Palimpsesto - Dramione
2 Doutor Malfoy.
Notas iniciais
Londres, Inglaterra.
O cheiro de café se espalhava pela ampla sala de espera cor de mogno. O semblante preocupado de Draco Malfoy transparecia seus sentimentos. O loiro estava sentado em uma poltrona confortável de couro preto, esperando para que o Lord das trevas o chamasse para uma pequena reunião, cada gole de café queimava sua garganta, trazendo uma sensação de dor agradável que o trazia a sanidade que precisava para aquele momento.
Seus dedos longos e finos tamborilavam na mesa ao lado, demonstrando a ansiedade que tinha em ser chamado, tinha medo, como sempre, do que estava por vir.
Um chamado de Voldemort em sua sala pessoal era, no mínimo, algo a se preocupar.
Um barulho de sapatos de salto ecoando pelo corredor anunciou ao loiro a chegada de alguém, e o homem analisou a secretária com mais informalidade que deveria, e pensou no quanto iria se divertir com aquelas curvas mais tarde, já tendo certeza que teria sucesso em sua conquista.
—Doutor Malfoy, o Lorde ordena sua presença em seu escritório. —Draco piscou para a moça, que fez aquela expressão que ele conhecia muito bem. Ao passar pela secretária, o loiro fez questão de esbarrar sem querer e passar as mãos pelo quadril da mulher, soltando um sorriso ladino e cafajeste, de canto de olho pode ver a secretária devolvendo o sorriso. Seguiu sem se pronunciar, sabia que não precisava de muitas palavras com mulheres quando era seu nome que estava em jogo.
O corredor era longo e elegante, com um tapete bordô e vários quadros com fotos que se movimentavam de comensais nas paredes escuras, Draco se orgulhou ao ver uma foto de si mesmo, em sua formatura como médibruxo. Ao se aproximar da sala de Voldemort, o semblante preocupado retornou à face do platinado, que bateu na porta três vezes antes de entrar, sempre de cabeça baixa.
—Draco, querido. —Aquela mesma feição serpenteada caminhou até o rapaz, abraçando-o de forma desajeitada.
—MiLorde. —O loiro não levantou o olhar. Apesar de ser o favorito de Voldemort, não gostaria de arriscar desafiá-lo com tamanha audácia.
—Sente-se, querido, temos muito a negociar sobre seus futuros serviços para mim.
Draco sabia muito bem o que significava negociar com Voldemort, era sinônimo de obedecer suas ordens cegamente, e se tiver sorte, sair vivo. O próprio exemplo disso era, quando ainda moço, quando foi obrigado a tornar-se comensal para salvar o nome de sua família, sabia que caso sua escolha tivesse sido outra, não estaria vivo hoje.
Sentou-se na poltrona verde escura, sempre mantendo a postura submissa. Examinou o caminhar do Lorde, agora de terno e gravata, que se sentou do outro lado da mesa.
—Querido, gostaria de parabeniza-lo por sua formatura. Orgulho-me de um colega de ministério com tantas qualidades, que vi crescer de um moço sem jeito para a arte das trevas para um homem tão talentoso!
Draco surpreendeu-se com a palavra colega, mas manteve suas feições plenas, exigindo de si mesmo o maior tom de indiferença possível.
—Portanto, Draco, tenho uma nova missão para você, onde você poderá exercer suas funções de médico com total liberdade e até mesmo descobrir suas preferências no trabalho...Bem, óbvio que não será algo muito pesado para você, querido.
Os olhos tempestuosos, pela primeira vez tomaram um pequeno brilho, o que significava interesse. Draco não havia exercido sua profissão ainda, e adoraria descobrir se gosta ou não da área em que se especializou.
—Prossiga, MiLorde. —O loiro acariciava sua barba por fazer, analisando cada movimento de Voldemort por entre seus cílios longos e platinados.
—Draco, os prisioneiros de Azkaban estão morrendo. Não há um, sequer, que não pareça em estado vegetal.
O loiro evitou com todas as forças o gesto de revirar os olhos, o qual havia se tornado um hábito diário. O que tinha a ver com isso, afinal, não era o que Voldemort queria?
—Acredito que seja um desperdício de bruxos e bruxas mortos. Eles teriam outras serventias no nosso mundo contemporâneo, se é que me entende.
O rosto de Voldemort não possuía semblante nenhum, e Draco logo desistiu de entender as palavras subliminares.
