Palimpsesto - Dramione
19 Amortentia.
Notas iniciais
Wiltshire, Inglaterra.
31 de outubro de 2004.
O salão estava cheio como nunca, igualmente comparado às taças dos visitantes e do próprio anfitrião. A música clássica ecoava pelos corredores e se aprofundava aos ouvidos de Draco, que passeava pelo salão, identificando cada rosto de comensal conhecido, e fingindo um sorriso, que era devolvido com a mesma falsidade e modéstia. O álcool mexia com sua cabeça a cada segundo, e fazia com que bebesse ainda mais a cada conversa forçada com mulheres que usavam maquiagens tão fortes que acabavam por ter um rosto semelhante. Os lábios sempre vermelhos, combinando com as unhas. Os cabelos loiros e longos, e as roupas curtas o suficiente para que as curvas em excesso fossem notadas por todos os homens ao redor e causassem olhares de inveja das bruxas mais velhas.
Os bruxos circulavam, e entre risadas de deboche e conversas sobre sangues-ruins, finanças e a nova moda, que eram, os escravos que vinham diretamente de Azkaban, não podiam deixar de reparar nos detalhes que a casa de um Malfoy oferecia. A estrutura perfeita, as cores vívidas e o pé direito alto. Era o sinônimo da elegância, e as cores fortes que se transformavam do vermelho para o preto, preparadas especialmente para a festa, faziam com que o ambiente se tornasse a perfeita pintura de uma psicose.
Era alucinante, e a cada troca de música, tragada de vinho e comes e bebes oferecidos, o ambiente parecia mais convidativo.
Os elfos domésticos trabalhavam como nunca, e pareciam anestesiados com a ideia de servir seus mestres. Aysha, no entanto, dava graças ao seu mestre por não tê-la encarregado de tais serviços, uma vez que estaria sujeita a todos os tipos de humilhação, tais como os pontapés e chutes que as outras criaturas recebiam constantemente, ao servir vinhos e comidinhas sem gosto nenhum.
Algumas vezes, uma ou duas bruxas faziam questão de derramar vinho sobre o decotes, apenas na intenção de que os seios fartos, produzidos por via de magia, fossem notados pelo loiro, que apesar de glorificar seus esforços, sequer permitia-se olhar.
Sua mente não vagava por ali, e sim pela mulher que estaria no andar superior, temerosa a cada instante por algum comensal que poderia entrar lá no menor descuido. Lançava olhares receosos em direção a escadaria, localizando qualquer homem que parecia ter a vontade de encontrá-la, e deixando clara sua posição sobre visitantes no piso superior, apesar da voz embargada que trazia devido aos whiskys. Não tinha muito controle sobre as palavras que saiam de sua boca, mas tinha plena noção dos perigos que a festa traria, e permanecia sóbrio, apenas o suficiente para estar alerta.
Nagini passeava entre a multidão, soltando breves olhares de ódio aos escravos, que permaneciam em um canto da festa, as mãos, pés, e pescoço, acorrentados. Eram exibidos como troféus, e todos que passavam por ali faziam questão se soltar comentários desgostosos. Os mais ousados comensais aproveitavam para cuspir contra a face daqueles que faziam cara feia.
Gina Weasley fazia questão de manter sua postura. As roupas em trapos, o rosto ferido e desenhado com pequenas linhas de sangue, os cabelos raspados e com ferimentos evidentes na cabeça, mas seu queixo permanecia erguido, os lábios cerrados e as pupilas dilatadas encarando cada um que lhe soltasse olhares de desprezo. Sentia uma mágoa apoderando-se de cada parte de si, mas desde o dia em que havia sido levada para Azkaban, prometera a si mesma que não se deixaria enlouquecer. Sentia vontade de morrer, desde o momento em que era acordada nas senzalas de Bellatrix, sempre com baldes de água gelada contra sua face, até os momentos em que era obrigada a servir a família Lestrange. Seus únicos momentos preferidos, nos últimos dias, haviam sido aqueles em que cuspia no chá da tia de Draco, e precisava manter todas suas forças para não rir como a boa louca que era considerada, ao entregá-lo.
No momento, o que trazia sua felicidade era encontrar seu irmão. Não via Rony desde o dia em que haviam sido levados, e mesmo tendo que compartilhar da sua insanidade, estar perto de um ruivo cujo possuía, também, seu sangue, tornava as horas de tortura passíveis de conveniência.
