Kasumi

Eu não esperava nada disso. E não me refiro ao beijo que Renan me dera somente, mas a toda a situação. Eu queria me manter calma, mas as coisas foram saindo do controle e só de ter falado a respeito daquilo me deixou abalada. Isso porque eu não contei tudo a ele, tem algo em particular que fez com que eu me separasse sem chance de volta.

Naquele momento, minhas emoções estavam fora de controle, mas quando Renan me beijou, o que creio não ter sido intencional, era como se tudo tivesse parado. As minhas preocupações com as ações de Felipe, a canalhice e mentiras do Glauco, os rumores que eram espalhados a meu respeito, as ofensas que sempre ouço a respeito de meus cosplays... Nada existia.

Posso dizer também que a sensação era diferente, comparado com minhas relações passadas, tanto com o Felipe, quanto com meus namoricos de adolescente. Por isso, e talvez por isso, eu não tenha impedido o Renan de fazer o que fez... Ou talvez eu não quisesse impedí–lo. Mas isso seria absurdo, eu o conheço tem duas semanas, eu não estaria... Ou estaria?

O fato é que ainda que o beijo não tenha durado muito, ele foi intenso... E proveitoso. Quando nos separamos, é como se um band–aid tivesse sido arrancado de mim a força. E a expressão de Renan é um pouco amedrontada, e considerando o que eu disse antes dele me beijar, eu até entendo. Na verdade parece que ele espera que eu lhe dê um tapa na cara.

—O–olha... – Ele gagueja, absolutamente vermelho. – M–me desculpe por isso... M–mas foi m–mais f–forte do que eu...

Eu não sabia mais o que queria, se queria continuar ali, se queria continuar conversando como se nada tivesse acontecido, se queria ir embora ou se queria beijá–lo novamente.

—K–Kasumi? – Renan pergunta, com minha falta de resposta. – Professora Kasumi?

—Já falei pra não me chamar de professora fora da escola? – Reclamo, apesar de um pouco agradecida. – Agora, falando sério... Por quê fez isso?

Renan

Posso dizer que eu estou agradecido por Kasumi não ter me dado um tapa, me socado, ou ter feito como os super–heróis do Japão, me acertar com uma espada e fazer sair faíscas de mim.

E por fim, ela perguntara o por quê de eu ter feito isso. Não sei se eu deveria me confessar, mas creio que já era a hora de fazer isso.

—Eu não sei... – Respondo, pensativo, me apoiando no guarda corpo, enquanto observo tudo ao longe. Talvez se eu não a olhasse nos olhos, fosse mais fácil de falar. – Mas desde que eu a conheci, mesmo fazendo duas semanas apenas, eu não consigo parar de pensar em você... E não é só porque você é muito linda, como aquele grupelho anda falando, mas a sua inocência, a sua personalidade gentil, a maneira como você não desistiu de me tornar um cara sociável...

"Eu posso não conhecer muita coisa sua, não sei como foi a sua infância, nem que namorados teve... E ainda assim, a cada momento que estamos juntos, meu coração bate enlouquecidamente... Eu preciso me controlar pra não falar besteira na sua frente, e estou querendo me tornar alguém melhor. Então... É repentino, eu sei... Mas estou apaixonado por você, Kasumi."

A minha vontade, é de correr, me jogar, fugir daqui. Eu não quero ver a reação dela, tenho medo dela me rejeitar, apesar de ser esperado.

—Renan... Olha pra mim. – Kasumi pede, e eu me viro pra ela. – Eu queria dizer que você pode estar confundindo os sentimentos, mas a verdade é que nem eu sei... Então... Se não for pedir muito da sua parte... Você pode me dar um tempo? – Minha expressão começa a ficar triste. – Não me refiro a nossa amizade. É só que... Isso tudo é repentino pra mim também. E não quero que isso que a gente criou seja abalado por algo ainda não definido. Só me dê um tempo, tá?

—... – Respiro fundo, sorrindo feito um maníaco por dentro. Isso significava que eu tinha chances, eu seria capaz de sair daqui agora cantando e dançando "Singing in the Rain", ou queimar a ponte de Londres cantando "London Bridge is Falling Down". – Tudo bem... Agora, poderíamos voltar a nossa programação normal?

—Se assim você quiser... – Ela sorri, e voltamos a curtir a tarde, como se não tivesse acontecido nada. Ok, talvez o tom de voz da gente fosse um pouco mais polido que antes, mas fora isso, nada.

