Palimpsesto - Dramione
18 Demônios.
Wiltshire, Inglaterra.
31 de Outubro de 2004.
O clima nas proximidades havia voltado aos seus costumes, e o ápice do inverno se aproximava. Na manhã do dia das bruxas o próprio céu parecia intervir, e sequer um raio de sol conseguia irromper entre as nuvens escuras que estavam decididas a permanecerem estáticas. Os pássaros aprumaram-se, cada um em seu ninho, e em grossas camadas de gelo eram derrubadas, a cada hora, dos pinheiros que permaneciam na mansão. Os esquilos haviam se escondido tão bem que nem mesmo feitiços invocadores lhes encontrariam naquele momento.
Hermione estava em silêncio ao sentar na mesa, onde os costumeiros docinhos e lanches de café da manhã jaziam sem sequer serem tocados, quando Draco adentrou a sala de jantar, o rosto claramente cansado. Não vinha dormido bem a algumas noites, mas o motivo de sua insônia havia guardado apenas para si, de forma que mesmo identificando como covarde, não quis compartilhar.
—Bom dia, fedelha.
Jogou-se de qualquer jeito na cadeira, e antes de tentar comer, acabou por repousar sua cabeça sobre suas mãos, os dedos mais pálidos do que nunca.
—Bom dia, Draco. —Puxou uma tortinha para si e bebericou o suco de abóbora, as sobrancelhas franzidas devido a desconfiança. —Aconteceu alguma coisa?
O homem respirou fundo, fechando os olhos por alguns segundos e pensando como contaria a Hermione sobre o jantar ao anoitecer. O tempo de seu pensar se prologou, e os barulhinhos de Aysha passando mel em sua torrada eram solitários.
Se havia acontecido alguma coisa?
Havia acontecido sim, e a pior coisa.
Havia se preocupado com a maldita festa durante o mês inteiro, e sequer teve tempo para afogar suas mágoas em uma garrafa de whisky com alguma qualquer pelas ruas. Não apenas não teve tempo para si mesmo, como também os únicos momentos que tinha com Hermione eram em conversas jogadas ao ar sobre livros, conversas essas que Draco não quis atrapalhar com notícias sobre a festa, justificando suas saídas ao ministério como emergências em Azkaban, o que não se demorou a ser descoberto como mentira por Hermione.
“Já falei para você que não precisa mentir pra mim quando for sair com alguma mulher, Draco"
Foi o que ele ouviu após chegar durante a madrugada na mansão. Havia esquecido de preparar as poções de Hermione devido à carta urgente que havia lhe sido entregue por Voldemort.
Comeram em silêncio, e o som dos talheres sobre os pratos não se demorou a ser incômodo.
—Aysha está atrapalhando? —Perguntou a elfo, ao perceber que a ausência de som havia se instaurado. Abaixou as orelhinhas e encolheu-se na cadeira ao lado de Hermione, como quem esperava para receber uma bronca.
—Não está não, querida. —Hermione sorriu e afagou os poucos cabelinhos no topo da cabeça da criatura, ao deparar-se com a frustração que havia lhe assustado.
Ate então, a pergunta da castanha pairava no ar com a ausência de uma resposta.
O tique-taque do relógio enorme, próximo a porta de entrada, era tão presente quando a respiração silenciosa de ambos.
As tortinhas e pãezinhos não se demoraram a sumir da mesa, e então Draco se levantou, jogando seus talheres de qualquer jeito sobre a mesa. O tilitar repentino fez com que Aysha pulasse de sua cadeira.
Teria caminhado até a escada e subido diretamente ao seu quarto, se o remorso por não ter contado nada para a jovem que lhe encarava profundamente não fizesse com que sua cabeça ardesse em suor.
—Hoje a noite terá uma festa de dia das bruxas aqui, Hermione...os comensais virão e passarão a noite aqui. —Finalmente havia respondido à pergunta. Procurou manter a firmeza, mesmo que de costas, para evitar de ver a reação que receberia.
Hermione piscou, confusa. Sequer havia se lembrado que dia era aquele, e apenas a imagem dos comensais lhe encarando com um sorriso de deboche era o suficiente pra lhe trazer a repentina vontade de chorar, que desde seu aniversário não lhe visitava.
