a olhar para o homem a sua frente.
O coração de Draco acelerou tal como se acabasse de sair de uma longa corrida.
—Porque você está querendo ficar com alguém como eu? Draco, você teve tudo… —Hermione bufou irritada, e mais uma vez parecia a mesma grifina que odiava ser comparada ao sonserino nas aulas de poções de Snape. —Você teve mulheres cujo eu jamais chegaria aos pés, olha pra mim! Eu sou uma sangue-ruim, uma ex prisioneira! —E naquele momento sua voz saia alta de tal forma que as árvores ecoavam suas próprias palavras. —Eu não tenho nada a te oferecer Draco, eu não sou que nem elas, eu sou uma grifinória que sequer teve coragem de lutar para defender aqueles que eu amo!
O discurso fez com que Draco pensasse em seus motivos. Uma voz fraca em sua mente alertou-o que não se passava de abstinência, mas sabia, no fundo de si, que não se tratava disso. Era verdade que as mulheres que tinha o prazer de levar para sua mansão eram, sim, de extrema elegância, e era verdade também que Hermione não tinha o sangue puro, tampouco não tinha algum trauma da prisão em que fora abusada. E mesmo assim, com todo o egoísmo com o qual foi criado, ainda a desejava, ainda queria, naquele momento, ter aqueles lábios sobre os seus, e as mesmas conversas sobre livros clássicos e feitiços que sabia, no fundo, em que ela seria melhor.
Hermione o encarava, incrédula, esperando por qualquer que fosse a resposta. Draco engoliu em seco e sentiu suas primeiras palavras soando como um sussurro fraco e temeroso.
—Eu...Eu estou sendo egoísta, fedelha. —Passou a encarar Hermione, que desta vez não ousou mover um músculo em aversão. —Eu tive sim, muitas mulheres. Não houve uma mulher que eu quisesse levar pra cama e não tenha conseguido, é verdade. —Deu um passo a frente, e a respiração de Hermione falhou em sincronia com sua pele que se avermelhava. —Mas eu não sei o que está acontecendo agora, Hermione. Eu senti nojo do homem que te abusou desde o primeiro momento em que te vi naquela cela. Eu senti vontade de te ajudar desde o segundo em que soube os planos de Voldemort, e eu senti ciúmes do cabeça de cenoura quando soube que você ainda nutria alguma coisa por ele. —Hermione riu fraco, olhando para a mão do loiro que se aproximava de seu rosto. —Mas eu não sei te dizer meus motivos e é algo que eu nunca vou saber responder. É algo que eu não entendo, mas sinto vontade de estar com você...Você fala sobre livros, você entende de assuntos que mais ninguém se interessaria em pesquisar...Você é inteligente, fedelha, e céus! Quando você ficou tão bonit…
Seu corpo foi tomado pelo calor da castanha, e por mais irônico que fosse, um cheiro agradável de canela chegou até seu nariz quando sentiu os cachos de Hermione roçando contra seu rosto, poucos antes dos lábios se encostarem. Ele se apossou daquele momento, e ainda em choque com o beijo que jamais esperou receber, puxou-a para o mais perto que a física lhe permitia. Era apenas ele e Hermione, e todas as peças de sua vida, que pareciam não encontrar lugar para se encaixarem, se encontravam naquele momento perfeitamente intactas.
—Vamos destruir aquela Horcrux, Draco. —Hermione sussurrou no ouvido do loiro assim que seus rostos se afastaram, e sua voz trazia um trêmulo sorriso. —Vamos encontrar alguém que seja a favor da causa, e vamos massacrar esse velho maldito.
Draco concordou com a cabeça, e após tantas lembranças de sua época em Hogwarts, afirmou, por fim:
—Ainda existe uma passagem secreta que leva pra Hogwarts.