—Não estou compreendendo, MiLorde, perdão. —Suas palavras saíram como agulhas para sua própria garganta, fazendo-o torcer por não ter falado nada de desrespeitoso.
—Veja só, garoto. —Voldemort se levantou e seguiu rumo à uma espécie de lousa, onde apontava para fotos que se movimentavam dos prisioneiros. —Está vendo esse rapaz, o reconhece?
—Ronald Weasley, traidor de sangue. —Era impossível para Draco não reconhecer aquela foto, afinal, no dia em que foi tirada um sorriso debochado fugia incontrolável entre seus lábios finos.
—Perfeito, querido. Ronald Weasley, assim como sua família, está definhando. Sabe o que significa? Poderia estar nos servindo, como forma de pena. Poderia limpar a sujeira que Nagini faz quando janta, poderia fazer o serviço que os elfos fazem, porém com maestria. Esta garota aqui, pode ver? Angelina Johnson, uma bela mulher, tendo seus serviços domésticos desperdiçados em uma cela.
Novamente Draco se perguntou o que tinha a ver com isso, apesar de não tornar suas palavras audíveis.
—Certo, MiLorde, e aonde eu poderia atuar nessa missão? —Suas palavras possuíam o contrário da educação que ele gostaria que tivessem.
—Oras, Draco, achei que já havia compreendido. —Voldemort caminhou até o homem, agora mais pálido do que nunca, e tomou uma de suas mãos, de forma poética. —Você vai curar esses bruxos e trazê-los para o mundo bruxo, onde atuarão como escravos, são mais uteis aqui do que lá.
E então as fendas de Voldemort pareciam sorrir junto a seus olhos. Seus lábios se abriram, mostrando os dentes, todos descuidados de forma gutural.
Draco engoliu seco, mostrando um sorriso falso.
—Agradeço pela missão, MiLorde. Quando posso começar? —O loiro o olhou nos olhos, sendo o homem de negócios que seu falecido pai – que descanse em paz – havia o ensinado a ser.
Azkaban, Inglaterra.
Hermione Granger se deliciava com um pedaço de pão, que, sem querer, o zelador havia deixado derrubar pela manhã. A morena nem sequer havia percebido que haviam fungos verdes sobre a superfície da massa, e mesmo que parasse para olhar, sua visão estava turva o suficiente para confundir os fungos com um vegetal qualquer. Não se lembrava quando fora a ultima vez que havia comido algo tão sólido – estava acostumada com comidas regurgitadas pelos guardas, e comia com prazer – Havia aprendido a ignorar seu paladar e seu olfato, sendo guiada apenas pelos extintos.
Hermione pode perceber que algo novo estava acontecendo nesse dia. Chegou a contar duas ou três vezes que passaram alguns zeladores olhando de cela em cela e anotando algo. Um deles chegou até a ofende-la, falando palavras de nível sexual, limitando a morena a apenas se esquivar até o final da cela, da forma mais rápida que seu corpo machucado a permitiu.
Cinco mil quinhentos e vinte sete.
Cinco mil quinhentos e vinte oito.
Cinco mil quinhentos e vinte nove.
Uma voz estridente interrompeu suas contas. Era uma ordem para que todos os prisioneiros saíssem o mais rápido possível de suas celas, e ela, como uma moça obediente, obedeceu. Um guarda havia lhe chamado disso uma semana atrás, ou talvez um ano, ou até mais? Não importa, ele recém havia se deleitado em seu corpo quebradiço, e Hermione lembrou que naquele dia sentia uma dor quase insuportável abaixo do ventre, onde podia ver sangue escorrendo por entre suas pernas. Guardou sua pureza por anos, mas acabou tendo-a roubada por um mero guarda.
Ao voltar à realidade Hermione olhou para os lados, se desvencilhando de alguém que estivesse por perto, mas percebeu que como sempre estava só. Sentia uma vontade imensa de urinar, mesmo não possuindo liquido algum em sua bexiga. Arrastou-se até o pequeno buraco no chão, destinado a seus dejetos e despejou ali o pouco liquido que seu corpo sustentava.
Jamais havia saído da cela, portanto sequer lembrava-se de como era caminhar tamanha distância. Levantou-se devagar, ajeitando seu uniforme, que era notavelmente masculino e enorme demais para seu corpo raquítico. Abraçou seu próprio corpo, sentindo a ponta que possuía nos cotovelos, e seguiu até a grade, que se abriu magicamente.
