Notas iniciais
Olá, corujas! Venho primeiramente agradecer a Leitora 01 por aquela recomendação! Foi incrível! Palavras como as suas me motivam, cada dia mais, a continuar fazendo o que faço! Abraços! Bem, desejo a todos uma ótima leitura! Espero ver vocês nos comentários! Até!

No mesmo instante em que Aysha tocou a mão de Hermione, a castanha sentiu seu corpo sendo puxado para o distante. Os dedos ainda trêmulos do elfo não a soltaram sequer por um momento, e muito pelo contrário, a apertavam com força.

Nos poucos segundos em que a grifina sentiu seu corpo sendo levado por Aysha, conseguiu pensar no perigo que aquela aparatação traria para a elfo. Tão fraca, tão doente, e ainda carregando um humano consigo, para tão longe.

Parecia loucura a aquele ponto sujeitar uma criatura indefesa a tamanho perigo, e como a pessoa responsável entre as duas, se sentiu negligente por se permitir levar pelas ideias de um elfo desesperado.

Por outro lado, sabia para onde estavam indo. Seu coração se acelerava ao imaginar que poderia ver Draco, estava cada instante mais perto, poderia salvá-lo.

—X—

Wiltshire, Inglaterra.

—X—

Sentiu seus pés tocando o chão firme, e percebeu que naquelas grades da torre Eiffel havia sentido falta daquilo. Sacou sua varinha o mais rápido que seus braços ainda desnorteados conseguiram, e logo a seu lado viu Aysha.

Seu nariz sangrava violentamente, e mais alguns cortes se espalhavam vagamente pelo seu corpo, e, no entanto, a elfo sorria.

Seu mestre seria salvo, e aqueles ferimentos não a importavam nem um pouco.

Hermione olhou a sua frente, e encontrou o mesmo portão que cercava a mansão Malfoy. No entanto, estavam do lado de fora.

O ferro escurecido era alto demais para ser escalado, e com toda certeza do mundo não conseguiriam aparatar dentro dos terrenos, visto que até mesmo os pássaros que costumavam dar vida as árvores espalhadas pelo jardim haviam ido embora, deixando apenas ninhos abandonados e uma quietude que jamais havia acontecido em tal intensidade.

Qualquer criatura viva preferia não estar tão perto de tamanha maldade.

E logo ali, próximo aos pés de Hermione, um pequeno vão no portão.

O mesmo espaço que havia deixado em sua tentativa de fuga.

Hermione sentiu o olhar sugestivo e esperançoso de Aysha sobre si. Ela a entendia. Estava perto de seu mestre, e Draco estava machucado, não sabiam ao certo qual sua situação naquele momento, e apenas a ideia de que o sonserino correria risco de morte causava arrepios nos braços de Hermione.

Precisava fazer alguma coisa.

Respirou fundo e seguiu em frente.

Seria rápida. Tentaria desaparatar de dentro da mansão com ajuda de Aysha, levando seus amigos. Levando Draco. Salvando-os.

Sabia do risco que seu plano trazia para a elfo, e sentia em seu âmago a culpa que poderia carregar caso Aysha fraquejasse. Sabia que era hipocrisia, afinal, ter lutado tantos anos pela liberdade dos elfos, pela vida em conforto que poderiam ter, para no final sujeitar a elfo a um sofrimento tão grande.

Mas acima disso, via o pequeno sorriso que se formava nos lábios da criatura, apenas em estar perto de seu mestre.

E se preciso, permitiria que Aysha fosse, acima de tudo, livre para escolher seu futuro, sendo ele como serva ou como um elfo sem mestre. Precisava aceitar a ideia de que os elfos pensavam diferente, sentiam a necessidade de estar com seu mestre, de servi-lo. E jamais poderia mudar a natureza disso.

Hermione se abaixou e engatinhou pelo vão que sabia ser perfeito para que pudesse passar, e sentiu os passos rápidos de Aysha ecoando pelo chão.

