Palavras que machucam
6 ♥Voo da liberdade♥
Notas iniciais
—Mãe…-mamãe para de abrir as caixas, apenas por um segundo, para me lançar um olhar questionador. -…isso não vai acontecer.
—Hailey eu não tenho como ir ao mercado hoje. Estou cheio de clientes para atender no escritório antes do Natal e o seu pai precisa ir para a Revista mais tarde.
Nós estávamos na sala de visitas, rodeadas por inúmeras caixas de natal, revirando os enfeites que teríamos que colocar no teto do casa. O único problema era que não havia pregos para pendurar os enfeites e, muito menos, um corajoso eleito para se pendurar em uma escada de aparência questionável para subir até o teto pelo lado de fora.
Até que o heróico Connor se pronunciou. Oh, o bom e velho Connor. Assumindo o papel de salvador da pátria, se candidatando para colocar os preciosos e cafonas enfeites de natal da mamãe no teto da casa. E, por isso, ali estava eu.
A vítima.
Sendo obrigada a ir até o mercado com Connor comprar os malditos pregos e todo o resto da mão de obra pesada para realizar o sonho da mamãe de construir uma decoração impecável.
No íntimo, eu acho que ela sonhava em entrar no livro dos recordes na categoria de decoração de natal mais papagaiada do mundo.
—E quanto ao Riley?-Tento contra argumentar. Desesperada.
—Seu irmão é um desastre fazendo compras. Lembra-se da última vez que o mandei ao mercado? Ele comprou uvas, em vez das uvas-passas. Você sabe que um natal que se preze precisa ter uvas-passas, Hailey. -Ela diz seriamente, antes de se agachar novamente e puxar um pacote de bolinhas coloridas para pendurar na nossa árvore caidinha.
—Então, mande Connor sozinho. Ele combina com essas coisas de grosseirão.
—Hailey não seja maldosa. Lembre-se que o perdão é a única chave capaz de livrar você do passado. Enquanto, ainda manter essa chama de rancor acesa em seu coração, o amor não entrará. -Mamãe fala gentilmente, como se estivesse dando um sermão. Me descolo da porta e sento pesadamente no sofá, enterrando a minha cabeça em minhas mãos. -Não deixe o seu passado atrapalhar o seu futuro.
Ergo o olhar e fixo nos olhos verdes da mamãe.
—O que quer dizer?
—Estou tentando dizer que, em alguns casos, os que nos machucam são os que mais nos amam. Pense nisso.
Eu odiava indiretas. Muito fortemente.
☆☆☆
O aquecedor do carro como sempre fazia um barulho irritante.
Solto a respiração aos poucos, sentindo o meu diafragma relaxar, depois expandir.
Uma música calma soava dentro da cabine da caminhonete. Um espaço tão pequeno que eu precisava me encolher toda vida que Connor passava a marcha para que sua mão não esbarrase no meu joelho, e eu, sei lá, saltasse para fora do carro com o susto.
Descanso o meu queixo contra a palma da mão e tento controlar a tremedeira do meu joelho. Era mais fácil eu tomar um remédio tarja preta.
—Nós podemos conversar, agora?-A voz baixa de Connor era um contraste gritante com a cantora de voz fina que entoava no fundo.
—Nós não temos nada para conversar. -Falo firmemente, virando ainda mais o rosto.
—Só pelo fato de você falar isso, significa que nós precisamos conversar. Hailey. -Ele chama, mas eu não dou atenção. -Não haja como uma…
A sua frase pesa sobre nós.
—Como uma criança?-Termino para ele, dessa vez, o fitando intensamente.
Ele solta um suspiro pesado e os nós dos seus dedos se tornam branco no volante.
—Não quis dizer isso.
—Vocês nunca querem. -Ele olha de soslaio para mim confuso. Pigarreio antes de esclarecer. -Sempre falavam isso quando éramos chamados na coordenação. E a diretora sempre caia nessa conversa fiada. Não foi a minha intenção. Não fiz de propósito...Você já sabe o resto.
Encaro a neve espessa no meio-fio sentindo uma ardência na garganta.
Ouço o momento em que Connor toma uma respiração profunda para falar, mas me estico e aumento o som do rádio. Encobrindo as palavras vazias de Connor e deixando claro a minha posição.
—Você não vai facilitar pra mim, não é Hailey?-Ele pergunta com a voz um pouco alta.
Não respondo.
☆☆☆
O supermercado estava abarrotado de gente, criando uma atmosfera caótica como se estivessemos em pleno estádio de futebol e fosse o último jogo da semifinal.
—Você é o que? Uma criança de cinco anos? Desce daí. Todo mundo está olhando.
Connor empurra mais o chão e se inclina sobre o carrinho de supermercado como se ele fosse um tipo de skate.
Tão infantil.
—E você se importa?
Pego um pacotinho de cereais e vejo o tanto de calorias.
—Quem não se importa?
Jogo o pacote no carrinho e sigo para outra prateleira.
—Uma pessoa que sabe curtir a vida. -Ele para o carinho e joga um pacote de salgadinhos dentro. -Isso é comida.
Solto um puff e pego o pacote de salgadinhos de volta, devolvendo para a prateleira.