Permitiu-se espiar para fora antes de sair, vendo ao seu lado alguém que um dia havia poderia ter sido seu colega, mas hoje estava tão devastado que era impossível dizer com convicção se era um ser feminino ou masculino. Descansou o pé com cuidado no chão de pedra, e seguiu, pé após pé, rumo a escada. Ao despontar na escada que descia, sentiu medo. Não se lembrava de como era descer uma escada, teria desistido, se não fossem as mãos nojentas do zelador logo atrás, empurrando-a com ferocidade.
Lembrava-se vagamente daquela escada caracol, no dia que havia chego ali. Recordara aquelas paredes cinzas de tijolo, que tornavam o ambiente ainda mais sombrio.
Ao adentrar o andar de baixo, pode perceber um hall um pouco mais apresentável. Seu chão ainda era de pedra maciça, mas as paredes agora eram pintadas de bege.
—Desculpe, senhor, mas para onde estamos indo? —Ousou perguntar, sua voz saiu rouca e desgastada, afinal sequer se lembrava de quando foi a última vez que a usou.
Sua resposta não demorou a chegar. Um murro na nuca. Hermione decidiu se calar novamente, procurando ignorar a dor que emanava por toda coluna vertebral, enquanto caminhava arrastando sua perna direita -havia alguns dias que esta perna não parecia obedecer como o normal.
Continuou sendo empurrada até uma sala branca, que parecia tentar passar a sensação de limpeza, tinha cheiro de desinfetante trouxa, o que trouxe a Hermione uma onda de nostalgia, que a moça decidiu ignorar quando percebeu que haviam dementadores sedentos de boas memórias nos cantos das salas.
Ao olhar para os lados, Hermione pode reconhecer alguns rostos. Alguns metros à esquerda, repousava Gina Weasley. Seus cabelos haviam sido cortados recentemente, de forma desleixada. Possuía partes raspadas e partes que já haviam começado a crescer. A ruiva encarava o chão como se sua vida dependesse disso. Hermione se perguntou se também estava parecendo acabada dessa forma, e agradeceu a Merlin por nunca ter seus cabelos cortados, o que os fazia escorrer embaraçadamente até seu quadril.
À direita, pode visualizar a face daquele que a tirou tantos suspiros durante a adolescência. Ronald Weasley olhava desconfiado para todos. Seus cabelos deram lugar para um crânio quase aparente, devido à tantas tentativas de ser raspado. Parecia murmurar palavras inteligíveis enquanto balançava seu corpo magro e franzino. Fixou seus olhos claros sobre Hermione durante um segundo, e a garota podia jurar ter visto ele murmurar seu nome antes de começar a estalar a língua piamente.
A morena se perguntava se seriam mortos ali mesmo, e rezou mentalmente para ser isso mesmo que aconteceria, não via a hora de sair daquele inferno.
Todos pareciam apreensivos quando um homem alto e esguio adentrou o local de forma distraída. Vestia um terno preto por baixo do jaleco, e chegava seu relógio de bolso. Ao chegar no centro do salão, avaliou seus pacientes como quem havia acabado de chupar um limão, seu rosto transpassava desespero, medo e até mesmo nojo ao observar cada pedaço de gente mal alinhada que havia ali.
Quando os olhos castanhos de Hermione se chocaram contra os olhos cinzentos de Draco Malfoy, a expressão do homem foi de pura arrogância.
Enquanto o homem ajeitava seus cabelos platinados, um sorriso ladino parecia constantemente querer fugir dos seus lábios finos. O homem adoraria esnobar Hermione Granger ali mesmo naquela sala, mas percebeu que os prisioneiros não teriam senso de humor o suficiente para puxar seu saco.
Uma onda de pena pareceu percorrer a espinha de Draco, que se recompôs em meio milésimo de segundo, ajeitando sua postura.
—Meu nome é Draco Lucio Malfoy, mas vocês podem me chamar de Doutor Malfoy. Fiquem sentados no chão aguardando sua vez de serem chamados, por ora, senhorita Hermione Granger, me acompanhe. —Sua frase saiu ácida, principalmente ao tocar o nome da morena.
Hermione fitou o chão por alguns segundos até recordar que aquele era seu nome, ao perceber o olhar de impaciência com que Draco a encarava, fez uma pequena reverência enquanto falava.
—Sim senhor, doutor Malfoy.
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