Palavras Mudas

2 Capítulo 2


A semana passou bem rápido para minha amiga Celeste. Ela viajaria na próxima semana para Roma, presente dado por seu pai, pelo seu aniversário de 15 anos. Ela ficaria 1 semana lá e depois iria para Paris, Londres e Portugal. A Dani também estava arrumando suas malas. Ela, porém, não iria para tão longe como Celeste. Seu destino era Belo Horizonte. Ela iria com o irmão e sua mais nova cunhada, a Marilda, com quem se dava muito bem. Quem não concordou muito foi o Josh, que era namorado dela. Ele que não se preocupasse, era mais perigoso ele sozinho nesta cidade do que ela em BH.

Ao contrário delas, eu ficaria em casa. Trancada na torre mais alta e vigiada por meu "carcereiro" , ops, meu irmãozinho. Aquelas férias seriam entediantes. Eu precisava comprar alguns livros para fugir desta realidade. Pelo menos Boris me faria companhia. Ele era um gato fiel. Lembro quando o vi pela primeira vez, quando meus pais ainda dividiam o mesmo teto. Meu pai me dera ele com intuito de que ele acabasse com os ratos da casa. Como Boris ao invés de "jantar" os ratos, brincava com eles, meu pai quis doá-lo. Não deixei. Ele era a única "pessoa" da casa que me entendia.

Era sexta-feira. Quando cheguei em casa não acreditei. Férias. Entrei em casa como um jato, peguei uma maçã na cozinha e fui para o meu quarto. Tomei longo e relaxante banho enquanto Boris rosnava no lado de fora do banheiro, provavelmente querendo algum carinho. Fiz uma simples combinação de roupa: short jeans, batinha laranja e uma sapatilha bege. Peguei minha bolsa, dei um beijo no Boris e fui em direção à porta.

— América, onde está indo?

— Ah, oi mãe. Para o shopping. Quero comprar uns livros novos e ...

Ela estendeu um cartão de crédito.

— Não vá comprar a livraria toda ein! E não se esqueça de que quando voltar, você levará o gato para tomar um banho.

Sacudi a cabeça e saí. Por que ela nunca chamava o Boris pelo nome? Vai entender...

Andava pela rua. Os ventos estavam brincando com meu cabelo assim como minha mente brincava com minhas lembranças. A rua estava movimentada e várias pessoas passavam apressadas e cansadas, provavelmente querendo chegar em suas casas. Sentei no ponto de ônibus e comecei a lembrar do e-mail que eu tinha mandado paraele.

Caro Aspen,

Você desobedeceu minha ordem. Você me escreveu um e-mail. Você me lembrou da sua existência. Creio eu que não temos nenhum assunto para tratarmos. Você sabe o que aconteceu. Eu sei o que aconteceu. Nós não devemos mais nos falar e muito menos nos vermos. Eu não quero te ver nunca mais Aspen, não quero mais olhar dentro dos seus olhos e lembrar do que vivemos.

No seu e-mail você disse: "Eu mudei América, acredite, eu mudei." Mudou? Mudou o quê? Eu não quero ver suas mudanças, porque você não é mais aquele que eu amava. Eu queria meu antigo Aspen, mas ele não existe mais. Nenhuma mudança apagará seu passado mentiroso. Nenhuma mudança apagará minhas lágrimas e nem seus erros. Nada fará com que tudo volte a ser como era. Você é alguém que não conheço mais e eu mudei também. Não sou a velha e idiota América Singer, que se preocupava quando você ficava dois ou três dias sem falar comigo.

Neste momento quero apenas ser feliz. E você não é a pessoa adequada para fazer isso.

Até nunca mais,

América.

Dentro do ônibus uma lágrima teimosa insistiu em percorrer o caminho de meu rosto. Limpei-a depressa e não deixei que outras viessem também. Eu nunca mais queria ver Aspen. Ele me machucara o suficiente e o que eu mais queria era que ele desaparecesse e seguisse sua vida longe de mim. Respirei fundo e tirei aqueles pensamentos de minha mente pensante. Comecei a tirar fotos do pôr-do-sol. Eu amava fotografias, porque nelas tristeza alguma se transparecia.