—Por que você não me contou, Malfoy? —O sobrenome saiu como vento de sua boca, e estava irritada o suficiente para pronuncia-lo com mais clareza do que o comum. Para Draco, no entanto, não passou despercebido.
—Não queria te preocupar, Granger. —Remexeu em seu próprio cabelo, percebendo o quanto estava mais longo que o usual, e não conseguiu evitar devolver o sobrenome na mesma moeda.
Mas Hermione não percebeu, sua mente vagava ainda pela ideia dos homens de capas pretas e longas passeando pela casa.
—Me preocupa saber o tipo de gente que vai pisar aqui. —Devolveu rapidamente, a voz tão firme quanto a do homem.
—Você pode ficar no quarto se quiser, eles não vão fazer nada pra você...—Não se sentia seguro em dar tal resposta, mas sabia que caminhava para uma discussão sem volta, e qualquer forma de acabar com aquilo mesmo antes de começar seria válida.
Com o semblante abalado, a castanha abaixou a manga de sua camiseta.
Sangue-ruim.
Estava lá, estampado, o quanto os comensais seriam capazes.
Draco observou a pele rosada, carregando a cicatriz bem delineada. Sentiu uma névoa de culpa lhe inundando, e, sem coragem de permanecer ali, encarando como um tolo um de seus atos de covardia, voltou a subir as escadas, os passos pesados como sua própria mente. Sentia medo de uma resposta, e sequer poderia imaginar sua reação ao ter um desentendimento ali, poucas horas antes do que seria seu pior pesadelo.
Precisava de calma, ao menos algumas horas de paz antes do inferno se instaurar, mas pelo que havia se entendido, carregara o inferno consigo, e nada que fizesse seria capaz de consertar isso.
Mas a mulher sentada a mesa, os olhos fixos no que havia sido alguns segundos atrás a imagem do loiro, não podia aceitar aquela ideia lhe sendo entregue sem mais nem menos, sem sequer uma explicação digna.
Imaginava-se deitada novamente na sala a sua frente. O corpo da bruxa sobre o seu, rasgando e cortando sua pele sem a menor preocupação.
Seus gritos abafados.
O loiro observando, sem mexer um músculo para ao menos tentar socorrer.
Era o que ele havia feito, nada. E é o que estava fazendo dessa vez.
Seria igual.
Um desespero tomou conta de tudo que lhe permitia pensar com coesão. A imagem passando e voltando a passar por sua mente, vívida de forma que nunca havia sido.
E então ela o seguiu, deixando Aysha com os olhinhos cor violeta arregalados de medo.
Com os passos tão altos quanto poderia faze-los, caminhou pelo chão de mogno em direção àquele quarto que jamais havia entrado. Foi batida com força pouco antes de sua chegada, e uma nova batida forte ecoou pelo corredor.
—Eu tinha o direito de saber, Malfoy! —Exclamou enquanto esmurrava a madeira, tirando toda a paz camuflada que havia se instaurado no último mês, em poucos segundos.
Em poucos segundos, todas as poucas conversas jogadas ao ar em forma de leitura e o passeio ao ar livre, nos jardins da mansão, haviam se dissolvido, dando lugar a uma ira que permaneceu, silenciosa dentro do peito de ambos, ao prolongar de outubro.
Havia sido um mês longo, difícil e silencioso.
Nenhuma discussão havia lhes perturbado, e isso também se dava ao fato de que pouco haviam se visto, exceto as manhãs de café, onde limitavam-se a se cumprimentar como pessoas civilizadas, e fingir querer saber se estava tudo bem.
Nada estava.
O pouco tempo daquele que carregava o sobrenome Malfoy não o permitia ter minutos de conversa, e mesmo assim, havia tentado uma convivência aceitável.
O abraço que aconteceu no jardim ainda perturbava a mente de Draco, que apenas ao desviar seus olhos cinzentos para aquela que lhe usou como ombro amigo, sentia-se indigno ao oferecer um destino tão mesquinho, comparado ao que lhe reservava. Sentia o peso do luto de Hermione lhe pairar cada dia mais difícil de ser carregado sobre seus ombros.
