Pais por acaso

62 Renesmee - Um novo ciclo


O primeiro dia do novo ano amanheceu envolto em uma névoa leve que pairava sobre o gramado da mansão Cullen, como se até o tempo estivesse tentando se renovar. A luz suave filtrava-se pelas enormes janelas de vidro, acariciando as paredes brancas e os móveis imaculados com um toque de esperança silenciosa.

Passei os dedos sobre a superfície fria da varanda, observando o horizonte enquanto sentia Serena se mexer dentro de mim — uma lembrança constante e doce de que o novo ano traria, além de mudanças, uma nova vida.

Tínhamos passado a virada do ano ali, entre os Cullen. A grande sala foi preenchida por risos, taças erguidas e abraços demorados. O champanhe espumou em várias mãos — ou suco, no meu caso — e os votos de renovação e recomeço foram sussurrados ou gritados com igual emoção.

Foi durante aquela noite que Elizabeth, em um gesto inesperado, decidiu tentar o que muitos acreditavam impossível: uma reconciliação familiar.

Ela estava mais contida, o olhar menos altivo e a postura surpreendentemente vulnerável. Quando se aproximou de Esme, eu prendi a respiração. A tensão era palpável, mas Esme, com sua doçura infinita, a escutou.

– Todos merecem uma segunda chance – disse minha avó suavemente, depois de ouvir em silêncio por longos minutos. E, com isso, a abraçou.

Foi um abraço delicado, hesitante no início, mas ainda assim real. Elizabeth chorou. Esme também.

Mas, nem todos estavam convencidos.

Bella permanecia ao lado de Edward, os braços cruzados, o olhar sério. Quando cruzei os olhos com os dela, vi preocupação.

– Ela sabe manipular – murmurou minha mãe, apenas para mim. – Não sei se acredito nisso.

Edward, por sua vez, estava ainda mais contido. Seu rosto era uma máscara de serenidade, mas eu sabia ler seus silêncios. E aquele, especificamente, gritava cautela.

Mesmo assim, ninguém impediu Elizabeth de se juntar à ceia ou de brindar à meia-noite. Por mais dúvidas que existissem, todos pareciam concordar que aquele era um momento de recomeços. E, talvez, esse fosse o maior presente que poderíamos nos dar: a chance de seguir em frente, mesmo que com cicatrizes.

Naquela manhã, ainda com os pés descalços e um xale sobre os ombros, eu fechei os olhos e inspirei profundamente o ar fresco da floresta.

Estávamos juntos. Serena estava crescendo em segurança. Jacob dormia em paz no quarto ao lado. E a esperança, mesmo com todas as suas imperfeições, havia encontrado um lar dentro de nós.

Era um novo ano. E, quem sabe, o começo de uma nova era.

O retorno à rotina foi quase como um banho gelado após um sonho quente de inverno.

Aquela paz dos últimos dias – com lareiras acesas, risadas em família e Serena mexendo dentro de mim enquanto eu lia no sofá – deu lugar ao ritmo acelerado do hospital. A emergência não perdoava feriados ou o peso de uma gravidez. Mas eu gostava da sensação de estar útil. De ver o mundo além de mim mesma.

Naquela manhã, já havia atendido dois casos de gripe, um corte profundo e uma luxação no ombro de um turista que havia escorregado em uma trilha. Eu estava preenchendo o relatório de atendimento quando ouvi passos leves se aproximando.

Levantei o olhar e encontrei Jane parada ao lado da minha mesa. Usava o jaleco branco impecável por cima do vestido escuro e o rosto sério de sempre, mas havia algo em seus olhos… um brilho incerto.

— Oi, doutora Cullen— ela disse, forçando um meio sorriso.

— Jane — sorri de volta, colocando a caneta de lado. — Que bom te ver por aqui. Está tudo bem?

Ela hesitou por um segundo, depois respirou fundo.

— Seth tem me procurado — confessou, os olhos fixos em mim. — Mandou algumas mensagens. Pediu para conversar. Disse que queria começar de novo… mas eu não sei se devo.

Inclinei levemente a cabeça, observando a vulnerabilidade escondida por trás daquela firmeza.

— Eu entendo. — Falei com delicadeza. — Mas sabe, Jane… o Seth de hoje não é o mesmo de meses atrás. Eu vi ele crescer, amadurecer. Ser pai o transformou. E mesmo que as feridas ainda existam… talvez ele mereça uma chance de mostrar quem se tornou.

Ela ficou em silêncio por alguns instantes. Então assentiu devagar.

