Palavras Mudas

3 Capítulo 3


Era uma quinta-feira chuvosa. Eu tinha terminado o livro A culpa é das estrelas. No dia seguinte começariam minhas aulas novamente. As férias tinham passado mais rápido que eu havia imaginado. Depois de conhecer Maxon tudo passou tão depressa que nem pude notar que as férias haviam chegado ao fim.


Maxon assim como eu gostava de livros, não só gostava, ele amava qualquer tipo de literatura. Ele tinha acabado de se mudar para cá vindo direto de São Paulo. Vivia com sua avó e após a ida dela para Nova York ele veio morar com o pai que trabalhava aqui. Descobri que ele tem uma irmã por parte de mãe que morava em Santa Catarina e era lá que ele costumava passar as férias de Julho. Sua mãe morava em Nova York também, por isso a avó tinha ido para lá, já que ela ia se casar. Ele não estava satisfeito com a mudança repentina, mas de acordo com os juízes que decidiam a guarda dele era melhor que ficasse com o pai.


O telefone tocou.


-Alô? — eu disse com voz de choro, aquele livro é muito emocionante para não se derramar uma lágrima sequer e eu tinha derramado quase um litro de tristeza em forma de gotículas.
-América? Que voz é essa?
-Oi Maxon... acabei de ler A culpa é das estrelas.
-Compreendo. E agora o que está fazendo de bom?
— Além de olhar para a janela e pensar que amanhã tenho aula...nada!
— Haha. Você não está animada mesmo?
— Nenhum pouco. Amanhã tem aula do Peixoto! — lembrei do professor chato e fiz uma careta.
— Estou super animado. Quero conhecer minha nova escola e fazer novos amigos!
— Eu só espero que você não se esqueça da amiga chorona aqui.
— Até parece não é senhorita América Singer...
— Aham.
— Vou desligar, acabei de lembrar que tenho um compromisso com alguém especial.
— Ah... — quem seria? Será que ele tinha arranjado alguma namoradinha?
— Então... Tchau Meri !
— Tchau Max...


Decidi tomar um banho para poder relaxar. Minha mãe estava trabalhando e meu irmão estava na casa do Rodolfo, um menino do nosso prédio. Coloquei meu pijama de frio e umas meias. Fiz uma pipoca na cozinha e fui ver algum filme repetido que sempre passa na Sessão da Tarde.


Toc toc toc. Era meu irmão e eu estava pronta para dar um cascudo nele... sempre esquecendo a chave. Quando abri a porta em vez de um cascudo, dei um sorriso.


-Ei Meri, já vai dormir? Isso tudo é tristeza por causa do professor chato de matemática? Calma, eu trouxe morango com chocolate para salvar a noite!
Eu comecei a rir. Eu nem estava com sono, era só frio. Como ele estava bonito... Com uma blusa comprida preta e uma calça clara.
— Entra Max!


Ele colocou uma sacola em cima da mesa da cozinha. De dentro dela ele tirou uma caixa cheia de morangos cobertos de chocolate. Abri o armário da cozinha e peguei uma vasilha para colocar os morangos.


— Então sr. Maxon, quem era a pessoa especial que você estava indo visitar?
— Sabe, não faço a mínima ideia. O taxista errou o caminho e me deixou aqui. Como não tinha dinheiro para ir para outro lugar decidi ficar.
— Bobo — falei dando um leve empurrão nele — achei que tinha arranjado uma namorada e não queria me contar! — ao terminar de dizer isso meu rosto ficou vermelho.
— Namorada? Bem que eu queria... Quando eu arranjar uma você será a primeira a saber disso. Ouviu, senhorita América Singer ?!
— Eu vou ter que fazer uma entrevista com ela antes, para ver se ela é suficientemente boa para você — falei isso enfiando um morango na boca e me dirigindo até a sala.
— Tenho certeza de que isso não será necessário. Ah e não coma tudo isso sozinha! — e pegou um morango.
— Por que não será necessário?
— Sei que você se conhece muito bem. Imagine você se entrevistando, seria um monólogo estranho.
Eu fiquei olhando para o chão. Ele queria que eu fosse namorada dele.
— Ei, eu não disse isso para que você ficasse com vergonha.
— Tudo bem.


Depois disso um silêncio constrangedor tomou conta da sala. Olhei para a tela da televisão e estava passando ABC do amor, um dos meus filmes preferidos. Olhei para Maxon que estava muito entretido com o filme, fazendo carinho no Boris. E então eu me lembrei do livro As vantagens de ser invisível. Eu me sentia infinito ali. Me encostei no sofá desejando que aquele sentimento não fugisse nunca mais no meu peito.