Estava tudo dando certo.

Suas mãos tremiam devido a força que sua varinha era empunhada, enquanto o suor de nervosismo escorria como uma cobra por sua pele, lentamente.

Andaram lentamente por todo o perímetro do terreno. Cruzaram com árvores, antes cheias de vida, que agora só tinham a oferecer galhos secos e pingos de neve acumulados. Hermione olhou para trás e viu suas pegadas sendo deixadas, lado a lado com as marcas do pé de Aysha. Sentiu sua cabeça ferver por um segundo, e assim que sussurrou um feitiço para que a neve se tornasse lisa novamente, percebeu que ainda estava tudo bem.

Estavam ao lado da porta da mansão, agora.

Pilares altos anunciavam sua magnitude, e a porta de mogno, alta e escura, trazia a grandeza do perigo pelo qual corriam.

A castanha esperou. Parou ao lado da porta e, pacientemente, ouviu cada som emitido no interior, naquela mesma sala de estar que a havia recepcionado uma vez. Ouvia passos quase imperceptíveis pelo lado de fora, uma conversa sussurrada, alguns risos carregados com malicia.

Encostou sua orelha ao lado da porta, sentindo-se imitada por Aysha, que fez o mesmo.

Por um instante quis rir da situação, como se ouvisse uma fofoca que não fosse de sua conta, mas ao perceber que não havia graça, se tornou sóbria novamente.

Talvez os dias sem se alimentar bem tivessem a deixado tonta.

Sacudiu a cabeça mais uma vez, e desta, prestou o máximo de atenção que podia.

A voz que vinha de dentro era de Bellatriz. Sussurrava como quem implora por piedade a seu mestre. Sua fala era tão rápida que poucas palavras eram captadas pela mente cansada da castanha.

“Bracelete.”

“Não sabia.”

“A arma contra vossa majestade.”

Precisou de alguns segundos retirados do silêncio feito assim que Bellatriz se calou, para compreender o caminho para o qual a conversa levava.

Ela havia confessado que não sabia o paradeiro do bracelete, era isso,

E a esta altura, deduzira que Hermione sabia o paradeiro do que poderia destruir o bracelete. A única coisa que lhe restara. O dente de basilisco.

O silêncio veio carregado de uma resposta jamais verbalizada, e sim expressada no que Hermione sabia que era.

Era um tapa.

O estalar foi preciso e seu som foi seco. Bellatriz havia tomado um tapa de Voldemort.

Hermione poderia ter achado tudo aquilo justo, e a cada vez que via as marcas que a bruxa a havia deixado, se lembraria daquilo. Mas naquele preciso momento, conseguia apenas contentar-se com o asco que o Lorde das Trevas lhe causava, e um mínimo sentimento de piedade que lhe surgia com Bellatriz.

E então, a voz do bruxo saiu em forma de sussurro.

“Foi por isso que escolhi Astoria.”

Bellatriz chiou, descontente. O som era baixo e quase ameaçador, mas perante o Lorde das trevas, aquietou-se lentamente, assemelhando-se a um ronronar felino e ameaçador, porém ainda submisso.

Era isso, Voldemort havia escolhido Astoria. Bellatriz ficara para trás, após tantos anos de servidão com seu lorde, tamanha havia sido sua fidelidade, e os anos que havia passado em Azkaban em respeito a seu mestre podiam comparar-se a idade que Grengrass trazia de idade.

Havia sido uma vida jogada fora. A vida de Bellatriz era mera sombra do que viria a ser a vida de Astoria.

E Hermione sabia que podia usar aquilo a seu favor.

Certificou-se da mochila carregada em suas costas, firmes como se sua própria vida dependesse daquilo. Dentro dela havia o único objeto cujo poderia salvar todo o mundo bruxo. Aquela maldita Horcrux estava tão perto, fisicamente, quanto estava longe o dente de basilisco que a permitiria destruir.

E além dela, a cobra e o próprio Voldemort ainda restavam.