— Obrigada, Renesmee. Eu precisava ouvir isso de alguém que conhece ele de verdade.

Sorri para ela e estava prestes a dizer algo mais quando meu celular vibrou no bolso do jaleco. Pedi licença com um gesto e atendi sem nem olhar o nome na tela.

— Doutor?

Princesa — a voz de Jacob me arrancou um sorriso imediato. — Consegue uma folga pra almoçar comigo?

Olhei o relógio e depois para Jane, que me observava com um sorrisinho discreto.

— Acho que posso dar um jeito — respondi. — Onde você quer me levar?

Surpresa — ele disse com um tom divertido. — Mas eu prometo que envolve comida de verdade e uma cadeira confortável pra você e a Serena.

Soltei uma risada.

— Então estou dentro. Me dá quinze minutos?

— Estarei te esperando. Te amo.

— Também te amo — murmurei, antes de desligar.

Guardei o celular no bolso e me levantei, sentindo o peso confortável da barriga sob o jaleco.

— Vá, doutora — disse Jane, com um sorrisinho irônico. — Vai acabar esfriando o almoço romântico.

Ri e segurei a porta enquanto saía da sala.

— Pense no que eu te disse, Jane. Talvez o novo ano mereça um novo começo.

E com isso, deixei a sala, ansiosa por reencontrar o homem que fazia cada batida do meu coração parecer o primeiro compasso de uma nova história.

Jacob escolheu um restaurante de esquina no centro de Seattle chamado The Bark & Bean — um lugar charmoso que misturava o aconchego de uma cafeteria artesanal com a elegância de uma cozinha contemporânea. As mesas externas estavam ocupadas por casais sorridentes e amigos animados, enquanto no interior o aroma de pão fresco e especiarias quentes preenchia o ar.

Vi Jacob antes mesmo de entrar. Ele estava sentado perto da janela, usando aquela camisa azul que eu adorava, e tamborilava os dedos na mesa com impaciência. Os olhos escaneavam o movimento da rua até que, quando me viu, tudo nele relaxou.

Sorri e entrei, caminhando devagar até ele. A barriga não me deixava esquecer que Serena estava ali, me acompanhando em cada passo.

— Achei que já ia me trocar por um cappuccino — brinquei, me inclinando para beijá-lo.

— Impossível — ele respondeu, os olhos brilhando. — Nem se fosse o melhor cappuccino do mundo.

Ele puxou a cadeira para mim com todo cuidado, e logo um garçom nos trouxe dois cardápios e água com limão. Sentamos ali por alguns minutos escolhendo o que pedir, mas a verdade é que eu já sentia que Jacob escondia algo. Aquela inquietação nos dedos, o jeito como ele me observava entre uma frase e outra... ele estava guardando uma notícia.

— Pode falar — provoquei com um sorriso enquanto cortava meu ravioli de ricota com molho de limão. — Você está prestes a explodir.

Ele riu, meio sem graça.

— Tá tão óbvio assim?

— Sempre é com você.

Jacob respirou fundo e apoiou os braços na mesa.


— Os Reed vão viajar no fim do mês. Vão passar uma temporada na Europa… e decidiram deixar o Josh comigo.

Minha mão parou no ar com o garfo entre os dedos. Pisquei algumas vezes, digerindo aquilo.

— Eles vão deixar o Josh com você?

Ele assentiu, sorrindo.

— Confiam em mim. E o Josh… bem, ele praticamente implorou. Disse que queria passar mais tempo com o pai.

Senti um calor bom crescer no peito. Uma felicidade genuína. Saber que Jacob teria essa chance com o filho — que Josh queria isso — era um presente.

— Isso é maravilhoso, Jake. — Peguei sua mão por cima da mesa. — Você merece. E o Josh também.

Ele pareceu relaxar ao ouvir minhas palavras. Acho que precisava dessa validação, desse apoio.

— Vai ser uma experiência nova — ele disse, com um brilho nos olhos. — Mas tô animado. Só fico pensando se vou dar conta…

— Você vai — respondi com firmeza. — Você já é um pai incrível pro Joseph… vai fazer o mesmo com o Josh. E eu vou estar ao seu lado, lembra?

Ele sorriu, levando minha mão aos lábios.

— Você sempre me faz acreditar que posso tudo.

— Porque pode — respondi, e nossos olhares se encontraram naquela sintonia silenciosa que não precisava de mais palavras.

Naquele almoço, entre pratos meio vazios e corações transbordando, percebi que o novo ano começava com promessas simples e poderosas: reconciliações, famílias que se reconstroem… e amores que não paravam de florescer.