Palimpsesto - Dramione
9 Dia chuvoso.
Notas iniciais
Wilthsire, Inglaterra.
07 de setembro de 2004.
A manhã anunciou-se chuvosa, os pingos que caiam melancolicamente no chão refletiam o estado em que se encontrava Draco Malfoy. Sequer havia dormido e permanecia em seu escritório, agora sem iluminação alguma. A tinta misturada ás lagrimas escorria pela escrivaninha e pingava no chão, exibindo um som contínuo e ritmado que após certo tempo passou a causar náuseas no homem.
Cada gota de tinta que pingava no chão voava contra o ar, manchando vagarosamente a calça que o homem vestia.
Ao lado, a taça de vinho permanecia cheia, e depois de mais de vinte doses Draco sequer se recordava de como havia ido parar ali, deitado com a cabeça sobre a escrivaninha, a feição sonolenta e cansada. Seus olhos refletiam a janela à sua frente, onde o céu estava nublado.
Ao checar seu relógio, juntou seu corpo que parecia dez vezes mais pesado do que o comum, esforçando-se para realizar o mesmo ato com a cabeça que parecia um tijolo, e arrastou-se segurando pelas paredes até seu quarto, onde tomaria um banho rápido.
Precisou sentar em sua cama para que fosse possível retirar a roupa.
Esforçou-se para manter seu corpo em pé no box do banheiro, e quando percebeu que acabaria caindo, se jogou de qualquer jeito na banheira enorme que parecia chamá-lo, fazendo a água voar para todos os cantos. Repousou sua cabeça vagarosamente, mantendo cuidado para não a tornar ainda mais dolorida, e respirou, por fim, o ar quente que o banheiro parecia oferecer. Estava acabado.
Sentiu seu estômago rugir ferozmente, e só então se lembrou de que não comia nada desde a manhã anterior.
Com cuidado, apoiou-se na banheira e levantou, agora com mais firmeza, a qual não possuía no começo da manhã. Ao se levantar, sentiu seu peito nu sendo tomado por um frio que não havia percebido ao entrar no ambiente, arrepiando todos os pelos quase transparentes de seu corpo.
Se vestiu com calma, ainda cuidadoso com os próprios movimentos. Uma tentativa de esticar o braço por dentro da camisa escura de forma brusca o fez sentir cada osso de seu corpo estalar em resposta a dor, lhe fazendo soltar um gemido de dor. Ao sair do quarto, sentiu um aroma quente e convidativo do andar inferior, para onde caminhou à passos rápidos. O cheiro aumentava gradualmente conforme os passos de Draco aproximavam-se da sala de jantar.
Deparou-se uma cena que lhe deu nostalgia. A mesa bem-posta, o café recém passado ainda soltando vapor, os pães recém tirados do forno que ao toque permaneciam quentes, os faisões assados e a tão grande infinidade de alimentos que estariam à sua escolha. Sentiu sua mente rumar diretamente à Hogwarts, e aos cafés da manhã deliciosos aos quais se esbaldava na companhia daqueles que não podiam ser considerados amigos, mas sim colegas de longa data.
—Aysha... —Murmurou em tom quase inaudível, confuso.
O estalar característico da criaturinha fez-se ouvir à suas costas, seguido dos passos dados pela elfo, cujo seus pés eram grandes desproporcionalmente ao corpinho magro.
—Sim, mestre.
Draco virou se tão rápido quanto sua tontura lhe permitiu.
—Por que esse banquete a estas horas?
—Ora, senhor Malfoy, o senhor falou para Aysha que a partir de hoje Aysha deveria fazer três refeições ao dia, não lembra senhor Malfoy?
O loiro apenas assentiu, sentando-se na cadeira que um dia fora a de seu pai. Havia esquecido de sua conversa com a elfo na manhã anterior. Por onde andava sua cabeça?