Hermione passeou por um breve segundo em seus pensamentos, imaginando o que poderia ter sido feito da espada de Gryffindor. Onde estaria aquela arma?

De certo, deveria estar segura em algum cofre encantado, de onde apenas Voldemort a tiraria.

Estava fora de cogitação.

De volta com seus pés ao chão, Hermione concentrou-se no som das batidas que ecoavam dentro da sala, leves e ritmadas, pendulares...

Como as de um relógio.

O tempo passava, quase se arrastando. Um tilitar de xícaras era ouvido, seguido de passos que subiam e desciam nas escadas de Draco. Alguns iam para o leste, outros para oeste.

E seus ouvidos bem treinados a permitiam ouvir cada conversa desinteressada.

Sabia que estava perto do momento em que alguém sentiria a falta de Aysha, fosse para servi-los ou para o habitual e costumeiro momento de tortura, apenas para que seu tédio fosse evitado.

E então, tudo aconteceu muito rápido.

Voldemort sussurrou algo como “o elfo imundo”, e então, acompanhados do gemido de dor que Bellatriz chiou, meia dúzia de aparatações no topo da escadaria.

Eles haviam percebido a falta de Aysha, e todas as aparatações não vieram em busca da elfo, e sim de Hermione.

Sabiam que ela poderia estar ali.

Voldemort ordenou para que revirassem cada canto da propriedade de Hermione, e os risos maliciosos dos comensais a faziam saber o que deveria esperar se fosse encontrada. Então Hermione apenas se abaixou perto do pilar, torcendo para que ninguém a encontrasse, e puxou Aysha consigo.

Prestou atenção em cada passo, em seu ritmo.

Sabia que Dolohov estava lá. Os passos firmes do bruxo corriam em direção a porta dos fundos, onde encontraria o terreno vazio, bem longe dela. Agradeceu a Merlin por isso.

Voldemort permanecera na sala de jantar, aguardando pacientemente enquanto seus lacaios faziam o trabalho sujo por ele, era óbvio. Era orgulhoso demais para admitir que corria risco por uma sujeita de sangue-ruim. Astoria, assim como seu novo marido, aguardava, sentada ao lado do lorde das trevas. Sua xícara de chá batia com delicadeza contra o pires perolado. Hermione podia ouvir uma conversa baixa acontecendo entre os dois, como se nada estivesse acontecendo.

No andar superior, diversos passos pesados e apressados corriam pelos corredores de madeira, ecoando com desespero por cada parte da casa.

E ao se concentrar por um segundo, Hermione ouviu o riso de Bellatriz, enquanto a bruxa se aproximava vagarosamente da entrada das masmorras da mansão, os passos, ao mesmo tempo, se arrastavam e voavam com o tempo, levando junto a ideia de que Draco poderia sobreviver.

E então Hermione invadiu a casa.

Em meio ao barulho de passos que ecoavam pela madeira bruta da mansão, seus leves passos apressados se misturavam. Aysha a seguia com a mesma leveza, parecendo perceber a gravidade da situação.

A castanha pode ver os cabelos negros e desengrenados de Bellatriz, voando com a velocidade de seus passos.

E naquele momento, por mais veloz e sorrateiros que seus passos fossem, pareciam incapazes de alcançar Bellatriz na entrada da prisão. Hermione segurou, desta vez, mais firme do que nunca sua varinha, sentindo seus dedos tremerem com a força realizada, mas naquele segundo em que a levantava contra a tia de Draco, um sorriso malicioso já havia se formado no rosto da bruxa, e um feitiço avermelhado dançava para fora de sua varinha ao mesmo tempo que Hermione conjurava um feitiço para imobilizar a bruxa.

Um baque foi ouvido do lado de dentro, como se um peso morto fosse jogado contra o ar, batendo em algum material, e no mesmo instante Bellatriz voou contra a parede, desta vez formando um som quase surdo, estava desmaiada.