Tiramos algumas fotos, tanto juntos quanto separados, ela tirando fotos minhas e eu dela. E duas horas depois, voltamos pra casa, eu estava tremendamente satisfeito. Dera meu primeiro beijo e sinceramente, pode até ser interpretação minha, mas eu tinha chances reais.

Em casa, quando chego, animado, meu pai está assistindo televisão. Apesar disso, ele reparou no meu bom humor.

—Você parece que está de bom humor... Onde esteve, Renan? – Ele me pergunta. Meu pai era um cara bem rígido. Não por acaso eu trocara bastante de colégio.

—Fui visitar o Pão de Açúcar. – Respondo, casualmente. – Estava visitando ele com uma amiga.

—Amiga? – Ele coça a cabeça. – Você não é de ter amigos... Ou mesmo amigas.

—Tem sempre uma hora pra começar, não?

—Bem, se essa amiga conseguiu te deixar de bom humor, deve ser uma boa pessoa. Ela é como nós?

Não respondo, enquanto vou pro meu quarto. Bem, meu pai tentara durante anos me apresentar filhas dos sócios dele, mas todas elas tinham uma característica em comum, além do fato de não terem nada em comum comigo: Todas eram da mesma cor de pele que eu. Não que eu tivesse problema com ia cor de pele, mas o meu pai por muitas vezes se mostrou um sujeito bem intolerante. Só imagino o chilique que ele daria, se soubesse que estou apaixonado por uma asiática.

Kasumi

"Eu posso não conhecer muita coisa sua, não sei como foi a sua infância, nem que namorados teve... E ainda assim, a cada momento que estamos juntos, meu coração bate enlouquecidamente... Eu preciso me controlar pra não falar besteira na sua frente, e estou querendo me tornar alguém melhor. Então... É repentino, eu sei... Mas estou apaixonado por você, Kasumi."

Essas palavras ditas pelo Renan me deixaram mais abalada do que deixei transparecer. Eu pensava numa coisa, enquanto tomava banho horas depois. Onde foi parar a força daquela menina que terminou a relação com o namorado por causa da escrotidão dele, e que tempos depois deixou finalmente a casa dos pais pra trabalhar em outro estado?

Aquele beijo que ele me deu... Por quê eu não evitei? Por quê não parei? O Renan não tinha absolutamente nada de especial, ele era um jovem regular como todos os outros... Ok, um jovem regular sem amigos, mas no geral como outro garoto qualquer.

Mas, quando penso no quão gentil ele foi comigo, o quanto ele considerou meus sentimentos, na hora de se desculpar pelo beijo, e comparo com o que o Felipe fizera... Aquele dia não saia da minha cabeça.

Outubro de 2016, São Paulo

Eu havia terminado com o Felipe faziam dois meses, ele insistia para que voltássemos, falando que iria mudar, que seria diferente, que ele me amava de verdade. Eu não acreditei em nada, pois era a mesma ladainha que ele usava quando brigávamos em nossa relação.

Na última semana, ele mudou o discurso, ao invés da baboseira de mudar, paz e amor, ele disse que eu me arrependeria profundamente se não voltasse com ele. Claro, eu não acreditei. Foi um erro, que descobri tarde demais, naquele sábado.

Eu voltava do Shopping, onde tinha ido comprar alguns livros relativos a disciplina que iria começar a lecionar no ano seguinte, além das coisas para a festa de Dia das Crianças dada pela minha família, onde ajudávamos as crianças carentes da cidade, e o que encontrei em casa... Bem, eu definitivamente me arrependi, não por ele... Mas por causa do que aquele canalha fizera.

Tempo Presente

A diferença entre os dois era gritante. E, não sei se isso poderia contar como uma vantagem, mas Renan era um garoto bastante ingênuo, ao menos se considerar que ele tem dezoito anos, apesar de talvez, ingenuidade não seja a palavra exata. Inexperiente combina mais, mas sinceramente não interessa.

O que ao mesmo tempo me incomoda e me deixa um pouco contente, é o fato de eu dedicar muito tempo a esse pensamento, é melhor eu deixar isso de lado por enquanto e focar na porcaria do meu trabalho. Tem muito material pra preparar em relação as próximas semanas, testes e trabalhos a se criar e aplicar. Considerando os dois turnos e as três séries, isso vai levar um longo tempo.