Deliciou-se dos pãezinhos e faisões, acompanhado sempre de uma xícara de café, que algum tempo depois surtiu um fraco, mas notável efeito sobre sua ressaca, juntamente à fome que sentia ao amanhecer.
Sem se despedir, juntou dois pãezinhos e uma tortinha de abóbora para comer em seu intervalo e aparatou de sua sala de jantar diretamente para a cela de Hermione, onde a prepararia para ir embora.
Azkaban.
A castanha, como sempre concentrada em algum ponto escuro da parede e usando de seus dedos finos para contar, sequer percebeu o som esganiçado que Draco trouxe consigo ao desaparatar do lado de fora da cela. Contava em voz alta desde a hora que havia acordado, na tentativa de disfarçar a fome.
Treze mil quinhentos e vinte nove.
Treze mil quinhentos e trinta.
Treze mil quinhentos e trinta e um.
O loiro, por sua vez, permitiu-se analisar a figura feminina à sua frente, tão absorta em seus próprios pensamentos e números, vagando seu olhar confuso pelos pontos mais negros da parede. Por que ela gostava tanto de contar?
A sabe-tudo permanecia com suas manias esquisitas.
Ao se lembrar da noite anterior e do seu momento de fraqueza, Draco precisou juntar todo seu orgulho para pigarrear, chamando a atenção de Hermione pela primeira vez.
Adentrou a cela de Hermione no mesmo ritmo lento que manteve durante a manhã, e ainda sendo observado, agachou-se a frente dela, poucos segundos foram necessários para decidir a forma como trataria a prisioneira desse dia adiante, devido a culpa que sabia carregar em suas costas. Era o culpado pela prisão de Hermione, e diferente de seu pai, deveria arcar com suas consequências. Precisava agir como um homem.
A última coisa que Hermione precisaria seria sua gentileza, deduziu, mas mesmo assim, não estaria fazendo mais do que sua própria obrigação em não a tratar como o bárbaro que havia sido no primeiro dia.
Engoliu o bolo que se formava em sua garganta antes de entreabrir os lábios finos para falar, de forma sussurrada o suficiente para não alertar a castanha.
—Pronta para ir, Granger?
Os orbes amendoados de Hermione dilataram levemente perante o tom apaziguador que o loiro havia usado.
—Estou com fome, doutor...
O loiro abriu a boca para pronunciar-se em relação ao café da manhã, que provavelmente ainda estaria posto, mas não foi essa a frase que verbalizou.
—Não comeu nada ontem? E já mandei que me chamasse de Malfoy.
Hermione, que sentia seu estômago rugir com ferocidade, abraçou-se a si mesma, temendo ser punida pela reclamação por falta de alimento. Não respondeu, sequer moveu sua cabeça. Raciocinava de forma devagar.
Draco sabia a resposta, ele não havia ido trabalhar no dia anterior, quem se lembraria de alimentá-la? A segunda certeza que perambulou pela mente do loiro foi de que não poderia aparatar com Hermione em tais situações, com certeza ela estruncharia no caminhou o chegaria vomitando em sua casa, afinal faziam anos que a morena não aparatava para lugar algum.
Lembrou-se das comidas que havia trazido consigo para seu intervalo.
—Tome, coma isso. —Retirou os mantimentos de seu bolso e olhou sugestivamente para os dedos cerrados em punho de Hermione. Ela abriu a mão devagar, se acostumando com a dor que trazia em suas articulações, a quanto tempo estava com os punhos desta forma?
Draco parecia lidar com um animal que atacaria a qualquer momento, depositando a comida entre os dedos da castanha lentamente, como se ela fosse ter uma crise de choros ou atacá-lo durante o ato.
Ao se deparar com o alimento em suas mãos, Hermione os devorou com tamanha vontade que sequer reparou no gosto do que estava comendo. O loiro, que observava toda a situação à sua frente, confirmou em sua mente a animalidade que a mulher trazia consigo.
Precisava ensinar a garota como se alimentar feito gente em sua casa, ou não suportaria sequer uma semana.