Os olhos de Hermione não conseguiam acreditar no que lhes cabia, e as lágrimas desciam como chuva entre as orbes castanhas. Permaneceu naquele estado por alguns segundos, apenas acatando a ideia de que havia desarmado Bellatriz Lestrange, e lidando com o peso que suportaria caso a tivesse matado.

Aquela não era sua intenção.

Mas também não havia tempo para se preocupar com a bruxa, enquanto Aysha corria em direção a escadaria que levaria à Draco.

Sentiu seus pés sendo levados pelo impulso, sem receber ordem ou sequer mostrar reconhecer seus pensamentos, seguiam os passos desesperados de Aysha em busca daquele que eu coração palpitava ao imaginar.

Tudo que percebeu foi sua própria voz, soando esganiçada e liberando um pouco do sentimento de raiva e medo que havia acumulado naqueles minutos de desespero. Chamava por Draco, mas não conseguia encontrá-lo. Os corredores eram escuros demais, e o espaço aberto parecia coberto de poças de água e sangue.

Tateou pelas paredes, socando-as ao perceber que estava perdendo tempo.

Manchava o chão com suas próprias lágrimas, que escorriam e pingavam sem piedade contra sua roupa, contra o chão. Era como chuva. Parecia não parar, parecia que nunca teria fim.

Em um dos pilares, abaixados e abraçados um ao outro como que para se conter, seus antigos amigos espionavam. O semblante de Ronald Weasley era cuidadoso e trazia um pouco da mesma insanidade que havia construído em si.

Gina Weasley esboçava seus traços felinos. Uma leoa que se protegia. Os cabelos ruivos desgrenhados já alcançavam a altura dos ombros, porém exibia sinais de falhas, além dos machucados em seu rosto.

Ambos encararam Hermione como se esperassem um ataque, talvez o susto e o barulho os fizera acreditar que não era realmente ela, a mesma grifina com quem haviam convivido por tantos anos, a mesma garota que viram ser escravizada e humilhada, até mesmo abusada, ali, agindo por seus próprios instintos, lutando para proteger aqueles que amava.

Hermione fitou os amigos por um segundo, como uma saudação silenciosa, e os Weasleys pareceram sair da defensiva quando viram as lágrimas que escorriam quentes pelo rosto da castanha.

Hermione sentiu seus lábios tremerem.

Gina apontou com os dedos em sua própria boca, pedindo que Hermione ficasse em silêncio, e a castanha passou a engolir os próprios soluços, afogando-se com sua própria tristeza. Em seguida, Rony apontou com o dedo chamuscado para um corredor a leste, o único capaz de receber o mínimo de luz.

Hermione disparou em direção à Draco, sentindo Aysha correndo ao seu lado, e no mesmo instante que virou o maldito corredor que custava a chegar ao alcance de seus pés, pode ver a luz fraca que emanava do lado de fora, cobrindo o corpo magro e perfeitamente imóvel de Draco.

Estava com o rosto para cima, um tecido cobrindo metade de sua face, enquanto a outra metade poderia ser comparada a uma estátua de gesso, moldada em seus traços com maestria, um sorriso quase imperceptível formado em seu semblante.

O que havia restado de sua calça social estava chamuscado e estraçalhado, enquanto sua camisa, antes branca, era coberta do sangue vermelho escuro que se fazia presente em cada centímetro do tecido abarrotado.

—Aysha, faça alguma coisa! —Hermione gritou, não mais se importando com que a ouvissem.

Sentiu os passos dos Weasleys se aproximando, e ao se abaixar próximo ao corpo de Draco, o peso do olhar dos irmãos fez efeito sob suas costas trêmulas.

Mas Draco continuava imóvel.

Aysha, também parecendo não se importar com os passos dos comensais, cada vez mais próximos e perigosos, jogou todo seu corpinho sobre o corpo de seu mestre, urrando palavras de agonia que pareciam distantes demais para que Hermione compreendesse.

Tudo que via era Draco. Imóvel. Pálido como nunca. Definhando.

Morto.

