Paladin
39 CAPÍTULO 39: Castelo Sombrio
O grupo avançava lentamente pelas portas imponentes do castelo, o som abafado de seus passos ecoando nas paredes desmoronadas ao redor. Logo ao entrar, a visão era desoladora. O que antes fora um grande castelo agora não passava de uma sombra do que havia sido.
Paredes que outrora delimitavam quartos e salões haviam desaparecido completamente, substituídas por montes de escombros e pedras quebradas. O ar carregava o cheiro de poeira e umidade, e o teto acima estava em ruínas, permitindo que pequenos raios de luz entrassem pelas fendas, iluminando fragmentos flutuantes de pó.
— Não consigo acreditar que isso já foi um castelo... — disse Seraphine, sua voz baixa enquanto passava a mão por uma coluna partida.
Os corredores, antes majestosos, agora eram apenas corredores de destruição. Trepadeiras e vegetação invadiam as pedras quebradas, e o vento soprava fraco pelas aberturas, emitindo um som quase fantasmagórico.
— Parece que algo destruiu esse lugar de dentro para fora. — disse John, observando os destroços. — Como se uma explosão tivesse estourado aqui, no coração do castelo.
No centro daquele caos, apenas uma coisa permanecia intacta: uma escadaria no canto direito do hall principal que levava ao segundo andar. As pedras da escada pareciam intocadas pelo tempo e pela destruição ao redor, como se uma força invisível as protegesse.
— Bom, partiu olhar o segundo andar. — disse Raziel, seu tom firme e olhos fixos na escada à frente.
Cada degrau que subiam parecia ecoar pelo que restava do castelo, e a tensão no ar aumentava a cada passo. No topo, encontraram o que procuravam: uma porta massiva, feita de madeira antiga e pesada, que já fora ricamente adornada, mas que agora exibia marcas de garras e rachaduras profundas. Ela estava entreaberta, uma visão ao mesmo tempo reconfortante e ameaçadora.
— De todos os lugares aqui dentro, acredito que ali seria o lugar mais de boa para ficar. — disse Gabrielle, inclinando-se ligeiramente para examinar a porta. — Mas por que está aberta?
Ninguém respondeu, mas todos sabiam que algo estava errado. A porta estava aberta demais, como se estivesse esperando por eles.
— Fiquem alertas! — disse Alexa, suas mãos já envoltas por uma leve aura mágica, pronta para o que viesse.
Ao cruzarem o limiar da porta, o ambiente mudou. O salão era vasto, ainda maior do que haviam imaginado. Porém, para seu espanto, o trono vazio estava bem à frente, sem qualquer sinal do Rei Goblin ou de qualquer criatura à espreita. O silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo som ocasional de pedras caindo das fendas no teto.
— Algo não está certo. — disse Fernando, estreitando os olhos ao observar as sombras que se moviam nas paredes. — Onde está o maldito Rei?
— Também não gosto disso. — respondeu Ana, os olhos varrendo o salão de uma ponta à outra.
O chão de pedra estava desgastado, marcado por anos de batalhas e ocupação, mas o que mais chamava a atenção era a ausência total de vida. O salão parecia abandonado há muito tempo, de repente, um estrondo ecoou pela sala. A grande porta de madeira atrás deles se fechou com um barulho ensurdecedor. Todos se viraram imediatamente, as armas prontas, mas não havia nenhum inimigo visível. A única coisa que os encarava era a escuridão além da porta fechada.
— Mas que merda foi essa? — perguntou John, sua mão apertando firmemente o machado.
Foi então que o som de uma risada baixa e sombria encheu o salão, vinda das sombras. Uma figura emergiu da escuridão perto da porta fechada. O instrutor, o homem que havia passado as instruções quando cruzaram o portal, estava ali, com um sorriso macabro no rosto.
— Ora, ora, ora... Finalmente chegaram. — disse, batendo palmas levemente, seus olhos brilhando com uma malícia que nunca antes haviam visto. — Exatamente onde eu queria que estivessem.
— O que diabos está acontecendo aqui? — perguntou Raziel, segurou sua espada firme nas mãos.
— Eu me pergunto quanto tempo levaria para vocês perceberem. — disse o instrutor, ignorando a pergunta. Deu alguns passos à frente, observando o grupo com uma satisfação doentia. — Tantos aventureiros talentosos, tantos núcleos de mana poderosos... Todos reunidos no mesmo lugar. Vocês são perfeitos.
— Perfeitos para o quê? — perguntou Alexa, seus olhos semicerrados, ajustando a postura para um possível combate.
— Para o sacrifício, é claro. — O sorriso do instrutor alargou-se, seus dentes brancos contrastando com a escuridão ao redor. — Um presente perfeito para um dos Lordes Demoníacos. A Ordem da Rosa Negra ficará mais que satisfeita.
Raziel deu um passo à frente, confuso, mas pronto para enfrentar o traidor. Lembrou-se de ter lido em alguns livros sobre humanos que faziam pactos com demônios em troca de poder e imortalidade. Existiam vários grupos assim escondidos, mas hoje em dia eram considerados apenas teorias da conspiração.
— Você está trabalhando com os demônios?
O instrutor riu novamente, um som gélido que encheu o salão.
— Ah, Raziel... Ser humano é exatamente o problema, não acha? — respondeu, seus olhos fixos no paladin. — Os humanos são fracos, limitados. Mas os demônios... Ah, os demônios oferecem algo que nenhum humano jamais poderia, a eternidade. Poder além da imaginação. E eu... Eu quero mais do que essa existência miserável e curta.
— Vender sua alma por poder? — indagou Alexa, incrédula, dando um passo à frente, suas mãos já envoltas em magia. — Isso é loucura.
— Loucura? — O instrutor abraçou seu corpo, como se abraçasse a própria ideia. — Loucura é viver como um humano, limitado pelo tempo, pela mortalidade. Eu quero a vida eterna, e os demônios podem me dar isso. Eles já me deram poder suficiente para superar qualquer um de vocês!
O grupo o encarava com olhos arregalados, incapazes de compreender completamente a traição que estavam presenciando.
— Vocês podem ficar tranquilos, — continuou ele, com um sorriso frio e cruel. — A Ordem da Rosa Negra cuidará muito bem dos seus núcleos de mana. Vão ser utilizados para invocar algo muito maior, algo que nenhum de vocês seria capaz de compreender.
— Isso é traição! — gritou John, sua voz carregada de raiva.
— Traição? — O instrutor ergueu as mãos, e uma leve brisa mágica começou a percorrer o salão. — Vou dar uma dica pra vocês. A única maneira de sobreviver a esta sala é conseguindo me parar ou alcançando o portal e quebrando o selo mágico que o mantém trancado. Mas aviso... Não será fácil.
O silêncio se instalou por um momento. O grupo sabia que estava diante de um inimigo formidável, alguém que conhecia suas fraquezas e forças.
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