Palimpsesto - Dramione
3 Ambulatório.
Notas iniciais
Wiltshire, Inglaterra.
Um corpo pálido se mexia confortavelmente em sua cama com lençóis negros. A noite anterior de Draco Mafoy havia sido longa, julgando pelo corpo da mulher que repousava paralelo ao seu, revirou os olhos ao se lembrar que este seria seu primeiro dia de trabalho em Azkaban, lugar que não desejaria visitar nem eu seus sonhos mais sórdidos. Era podre, fétido. Só poderia ser um castigo pelos erros que seu pai havia cometido, ainda em vida.
Como uma salvação, procurou o corpo da moça que permanecia ao seu lado, ainda sonolenta. Era a secretária da noite anterior, no ministério da magia. Ao sentir seu corpo nu contra Draco, a mulher não se tardou a ter mais uma experiência do que havia sido a noite anterior, se aninhando ao corpo pálido do homem que ali permanecia.
Gemeu de forma forçada, e a única coisa que parecia boa na mulher eram suas capacidades de atuar. Mais uma vadia que ele havia conseguido levar para cama sem sequer pagar um whisky, Draco sabia que esse era um dos prêmios que colhia por ser um Malfoy, mas não se tardava em admitir o quanto seus encontros casuais ficavam gradativamente mais sem graça.
Queria terminar logo com tudo aquilo, e para faze-lo imaginou que estaria com Pansy Parkinson, moça que já não despia a alguns meses. Deixou que a moça despejasse seu corpo relaxado sobre seu peitoral, mas por pouco tempo, afinal precisava trabalhar – ou fazer qualquer outra coisa que uma boa desculpa lhe permitisse.
Agora já saciado, o sonserino levantou-se do colchão rapidamente, qual era o nome dela mesmo? Foda-se, optou por chama-la de amor, avisando-a que estava atrasado para seu trabalho e pedindo-a, sem rodeios, para que fosse embora. E assim ela o fez, mais do que depressa.
Os olhos de Draco analisaram o quarto espaçoso, que agora ocupava apenas sua presença, suas roupas estavam jogadas, uma em cada canto do quarto, e o sonserino não pode evitar um sorriso cafajeste ao perceber que a jovem com a qual havia acabado de passar a noite havia esquecido sua calcinha fio dental sobre uma penteadeira. Safada.
Tomou seu banho quente, deixando seu corpo inteiro rosado e relaxado, mas sabia que não podia se tardar mais, afinal estava quase atrasado. Vestiu o primeiro terno que encontrou em seu guarda roupa e aparatou, do próprio quarto, deixando a bagunça do cômodo para que os elfos cuidassem.
Azkaban.
Nem havia percebido que desaparatou dentro do ambulatório de Azkaban. Checava seu relógio de bolso quando percebeu o olhar de centenas de pessoas imundas, que mais pareciam animais ferozes. Pode notar um Ronald Weasley incrivelmente acabado, sujo e maltrapilhas, e se sentiu saciado ao ver a cena, era revigorante ver o quanto as coisas haviam mudado. Ao perceber que todos o olhavam, soube que deveria falar algo, afinal nenhuma alma viva fornecia sequer uma informação aos prisioneiros ali. Não que isso o causasse pena.
—Meu nome é Draco Lucio Malfoy, mas vocês podem me chamar de Doutor Malfoy. Fiquem sentados no chão aguardando sua vez de serem chamados—Observava cada rosto ali presente, e quando avistou a sabe-tudo em um canto da sala, não se deteve de curiosidade, e até um pouco de dó, e desejou que ela fosse sua primeira paciente— Por ora, senhorita Hermione Granger, me acompanhe.
Todos os prisioneiros pareciam acatar a ordem com a maior velocidade que seus corpos calejados os permitia, exceto Hermione, que ainda processava as palavras do platinado, identificando quem ele era. Seus olhos confusos não focavam, pareciam procurar respostas na parede que havia atrás do médico que havia acabado de a chamar.
—Sim senhor, doutor Malfoy.
As palavras da castanha pareceram soar quase inteligíveis, e apenas Draco pode ouvi-la, o que o fez duvidar de sua sanidade ao ver a garota tão frágil. Seu nariz empinado não existia mais, dando espaço para uma feição machucada e frágil, em um rosto onde jaziam olheiras profundas e pupilas mais dilatadas do que uma pessoa saudável poderia oferecer.
Se arrependeu no mesmo instante da sua escolha de atender Hermione, virando as costas para a moça e seguindo em direção a uma sala separada, que deduziu ser uma espécie de enfermaria, e não se surpreendeu ao se deparar com o cheiro de mofo que o local emanava grosseiramente. Não ouviu nenhum som o seguindo, o que o fez olhar para trás para perceber que Hermione mancava, o mais rápido o possível, em sua direção. Era como se a morena dependesse disso para sobreviver, suas íris castanhas não pareciam demonstrar nada além de medo.