Passou a mão por seus cabelos loiros, sentindo sua textura, e alongou o caminho de seus dedos, chegando a fina camada de tecido que cobria seu rosto queimado.

Não teve medo de retirar o tecido com delicadeza, sentindo, então, a textura do que havia se tornado sua nova pele.

Os ferimentos e queimaduras eram claros, evidentes. A camada avermelhada que cobria todo seu lado esquerdo se esticava desde o início de sua testa, passando por suas pálpebras, onde formava diversos canais, como rios que passeavam ao redor de seus olhos azuis, alongando-se até metade da maçã do seu rosto, onde os ferimentos se detinham em um vermelho menos intenso, quase parecidos com um hematoma comum.

Mas era aquilo, era este o motivo de que havia escondido seu rosto?

Hermione não conseguia encontrar nada que a repugnasse naquele rosto, tirando o fato de que suas narinas não se retorciam em respiração. Se estivesse vivo, acharia cada parte daquele rosto tão perfeita como sempre foi.

O tempo parecia não passar do lado de fora da mente da castanha. Os barulhos cada vez mais próximos, tudo acontecendo tão rápido, os berros de tristeza de Aysha. Tudo isso parecia acontecer em outro plano, enquanto naquele momento tudo que podia ver era o rosto de Draco, e tudo que conseguia sentir era uma crescente dor subindo em seu peito, escalando sua garganta e chegando a erupção no início de suas cordas vocais, machucando-as, implorando para escapar em forma de gritos dolorosos.

Mas nada acontecia. O silêncio tomava sua mente, seu corpo, e até mesmo seu coração parecia não mais obedecer sua vontade de viver.

Tinha plena noção dos olhares dos Weasleys sobre o casal, o dó, a piedade, eram tamanhos que chegavam a incomodar. Jamais quis piedade, queria ser livre.

E Draco é o preço que havia pago pela liberdade.

Quando os passos estavam tão próximos, e as vozes tão altas, capazes de sobressair as vozes de sua cabeça, ouviu a voz de Gina pela primeira vez, o desespero crescente tomando conta da ruiva.

—Precisamos ir, Mione, não temos mais tempo.

Hermione negou, veemente.

Puxou a cabeça de Draco para seu colo, sentindo o peso morto de sua pele. Afagou seus cabelos e beijou sua pele machucada. As lágrimas já não tinham mais espaço em seu rosto, haviam tomado conta de tudo. Estavam por todos os lados, afogando, caindo e rolando por sua face.

Era pior do que a morte de Harry. Não tinha chances de salvar o amigo, mas Draco, este ela havia desperdiçado a chance de salvar.

—Levem ele junto. —Pediu. Não soou como um pedido, e sim como uma ordem em tom de súplica.

Teria se sentido insana em qualquer situação em que Ronald Weasley a olhasse como se precisasse ensinar uma criança que não adianta carregar mortos para uma viagem, ainda mais nas costas de um elfo. Mas Hermione não se importava com o que ele achava, e tampouco idealizava que Aysha seria oposição a sua vontade.

Em meio as lágrimas e a vermelhidão que seus olhos haviam formado, pode ver Aysha concordando, se aproximando devagar do grupo que velava o corpo de Draco.

Sentiu as mãos de Gina e de Rony a tocando nos cabelos, enquanto os dedinhos de Aysha se encaixavam sobre os de seu mestre e os de Hermione, formando uma corrente perfeita.

E então seus pés não mais tocavam o chão.

—X—

O clima chuvoso havia voltado, e ao abrir os olhos inchados, Hermione soube que haviam voltado a Paris. Estavam na mesma viela em que ela havia se escondido alguns dias atrás, e o gato escuro como breu escondido atrás de uma caixa de papelão comprovava isso.

Hermione olhou mais uma vez para Draco, ainda imóvel. Estava ajoelhada ao lado dele, deixava que as lágrimas escorressem agora, sem sentir medo de ser notada.