O ruivo estava ao seu lado, acorrentado e esboçando um sorriso bobo a cada um que passava em sua frente. Trajava roupas batidas e coloridas, e sua face era carregada de fortes cores, que contrastavam com a saturação que a sala possuía. Estava vestido como um bobo da corte. Em seus pés, um calçado duas vezes maior do que lhes caberia, e os poucos momentos em que gozava de saúde mental, eram usados em conversas com a ruiva ao seu lado, que não podia evitar de olhar com piedade para o irmão.
Em meio a diversos monstros, comensais e escuridão, pequenos e fracos pontos de luz eram notados, esses eram os escravos, os elfos, e Hermione Granger, em seu quarto, desesperada ao ouvir as risadas altas e sem sanidade.
O assunto do baile, no entanto, era focado no homem alvo que caminhava entre os convidados, os olhos claros doloridos como nunca em resposta as luzes fortes. Como poderia, um herdeiro dos Malfoy ainda não ter providenciado uma esposa, no ápice de sua riqueza? Voldemort debatia com seus colegas mais próximos, todos sentados em poltronas confortáveis de veludo. Draco ria, conversava, e explicava o motivo de sua solidão na mansão.
Não havia encontrado a mulher certa, é o que dizia.
As moças suspiravam, em falsa excitação,a cada olhar trocado. Atiravam-se como hienas a espera de um momento para tomá-lo para si, e o homem, como de costume, desprezava-as, sabendo que a qualquer momento que chamasse, estariam de volta aos seus pés.
Apesar dos risos em excesso, as mulheres, e a fama que possuía no local, uma pequena onda de asco se formava em seu peito, crescendo gradativamente a cada toque não solicitado que recebia das bruxas, e nos instantes em que os assuntos divergiam em direção aos escravos.
—Por falar nos escravos, Draco, querido, onde está a cativa mais cara dessa festa? —Voldemort perguntou, suas fendas se encurtando e sua expressão transformando-se em pura curiosidade. Todos os rostos dos bruxos se focaram na expressão do anfitrião da mansão.
O platinado engoliu em seco, ajeitando sua gravata bem colocada sobre o smoking. Hermione estava no andar de cima, provavelmente chorando, ou em silêncio acompanhando todos os acontecimentos da festa, o que Aysha faria questão de detalhar a cada instante em que aparatasse no quarto. A pequena discussão entre ambos lhe veio à tona, e uma mágoa lhe tomou conta.
O que estava fazendo?
Estava bebendo, ao lado daqueles que haviam a torturado. E mesmo assim, em seu ápice de hipocrisia, esperava sentir-se bondoso.
A costumeira onda de culpa que sentia aconchegou-se devagar, e mesmo contra sua permissão, pareceu se instalar por vez em seu peito. Havia evitado aquele sentimento desde a manhã, e estava decidido a esquecê-lo, de preferência, para sempre.
Deu um longo gole de champanhe, sentindo o líquido queimar sua garganta, e sorriu largamente, mesmo que seus músculos lutasse contra sua vontade.
Ao olhar ao seu redor, sentiu o peso de diversos olhos sobre sua face. Era óbvio. Todos adorariam saber qual rumo a mais inteligente do trio-de-ouro havia ganhado.
—Está em seus aposentos, Milorde. —Respondeu rapidamente, e procurou em seus pensamentos qualquer desculpa para mudar de assunto. —E as finanças, como estão?
Mas Voldemort não parecia interessado nas finanças, pelo contrário, seu rosto se abriu e um sorriso que esboçava dentes escurecidos lhe tomou. Aproximou-se devagar, e em meio às várias pessoas que haviam parado para ter notícias sobre a castanha, falou o mais alto que podia.
—Quer dizer então que a sangue-ruim goza de seus próprios aposentos? —Retrucou no mesmo instante, mostrando-se tão interessado quanto seria possível.
Pense rápido, Malfoy.
Você precisa responder a altura.
—Digamos que a submissa de um Malfoy não deve ser tratada tal como seria a de outro bruxo, não concorda, MiLorde? —Pronunciou as palavras com lascívia em sua voz, entoando uma falsa malícia que pareceu agradar o ministro, que sorriu com cumplícidade.