Deixava que Aysha se ocupasse em costurar vestidos de tecidos coloridos para a castanha, e esperava que isso lhe bastasse, apesar de ter certeza de que nada seria o suficiente para ser merecedor do perdão.
Nada na mente de Hermione funcionou como a de Draco, e tudo que pensava no último mês era na falta que sentia de seus amigos. Não tinha coragem o suficiente para conversas com o loiro, não enquanto era fitada por seus olhos, que sempre desviavam de forma que ela tinha certeza que era em resposta a repulsa que deveria sentir. Sentia vergonha de ter sido frágil, e ainda mais de seu momento de fraqueza descompensado.
Ele não é seu amigo, Hermione.
Não o perturbe com seus problemas tolos.
Ele apenas está te abrigando, não é como se se preocupasse de verdade com você.
Do outro lado da porta, o loiro fitava as estrelas em seu teto.
Eu falhei mais uma vez com você, fedelha.
Um covarde, como sempre.
Medroso.
Ouvia a voz em sua mente, gritando tão alto quanto a mulher do lado de fora da porta, que se remexia para frente e para trás, mas permanecia, enfim, no mesmo lugar.
Uma, duas, três batidas.
—Abra essa porta, Malfoy! Eu sei que você quer que eu seja torturada de novo! —E a porta tamborilou de tal forma que por um instante havia a certeza de que cairia. —Você é igual eles, seu covarde!
A porta batendo forte, sem dar espaço para qualquer outro som, parecia fazer com que os pensamentos do homem vagassem, sem rumo, pelo quarto. Girando, contornando e tonteando tudo que podiam em torno das palavras.
A mente do loiro latejava, como se seus próprios olhos se desfizessem em milhares de estilhaços, e reproduzissem o som repetidamente dentro de seu ouvido. O sangue pulsava como nunca em sua cabeça, e agora sabia porque havia evitado tanto essa conversa.
Engoliu seu próprio ar, fechando os olhos.
Era sua culpa.
Sabia disso como ninguém.
Queria chorar, retrucar a mulher do lado de fora, e provar o quanto não era um covarde, mas como conseguiria, se ela estava certa? Era realmente aquilo que ela havia dito, e a prova real disso era de que seus pensamentos lhe imploravam para que saísse do quarto, abraçasse a moça em prantos, e implorasse por um perdão que jamais viria. Sua vontade implorava pela redenção, mas todo seu corpo tremia ao imaginar um pedido de perdão não correspondido.
Poderia até mesmo abraça-la, se aquilo a fizesse bem, mas que bem um comensal da morte poderia trazer para aquela, que em seus dias de saúde, se esforçara para salvar todo um mundo?
Não possuía a coragem da mesma.
E ali, em silêncio, ficou.
Os baques surdos da porta permaneceram, tornando-se gradativamente mais inaudíveis. Hermione havia fraquejado, e não possuía sequer força para empurrar seus punhos, já avermelhados, contra a madeira nobre. Sentia um medo que não a perturbava a algum tempo se apossar de seu corpo, e seu corpo passou a desobedecer os comandos de sua mente. Estava encostada na porta, tremendo e sem força sequer para seguir falando.
No corredor mal iluminado, o corpo magro de Hermione permanecia, encolhido sobre a madeira. Sentia que seus olhos explodiriam se não chorasse, mas nenhuma gota de lágrima era produzida, seu corpo estava cansado de produzir o líquido cristalino, e se negava a ajudar, até mesmo naquele momento, onde gotas salgadas seriam perfeitamente aceitas. Não era raiva do homem do outro lado, no fundo sabia que estava a poupando desse sofrimento durante todo o tempo. Eram os fantasmas em sua imaginação, rondando a ela e esperando o melhor momento para atacar novamente.
Seus próprios demônios lutavam bravamente pelo momento em que sairiam para uma boa tortura, e essa hora parecia perfeita para trazer a realidade à tona.
Estava vermelha, fraca e tudo que tinha era o choro sem lágrimas que conseguia esbanjar, o enjoo forte que lhe fazia querer vomitar, e a dor forte em todo o perímetro do seu corpo.
Não conseguia sair dali.
Não houveram abraços inesperados, toques de compadecimento ou sequer palavras que não foram ditas.
Tudo que havia naquela mansão era o nó na garganta, as veias pulsantes e o vazio no peito.
