Palimpsesto - Dramione
20 Em um lugar desconhecido.
Notas iniciais
Lugar desconhecido, Europa.
01 de novembro de 2004.
Hermione pairava em uma linha tênue entre a sonolência e a sanidade.
Em algum lugar de sua mente imagens se projetavam como borrões, deixando a mostra os vultos de bruxas e bruxos, os dentes sujos esboçando sorrisos exagerados, os olhos vidrados de forma insana sobre seu rosto, que havia se esforçado para esconder.
Voltou momentaneamente em seu quarto, onde esperava, embaixo das cobertas, ansiosa pelo fim da festa, quando passos rápidos de uma multidão foram ouvidos em tamanha numerosidade que não teve velocidade o suficiente para conseguir contá-los. Ouviu o som das portas sendo abertas, uma a uma, quando soube que estavam a procurando. Seu falho coração acelerou enquanto corria para se esconder no banheiro da suíte, na esperança de que Draco a salvasse antes que eles a encontrassem.
“Aysha..”
Chama a elfo, que havia ido em busca de seu mestre, mas por algum motivo não havia voltado. Seu nome pronunciado entre os lábios de Hermione não pareceu causar diferença, então sua última opção foi encolher-se atrás da porta, abraçar seu próprio corpo e sussurrar, baixinho, o nome de Draco, na esperança de que ele voltasse.
Mas ele não voltou.
Ouviu seu próprio quarto sendo invadido, e a risada de Bellatrix Lestrange ecoou por tudo que podia ser ouvido. Sentiu suas pernas amolecerem, e dando graças a Merlin por já estar no chão, sentiu sua visão turvar, e gradualmente ficar escura de tal forma que seus olhos pareciam fazer um enorme esforço para enxergar.
A próxima coisa que se lembrava era de estar no que seria a sala de estar, ao lado de Gina e Ronald Weasley. Sua primeira reação teria sido de extrema felicidade, e havia até mesmo pensado em sorrir para os ruivos quando a pele de seu rosto recebeu um forte tapa, e no próximo instante passara arder incessavelmente.
Tudo que veio depois era dor, medo e humilhação. Sentiu seu rosto ser estapeado, esmurrado e cuspido. Sentiu cada parte de seu corpo ser tocada com agressividade, e só então havia percebido que suas roupas haviam sumido, substituídas por uma longa camisa. Era observada com lascívia, mas tudo que podia devolver aos superiores era os pedidos de socorro e a cabeça baixa, submissa.
Como em um baque, sua mente pairava sobre uma neblina impenetrável, e a última coisa que havia enxergado era Draco Malfoy, observando-a boquiaberto do topo da escada. Atrás dele, uma mulher que lembrava muito Pansy Parkinson a encarava sorridente, e então tudo lhe caíu como uma ficha. Estava sendo entre aos comensais, por aquele homem que havia confiado.
Seu corpo latejava por inteiro, deixando-a entregue à percepção de que flutuava sobre uma cama de parafusos, e sempre que possível caia diretamente entre as partes pontiagudas. O local onde sua cicatriz era apresentada,deixando a mostra suas origens de sangue, ardia como fogo.
Tentou erguer o braço, mas um toque frio a fez parar. Queria abrir os olhos, mas estes pareciam tão pesados que nem mesmo juntando toda sua força, fez efeito sobre suas pálpebras.
A sensação gelada sumiu, e a madeira voltou a ranger enquanto Draco Malfoy caminhava pela casa, arrastando consigo toda sua impaciência, junta a respiração pesada.
Hermione sabia que era ele. Conhecia a forma de andar e os passos lentos. Sua certeza pareceu se confirmar ainda mais quando o homem bufou, mas diferente do que se esperava, não se sentia segura ali. Temia que a qualquer momento alguém adentrasse o ambiente em que estavam, e a tomasse novamente.
Se não conseguia se mover, havia tentado ao menos pronunciar o nome do loiro, mas tudo que lhe escapou foi um breve resmungo que mais se assemelhava a um muxoxo, mas este não passou despercebido por Draco.
Sentiu o toque gelado novamente sobre sua pele, desta vez encostando em suas mãos pequenas e cobrindo-as, como quem a repreendia. Encolheu-se instintivamente, e pela primeira vez percebeu sua capacidade de se mover. Draco parecia ter percebido seu recuo, e instantaneamente a mão de Hermione ficou livre novamente.
Com muito esforço, conseguiu abrir seus olhos, e fitou o homem a sua frente. Seu semblante, pela primeira vez, lembrava muito à época de Hogwarts no sexto ano, quando estava perdido em relação à seus planos. Possuía olheiras profundas e a pele estava ainda mais pálida do que o costume.
Os olhos de Draco não estavam mais gélidos como era o normal, mas sim baixos e líquidos. Não era de grande evidência que existisse um brilho entre as íris cinzentas, mas parecia tão vazio que se não estivesse respirando, Hermione poderia jurar que aquele corpo não tinha mais vida.