Nós passamos para a sessão de congelados e eu olho furtivamente para trás. Connor tinha o olhar fixo em mim como se eu fosse um enigma e ele o aluno aplicado.
—Toda essa sua obsessão por comidas saudáveis é porque você se acha gorda?-Ele pergunta na lata com a cabeça inclinada.
Travo.
—Desce. -Comando apertando o pacote de iogurtes em minhas mãos.
—Eu acertei, não acertei?-Ele fala satisfeito, mas logo seu olhar recai sobre as minhas mãos tensas e ele se retrai. -Hailey você está brincando certo?
Giro sobre os calcanhares e jogo os iogurtes de volta na prateleira. Marcho pelo corredor, lutando por ler os códigos de barra, lutando por me concentrar em qualquer coisa que não fossem as palavras de Connor.
—Hailey. -Ele chama atrás de mim, mas eu o ignoro.
Ouço o carrinho do supermercado arranhar o chão e no outro instante ele está parado ao meu lado. A testa enrugada em pura confusão e culpa.
Ele abre a boca, mas logo a fecha em pura frustração. Passa os dedos pelos cabelos parecendo furioso e logo foca toda a potência daquele olhar em mim.
Seus dedos se enroscam nas mangas do meu casaco e ele dá um puxão, me fazendo cair para frente.
Eu estava tão embasbacada com a sua reação que só me permitir ficar ali, no meio do corredor da sessão de congelados, com o carrinho de supermercado tapando a passagem, e Connor a centímetros de mim.
—Ouça bem o que eu vou dizer. -Ele fala lentamente com os dentes trincados. Os olhos em chamas. -Você não é gorda.
—Connor não seja ridículo e-eu…
Me calo ao vê-lo abanar a cabeça rapidamente irado.
—E mesmo que fosse, não importaria.
—Importaria para mim. -Retruco indignada.
—Por causa dos outros. -Ele pontua com um enorme V entre as sobrancelhas.
Me desfaço dos seus dedos; irritada.
—Oh, por favor, não seja hipócrita. Eu tenho certeza de que se você tivesse alguém o chamado de almôndega e bolota por aí, também não gostaria. -O fulmino com o olhar, cruzando os braços.
—É óbvio que eu não gostaria. Mas, não deixaria que me afetassem.
—Fácil falar!-Debocho.
Connor inspira profundamente antes de falar.
—Não dê tanta poder as palavras, Hailey. Não deixe que elas a machuquem mais do que já a machucaram.
—Acontece que elas machucam, Connor. Mais do que você imagina. -Solto uma respiração trêmula e desvio o olhar. -Vamos antes que a gente congele nesse corredor.
Nós terminamos de fazer as compras em um silêncio tenso. Connor, graças aos céus, não volta a falar. Parece distante e frio. O que era ótimo. Ao menos não teria que lidar com a sua parte que adorava bancar o psicólogo comigo. Por outro lado, eu odiava aquele silêncio tenso.
Solto um suspiro de alívio quando estamos no estacionamento. A brisa fria se mistura com a minha respiração e a minha garganta seca rapidamente. Mas, era melhor do que estar na atmosfera constrangedora do supermercado.
Connor arrastava o carrinho lentamente, se inclinado sobre ele, voltando a fazer aquela coisa do skate.
—Daqui a pouco seus olhos vão sair das órbitas se continuar os revirando desse jeito. -Ele comenta divertido, parando o carrinho. Arqueio uma sobrancelha quando ele o empurra na minha direção. -Quer uma carona até o carro?
—Não. -Nego rapidamente.
—O carro está bem longe. -Ele assinala, correndo o olhar pelo estacionamento. -Quase parece uma bactéria daqui.
Reviro os olhos sem consegui me conter.
—Está com medo?-Ele estreita o olhar.
—Passa o carrinho.
Ele rir com vontade e da um passo atrás.
Minha respiração engatada e eu coloco hesitante os pés em cima das rodinhas. O carrinho oscila perigosamente e um grito afogado salta da minha garganta.
—Precisa se inclinar para frente para equilibrar os pesos. -Connor sussurra no meu ouvido quando passo os braços ao meu redor para manter o carrinho equilibrado.
—Eu sei. -Mumuro irritada. Dou uma leve cotovelada em seu estômago. -Chega pra lá. Não consigo pensar com essa sua respiração de rinoceronte no meu ouvido.
Ele me ignora e aperta ainda mais os braços ao meu redor.
—Está preparada?
Estava prestes a virar para ele e perguntar para o que, quando Connor o empurra fortemente. Me agarro com força ao metal frio, enquanto ele impulsiona cada vez mais rápido. Estava prestes a gritar para que parasse, mas um pequeno pedaço de neve cai sobre a minha bochecha, e logo uma brisa fria acaricia os meus cabelos e a minha face, e uma sensação deliciosa de liberdade me domina.
—Abra os braços, Rosie. -Connor sussurra ofegante no meu ouvido por causa do esforço.
Riu e abro os braços.
Eu sei que para os outros parecíamos terrivelmente patéticos. Imitando os piores dos clichês como Titanic. Porém, naquele momento, com o vento rugindo nos meus ouvidos, o carrinho praticamente voando sobre os cascalhos, e Connor rindo ruidosamente no meu ouvido, eu só conseguia pensar no quão bom era ser livre.
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