A multidão riu. Risadas debochadas e agudas, acompanhadas de conversas jogadas ao ar, lançadas pelos servos de Voldemort.
“Nem sei o que faria com aquela sangue-ruim!”
“Com certeza, se eu a tivesse comprado, estaria morta de tanto que eu haveria a usado!”
“Aposto que deve estar no fim de sua vida, não é mesmo? Provavelmente já deu para Hogwarts inteira.”
“Aquela vadiazinha teria virado pó nas minhas mãos, aposto que ela chega a implorar para que o Malfoy a coma, sempre teve cara de ser uma vagabunda.”
Draco sentiu todo sangue do seu corpo ser enviado diretamente à seu cérebro. Ardia, queimava e latejava.
A imagem de cada um daqueles bruxos, velhos, sujos e podres, fazendo o que quer que fosse na intenção de ferir Hermione, lhe causava um tremor na ponta dos dedos. Recebia tapinhas no ombro, em forma de gratificações, e palavras de orgulho lhes eram pronunciadas. Sentia o nó em sua gravata se aprofundando cada segundo mais, e o ar em sua garganta sendo sugado.
Encrespou os lábios, e fingindo chegar seu relógio, afastou-se da multidão que havia se aglomerado em sua sala de estar.
Eram onze horas da noite.
Soltou um breve olhar para a escada, e engoliu em seco todo o copo de whisky que tinha em suas mãos, virando-o e sentindo o calor lhe dominar, e uma tontura peculiar e agradável se tornou presente.
Não teve tempo para pensar em mais nada, quando um par de dedos finos e tão pálidos quanto os seus, lhe encaixou sobre o peitoral. Sentiu, em suas costas, um corpo pouco menor que o seu, encaixando-se, e um peso nas costas lhe surgiu quando a mulher repousou sua cabeça sobre a coluna do homem.
O álcool fazendo efeito.
A música alta zunindo em seus ouvidos.
As pessoas girando ao seu redor.
Por um mísero segundo, imaginou que seria Hermione ali, recostando-se e descansando seus olhos pesados de lágrimas, no que seria um pedido de desculpas silencioso, que jamais aconteceria. Sua consciência pesou, lembrando mais uma vez de sua falta de coragem para contá-la sobre a festa. Sabia que deveria ter feito aquilo antes, ao menos tê-la preparado para esperar pela noite, mas o medo de uma reação negativa, ou de medo, lhe empertigou.
O que há de mal, é só uma prisioneira?
Mais uma prisioneira, assim como aquela que está ali no canto, amarrada e exposta como um troféu.
Um Malfoy não deve se preocupar com isso…
Mas e se fosse mesmo a fedelha?
Mas sabia que ela não estava lá, e também tinha certeza que aquelas longas unhas pintadas não pertenceriam a aquela, que entre tantas almas perdidas, seria a mais ingênua de todas.
Draco puxou o ar e cerrou os olhos.
—Quer dizer que fui trocada pela fedelha sangue-ruim, Draquinho?
E as dúvidas do loiro foram respondidas, a voz aguda e lentamente pronunciada não poderia ser de ninguém menos do que Pansy Parkinson.
Draco buscou dentro de si uma paciência que sabia que precisaria, e virou-se de frente para a morena. Vestia um longo verde esmeralda, que comparado ao das outras mulheres, poderia até mesmo ser considerado recatado, formando fendas apenas em suas coxas. Seus cabelos negros, curtos e lisos, estavam perfeitamente adornados com uma tiara também verde, que havia sido presente do sonserino, ainda em seus tempos de escola, no que havia sido uma espécie de namoro nunca pronunciado, e cujo nunca era comentado em suas breves conversas pós-sexo.
—Oi, Pansy. —Ignorou a pergunta, comprimentando a mulherr com um beijo na bochecha.
—Você não me respondeu, querido… —Afastou-se, seus olhos demonstrando toda a decepção que sentia enquanto fazia um muxoxo.
Draco estava prestes a responder, quando lhe foi oferecida uma taça de um líquido rosa-avermelhado.
—Rosé? —Questionou, aceitando a taça enquanto levantava uma sobrancelha.