Depois que minha mãe chegou, Maxon decidiu ir embora. Entrei no elevador com ele.
— Muito obrigada por ter vindo e trazido os morangos. Obrigada mesmo.
— Não precisa agradecer. — disse ele segurando minha mão e me puxando.
Nós ficamos abraçados até o elevador chegar no térreo.
— Desculpa se eu disse algo errado. Sei que somos apenas amigos.
— Você não disse nada errado. — dei um sorriso e um beijo na bochecha dele.
O resto da noite foi entediante. Meu lindo irmão ficou cantando no meu ouvido uma musiquinha chata "Com quem será que a América vai casar... vai depender se o Maxon vai querer". Me tranquei no quarto e decidi arrumar minha mochila. Como a que eu estava usando rasgou tive que pegar a que usava ano passado. Quando abri vi um bilhetinho amassado. Eu tenho um grade defeito, sou muito curiosa. Eu devia parar de ser bisbilhoteira.

Meri-boba,
Você achou mesmo que eu era sua amiga? Que idiota!
O Aspen agora tem dona... O colégio todo sabe do que
aconteceu e sua fama de "corna" já corre solta pelas
paredes do colégio. E as pessoas dizem: "Nossa! Como
a Kátia pôde fazer isso com a melhor amiga? Como
Aspen pôde fazer isso com a melhor amiga da namo-
da dele?" , quando ouço isso quase caio de tanto rir!
Nunca fui sua amiga. Eu só queria roubar seu namo-
rado, que na verdade nunca foi seu! Fique longe do
Aspen, ou você terá sérios problemas.
Kátia.

Como simples palavras podem estragar uma noite? Joguei aquilo no lixo sentindo meu rosto queimar de raiva. Dei boa-noite para minha mãe e fui dormir.
Deitada na cama as palavras da traidora ressoavam em minha mente: Eu só queria roubar seu namorado, que na verdade nunca foi seu. Quando dei por mim, estava chorando. A dor do passado voltara a me atormentar. Repentinamente me lembrei do e-mail de Aspen e de quando o vi no shopping. Senti que minha dor começava a me sufocar. Olhei para o relógio. Três da manhã. Peguei o celular e disquei o mais rápido que pude para a única pessoa que poderia me acalmar.
-Alô? Meri? O que aconteceu? Por que está chorando?
-Eu só queria ouvir sua voz — eu disse em meio aos soluços.
-Faz o seguinte, pega o seu celular e ouve a música que te passei hoje ok? Sei que você ainda não ouviu. Depois de ouvi-la você vai parar de chorar, ta bom querida? E vai voltar a dormir igual um anjinho.
Eu o agradeci e fiz o que ele pediu. A música se chamava Eu te amo você. E comecei a ouvir a música baixinho na escuridão do meu quarto.


"Acho que eu não sei não, eu não queria dizer, tô perdendo a razão quando a gente se vê"


Será que ele queria me dizer alguma coisa com aquela música?


"Mas tudo é tão difícil que era mais fácil tentarmos esquecer e virar mais uma ilusão nessa madrugada/ Eu te amo você já não dá pra esconder essa paixão..."


Coloquei meu fone de ouvido e apertei a tecla repetir música atual e assim adormeci ao som de Marina Lima. Logo pela manhã, quando fui ao banheiro, vi o desastre. Olheiras imensas no meu rosto. Passei depressa o corretivo de minha mãe e vi minha expressão facial melhor. Agradeci mentalmente àquele que criou a maquiagem. Vesti o uniforme, peguei minha mochila e uma maçã. No caminho, minha mãe disse:


— América, você e seu irmão tem que parar com essa discussão eterna!
-Mãe! — disse o Charlie, resmungando.


Não tive como não rir. Até ele não queria voltar para a escola. Entrei toda feliz, afinal eu veria Maxon e agradeceria por tudo. Além disso eu tomaria coragem e perguntaria da música. Apesar de tudo eu gostava daquela escola. Era como se fosse um quartel de soldados, mas um quartel que fosse um tanto legal.


Entrei na sala. O sorriso que estava no meu rosto desapareceu. Aspen estava sentado no meio da sala olhando em minha direção. Abaixei o olhar e tentei encontrar um lugar para me sentar. E foi quando o vi. E mais uma vez meu sorriso desapareceu. Ao lado de Maxon estava Kátia. Ela dizia algo que o fazia sorrir. É, eu devia saber. O destino, os deuses do Olimpo ou sei lá o quê, tinham algo contra mim.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.