Em poucos minutos toda a comida havia sido ingerida, causando em Hermione uma sensação agradável de satisfação.
—Granger, posso te pedir uma coisa? —O loiro perguntou calmamente após ela terminar de se alimentar, jamais fixando seus olhos sobre o dela, e sim observando o seu redor com certa repugnância em seu semblante.
—Sim dout...Malfoy. —Ainda estava ocupada lambendo seus dedos, mas disponibilizou-se a responder.
—Não precisa ter medo de mim, Granger, já te falei isso.
E ela assentiu em resposta, ainda acuada.
Sabia que Draco havia a colocado ali, mas sabia também as consequências que ele teria como um comensal se não tivesse o feito. Temeu, nos primeiros dias, ser tocada contra sua vontade pelo loiro, mas agora já não tinha mais medo. Ele a viu nua e não fez nada, pelo contrário, manteve o cuidado que ela sequer imaginou que ele teria.
Ficaram ao menos meia hora sentados, em uma espécie de silêncio acolhedor. Não era desconfortável, muito menos constrangedor, não neste momento. E então Hermione percebeu que a companhia de Draco Malfoy, ao menos em silêncio, não era tão ruim quanto parecia.
Ao perceber que a castanha estava melhor, o médico levantou-se, passando a mão pelos lados de sua roupa social, espantando a poeira que havia pairado sobre sua calça, e em um gesto que nem sequer ele entendeu, estendeu sua mão para que Hermione se levantasse, a puxando para cima em forma de apoiá-la.
Um último olhar rancoroso para a cela.
Foi tudo que a castanha ofereceu antes de ser puxada pelo cotovelo para desaparatar com Draco Malfoy para um lugar desconhecido.
Wiltshire.
Na sala de estar da mansão, logo se materializaram Draco e Hermione.
O loiro observava cada reação da castanha, receoso em relação às lembranças que aquela sala poderia lhe trazer. Recuou dois ou três passos, soltando o braço de Hermione, e parou em pé ali, esperando alguma reação da garota que permanecia em silêncio.
Hermione, que ainda estava recuada, passeou com o olhar pelo ambiente. A sala em que havia um dia sido torturada por Bellatrix não se assemelhava com a que estava em sua frente. Todos os móveis, antes rústicos, haviam sido trocados por uma mobília moderna, apesar do toque sombrio que traziam. Era sem dúvidas o lugar mais elegante que se lembraria de estar.
Sem saber se poderia caminhar pelo ambiente, abaixou sua cabeça à espera de alguma ordem que não veio, e sim um tom sugestivo trazido pela voz de Draco, seguido de um pigarro.
—Se quiser tomar um banho... —Remexeu impaciente em seus cabelos loiros, torcendo para que ela aceitasse a sugestão antes de caminhar pela casa com aquela roupa que já tinha planos de jogar fora.
As pernas de Hermione falharam, junto ao coração que pulou um ou dois tons mais alto.
Estava ajoelhada no chão, tampando o rosto avermelhado pelas lágrimas com suas mãos magras. Seu corpo tremia em resposta a tentativa de respirar em meio ao choro. Ao tentar se pronunciar, sua voz à traiu, entonando apenas o desespero que saia em forma de arfares pela sua garganta.
Estava livre.
Não era uma liberdade total, mas comparado ao que esperava, era o paraíso.
Tinha certeza que jamais sairia de Azkaban.
E agora, estava livre.
Fora da mansão, os trovões pareciam rugir conforme a dor no peito de Hermione se esvaia. O som das gotas pingando violentamente contra o chão trazia para dentro da sala o cheiro característico de chuva, cheiro esse que embalava o ambiente em um ritmo angustiante.
Lá fora, o céu chorava.
Lá dentro, Hermione chovia.
A mente de Draco passeava entre o desespero e a culpa, observando no chão o que foi fruto de sua covardia.