Aysha, que ouviu tudo em silêncio, subiu as escadas pé por pé e estalou na frente de Hermione. Um sorriso fraquinho em seus lábios encolhidos e sua mãozinha estendida, para que conseguisse ajudar a mulher no chão a voltar ao seu quarto.
Em seu próprio quarto, a castanha se afogava em seus soluços temerosos.
Na ala leste o sonserino se afogava entre whiskys de baixo nível, e tragadas de cigarros.
A fumaça estava em cada centímetro do quarto, e uma nuvem enevoada e cinzenta pairava por entre as paredes. A tosse era uma resposta óbvia, e que acontecia sem o controle do homem, a cada vez que respirava mais profundamente, afogando-se.
Queimava sua garganta com as bebidas, e terminava de ser trazido as chamas com a fumaça quente e plena.
O sabor do álcool misturado ao tabaco barato tão presente como nunca, era como um veneno que lhe impregnava devagar e sorrateiramente.
Sorria em resposta, revirando seus olhos.
Era aquela sua vida, e aquilo que merecia.
Por que mesmo havia deixado tais costumes para trás?
Jogado na cama, o cigarro repousando, aceso em sua boca. Garrafas de Whisky quebradas por todo o quarto, e o cheiro alcoólico oferecendo-se como brinde. Era essa a mediocridade com a qual estava acostumado.
Era um monstro, e não devia tentar mudar isso com florões, palavras bonitas e atos de bondade.
Seus demônios internos finalmente pareciam satisfeitos. Sussurravam sobre seus ouvidos, contentes com o gesto de auto depreciação.
Era um covarde, e não devia tentar se arriscar com atos corajosos que não sabia dominar. Devia agir como o covarde que era, e é exatamente isso que estava fazendo.
Não era mais dono de seus sentidos, sendo esses guiados pelo líquido que ingeria sem cessar.
Em sua janela, as nuvens cinzas e carregadas não se demoraram a aumentar dois tons, e um breu se formava no horizonte.
Não houve almoço, café da tarde ou jantar. Havia apenas a espera torturante pelo momento em que os decoradores da festa, que haviam sido recomendados e pagos pelo lorde das trevas, bateriam nas portas, entrariam como penetras, e num toque de varinha transformariam a mansão Malfoy no próprio inferno.
O estômago de Hermione roncava ferozmente, de forma que há muito tempo não acontecia, mas ainda lhe era algo com a que estava acostumada, logo não se sujeitaria a descer as escadas para a cozinha, e encontrar Draco, vestido em seu melhor terno, lhe soltando o costumeiro olhar de julgamento que sentia receber.
Aysha estava a beira da loucura, que não parava de aparatar entre a sala de jantar, onde observava com cuidado as abóboras sendo depositadas pelos cantos, os sofás de seu mestre serem jogados para os cantos sem qualquer respeito, e os carpetes avermelhados serem estendidos, e voltava a aparatar ao quarto de Hermione, onde contava tudo que estava acontecendo, com a maior riqueza de detalhes que seu vocabulário lhe permitia.
O loiro bebia a cada diálogo com os homens, que mais pareciam trasgos sem cérebro.
As dez horas da noite, a decoração estava pronta. A sala, antes moderna e elegante, agora continha cores vermelhas e saturadas, que se espalhavam por todo o comprimento do salão. As abóboras nos cantos carregavam velas pretas e vermelhas, e a música alta de piano, que se assemelhava a uma fúnebre, ecoava por todos os corredores.
Um sino tocou na porta, e o loiro ajeitou sua gravata, ainda grogue.
Sabia que se fosse o próprio Voldemort, o bruxo sequer se importaria com seu alcoolismo, provavelmente naquela noite todos se esbanjariam dos vinhos caros que a mansão Malfoy podia oferecer, apesar de que fracos demais em seu efeito para o sonserino.
Abriu sua porta, e a primeira pessoa que seus olhos avermelhados pode enxergar foi Bellatrix Lestrange, trajando um vestido tão vulgar quanto lhe cabia, e puxando uma corrente que se prolongava até alguns metros atrás, onde um rosto que entre arranhões profundos e sardas escuras, havia o que restara de Gina Weasley.
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