Palimpsesto - Dramione
36 Espelhos
Notas iniciais
A manhã chegou, trazendo consigo a luz do alvorecer. A chuva havia parado, deixando um rastro vivo, com cheiro de terra molhada.
O quarto em que Draco e Hermione dormiam recebia com facilidade os feixes luminosos, que irradiavam pela cortina que flutuava no ritmo do vento, criando pequenos arco-íris ilustrados na parede.
Parecia um dia perfeito para um recomeço;
Draco acordou primeiro. A luz que entrava parecia agressiva a sua visão, e sob as pálpebras podia sentir a claridade que irradiava, trazendo uma nuance vermelho forte contra seus olhos fechados.
Preferiu então deixá-los fechados, esperando que o brilho se adaptasse. Tateou então. Sentiu o calor da pele da mulher com quem havia dormido.
Hermione era morna, confortável.
Passou a mão sobre seus braços, sentindo a suavidade da pele da castanha.
E percebeu que não precisava enxergar para sentir aquela sensação.
Era acolhedor, senti-la assim tão perto. E dentre algumas outras sensações que a grifina podia causar em seu corpo, preferiu apegar-se a esta.
Tinha vontade de puxá-la para si. Um lado de sua mente — aquele que odiava — o dizia que isso era apenas um desejo masculino. Luxúria. Era falta de transar, e sabia que podia conseguir vadias muito mais fáceis, que sabiam fazer aquilo, talvez muito melhor do que Hermione poderia fazer.
Mas era o outro lado de sua mente que o fazia agir, era também o outro lado que o fez sorrir em pensamento.
Ela era incrível, e o fato de ser uma sangue ruim parecia nem chegar aos mais profundos de seus pensamentos. Não a desejava apenas por instinto, pelo tempo em que não transava e também não era apenas o fato de ser alguém tão próximo cujos seus corpos se tocavam perfeitamente. Era mais do que aquilo.
Havia um sentimento ali.
E saber que aquele sentimento era correspondido era ao mesmo tempo emocionante e assustador.
Não era bom com sentimentos, nunca foi. Não sabia ao certo o que todos eles significavam. Sabia que depois que aquilo acabasse, adoraria ter Hermione pro resto da eternidade. Mas aquele mesmo lado que odiava em sua mente o alertava de que um Malfoy nunca foi, nem jamais seria um homem de apenas uma mulher.
E engolir esse pensamento lhe trouxe um pouco mais de asco do que imaginou.
Abriu os olhos, então. Sentia o cheiro de terra úmida, junto ao aroma dos cabelos de Hermione, grande parte deles que repousavam sobre seu rosto, fazendo um enorme ninho de cabelos.
Mas isso nem por um segundo o afugentou.
Puxou-a para mais perto, tomando cuidado para que não a assustasse, e a confortou em seu próprio peito. Era difícil demais colocar em palavras o que estava sentindo, e por um momento chegou a pensar que tudo que vivera até agora lhe trazia pena de si próprio.
Hermione respirou fundo, e Draco prendeu a respiração no mesmo instante em que ela se aconchegou melhor em seu peito enquanto abria seus olhos castanhos.
E então ambos sorriram.
—Bom dia. —Hermione resmungou enquanto coçava o rosto preguiçosamente.
—Bom dia, fedelha.
—X—
—E então é isso? Precisamos andar Paris toda atrás de um dente de basilisco?
Rony parecia muito menos confiante do que na noite anterior. A ideia parecia perfeita enquanto pronunciada pelas bonitas palavras de Draco, mas a cada olhar interrogador de Ronald, fazia menos sentido.
—Exatamente! —Hermione exclamou, jogando os braços para o alto como se fosse óbvio.
—E você esperava o que? —Resmungou Gina, enquanto mastigava um croissant. —Esperava sentar sua bunda nessa poltrona e esperar que nossa família aparatasse de Azkaban com a ajuda dos comensais?
Draco tossiu para disfarçar o riso, e Gina soltou um olhar de cumplicidade encoberto pela testa que franzia.
Gostava de Gina.
Era determinada e muito forte, e por um momento lhe ocorreu que a ruiva teria se dado muito bem como uma estudante da sonserina.
E Hermione, cujos olhos castanhos nada deixavam escapar, tocou a mão do alvo em resposta, feliz em ver, mesmo que mínima, uma interação amigável.
—Então vamos repassar o plano, pra ver se esse cabeção entendeu. —Gina cortou o casal, fazendo com que Ronald revirou os olhos e mostrasse a língua com a ofensa. —Eu vou com Ronald para o leste da cidade, enquanto você e Hermione irão para o lado Oeste. —Draco confirmou com a cabeça, parecendo extremamente focado. —E então vamos procurar por algo que seja a cara de você-sabe-quem, com luxo, bastante requinte, basicamente o que se espera dele.