—Safra do ano de cinquenta e oito. —Piscou, exibindo todos seus dentes claros enquanto assistia o loiro engolir o líquido. Seu sorriso crescia a cada gole, e no último, parecia ter entrado em um êxtase interno.
A mente conturbada de Draco pareceu tremer, e vagarosamente estabilizou-se enquanto fitava os olhos claros da morena. No mesmo instante, percebeu ser a mulher mais linda que já havia visto em toda sua vida. Aqueles lábios finos e bem pintados, o cabelo facilmente palpável, as curvas acentuadas e bem definidas… Era, com certeza, uma espécie de anjo que havia caído do céu, diretamente ali, naquele pedaço de inferno.
—Já te disse como você está linda essa noite, Pan? —Falou antes mesmo de pensar, oferecendo seu braço de forma galanteadora para um passeio pela enorme sala.
—Você sempre fala, amor.
A mente do loiro rodava, e um sorriso embasbacado fazia questão de permanecer em seu rosto. Pansy Parkinson dançava em seus braços, esfregava o corpo contra o seu, e fazia questão de sussurrar palavras baixas em seus ouvidos. Estava inebriado. O efeito do álcool passara a se mostrar inútil, se comparado com o efeito que aquela mulher fazia sobre ele.
Todos no salão dançavam, as músicas lentas e sensuais. Olhares de inveja eram lançados sobre a senhorita Parkinson, que sorria vencedora ao se pendurar sobre o pescoço do alvo e lhe acariciar a nuca.
Tudo parecia em desfoque, e a única coisa que seus olhos cinzentos capturavam eram os olhos claros, a pele pálida e os cabelos de ébano da moça, ao longe, percebeu um amontoado de bruxos, todos onde estariam antes, os escravos a serem expostos. Riam, gargalhavam e pareciam lançar pedaços de alimento. O platinado pensou, por um mísero segundo, em se desvencilhar.
—Vamos para o seu quarto, amor. —Ela pediu de forma sussurrada, finalizando o gesto com um toque suave de seus lábios sobre sua têmpora.
Inebriado, e tomado pela poção do amor que sequer percebeu ter digerido, puxou a mulher, que lhe parecia a mais bela da festa para o andar superior, sem ao menos se preocupar em abandonar a festa junta a algazarra no andar de baixo. Piscadas maliciosas lhe foram lançadas por comensais mais próximos.
No caminho, o olhar lançado por Gina, que encarava-o com tamanha fúria, passou despercebido quando seguido de agressões perante a ruiva, agressões essas que perante o prazer que sentia por Pansy, passariam despercebidas.
Não teve tempo de entrar em seu quarto, quando foi puxado pela dona dos cabelos negros, e beijado contra a parede. Ainda no corredor, sua camisa já havia sido abandonada, rasgada. Caminharam, entre beijos e toques, até o aposento, onde a porta bateu, e seu som pareceu incrivelmente conveniente naquele momento. Sobre o céu iluminado que o teto de um Malfoy exibia, não existia clima ruim. Estava dominado pela tentação de ter Pansy Parkinson em seus braços, de forma que a anos não estivera. Foi colocado contra o colchão, e ali, deitado, observou-a retirar o vestido de forma tão fácil que teve certeza que o mesmo havia sido escolhido especificamente para aquilo. Sorriu de forma ladina, e o pano de sua calça nunca havia se mostrado tão incômodo.
Ela estava ali, nua em sua frente. Rebolava devagar contra o ar, dançando uma música que não existia, e os olhos do homem nunca havia parecido tanto com vidro.
A mulher abriu a boca para falar algo, mas a voz ouvida não foi a dela, e sim um grito abafado de algum lugar da mansão, um grito cuja dona da voz o homem conhecia.
Era Hermione.
Um sentimento frio congelou o peito de Draco, que ao olhar novamente para Pansy, nada mais viu do que um conjunto de peles nuas a mostra, tal como eram todas as outras.
O vidro cinzento que jazia sob as pálpebras de Draco imediatamente se liquidificou,e mesmo sem jeito, levantou-se da cama e passou por Pansy, que o encarava boquiaberta, em seu semblante o que seria a perfeita simbolização da decepção quando seu corpo nu sequer foi prestigiado novamente.
Sentia raiva da mulher, sabia o que estava acontecendo. A ficha lhe caiu com peso quando se recordou do líquido rosa que tomou.