O homem, que já havia realizado todos os procedimentos possíveis enquanto a castanha permanecia desmaiada, abriu seus lábios na intenção de pronunciar algo, mas apenas esse movimento foi o suficiente para que os músculos de Hermione por fim acordassem, e esses a fizeram ir parar no canto oposto da cama, abraçada a si mesma e encarando o platinado com fúria e medo no olhar.
Draco sentiu seu peito se espremendo contra si mesmo.
Ousou abrir a boca novamente, e sentiu os olhos de Hermione passeando entre sua face e a porta logo atrás de si, que certamente daria em algum lugar. Entendeu que ela tinha planos de fugir, e desta vez permaneceria atento o suficiente para evitar que acontecesse algo de ruim.
—Hermione… —Sussurrou, forçando sua voz para caber em um tom tão baixo.
Ela piscou, atordoada, mas o simples fato de não ter se encolhido ainda mais foi o suficiente para que uma pequena parte do peso que Draco sentia fosse embora. —Granger, eu estava enfeitiçado...Te juro por Merlin que não queria que aquilo acontecesse...
Levantou sua mão trêmula ao ar, e o mais devagar que conseguiu, aproximou-a da mão de Hermione. Foram poucos os centímetros recuados, mas com o passar dos segundos, a pele quente misturada ao toque frio pareceram se mesclar, e a instabilidade não mais os atormentava.
—Me perdoa, Hermione. —Entonou-se em súplica, mesmo que essa não fosse sua intenção. Seus ombros tensos fraquejaram, e logo Draco estava desmoronando aos pés da cama. Sentia coisas que apesar de conhecer muito bem, estas pareciam ter o dobro de intensidade. A culpa vinha duas vezes mais forte, e o medo que sentia, por não ter para onde ir, ocupava-se totalmente da carcaça do loiro no chão.
Ainda atônita, Hermione acompanhou com seu olhar o homem que havia se feito em pedaços ali no chão. Se ela sentia medo, sequer conseguia imaginar o que passara pela cabeça dele. Fez o gesto de recolher sua mão, mas esta foi segurada com firmeza pelos longos e pálidos dedos, e assim ela a deixou.
A chuva caiu mais forte do lado de fora, e por uma pequena janela ao lado da porta Hermione a analisou. Caia em torrencial, com violência, e o vento que acompanhava fazia a madeira fraca da porta se remexer em resposta. O telhado parecia estar sendo apedrejado por milhares de pedras mínimas, e este parecia querer desmoronar a qualquer momento.
Questionou-se onde estava, e por que Draco Malfoy havia os levado ali. Queria perguntar, mas ainda assim sentiu-se uma intrusa perante o sonserino ao chão, que agarrava sua mão com tamanha força e escondia sua face, encolhendo-se.
Draco sentia vergonha, medo e desespero. Não sabia onde estavam, e sequer como haviam aparatado ali, mas sabia que desde o momento em que chegaram, providenciou tudo que seria necessário para os cuidados da castanha. Os hematomas estavam limpos e pequenos pontos haviam sido dados sobre uma nova cicatriz que Hermione adquirira. Esta não mais dizia “sangue-ruim”, e havia sido substituída por uma nova frase que soaria tão ofensiva quanto.
“Morte ao Potter.”
Sabia que assim que a frase fosse notada, teria que acolhe-la e até mesmo culpar-se pelo ato realizado, mas naquele momento sequer sabia onde estavam, e tudo que conseguia pensar era o que fazer.
Não tinha mais sua casa, não depois de salvar a sangue-ruim em frente à todos os comensais. Suas poções, roupas e até mesmo relíquias de família estavam perdidos para sempre, e sequer poderia visitar Gringotes na espera de receber seu próprio dinheiro.
Encarou Hermione a sua frente, e uma idéia lhe passou pela cabeça.
Venda a sangue-ruim, Draco.
Ela deve valer muito.
Imagine só, quanto não pagariam por essa fedelha de sangue-ruim?
O pensamento foi expulso de sua mente antes mesmo de fixar-se, e ao ver Hermione ali, observando-o com os olhos confusos e os cabelos suados, mas ainda assim segurando sua mão, desarmaria qualquer homem que ousasse vendê-la.
—Eu sinto muito por ter descuidado na noite passada, fedelha. —Alertou, levantando-se e caminhando até o corredor ao lado, onde havia descoberto uma cozinha pequena e com os móveis velhos, mas esta ainda assim possuía meia dúzia de talheres, pratos e copos, mesmo que considerados de gigante mal gosto pelo loiro.
Serviu um copo de água para si e outro para Hermione, que havia se posicionado sentada sobre os lençóis rasgados e sujos. Não parecia se importar, e sabendo o tempo que havia passado em Azkaban, estes poderiam ser considerados até mesmo de ótimo bom gosto.
Bebericaram a água um em frente ao outro. Draco sentado em uma cadeira que rangia a cada movimento, prestando atenção em cada detalhe que o rosto da castanha oferecia.
—Desculpe pelas coisas que eu falei ontem, Draco. —A voz de Hermione saiu em meio ao silêncio, assustado até mesmo o sonserino que não se considerava merecedor de suas palavras naquele momento. —Sabe, eu não acho que você seja um covarde.