Naquele dia as horas voaram como folhas ao vento. O almoço foi feliz e, pela primeira vez, tão espontâneo que Draco chegou a pensar que estava, realmente, em casa. E não era tal como sua mansão, onde os almoços costumavam ser formais quando em companhia, e solitários quando, por fim, ele era o único habitante bruxo daquele lugar. A mansão era grande demais, as paredes frias demais e os corredores escuros demais.
Aquela barraca, com a mesa manca e os alimentos guardados a esmo, pequena e não muito confortável, oferecia para Draco algo que ele jamais havia conquistado. Havia luz. O vento batia contra as paredes finas, que acabavam por filtrar apenas o cheiro úmido da terra molhada. A fogueira ao lado dos bancos os aquecia também por dentro, e as fagulhas que soltavam curtos sons traziam uma sensação semelhante a conformidade.
A presença de Hermione Jean Granger parecia tornar tudo ainda mais aquecido. O sorriso falho e o olhar vago enquanto pensava soluções macabras para entrar em Hogwarts, e até mesmo as piadas de sabe-tudo cujo Draco se orgulhava em compreender, o faziam sentir preenchido. E naquele dia nada mais ele quis senão que fosse eterno.
Quando o sol se escondeu ao longe, e os pássaros tornaram aos seus ninhos, tudo que iluminava a barraca era a fogueira, onde em algum momento de descontração, haviam se enroscado ao redor. Hermione repousava sua cabeça contra o peito do sonserino, que acariciava os cachos sem se importar em ajeitar os fios que estabeleciam nós. O cheiro de lenha perpetuava e seus olhos lacrimejavam pela proximidade com o calor.
—Quando tudo isso acabar, fedelha, nós vamos nos mudar para um lugar que tenha florestas como esta próximas.
—Nós?
—Você continua sendo minha, lembra? —Brincou, e viu que um sorriso escapou a contragosto da face rosada de Hermione. —É claro, se quiser continuar sendo.
Hermione apenas assentiu, mas o sorriso em seu rosto não aparentava que a ideia fosse ruim.
—X—
Dean Forest, Inglaterra.
06 de novembro de 2004.
—X—
Hermione teve a certeza de estar sonhando. Ouviu os estampidos tais como ecoavam pelas paredes de Hogwarts, jogados a esmo pelas varinhas dos comensais, durante o dia da guerra. Corria sem rumo pelos corredores, onde risadas estridentes lhe chegavam aos ouvidos e faziam com que seu braço se arrepiasse com tamanho desconforto.
Havia encontrado a sala precisa, onde caminhando três vezes e mentalizando “preciso de um lugar para me esconder”, pode entrar.
O lugar era um enorme labirinto onde o chão estrelado confundia-se com o teto que se assemelhava ao oceano refletindo a noite escura. Pisou sem confiança no azulejo e seguiu correndo entre as paredes, que se assemelhavam a grandes e compridas sebes que brotavam do céu.
Tinha de ser um sonho, estava acostumada com sonhos como aquele.
Virou a esquerda, a direita, e depois tornou a virar a esquerda. Se deparou com uma sala, onde a única saída, o lugar onde entrara, fazia com que as sebes se juntassem em uma só. E então estava presa.
Ouviu um nome a chamar ao longe, era uma voz masculina e desesperada.
—Harry? —Gritou de volta, e a voz cessou por um instante. Ela sabia que procurava o som de sua voz. —Rony? Neville?
Mas a figura que surgiu entre as sebes, rasgando-as com um feitiço redutor, não era nem de Harry, nem de Rony, tampouco de Neville.
Um Draco Malfoy cansado e ofegante a puxava pelos braços, sussurrando palavras aceleradas e urgentes.
—Precisamos ir...Eles estão aqui...—Murmurava enquanto puxava Hermione por entre as sebes.
E então seus olhos se abriram. Não estava em um labirinto e tampouco em Hogwarts. Draco Malfoy a puxava pelos braços, fazendo com que levantasse da cama e caminhasse entre a barraca, meio dormindo, meio acordada.
—Eles estão chegando… —Sussurrou para Hermione, que ainda sem entender, acompanhou os passos de Draco.