A semana seguinte passa rapidamente, os poucos momentos que tenho pra conversar com o Renan, acontecem quando nos encontramos no ponto de ônibus indo pra escola, onde conversamos algumas coisas banais e nos momentos que o observo na escola, ele está se esforçando mais, tanto nas aulas, quanto pra socializar com os colegas.

Isso me deixa feliz, considerando o quão entediado ele parecia, mostra que aos poucos ele está querendo se tornar uma pessoa melhor. E o fato de ele estar fazendo isso por minha causa, não vou negar que mexe MUITO comigo.

Você pode achar isso meio ingênuo, pequeno ou até idiota... Eu acharia, mas bem... A verdade é que vez ou outra acabo pensando no beijo que tivemos e uma sensação quente invade meu coração. Será que eu estaria realmente gostando dele com pouco tempo de amizade?

Renan

A semana após aquele beijo no pão de açúcar passou de maneira extremamente lenta, embora as conversas triviais que tive com Kasumi no ônibus passassem rápidas demais. Por outro lado, eu realmente tinha jeito pra esse negócio de socializar, já estava conversando com os outros alunos e participando de algumas atividades.

Pra ser sincero, o negócio não era tão ruim, apesar das pessoas não serem tão interessantes de se conhecer, ao menos não como a Kasumi. E, graças ao Juan, eu pude voltar ao grupo de "admiradores", no qual o professor Glauco, liberou o suposto vídeo da Kasumi. E eu o assisti.

Claro, eu já sabia que não era ela, mas eu queria ver qual era a lorota que ele colocaria no grupo. E estranhamente o vídeo era familiar, porque bem... Eu era familiarizado com o material de certos sites adultos... Sem contar que a voz da mulher não era nem um pouco parecida com a dela.

No sábado seguinte, estou em frente ao computador montando um certo dossiê pra publicar na internet, em específico desmentindo as montagens difamatórias de Glauco, concluindo com o vídeo. Sim, eu não tinha mais o que fazer, e queria fazer isso pela Kasumi, ela não merece que esse escroto ficasse difamando ela. Claro, eu não assinaria com meu nome, pra evitar represálias, tem gente que não gosta de ser desmentida.

E quando termino tudo, continuo sentindo um vazio, não tenho mais o que fazer pelo resto do fim de semana. Então, faço a única coisa lógica. Pego meu telefone e ligo pra Kasumi.

Um toque. Dois toques. Um clique.

—Alô, Renan? – Ela reconhecera meu número. E sinceramente, eu poderia desligar naquele momento, porque só de ouvir a voz dela, eu já estava satisfeito. – Renan?

—Oi, Kasumi... Tudo bem? – Agora que ela atendera, eu percebi que realmente estava sem assunto.

—Estou sim... Por quê me ligou? – Kasumi pergunta, o tom de voz confuso.

—A verdade é que eu não sei... – Falo com honestidade. – Acho... Acho que eu só queria ouvir a sua voz.

—... – Silêncio no outro lado da linha. – Eu não sei se acho isso encantador, ou esquisito, Renan.

—Mas é verdade... E por favor, fique com o encantador. – Digo, apressado. – Não quero ficar com fama de perseguidor. Já deu trabalho conseguir colegas, não sei se eles vão falar comigo se descobrirem que sou um stalker...

—Já que você pediu com jeitinho... – Kasumi ri, inocentemente. Eu adoro essa risada dela. – O que você está fazendo?

—Aproveitei o fim de semana pra comprar algumas visual novels. – Conto, o que era verdade. Como eu estava pensando nela sem parar, decidi conhecer um pouco mais desse hobby dela. – Minha lista de downloads do Steam está enorme.

—É melhor sempre dar um tempo entre uma e outra. – Ela aconselha. – Ou você vai acabar enjoando do gênero com pouco tempo.

—Bem, você podia me dar umas dicas do que comprar pra preencher esses espaços. – Eu falo, pra continuar a conversa.

—Se é assim... – Kasumi fala, e tenho certeza de que se tivéssemos presencialmente, ela teria dado de ombros.

E a conversa continua por um bom tempo, com Kasumi me dando dicas de jogos que eu poderia comprar, entre índies e jogos grandes. Alguns não faziam a minha praia e outros eu já tinha, mas ainda assim é uma conversa que rende bastante. Tanto é que quando percebo, minha mãe está batendo na porta do quarto, já é quase hora do almoço.

—Caramba! – Digo, assustado. – Já é meio dia. Olha, eu vou indo. A gente se vê na segunda!