—Perfeito. —Hermione respondeu.
E em um rápido momento, todos naquela sala, em uma casa de trouxas na França, estiveram tão determinados em acabar com Voldemort e salvar suas famílias quanto um dia havia acontecido, na guerra bruxa.
—X—
Hermione repetia cada passo do plano de forma quase desesperada. Sua voz era baixa e quase inaudível, mas seus sussurros eram apressados e ofegantes. Sentia medo.
Parecia loucura sentir medo à essa altura do plano. Tudo havia dado certo —Ou quase tudo— Até então. Mas agora parecia tudo diferente.
Se era egoísmo? Podia ser. Mas a poucas horas atrás, estava só. Não havia Draco, Gina ou Ronald Weasley que a cercassem com risos e abraços, e botar tudo isso a perder enquanto podiam permanecer escondidos lhe soava tentador.
Mas não era isso que Hermione Granger faria. Já havia se arriscado uma vez, e apesar das perdas que aconteceram, as perdas que ainda poderiam vir também lhe causavam arrepios. E ainda existiam muitas pessoas boas do lado de fora daquele apartamento. Algumas presas em Azkaban, outras escondidas desde o fim da guerra, e outras, os trouxas, que sequer faziam ideia do mal que lhes encobria. Assim como seus próprios pais.
É isso. Não desistiria.
Repetia o plano pela última vez, desta vez tão baixo que chegou a se perguntar se falava em voz alta, quando uma voz a assustou.
—Repetindo os planos pra nosso fim, Granger?
Era Rony. Seu rosto repleto de sardas havia tomado um tom rosado que Hermione não via havia anos, o mesmo tom que lhe encobria na noite em que dançara com Viktor Krum. Examinou com cuidado os traços do ruivo, até perceber que em sua mão esquerda havia um pequeno objeto brilhante.
O bracelete.
—Ronald, larga isso. —Hermione pediu. Não era o mesmo tom imperante que sempre existiu em sua voz, mas quase uma súplica. —Sabe que esse tipo de coisa não tem um efeito bom em você.
Rony riu alto. Sua voz rouca estava repleta de escárnio e julgamento quando falou, suas pupilas estavam dilatadas enquanto encarava o bracelete.
—Porque não mostrou ele pra mim ou pra Gina? Será que seu namorado tinha medo que eu roubasse? —O ruivo avançou um passo, e simultâneamente Hermione recuou dois. —Ou pretendiam nos matar nessa missão suicida para que vivessem esse amor a sós?
Hermione quis avançar. Cada nervo de seu corpo implorava para que sua mão estalasse contra o rosto do Weasley. Seus dedos tremiam.
Por outro lado, nada acontecia. Rony continuava falando, sua voz cada vez mais próxima, seu hálito quente parecia queimar seu rosto, e as palavras que esboçava já não faziam sentido. Dentre todas elas, a única que Hermione conseguiu captar foi:
—Você ainda é minha, Hermione.
E então seu corpo reagiu. Não houve tapa ou estalo algum, e o único som que ouvia acima da voz de Ronald era o som de seu próprio choro enquanto se encolhia contra a parede, abraçando a si mesma. Não havia mais pra onde fugir, e ele estava tão perto…Rugia como um leão prestes a atacar uma presa incapaz de se defender.
Por um momento, ele parou de gritar, e agora o som que predominava era um zumbido crescente, que a envolvia por completo. Ao olhar pra frente, sentiu o calor de Ronald tão próximo que podia ser capaz de respirá-lo. Ele a encarava com frieza, mas em seus olhos havia um sinal de súplica que a assustou ainda mais. Era loucura. Era loucura e maldade. Era ódio guardado por muitos anos, era saudade e desejo. Era o reflexo da insanidade que Azkaban trazia a alguém, e também o espelho do poder do bracelete que o ruivo segurava.
Sentiu que Rony ia a beijar. Sentiu seu hálito a queimando, e ao tentar jogar a cabeça para trás, sentiu apenas a dor que o azulejo frio em contato com sua cabeça trazia.
E então uma escuridão a sugou.
Piscou os olhos uma vez, e teve a impressão de ver uma nesga de cabelos ruivos se movendo atrás de Ronald. Na segunda vez, os cabelos ruivos estavam mais próximos. Na terceira, pode ver por trás dos cabelos de Gina a feição de Draco enquanto se aproximava. Suas feições eram retorcidas em raiva e confusão.
Então aqueles cabelos platinados se aproximaram cada vez mais, e aproveitando-se da claridade, seus olhos fecharam.