E ainda teve a estupidez de acreditar que seria aquilo um vinho.
Foi até a porta de seu quarto, onde a mulher postou-se à frente.
—Draquinho, amor...Não está acontecendo nada… —Sussurrou, segurando seu rosto e acariciando sua barba mal feita com as unhas longas.
Draco sentiu seu maxilar trincado, antes de fechar os olhos e se pronunciar no tom mais sóbrio que conseguia.
—Parkinson, me deixe sair a.g.o.r.a.
Ela bufou manhosamente, e ainda o ignorando, agarrou-se aos seu pescoço.
E seu toque naquele momento não foi capaz de causar sensação alguma exceto nojo no loiro.
—Estou mandando você me largar, Parkinson.
E ela lhe beijou o pescoço, passando sua língua pela pele quente. Um desconforto se apossou do homem, misturado à urgência de ver o que estava acontecendo.
Foi quando Draco a colocou de lado bruscamente, e sem ao menos fechar a porta, caminhou rápido até o corredor, mantendo o silêncio para poder entender o que estava acontecendo.
Apontou a varinha para sua camisa ao chão, que não se demorou a consertar e estar passada, nova em folha, sobre seu corpo. Com os pés pesados e o suor frio lhe escorrendo e umedecendo os cabelos.
Estavam com ela, na sala.
Podia ouvir sua voz sendo encoberta pelas risadas algozes dos bruxos.
E ao ver a cena do topo da escada, um desespero maior do que nunca pareceu inundar sua alma, como um balde de água gelada, suas pernas fraquejaram, e por um instante ele teve certeza de que não conseguiria se manter em pé.
Ela estava lá, junto aos escravos. Vestia apenas uma camiseta surrada, que imaginou ter sido colocada em seus momentos no quarto, com Pansy.
Era surrada, golpeada, e recebia pontapés e pedaços de comida no rosto, não exibia qualquer reação, exceto abaixar a cabeça e aceitar as agressões repetidas que lhe vinham. Comensais lhe puxavam a face e passavam a língua por ela, de forma que sua única reação era afastar-se o máximo que sua força lhe permitia.
Ao seu lado, Ginevra e Ronald pareciam receber o mesmo tipo de tratamento.
A voz esganiçada de Bellatrix Lestrange, acompanhada dos risos altos, pronunciava em alto e bom tom, a frase que ecoava na mente de Draco.
—Vamos ver quem sobrevive mais tempo, ein?
A barulheira ecoando pela mansão, a imagem em sua frente, que poderia ser fruto de um quadro de tortura, o álcool voltando a fazer o efeito, não mais pretendido.
Passos foram ouvidos atrás de si, e Pansy Parkinson estava lá novamente. Seus cabelos amarrotados e o batom borrado, mas ao menos vestida.
—Falei que não era nada demais, amor…
E tudo aquilo misturado pareceu tomar o loiro pela loucura.
Sentiu o olhar de Hermione repousar sobre si, e logo após sobre a mulher atrás, que fazia questão de se aproximar e abraçá-lo, mesmo que involuntariamente, na altura do pescoço.
E o único brilho nos olhos da castanha foi o da lágrima que rolou pesadamente e pingou no chão de mármore.
Que seja apenas um pesadelo…
Mas não era.
Alcoolizado, e tomado pela raiva, pelo asco. Tudo girando, e girando, e a cabeça doendo, e suas próprias pernas caminhando contra sua vontade em direção a prisioneira, que mais uma vez abaixou a cabeça ao receber um tapa de Dolohov.
E os risos, cada vez mais altos.
Sentiu-se sob a pele do mesmo garoto de dezessete anos, tomado pelo medo de defender a jovem, perante os mesmos comensais que havia temido em sua juventude. E normalmente uma covardia lhe bateu à porta, recepcionada pela culpa que já se fazia presente.
Não podia ser covarde novamente.
Sua consciência não teria capacidade de recepcionar tamanho erro.
Empurrou a multidão a sua frente, e em meio às reclamações e risadas altas, sentiu seus dedos, agora gelados pelo nervoso, tocarem o braço de Hermione, esboçava uma marca de sangue.
E num puxão pelo umbigo, aparataram para outro lugar, que foi o primeiro que passou pela mente do homem.
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