Deitou sua própria cabeça sobre o peito frio do sonserino, soluçando com dificuldade. Sentiu seu cheiro, aquele cheiro de shampoo que havia percebido a primeira vez que havia tomado banho na mansão. E ainda misturado ao sangue e ao cheiro de pele queimada, era marcante, perceptível.

Afundou seu rosto contra o pescoço do alvo, sem se preocupar com pudor ou qualquer outra coisa, era como se estivessem a sós. Podia ouvir as vozes de Ronald e Gina conversando sobre algo à alguns metros, mas não poderia ser mais importante do que a vida de Draco, não naquele momento.

Por um momento seus soluços cessaram, e então Hermione pode ouvir.

Um coração ainda batia.

Era fraco, falhava, e seu som lembrava muito mais a uma batida que ecoava do que uma real pulsação de vida, mas ainda assim era melhor do que nada.

E no mesmo momento, as lágrimas de Hermione cessaram, sendo substituídas por uma ponta de esperança que lutava para vencer.

E então as conversas de Rony e Gina também cessaram, como se para observar o que Hermione fazia. A castanha teve vontade de gritar, de implorar por ajuda, mas cada milésimo de segundo parecia tempo jogado fora quando se tratava de não estar tentando salvar a vida de Draco.

Usando toda sua força, a castanha forçou o peito de Draco. Espalmou seu tórax enquanto pulsava ritmadamente contra seus pulmões. Tinha o desejo de salva-lo, de tirá-lo desse limbo em que havia parado.

E então sentiu sua varinha pulsando em seu bolso, como se tivesse vida. Parecia querer salvar seu dono, e no mesmo segundo Hermione a atendeu. Puxou do bolso a madeira refinada, e como se sua vida dependesse dela, apontou para Draco. Deixou que a varinha lhe mostrasse o que fazer, e então obedeceu.

—Enervate. —Murmurou. Era instintivo, não usava aquele feitiço a anos, mas a varinha lhe mostrou o que precisava fazer, e Hermione, de bom grado, a obedeceu.

E tudo fez sentido, sequer havia se lembrado de que ainda tinha uma varinha consigo.

Como em um impulso, o peito de Draco se mexeu convulsivamente. Ansiava pelo ar, e com mais um golpe de pressão realizado por Hermione em seu tórax, o fôlego lhe retornou aos pulmões.

E então Draco tossiu.

Havia ouvido tudo que aconteceu. Sentiu cada lágrima de Hermione escorrendo em seu próprio rosto, sentiu o peso quase imperceptível de Aysha sobre suas pernas, implorando para que não morresse.

E teve vontade de pedir para que parassem. Desejava pedir para que Hermione desistisse de sua vida e salvasse a dela própria, precisava avisar que não voltaria a viver, que estava feliz, e que lhe bastava morrer sabendo que ao menos não seria esquecido.

Não se achava merecedor de tamanha preocupação, e seus pensamentos naquele momento estavam em Aysha, aparatando carregando tantas pessoas consigo, e ainda tão machucada...

Mas então seus olhos se abriram, e ele pode ver Hermione.

Sua primeira reação foi sorrir, mesmo que fraco, olhando para o rosto da castanha, cuja expressão trazia um misto entre felicidade e terror.

Logo em seguida, Draco parecia ter compreendido.

E então, com suas próprias mãos, escondeu seu rosto.

O sorriso nos lábios de Hermione fugiu, e então tudo que ela esboçava era semelhante a...

Desapontamento?

—Você não precisa ter vergonha disso. —Hermione declarou, se aproximando.

O coração do sonserino se acelerou contra o peito, batendo ainda mais forte.

Draco não abaixou as mãos. Pelo contrário, pressionou-as com mais força contra o próprio rosto, ignorando a dor que sentia ao tocar a si mesmo. Precisava esconder aquilo. Era nojento. Era repugnante. Hermione merecia muito mais do que aquilo. Merecia algo melhor do que ele.