—Até segunda, beijo, Renan! – Kasumi desliga e meu coração para com a frase "Beijo, Renan".

Quando saio do meu quarto, minha mãe vem até mim.

—Você estava nesse telefone durante quase duas horas, estava falando com quem? – Ela pergunta curiosa.

—Era com uma amiga... – Respondo, de bom humor.

—Eu não costumo ver você com amigos... – O tom dela é pensativo. – Não desde... Enfim, você parece mais leve, feliz. Se eu não te conhecesse, diria que está apaixonado...

—Quem sabe eu não esteja... – Dou uma risada e minha mãe acompanha. Sei que ela não tem o problema que o meu pai tem, mas não sei se ela reagiria bem ao saber que estou apaixonado pela minha professora. Digo, se apaixonar pela professora é uma coisa que crianças fazem, mas ainda assim é paixonite inocente.

Alguns minutos depois, estamos almoçando, eu, minha mãe, meu pai, e Graça, a diarista. Tipo, a Graça já trabalha conosco há uns três anos e já é considerada de casa... Apesar da estranha decisão de mantê–la como diarista. Vai entender.

—Você tem andado diferente, Renan. – Meu pai comenta, entre uma garfada e outra. – Semana passada estava passeando com uma amiga no Pão de Açúcar, agora fica pendurado no telefone durante horas... Quem é você e o que fez com o meu filho?

—Eu passei a minha vida toda não ligando pra nada... – Respondo, rindo. – Estou no último ano, é hora de eu fazer memórias e finalmente pensar no meu futuro.

—Tudo bem, você definitivamente sequestrou o meu filho... – Ele suspira, resignado. – Você não vai nos dizer quem é essa amiga, não?

—Pra quê, pai? – Pergunto, lançando um olhar um pouco exasperado.

—Ah, você sabe... Saber se é uma boa pessoa. Não quero meu filho andando com uma qualquer.

—Ela é uma pessoa muito legal. – Falo, ainda entediado.

—Bom saber... E ela é dos nossos, porque sabe... – E agora, ele finalmente tocara no nervo.

—MAS DE NOVO COM ISSO? – Eu me levanto, furioso. – É só nisso que você pensa, quando vê alguém perto de mim? A porra da cor da pele?

—Renan, olha o respeito com o seu pai! – Minha mãe fala, num tom ameaçador.

—Sério, mãe? Quer saber, perdi a fome! Não esperem me ver hoje! – Saio tempestuosamente pela porta.

Enquanto desço as escadas de meu prédio penso... Só tem um lugar onde eu posso ir, até porque eu não tenho dinheiro e nem outras pessoas com quem contar. Tipo, meus avós e parentes moram bem longe do Rio e não tenho nem um tostão.

Felizmente, por coincidência do destino, Kasumi morava na mesma rua que eu, naquele momento, tudo o que eu precisava era de um lugar pra esfriar a cabeça. Porque não entra na minha cabeça, o fato do meu pai, um cara que sofreu preconceito por muito tempo até conseguir prosperar na vida, agir desse jeito.

Quando chego na portaria do prédio em que ela mora, me apresento pro porteiro e felizmente ele me reconhecera da vez em que eu ajudei a Kasumi a levar as compras, e ele chama ela pelo interfone.

—Seu Roberto? – Ouço a voz dela vinda do interfone.

—Aquele seu amigo que veio trazer as compras pra senhorita na semana passada tá aqui. – Ele responde, com uma polidez que não costumo associar a porteiros. – Posso deixar ele subir?

—Pode.. E seu Roberto, não precisa usar formalidade comigo só porque sou professora... – Pelo tom de voz dela, parecia estar sorrindo.

—Eu não consigo, senhorita Kasumi... É mais forte do que eu... – O tom dele é mais descontraído, apesar da linguagem ainda formal.

—Obrigado... – Agradeço ao porteiro, antes de entrar no elevador.

Quando chego na porta do apartamento dela, toco a campainha, sei que ela está esperando por mim, mas é melhor avisar que cheguei de maneira educada.

—Peraí, Renan! – Escuto a voz dela, que tem um tom apressado.

Mais ou menos um minuto depois, a porta abre e fico feliz que não tinha ninguém além de mim no corredor daquele andar, porque a visão que eu tive deixaria muitas carolinhas fulas da vida. Kasumi está com uma camisa preta da banda Fozzy, com a arte do álbum "Sin & Bones" (Pois é, eu decorei os nomes dos discos dela) e uma calcinha rosa com lacinhos. Eu provavelmente ficaria parado ali tentando lembrar meu nome, só que ela me puxou pra dentro e fechou a porta.