Afrouxou sua gravata na tentativa falha de tomar um ar que lhe faltava, e após minutos de um silêncio torturante, andou rapidamente até a cozinha de sua casa no intuito de tomar um copo d’água e talvez oferecer um pouco a Hermione. Precisava ficar calmo, e precisava ainda mais faze-la se acostumar com o lugar, ela não teria outro lugar para onde ir e deveria se acostumar como isso.
Se ele tivesse qualquer outra opção de onde deixar a ex colega de forma que não fosse escrava ou abusada, o faria sem pensar duas vezes. Mas não tinha.
Era o mínimo que faria, dizia a voz em sua cabeça, acusando-o sem cessar.
Na cozinha que Draco visitava pouco menos do que deveria, Aysha lavava as louças que haviam sido deixadas pelo café da manhã solitário, seus pezinhos desciam e subiam em ritmo de uma dança estranha, que poderia até soar engraçada aos olhos de alguém que gostasse de elfos.
Elfos.
Hermione gostava de elfos.
Como não havia pensado nisso?
—Aysha, por Merlin, ajude aquela moça na sala a tomar um banho e apresente a casa para ela.
Amontoou toda a cordialidade que tinha para se referir a criaturinha, que se sentiu recompensada com a forma que havia sido tratada por seu mestre.
O loiro pegou dois copos, onde conjurou água.
Esperou alguns minutos em silêncio, ouvindo a elfo falar palavras tão baixinhas que não poderiam ser decifradas, em resposta, pareceu ouvir a voz de Hermione falhando, mas não mais carregada de lágrimas como estava ao chegar.
Voltou à sala respirando fundo, tomando a paciência que deveria ter para o momento. Havia sido um covarde novamente, nem sequer tentou acalmá-la.
Como sempre, um covarde.
E lá estavam as duas.
Hermione e Aysha conversavam como velhas amigas, ambas sentadas no chão. A pequena elfo balançava suas longas orelhas em sincronia, em sinal de uma felicidade que o loiro poderia jurar nunca ter visto em sua criada. Hermione secava suas lágrimas com as costas de suas mãos, substituindo seu olhar choroso por algo como curiosidade pela criaturinha.
Curiosidade.
Aquele olhar de curiosidade que Draco não enxergava em Hermione desde a época escolar, se instalou em seus orbes castanhos, mesmo que passageiro.
Após alguns segundos observando a situação inusitada, o loiro decidiu intervir.
—Tome isso.
Ofereceu o copo à moça, caminhando lentamente como quem mostrava que era inofensivo.
Hermione se levantou de forma desajeitada e mancou levemente até Draco. Puxou o copo para si e em uma só golada, ingeriu todo o líquido do copo que anteriormente estava cheio. Sequer se lembrava da última vez que tomou água pura.
—Obrigada, Malfoy.
Um sorriso tímido surgiu nos lábios da mulher que ainda olhava para o chão. Parecia recuperada da crise que havia tido ao chegar, exceto pela respiração ainda descompassada.
—Por nada. —Respondeu tão baixo que duvidou se Hermione poderia ter ouvido.
Mas ela pode. Levantou seu olhar de forma sutil e encarou as íris cinzentas de Draco, ainda sustentando um leve sorriso.
Não pode evitar sorrir de volta.
Por fim, virou-se para a criaturinha, grato como nunca por ter sua posse.
—Aysha, ajude a senhorita Hermione a tomar um banho e depois arranje algumas roupas pra ela e mostre a ela o quarto de hóspedes.
—Sim senhor, senhor Malfoy.
—Aysha?
A criaturinha já caminhava em direção à Hermione, que observava a situação ainda se acostumando com o ambiente.
—Sim, mestre?
—Depois que eu sair, o que acha de apresentar a senhorita Granger à biblioteca?
A criaturinha puxou Hermione pelas mãos e a carregou para o andar de cima, dando espaço entre seus passos curtos para leves pulinhos de empolgação.
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