Palimpsesto - Dramione
8 Negociação.
Notas iniciais
Wiltshire, inglaterra.
06 de setembro de 2004.
Draco acordou assustado e ofegante, sentindo o suor gelado escorrendo por suas costas e repousando no lençol preto, abaixo de seu corpo. Piscou repetidas vezes, processando a luz forte do sol que adentrava por entre as cortinas esbranquiçadas, quando acordava as oito horas da manhã para ir a Azkaban, o sol não era tão forte.
Levantou-se bruscamente, buscando seu relógio de bolso, que se encontrava pendurado sobre uma cômoda ao lado de sua cama.
Dez e meia da manhã.
Estava muito atrasado.
Teria aparatado naquele mesmo momento, se o estalar característico do aparecimento de Aysha não lhe chamasse atenção.
—Aqui está seu café da manhã, mestre.
Em suas mãos, repousava uma bandeja de prata, onde eram servidas bombas de caramelo, pudins flamejantes e uma xícara grande e transparente do líquido vermelho escuro, semelhante a sangue. Chá de groselha.
O loiro piscou, confuso, para a elfo doméstico que o encarava contente, à sua frente.
Era segunda-feira. Sua folga. Ele mesmo havia avisado à serva de que ela não deveria fazer barulho antes das dez horas da manhã, afinal precisava descansar.
Embasbacado, voltou a se sentar na beirada da cama, impossibilitado de evitar o sorriso irônico que surgiu em seus lábios. Instintivamente, sorriu para Aysha enquanto recebia entre suas mãos a xícara de chá que os longos dedinhos da criatura o ofereciam. A elfo pareceu vibrar de alegria ao receber o sorriso de seu dono, mesmo que não fosse a intenção do loiro.
Uma coruja negra e pomposa adentrou à janela, tomando a atenção de Draco. Puxou para si a coruja e a empurrou para fora assim que resgato o pergaminho que o animal trazia.
Caro senhor Malfoy.
O ministério requisita sua presença hoje, às onze e meia da manhã, para negociar a compra da prisioneira de Azkaban, presa por traição no ano de 1998, Hermione Jean Granger, atualmente com vinte e quatro anos de idade. O senhor Antônio Dolohov está ciente do seu interesse de compra, e sugeriu um breve leilão, o qual o senhor deverá participar caso realmente interessado.
Traga consigo um comprovante de seu cofre em Gringotes, junto à sua varinha e documentos pessoais, para realizar os procedimentos legais.
Atenciosamente.
A carta dez Draco suspirar preguiçosamente. Logo no dia de sua folga.
—Aysha, a partir de amanhã você fará três refeições, está me entendendo? —Draco falou em tom de ordem, após terminar de mastigar o doce e dar um gole de chá, o que desceu queimando sua garganta, lhe trazendo uma sensação boa.
Os olhinhos violetas da elfo brilharam em resposta, animada por ter mais serviços a realizar na mansão, que andava parada desde a morte de Lucio e Narcisa.
—Sim senhor Malfoy...Aysha pode saber quem será o convidado, senhor?
O revirar de olhos foi inevitável para Draco, que imaginou como seria insuportável a convivência entre Hermione, que era a favor da liberação dos elfos, e Aysha. Sentiu seu estômago embrulhar ao imaginar a cena.
—Não te interessa, suma daqui.
Em um segundo, os olhinhos violetas haviam desaparecido do quarto, deixando Draco só.
Respirou profundamente. Um longo e tedioso dia o aguardava.
Vestiu seu melhor paletó e aparatou dali mesmo para o ministério da magia, onde deveria encontrar Voldemort, juntamente a Antônio Dolohov.
Londres, Inglaterra.
Adentrou aquela sala à qual já estava acostumado com o cheiro lustroso e seguiu à passos firmes até a poltrona de couro preta, que por sorte – ou coincidência – sempre o aguardava vazia. Poderia até mesmo ter cumprimentado Amanda, a secretária, se a mesma não estivesse flertando com Dolohov de forma que causou um bolo na garganta de Draco. O homem era repudiante.
Não poderia deixar que Hermione servisse àquele homem.
Dolohov passeava com seus dedos caludos pelo decote da mulher, que fitava Draco com seus olhos esverdeados a cada cinco segundos com um olhar provocativo, gemendo baixinho palavras que Draco sabia muito bem ter ouvido algumas noites atrás. Estava tentando provocá-lo. Mostrar a ele o que estava perdendo.