E Draco pode ver com clareza a mancha de sangue deixada como rastro na parede pelos cabelos de Hermione, enquanto sua cabeça tombava vagamente para o lado, levando seu corpo junto.
Ginevra pulou contra Ronald e lhe arrancou o bracelete, e no mesmo instante em que as pupilas do ruivo se dilatavam como a de um felino que voltava a sanidade, a mão fria de Draco entrou em contato com seu rosto avermelhado.
Draco não podia controlar.
Havia muito mais do que raiva de um grifino que tentou beijar Hermione.
Era mais do que isso, com certeza era.
Cada soco que destilava em direção ao ruivo se transformava em rancor, em ódio, em pura vontade de ver a morte de perto.
Era como se ainda fosse comensal. Era a raiva que sentia pulsar por suas veias e escorrer por sua testa a cada vez que destinava um feitiço a algum trouxa. Mas dessa vez não o fazia sentir culpado, fazia querer mais.
Sentia mãos escorregadias o puxando para longe do corpo do ruivo, que em algum momento havia desistido de se defender, tomando soco por soco em seu rosto, olhos, mandíbula e qualquer outro ponto que Draco conseguisse alcançar, mas as mãos que o tentavam separar pareciam frágeis demais e quase imperceptíveis comparadas à fúria que o invadia. Sentiu seus olhos se embaçando com lágrimas que não foram convidadas, que poderiam ser de tristeza ou de raiva, mas na hora eram apenas algo que o atrapalhava em ver o sangue do ruivo escorrendo por sua face.
Queria gritar. Queria pedir a Gina que cuidasse de Hermione, desacordada no canto da cozinha. Queria dizer a Ronald o quanto foi imbecil, idiota e asqueroso, ao tentar beijar Hermione contra sua vontade. E no fundo algo de sua mente o alertava que não era apenas Ronald o culpado pelo que aconteceu. O bracelete estava jogado em algum canto da sala, impune, e isso o fez tremer ainda mais de raiva.
Percebeu que as mãos de Gina não tentavam mais o domar, e sim falavam em tom quase suplicante com outra pessoa. Falava com Hermione.
Apurou seus ouvidos para entender do que falavam, mas o respirar alto e áspero de Ronald não o deixavam ouvir. Olhou por um breve instante para o lado, e olhos castanhos e assustados o miravam, temerosos.
Draco respirou fundo. Sentiu o nó de seus dedos latejar enquanto soltava o colarinho da blusa de Ronald, que respirou profundamente como quem se afogava, e ao olhar brevemente para suas próprias mãos, via uma infinidade vermelha que o assustava.
Hermione acompanhou seu olhar, e em seus olhos havia apenas medo.
Draco sentiu um peso escorregar por dentro de si ao perceber que o medo não era de Ronald. Ela sentia medo de Draco.
Hermione havia visto cada soco em direção a seu amigo. Havia presenciado o momento em que Draco havia se tornado um monstro, tirando sangue de um ser humano como se fosse um animal a ser escarniçado.
Gina o encarava com o mesmo semblante assustado, porém havia um olhar de julgamento enterrado em suas íris.
Tentou falar. Tentou se desculpar pelo momento de raiva, mas sua garganta estava carregada de amargor e culpa.
—Eu sinto muito, Mione. —Ronald arfou, seus olhos carregados de lágrimas e sangue. —Foi aquele bracelete, eu…
—Ela sabe que foi o bracelete, idiota. —Gina arfou antes que o irmão completasse a fala. Hermione sequer o olhou, seus olhos estavam presos em Draco, cujas roupas estavam inundadas de um vermelho vivo e escuro que não era seu.
Draco endireitou sua postura. Sentia como se cada olhar naquela casa o acusasse do que realmente era. Agora todos sabiam sua verdadeira personalidade.
Era um monstro, estava provado.
Hermione, cujos olhos estavam cobertos de lágrimas, tentou falar mas apenas soluços lhe escapavam dos lábios trêmulos.
Draco sabia o que devia fazer.
Se abaixou na direção de Ronald, e por um instante o ruivo recuou, como se esperasse por mais socos. Mas o que Draco fez era diferente. Sussurrou em um tom cujo apenas os dois ouviriam.
—Se você encostar um dedo nela sem ela ter pedido, eu volto aqui e termino o que comecei.
Olhou mais uma vez, brevemente, para Hermione. Sabia que assim que seu medo passasse, ela o pediria para ficar. Sabia que ela tinha tendência a fazer coisas idiotas, assim como decidir se apaixonar por ele.
Mas era sua responsabilidade livrá-la do monstro que era.
Ignorando os olhares que o acompanhavam, juntou o bracelete do chão, ia leva-lo consigo.
Enquanto uma última lágrima escorria de seus olhos vazios, Draco aparatou para longe de Hermione.
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