Entrei no shopping. Caminhei vagarosamente até a livraria. Eu sentia uma mistura de pudor e liberdade, eu tinha controle do meu próprio ser. Nada era melhor do que andar com os próprios pés, ser dona de seu próprio eu. Eu olhava para dentro das lojas em liquidação e mulheres disputavam por peças de roupas e faziam dos cabides suas espadas. Sapatos com 75% de desconto e calcinhas de algodão pela metade do preço. As lojas transbordavam assim como o sorriso das gerentes que do lado de fora acompanhavam o movimento. Olhei para o chão envergonhada da própria sociedade em que vivia.

Ao entrar na livraria minha verdadeira "liquidação" começou. Desculpe mamãe, mas espero que seu cartão tenha bastante saldo, pensei eu. Durante horas eu observava cada um dos livros que continham naquele lugar. Por fim saí com quatro na mão. Aproveitei e peguei a segunda temporada de Barrados no Baile, um seriado antigo que eu e minha mãe adorávamos. Fui em direção a fila, que por sinal estava enorme. Estava entretida com a capa vermelha fosca de meu livro.

— Nossa! Uma menina com livros na mão! Uau!

-Ah, é... — balbuciei tolas palavras. Diante de mim estava um garoto. Não um garoto qualquer. Mas um garoto com dois livros na mão. E ele era atraente.

— Quantos anos você tem?

— Ah, 17.

-Eu também. Desculpe perguntar, mas eu quase nunca vejo garotas em livrarias e — ele então sussurrou — como você pode ver 98% da fila é formada por velhos, então você é uma raridade!

Comecei a rir. E ele também. Uma senhora que estava atrás de mim fez uma cara feia olhando para nós, creio que ela também ouviu. Era a vez dele de pagar.

— Com licença senhorita.

Fiquei observando-o. Ele era gentil com a moça do caixa assim como tinha sido comigo. Olhei melhor para ele e percebi que ele era realmente bonito. Tinha olhos pretos e profundos, cabelos cor de mel e um sorriso que deixava qualquer garota desconcertada. Ele não tinha covinhas, mas ...

— Ei menina! Já é a sua vez!

A senhora que estava logo atrás de mim, ainda com sua cara de brava, me cutucou. Dei um sorriso tímido e fui. Por sorte o limite do cartão da minha mãe era alto e não tive problemas maiores no caixa. Quando terminei de pagar olhei para os lados, procurando-o. Ele não estava em lugar nenhum. Era bom demais para ser verdade não é?! Ele só era alguém gentil, conversando com uma solitária leitora. Resolvi então ir ao Bob's. Somente um ovomaltine curaria minha tristeza. Quando estava saindo da livraria...

— Achou mesmo que eu tinha ido embora? Você não se livrará tão fácil de mim não.

— Achei que você tinha ido embora sim...

-Qual é nosso próximo destino?

-Ah...- fiquei meio atordoada com a palavra nosso — Bob's. Eu adoro ovomaltine.

— Ei, você é vidente ou o quê? Eu também adoro e ...

Foi quando o vi. Ele estava parado em frente a uma loja de calçados nos observando. Tinha uma sacola em sua mão, mas eu não pude identificar de qual loja era. Ele vestia uma calça jeans e uma camiseta verde água. Ele estava estranhamente lindo. Seu cabelo tinha crescido um pouco, mas eu o reconheceria de qualquer modo. Aspen nos encarava de longe e sua expressão facial não demonstrava felicidade. Para minha sorte o ... qual era o nome dele mesmo?

— Nossa! Eu não me apresentei! Sou América.

— Que indelicadeza a minha! Sou Maxon e é um prazer conhecer a senhorita. — ele então beijou minha mão olhando dentro de meus olhos e eu sorri como uma boba desengonçada.

Olhei para o lado e não vi Aspen. Ele havia desaparecido assim como o sorriso de meu rosto. Continuei a caminhar ao lado de Maxon e me veio um pensamento novo. Eu teria problemas. Mas eu abriria a porta para minha felicidade, independente de que batalhas eu precisasse enfrentar. E então ele segurou minha mão e nós fomos.