Draco permitiu-se tossir perante a cena, assim evitando que pudessem perceber que estava disfarçando uma risada de deboche que trazia.
O comensal, pela primeira vez percebeu a presença do médico no ambiente, afastando-se da secretária de forma brusca, o que com certeza teria machucado os pulsos da loira.
Era um animal.
—Doutor Malfoy! —Exclamou o homem, com uma admiração fingida em sua voz.
—Dolohov. —Draco apenas reverenciou o homem com a cabeça, evitando prolongar o assunto entre os dois.
Ao lado, o loiro avistou uma xícara de café aparecendo magicamente, e não se demorou a tomar o líquido amargo para si e o tomar em uma só golada, inebriando-se com a quentura que sentia por seu corpo.
Após alguns minutos, Draco pode perceber o quanto sua presença no ambiente era incomoda, empatando a foda do comensal. Um sorriso ladino apareceu em seus lábios, sentindo-se satisfeito com a situação. Adoraria atrapalhar seu colega.
—Dolohov... —A voz da secretária irrompeu o silêncio de forma manhosa, acompanhada de um sorriso banhado de batom vermelho, chamando o homem inescrupuloso. —Pode se dirigir à sala do Lorde.
O homem sorriu com seus dentes podres para Draco e se retirou do local.
—Você também. —A voz antes manhosa saiu ríspida pela garganta da loira.
Draco se levantou vagarosamente e caminhou à passos lentos até a mesa da secretária, onde a encarou, endurecendo seu maxilar.
O olhar de medo da garota deixou-o satisfeito.
Ao chegar na sala de Voldemort, percebeu que estava aberta e a adentrou, reverenciando seu lorde.
—Sente-se, querido...
A voz de Voldemort soou animada perante a negociação que teriam.
Por sua vez, Draco estava entediado. Tinha certeza absoluta que sua conta bancária o permitiria ter a posse de quantos escravos fossem.
Acomodou-se, então, sobre uma das poltronas em frente ao ministro, e aproveitou o momento para soltar um sorriso irônico à Dolohov.
—Estamos aqui, nesta sala, para decidir o futuro da sangue-ruim e traidora, Hermione Jean Granger, onde a melhor proposta, em galeões, terá posse da prisioneira por tempo infinito, e terá poderes sobre a mesma, que deverá obedecer, sendo permitido o uso do feitiço cruciatus para treiná-la, caso rebelde.
Por sua visão periférica, Draco teve a cena do homem ao seu lado sorrindo de forma explicita, mostrando a língua áspera como quem mostrava o que faria com a castanha.
O médico cerrou as mãos em punho. Nojento.
—Eu ofereço dois milhões de galeões, MiLorde. —Dolohov afirmou, após segundos de silêncio.
Um sorriso satisfeito surgiu dentre a feição de cobra do ministro, que migrava seu olhar para Draco, esperando sua oferta.
—Ofereço seis milhões. —Pigarreou Draco, endurecendo a voz. —MiLorde.
Na porta, a secretária espiava a situação inusitada, curiosa sobre quem seria o prisioneiro que valeria tantos galeões para o loiro. Nem com dez anos de trabalho ela teria esse dinheiro.
—Doze milhões! —A voz do homem saiu como um rompante, encarando Draco como quem o desafiava. O sorriso de Voldemort abria-se cada vez mais, como quem a qualquer momento poderia gargalhar de prazer da situação.
—Por que a quer, Dolohov?
A voz de Voldemort foi ouvida após alguns minutos, na necessidade de ter o prazer de ser verbalizado o sofrimento que a castanha passaria.
—Ela era, em sua idade escolar...Sedutora, e acredito que será ainda mais sobre meus treinamentos.
Draco, que apenas observava a situação, sentiu-se perdendo a discussão quando viu um sorrindo para o outro, como se fossem parceiros de longa data. Os sorrisos logo cessaram ao voltar a encarar Draco, na espera de uma contraproposta.
Precisava pensar em algo.
—Eu cubro qualquer valor que o Dolohov ou qualquer um oferecer. —A voz do sonserino saiu com a firmeza que ele havia planejado, enquanto cruzava sua perna e acomodava-se melhor na poltrona. O sorriso que havia ido embora do semblante de Voldemort havia voltado, agora dez vezes mais empolgado com a situação.
O comensal se calou.
—E por que a quer, querido? —Voldemort questionou, notavelmente curioso.
Pense rápido Draco, pense.