Na sala dela, o Notebook está aberto ao lado de uma tigela com macarrão instantâneo, pelo visto ela estava bem casual ali e minha chegada interrompeu o que quer que ela estivesse fazendo.

—Não que eu me incomode com a sua visita, – Kasumi começa. – Mas o que faz aqui?

—Boa tarde pra você também, Kasumi. – Meu tom é um pouco irritado, me arrependo assim que as palavras saem de minha boca. – Desculpa... Eu não queria me exasperar com você.

—Tudo bem... – Ela fecha o notebook. – Eu estava preparando algumas coisas pras aulas dessa semana, mas você parece bem nervoso... Ainda mais que sequer ligou falando que viria.

—Desculpa por isso... – A sensação que tenho é a de que Kasumi estava só de roupas íntimas quando preparava o material e isso me deixou corando. – É que o almoço em família não terminou bem... Pra dizer a verdade, eu nem terminei meu almoço.

—O que aconteceu?

—Bem... Antes de mais nada, posso te fazer uma pergunta?

—Você já fez uma agora, mas pode fazer outra.

—Semântica... – Dou uma risadinha. – Mas, você tem algum problema com a cor da minha pele?

—Claro que não.

—Pois é... Só que o meu pai, um cara que sofreu muito com o preconceito por causa da cor de pele dele, faz o mesmo. – Digo, com uma raiva na voz. – Ele sempre fica de olho na cor de pele de qualquer pessoa que eu me aproximo, e isso me incomoda demais. Tipo, é de se esperar que alguém que tenha sofrido, não faça com os outros.

—Eu não sei o que dizer, sério... – Kasumi está um tanto chocada.

—O pior é que isso praticamente me impediu de fazer amigos a vida inteira. – Confesso.

—Como assim?

—Bem, se você estiver disposta a ouvir um pouco de história... O fato de eu não ter feito amigos, começou quando eu tinha mais ou menos cinco anos de idade e estava de férias na casa dos meus tios em São Paulo.

"Enfim, eu era uma criança normal e naquela coisa de parquinho de cidade, acabei conhecendo duas meninas orientais que acabei fazendo amizade. Elas eram mais velhas que eu... Ou pelo menos mais altas. Tipo, sei que elas estavam de férias também, e durante alguns dias nos encontrávamos ali pra brincar e tudo mais, era divertido e inocente, como brincadeira de criança devia ser."

"Inclusive, eu prometi pra uma delas, de brincadeira que quando eu crescesse, casaria com ela. Foi tudo ingênuo e creio que nenhum de nós levaria essa promessa pra vida adulta. Só que quando contei isso pro meu pai, ele não reagiu bem... Não lembro muito bem o que ele disse na época, só sei que ouvindo as coisas que ele dizia em casa, tenho uma ideia do que ele tenha me dito."

"Aí desde então, eu associei o fato de fazer amigos a essa reação do meu pai. É triste, mas eu tenho vivido bem por anos com isso. Exceto agora. Agora que conheci você, tenho medo de como ele irá te tratar se eu a apresentar a ele. Sem contar que tem a questão dos meus sentimentos, ele é bem intolerante com relação a isso. Ele faz parte dessa galera que diz que o negro que se relaciona com branca é palmiteiro... Só não faz isso em público porque ele tem uma imagem a preservar."

"Eu não quero que ele fique no caminho do que eu sinto... Sei que você está pensando ainda, mas não quero que ele fique no nosso caminho. Seja na amizade ou algo mais."

Kasumi está estranhamente calada após a minha história, até que um fino sorriso passa pelo rosto dela.

—Eu não acredito... – Kasumi começa a rir, daquele jeito inocente dela. Estou sem entender a reação dela. – Então... Então... Eu acabei te reencontrando?

Kasumi

A história do trauma de Renan em relação a amizades era surreal, porque essa história das férias me parecia terrivelmente familiar. Porque, naquele mundo pequeno, eu lembro bem do que aconteceu quando eu tinha dez anos e minha irmã mais nova tinha nove... Nós fizemos amizade com um garoto um pouco mais novo, quando estávamos de férias no Guarujá.