O homem puxou todas as roupas e alimentos que haviam trazido, e ao jogá-los contra sua mochila, onde havia realizado um feitiço indetectável de extensão, tornou a puxar Hermione em direção a floresta, mas assim que seus olhos bateram contra a parede da barraca, puxou-a novamente para dentro.
Ela sentiu as mãos de Draco suadas e frias, e percebeu que finas lágrimas escapavam dos olhos tão azuis quanto o mar de seu sonho.
—Eles estão na floresta? —Perguntou ao perceber a falta de rumo do loiro. Draco apenas assentiu, bagunçando os cabelos e caminhando em círculos dentro da barraca, que naquele momento parecia tão indefesa quanto um pedaço de papel.
—Estão do lado de fora da barreira. Vão conseguir entrar em menos de cinco minutos.
—Então vamos fugir...Vamos…
—Aparatar? Não, eles estão rastreando…
Hermione se viu sem chão. Não sabia o que fazer e tampouco Draco parecia ter controle de seus pensamentos.
—Eu vou me entregar. —Afirmou Draco por fim, caminhando em direção a Hermione e entregando-a a própria varinha.
Ela não aceitou. Olhou diretamente em seus olhos, buscando pelo medo que Draco sentiria, mas nada encontrou senão a certeza que ele possuía do que precisava fazer.
—Você não pode…
Draco abraçou-a, e em meio ao abraço enviesado, enfiou a varinha no bolso traseiro de Hermione.
—Eles vão se contentar comigo. Vou falar que você sumiu ainda pela madrugada…
Hermione se afastou mais uma vez, os olhos tão marejados que Draco duvidou que pudessem enxergar naquele momento seu rosto, que também escorria lágrimas.
—Eles vão te matar…
—Não vão, Voldemort não é do tipo que mata sem necessidade, conhecendo-o bem, ele prezará para que eu fique vivo e arrependido…
Draco sabia o que o esperava. Sabia o que acontecia com aqueles que traiam o nome do lorde das trevas, e sabia que seja lá o que ele mentisse, seria descoberto. Acariciou as bochechas de Hermione por um instante, e percebeu que a castanha tremia como nunca.
Naquele momento seu coração pareceu se encolher de tal forma que suas próprias células pareciam maiores. Aquele rosto, daquela grifina.
Aquela mulher com quem teve tão pouco tempo e ainda assim, sentia-se eterno.
—Tem muitas coisas que eu queria te falar, fedelha… —Murmurou. —Mas eles vão me achar, hoje, amanhã ou outra hora, e quanto antes eu acabe com isso, eles desistem de ir atrás de você.
A decisão de Draco era firme. Não havia indecisão em sua voz.
—Não… —Hermione soluçou, afogada com suas próprias lágrimas.
—Salve o mundo por mim, fedelha.
E então beijou-a mais uma vez. Precisava daquela dose de coragem para se entregar, e precisava daquele calor, nem que fosse naquele mísero minuto que lhes sobrara. Vários anos pareceram passar durante aquele beijo, mas quando seus olhos tornaram a se abrir, nada havia mudado.
—Se esconda até que eu termine de destruí-los, e então fuja rumo ao sul. —Avisou enquanto se afastava.
Draco pisou o pé para fora da da barraca, e sem olhar para trás, caminhou em direção a barreira. Hermione se escondeu, tendo fé de que aquilo não passaria de um sonho muito ruim.
—X—
Do lado de fora da barreira, onde por sorte Hermione não conseguia ver nem ouvir graças aos feitiços de Bellatrix Lestrange, cinco bruxos conjuravam a maldição cruciatus contra Draco Malfoy, que sentindo como se chamas invisíveis se apossassem de seu corpo, incendiando e tomando conta de cada célula pertencente ao seu corpo, procurava manter o que sobrara de sanidade, e desejava do fundo de seu âmago aguentar aquilo por tempo suficiente para que Hermione fugisse.
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