Seu primeiro reflexo seria oferecer o braço para a moça segurar, mas se deteve ao imaginar o quanto isso soaria estranho da parte dele, afinal seus serviços eram apenas profissionais, e a sangue-ruim conseguia calmamente caminhar sozinha.
Esperou impacientemente a entrada da moça em sua sala, e fechou a porta em seguida, de forma que Hermione, silenciosamente, julgou como gutural e grotesca, assim como Draco Malfoy era.
—Granger. —Ele cumprimentou de forma profissional, estendendo sua mão. A garota pareceu fazer um esforço enorme para estender sua mão, e ao toca-la, Draco analisou o quanto estava fina, devido aos ossos quase aparentes. Apesar da fragilidade, era quente e macia. Hermione não demorou à puxar seus dedos para longe da mão gelada e áspera de Draco, afinal, adoraria permanecer o menor tempo possível ali.
Draco não sabia por onde começar, e por um segundo parecia nunca ter feito sua faculdade. Sabia que deveria olhar as costas da moça, examinar sua nutrição e todos aqueles procedimentos, mas não sabia como explicar isso para ela, e então preferiu ser direto e profissional, como faria com qualquer um outro pobre coitado que viria depois.
—Você acha que está machucada? —Sentou-se em uma poltrona branca, fazendo sinal para que Hermione sentasse do outro lado da mesa, em uma cadeira claramente desconfortável e improvisada, o que a morena fez sem demora, demonstrando um semblante de extremo relaxamento ao sentar naquele móvel, afinal, não sentava em algo que fosse feito para isso faziam anos.
—Não sei. —Deu de ombros, afinal sabia que ele realmente não dava a mínima para a realidade.
O sonserino só conseguia pensar em como a morena havia ficado em tamanho estado de desleixo. Seus cachos caiam pelas costas como ondas, que se quebravam ao chegar nos quadris, era longo demais, o que fazia Draco interpretar isso como um sinal de que ninguém havia o cortado em tantos anos, e estava certo.
—Preciso medir seu pulso. —Soou quase como um pedido. —Vamos, me de seu braço agora. —Terminou a frase com um tom de ordem, tentando se retratar do momento que pensou ter sido pouco amedrontador para a moça. Queria que ela sentisse medo dele, ou até mesmo nojo, qualquer coisa, precisava que ela sentisse algo e demonstrasse isso.
A garota entregou o braço esquerdo a Draco de forma jogada, fazendo-o reparar naquela frase tatuada ali alguns anos atrás. Sangue ruim. A cicatriz era evidente e profunda, e aquela frase, que na época era indiferente, pareceu tomar novas formas ao ser observada com sutileza pelos olhos meticulosos do médico, que não pode evitar o impulso de apertar suavemente o local.
—Dói quando aperto?
—Um pouco. —Era mentira, doía muito, não só quando apertado, mas durante o dia todo, doía tudo, mas ela havia decidido não gastar suas palavras com alguém que sabia não se preocupar.
A resposta, apesar de ser direta, pareceu confundir o homem, afinal o semblante da morena não havia mudado sequer uma linha facial, e seu corpo não havia recuado ao toque.
Puxou a varinha do bolso da calça, apontando-a contra o pulso frágil em suas mãos.
—Pressiunilius. —Murmurou, e sentiu em sua mão a pressão que havia no corpo da moça. Era baixa e quase impossível de sentir, falta de alimento, deduziu. —Agora vou dar uma olhada nos seus batimentos cardíacos. —Anunciou de forma quase desinteressada, enquanto se levantava e posicionava a varinha nas costas da garota, que recuou levemente ao toque. Não demorou para que sentisse seu batimento acelerado e descompassado. —Está com medo, Granger?
Um sinal com a cabeça, foi tudo que ela lhe entregou, um não. Era mentira, estava morrendo de medo de estar só em uma sala fechada com um homem que julgava ser, assim como quase todos os outros, um traste.
A impaciência começou a beirar a insanidade de Draco, que esperava reações exasperadas e talvez um murro como o que havia tomado no terceiro ano. A calma e baixa-guarda da grifinória, que um dia havia sido tão desafiadora o incomodava, era como se perseguisse um rato que incomodava durante anos, e o encontrasse morto por uma ratoeira ridícula. O silêncio na sala era torturador, o que o fazia querer conversar sobre Azkaban, sobre si, sobre qualquer coisa que fizesse ruídos de vozes. Queria ouvir a voz da garota gritando com ele, queria lembrar do tom desafiador que ela usava ao se referir a ele, mas tudo que tinha eram íris castanhas acompanhando cada movimento, cuidadosa.