Hermione ia falar mais alguma coisa, se aproximava vagarosamente para um abraço, deixando que seus olhos liberassem as lágrimas, desta vez de felicidade, quando uma tosse seca os interrompeu. Hermione olhou para Gina com braveza, estava chateada por estar sendo atrapalhada naquele momento, mas então a ruiva apontou para um ser escondido entre as caixas de papelão.

O olho azul cristalino de Draco acompanhou o movimento, e ele sabia do que se tratava.

—Pode trazer ela aqui? —Pediu, sentindo sua voz soar áspera pelas cordas vocais ressecadas.

Gina assentiu, sem discussões.

E Hermione fitou toda aquela situação. Estava perplexa. O que teria de tão importante entre aquelas caixas? Tudo que havia visto ali era o gato escuro que a teria feito companhia, mas tinha certeza de que ele não era o centro daquela conversa.

E então Ronald apareceu. Entre as caixas de papelão úmidas e tantos estilhaços, estava lá.

Era Aysha.

Sua respiração era falha, mas ainda existia. Seu pequeno corpinho era completamente coberto por hematomas, e algo em sua clavícula aparentava estar fora do lugar. Suas mãozinhas tremiam como nunca, parecendo estar em busca de algo que ela já não conseguia mais falar.

Hermione prendeu a própria respiração.

Havia sido uma longa viagem para Aysha. Foram tantas idas e vindas, para tão longe, tão machucada.

A castanha quis se culpar por aquilo. Desejou chorar, mas suas lágrimas já haviam secado e tudo que lhe restava era o nó na garganta.

E então os olhinhos violetas de Aysha piscaram preguiçosamente, e em seguida brilharam.

E Draco estava lá. Estendia seus braços, mesmo que pouco, em direção a criatura. Ronald a aconchegou no peito de Draco, que ainda deitado, deixou que Aysha se aninhasse por ali. Ela estava fria.

Draco fitou o céu. A chuva começava a cair com maior violência, lutando contra sua pele frágil. Passou as mãos pela coluna da elfo. Parecia fazer carinho, mas seus dedos médicos bem treinados buscavam por algum sinal de ferimento.

E encontraram todos os possíveis.

Podia diagnosticar várias coisas ali mesmo. A bacia da elfo estava deslocada vários centímetros para a direita, enquanto sua clavícula estava quebrada, e o que seu olho bom lhe mostrava era uma hemorragia interna do lado esquerdo.

E então Draco deixou que Aysha se aconchegasse. Permitiu que ela sentisse seu cheiro, abraçasse seu pescoço, ainda que dolorido. E sabia que tudo que a elfo fazia era acompanhado de um sorriso, ainda que fraco.

Aysha ergueu os olhinhos violetas em sua direção, e com sua voz ainda muito fraca, tossiu as palavras:

—O senhor Malfoy...Está vivo...Aysha está feliz.

—Também estou, Aysha querida. —Draco sussurrou.

E então, mais do que nunca, Aysha se espremeu em um abraço com Draco, e então o sonserino fechou os olhos no mesmo instante que a criatura. No mesmo segundo que sentiu o abraço se afrouxar, sentiu uma lágrima gelada escorrer de seu olho, misturando-se a chuva que caia, desta vez se chocando com sua pele como uma chama se choca com a pólvora.

Draco sentiu os dedos de Hermione roçando sobre seu cabelo, e naquele momento sequer se preocupou com os ferimentos a vista. Aysha havia morrido, e se preocupar com seu próprio rosto pareceu a coisa mais egocêntrica e idiota que já havia feito.

Não precisou abrir os olhos para saber que Hermione ainda estava lá, acompanhada de Ronald e Ginevra. Prometeu a si mesmo consola-la mais tarde, cuidar para que o coração ferido de Hermione cicatrizasse, ao menos um pouco.

Mas naquele mísero momento, apenas deixou que o céu chorasse a morte de Aysha.

Notas finais
Comentem! E por favor NÃO FIQUEM TRISTES CMG