Ambos olharam para baixo, e um sorriso fraco roubou as laterais dos lábios finos de Draco, que ao olhar de relance, pode ver Hermione sorrindo também.
—Obrigada por me salvar.
Seria do costume do sonserino acatar as palavras em silêncio, e guardá-las em sua mente, mas algo dentro de si ainda incomodava. O silêncio. Não se tratava da quietude momentânea, nem sequer dos momentos em que não haviam palavras a serem ditas. Se tratava do momento em que as palavras a serem ditas eram engolidas e esquecidas por ele mesmo.
—Eu que agradeço, fedelha.
Passaram alguns segundos assim, cada um olhando para o chão, ocupados com seus próprios universos.
—Quem o enfeitiçou?
Draco levantou sua cabeça alguns centímetros, o suficiente para que conseguisse ver a face de Hermione coberta em curiosidade.
—Pansy Parkinson.
A castanha desviou os olhos para a janela, onde poderia observar a chuva caindo sem fraquejar com as dúvidas que sentia, nem ao menos corar ao perceber ser fitada por aqueles orbes cinzentos.
—Amortentia?
Draco sacudiu a cabeça positivamente, fazendo Hermione ter certeza de uma questão que pairava sobre sua cabeça. Sentiu seus ombros se encolherem e sua postura amuar.
—Então eles aproveitaram enquanto vocês transavam para me sequestrar.
—Eu e Pansy não transamos. —Draco concluiu com rapidez, de forma um pouco mais seca do que gostaria, e Hermione ousou levantar uma sobrancelha em sinal de surpresa. —Bom, pelo menos não ontem.
Corando devido ao tema que a conversa havia abordado, a morena passeou seu olhar sobre o quarto e voltou a mirar a chuva, que havia tomado um aspecto levemente mais fraco.
—Sempre achei a Parkinson uma das mais bonitas de Hogwarts. —Comentou, desviando dos assuntos sexuais.
O loiro pensou um pouco. Se havia prestado atenção nas garotas de Hogwarts, em algum momento havia, de certo, achado Pansy bonita. No entanto, recordando-se agora de todas as garotas que podia, havia chego a conclusão de que a sabe-tudo estava errada.
—Acredito que vocês duas dariam uma boa briga, fedelha.
Novamente Hermione corou, desta vez sentindo suas bochechas queimarem violentamente. Ajeitou seu cabelo por puro instinto, e passou a evitar com ainda mais veemência o olhar do homem.
—Eu nunca liguei muito pra essas coisas, sabe...Mas acho que eu adoraria ter a mesma aparência que tive uns oito anos atrás. —Deu de ombros como quem não ligava, mas do fundo de si, sentia-se inferior se comparada a cada mulher que visse. Os anos em Azkaban haviam acabado com a castanha, e apesar das semanas na mansão Malfoy terem ajudado em sua recuperação física, sentia falta de algo em si mesma na sua juventude. Os cabelos um pouco mais claros, o rosto levemente mais arredondado, os olhos felizes — tudo parecia ter mudado, mesmo que em seus meros detalhes.
—Você não mudou tanto assim, fedelha. —Respondeu como quem a repreendia, e analisou pela primeira vez o corpo da morena, não com seu costumeiro olhar clínico, mas pela primeira vez observou-a como um homem observaria. Se não fossem os hematomas nos braços e os arranhões no rosto, poderia considerá-la como uma mulher bonita, tal como estava na manhã do dia anterior. —Eu particularmente, acho você bonita...Claro, agora está parecendo um saco de pancadas, Hermione, mas normalmente seria bonita, sim.
A castanha sorriu, perguntando a si mesma o porquê de ter guiado a conversa para aquelas perspectivas.
—Obrigada, Draco.
Uma lágrima escorreu sorrateira de seu olho enquanto ajeitava mais uma vez os cabelos rebeldes, colocando-os atrás da orelha, e Draco quis arrancar o semblante tristonho de qualquer forma. Há anos não fazia piadinhas, era um homem sem tempo para esse tipo de coisa, mas forçou-se a pensar em algo que pudesse ser engraçado.
—Eu, pelo contrário, continuo tendo o mesmo rostinho bonito dos dezesseis, não acha fedelha? —E apontou para si mesmo, com uma careta pronta no rosto.
Hermione riu alto, permitindo-se tremer enquanto o som de sua momentânea felicidade ecoava pelas paredes da casa. Draco limitou-se a ver a cena, um sorriso ladino em seus lábios. Dúvidas de como sairiam dali, e para onde iriam, martelavam sua mente o tempo, mas naquele momento o tempo parou para que a risada de Hermione Granger fosse apreciada como deveria ser. Era contagiante, e não demorou nada para que o homem passasse a gargalhar junto.
Não haviam cicatrizes de tortura, saudades ou até mesmo lembranças da noite passada. Por um mísero segundo, não haviam sequer comensais da morte, muito menos Voldemort.
Uma chuva forte, um casal risonho e uma casa pequena. E nada mais os preocupava, ao menos não naquele instante.
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