—Preciso que você tire sua blusa, para examinar seus hematomas. —Draco sabia que não era necessário, mas esperou um protesto como resposta. Nada veio. A morena não hesitou, apesar do medo e o frio no estômago, em puxar aqueles panos que fediam urina e joga-los no chão. Sabia que se ele realmente quisesse usa-la assim como o guarda fez, poderia realizar o ato a hora que quisesse, Hermione estando vestida ou não.
O médico observou as costas da castanha, avaliando profissionalmente, apesar de surpreso. Deu graças à Merlin por Azkaban ter fornecido a ela um sutiã, mesmo que com pequenos furinhos e manchado de sangue.
Suas omoplatas pareciam mais saltadas que o normal, devido à excessiva magreza. Possuía hematomas ao longo da coluna vertebral e cervical, causando no homem um enjoo repentino.
Caminhou para ficar de frente para a prisioneira, onde não pode evitar focar os olhos em seus seios pequenos e inegavelmente palpáveis, mas os retirou ao ver uma cicatriz tão profunda quanto a do braço, deduzindo ser uma mordida, ou talvez um arranhão.
—O que houve aí? —Apontou para o sutiã de forma despretensiosa, com medo de ter feito uma pergunta pessoal demais, ou idiota demais.
—Nada demais. —Os ombros finos de Hermione se balançaram de forma desafetada, mas seus orbes castanhos pareciam dizer o contrário, afinal pequenas gotículas passaram a escorrer pelas maçãs, caindo sobre as bochechas e por fim pingando no chão gelado.
Draco sentiu um desconforto no estômago e em qualquer outra parte visceral que sequer sabia possuir. Sabia o que havia acontecido, e apesar de sua monstruosidade, sabia que jamais seria capaz de realizar um ato tão grotesco. Arrependeu-se de perguntar e precisou de alguns minutos sentado fingindo escrever qualquer coisa para conseguir referir suas palavras novamente à mulher.
—Sua perna dói quando anda? —Sua voz falhou, fazendo-o pigarrear.
—Sim, doutor. —O olhar de Hermione acompanhava cada gesto de Draco, fazendo-o constantemente perder a noção do que fazia. Ela sentia medo, mas não queria demonstrar aquilo, não para ele, não merecia.
Droga, Granger! Faça algo. Pensou o garoto, que não podia evitar a frustração.
—Deite-se naquela maca. —Apontou seus dedos longos para uma maca que julgou ser mais desconfortável que uma banheira de concreto.
Hermione não hesitou, e novamente mancou, até a maca, onde deitou-se de forma desajeitada e exasperada. A quanto tempo não se deitava sobre algo macio e confortável? De forma quase gentil Draco puxou as extremidades da calça que julgou ser larga demais para as pernas finas que a carregava. Fina até demais, após analisa-las por completo, puxando as calças e jogando-as na cadeira. Buscou por alguma informação de hematoma, e ao analisar as coxas, pode perceber aquele tom de roxo azulado que não trazia consigo boas notícias. Havia inflamado, e possivelmente infeccionado.
—Você vai precisar de alguns dias de tratamento com poções, fedelha. —A palavra lhe escapou de forma descuidada, trazendo a ambos uma onda de nostalgia, que ao se fazer vista grossa, parecia até engraçada.
—Certo. —Piscou pacientemente, e ao se deparar com o silêncio de Draco, não demorou a fechar os olhos e aproveitar o único momento em seis anos em que pode aproveitar uma cama confortável.
A essa altura a armadura fria e ácida de Draco parecia ter desarmado, afinal não conseguia proferir palavra nenhuma de humilhação à mulher deitada em sua frente, de forma tão entregue. Para o platinado, a pior parte era perceber o quanto ela parecia indiferente à situação, como se nada pudesse afeta-la mais do que já havia afetado.
—Você precisa de um banho. —Afirmou, e era verdade, a roupa da morena cheirava a urina forte e mofo, além de odores grotescos cujo jamais havia experimentado em sua mansão luxuosa e perfumada.
Ela apenas assentiu, novamente lágrimas relutavam em seus olhos esperando qualquer pequena passagem para rolarem desesperadamente. Hermione sequer se lembrava da última vez que havia lhe sido permitido um banho, e a notícia de estar limpa, nem que seja por algumas semanas, a fez sentir no paraíso.
—Vou pedir que algum guarda lhe de um banho. —Continuou, de forma sugestiva.
—Não. —Pela primeira vez, após o que pareceu durar mais do que deveria, Hermione havia protestado contra algo, e quando seus olhos avermelhados encontraram os orbes confusos de Draco, não demorou a se retratar. —Por favor, doutor.
As lágrimas que lutavam para sair finalmente venceram, formando um véu de água e sal sobre o rosto rosado de Hermione.
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