—Acredito que em minhas mãos a sangue-ruim terá um treinamento ainda melhor. —Forçou seu melhor sorriso sacana, admitiu que devia ter atuado bem, a julgar pelo olhar fuzilante que a secretária o lançou, do canto da porta.
—Sendo assim... —O ministro iniciou, puxando um pergaminho e uma pena para si.
—Cem milhões.
Desta vez até Amanda, na porta, sentiu seus pés falharem sobre os saltos altíssimos.
O olhar avermelhado daquele que não deve ser nomeado brilhou como chamas, observando a reação que o loiro teria.
—Um bilhão. —Draco fez sua voz soar mais alta que a do outro comensal. —E isso não fará nem cócegas nos meus cofres, se quer saber.
Dolohov hesitou em falar algo, mas nada lhe surgia entre os dentes podres. Dado por vencido, levantou-se revoltado e rumou até a porta, virando-se apenas para dar adeus ao seu lorde, que permanecia sorridente. Amanda seguiu seu novo cobaia.
As papeladas que vieram a seguir causariam dores de cabeça a qualquer um, exceto Draco, que leu e releu seu contrato de escravatura, garantindo-se que em sua posse, Hermione permanecesse segura, a menos que o próprio ordenasse o contrário.
Por que diabos estava fazendo isso?
A assinatura fina e bem detalhada confirmou o que estava escrito no pergaminho de mais de dez metros.
Hermione Jean Granger era sua posse.
Wiltshire, Inglaterra.
07 de setembro de 2004.
Draco permanecia em seu escritório, durante a madrugada, lendo e relendo categoricamente, à luz baixa dos archotes, as letrinhas pequenas e mal definidas que acompanhavam o contrato de Hermione. Cada segundo de leitura o cansava, o fazia sentir-se arrependido perante sua decisão. Ao menos, pensou, sua mãe se orgulharia de sua bravura e compaixão perante o próximo. Estava sendo um homem bom.
Imaginar Hermione sendo abusada mais uma vez o fazia, momentaneamente, sentir-se bem perante sua ideia. Estaria a livrando de algo ainda pior do que viver em Azkaban.
Ele havia a colocado naquele inferno.
Ele devia a tirar de lá.
Era culpa dele.
Uma voz incômoda sussurrava em seus ouvidos, em tom acusatório.
Para a infelicidade de Draco, a voz não estava mentindo.
O que lhe custaria ter fingido não ter encontrado Hermione desmaiada naquela maldita torre, naquela noite chuvosa de guerra? O que lhe custaria ter fingido não ter visto nada? Foi um covarde, como sempre havia sido.
Ingeriu o vinho que segurava em sua mão esquerda com vontade, forçando o líquido a descer queimando sua garganta, seca devido ao nervosismo. A taça encheu instantaneamente pela oitava vez, fazendo-o dar sinais de que estava alcoolizado.
Draco odiava pensar nisso, lhe causava náuseas.
Lembrou-se momentaneamente da cena que viu alguns dias atrás, quando atendeu a castanha pela primeira vez, quando viu, pela primeira vez em anos, o rosto fino e magro, acompanhado de hematomas que percorriam seu corpo inteiro. Se ele tivesse tido coragem de mentir ao lorde das trevas, ela jamais estaria daquela forma.
Recordou-se das marcas que o abuso lhe deixou sobre o corpo. A cicatriz no seio. O medo de que qualquer ser vivo se aproximasse. O acuamento que tinha perante qualquer sinal de vida. Agia como um animal indefeso. E era culpa dele, e ele sabia disso.
Havia tentado evitar pensar nisso há dias.
O homem alvo de olhos cinzentos, que nunca se permitiu enfraquecer, cedeu às lágrimas que lutavam agitadas nas extremidades de seus orbes e permitiu-se admitir para si mesmo, sua cabeça, anteriormente já pendente para os lados, caiu sobre a escrivaninha, derrubando a tinta escura pela mesa e pelo chão. Seu corpo ofegava, buscando por ar, enquanto seu cérebro ardia de forma queixosa.
O líquido que jorrava de seus olhos, tornando-os uma perfeita pintura do que seria uma noite chuvosa, esbaldava-se pela mesa, misturando as lágrimas a tinta recém derramada.
Não podia mentir para si mesmo.
Não estava fazendo um favor, sequer sendo um homem bom ou corajoso. Não estava sequer praticando um ato de heroísmo, não era um herói.
Não fazia mais do que sua obrigação em tirar Hermione de lá.
Ela era seu fardo.
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