E bem, na época eu achei bem legal aquele garoto dizendo que iria casar comigo. Foi engraçado, ingênuo e infantil. Claro, éramos todos crianças e provavelmente um mês depois nós esquecemos tudo, mas foi triste saber que ele tinha sido repreendido pelo pai por conta de uma brincadeira de criança.

Meus pensamentos são interrompidos pela voz de Renan.

—Como assim, reencontrando? – Ele pergunta, confuso.

—Vem comigo. – Conduzo ele ao meu quarto, abro uma das gavetas e tiro um álbum de fotos.

Passando pelas páginas, vejo umas cinco fotos daquela viagem que eu fiz pro Guarujá. A verdade é que eu só lembrara dessa história porque ele contara a história. E eu só tinha esse álbum porque a minha mãe e minha irmã INSISTIRAM para que eu ficasse com ele. Essas cinco fotos mostram três crianças brincando, eu, com dez anos, minha irmã, com seus nove e um garoto... Que olhando bem, era identificável como o Renan.

—Minha mãe tirou essas fotos nossas, enquanto brincávamos. – Digo, sorrindo nostálgica. – Isso foi muito antes da Aya passar a tingir os cabelos de roxo.

—Meu Deus... – Renan abre um sorriso enquanto vê as fotos. – Eu pensei que não teria nenhum registro desse momento...

—Mas, Renan... – Volto a usar um tom mais preocupado. – Você teve problema com seu pai, e...

—A verdade, é que eu só queria um lugar familiar pra ficar... Porque eu não aguento mais. – Ele apoia os braços no guarda-roupas. – Sabe, toda vez que faço menção a algum colega ou conhecido, ele vem com esse papo. Eu sempre aturei de boa, fiquei em silêncio porque nunca ia a lugar algum. Só que agora tem você, e essa coisa que eu sinto aqui...

—Se não tiver problemas, pode ficar aqui essa noite. – Comento. – Só espero que você não tenha problemas em dormir no sofá, porque ainda não somos íntimos o suficiente pra dividirmos a cama.

—O que foi que você disse? – Renan pergunta, erguendo as sobrancelhas.

—Nós ainda não somos íntimos o sufi... – Com uma acelerada no meu batimento, percebo que eu usara o "ainda", com o significado de "seremos". O meu rosto começa a queimar furiosamente. – Eu.. Bem... Me dê um minuto, por favor, tá? Vou ao banheiro.

Sem esperar a resposta do Renan, vou correndo ao banheiro, fecho a porta e sento no chão, com as costas apoiadas na porta. O que diabos estava acontecendo comigo? Lembro que quando conheci o Felipe, por exemplo demorou muito pra eu corresponder as investidas dele, o mesmo pros meus outros namoricos de adolescente. De alguma maneira, esse garoto tá fazendo meu coração bater mais rápido, desde que ele se confessara pra mim.

Eu não queria... Eu não queria me sentir assim de novo, não queria me importar tanto com alguém, não queria abrir a minha guarda de novo. O problema é que ninguém manda no coração, e por mais que tentemos usar a razão... Em nove a cada dez vezes o coração leva a melhor, nem que isso acabe acarretando em problemas. Mas, por alguma razão, o meu lado racional diz que apelar pro emocional dessa vez, é a escolha certa.

Finalmente me levanto, decidida e saio do banheiro. Renan está ainda ali, sentado na cama. Acho que ele cansou de esperar em pé. Me sento ao lado dele, meu coração está a mil.

—Eu sei que você já disse mais de uma vez, mas queria que você confirmasse... – Começo, tentando evitar até de encostar nele. – Você gosta realmente de mim?

—Kasumi... – Renan responde. – Foi muito difícil pra mim ter que admitir isso... Desde que te conheci, eu não consegui te tirar da cabeça, e conforme a gente foi se conhecendo... Me convenci de que era real, e bem, eu estou totalmente apaixonado por você. Sei que parece clichê, mas eu te amo.

—Isso é bom... – Eu me viro pra ele, aproximando o meu rosto. – Porque, eu acho que também estou apaixonada por você, Renan.

Seguro a nuca de Renan e dou um beijo nele, longo e demorado. Sei que isso poderia nos trazer problemas, porque ele é meu aluno, porque eu vim de um relacionamento desastroso, porque ele é negro e eu sou asiática, mas vamos ser sinceros. O amor não liga pra esse tipo de coisa, e naquele momento, sabia que nenhum de nós dois dava a mínima pra esses pormenores.