Pais por acaso

63 Renesmee- Salvem minha filha


Jacob e eu havíamos decidido realizar nosso casamento após o nascimento de Serena, eu estava no último mês de gravidez e as contrações de treinamento haviam se tornado mais frequentes, e os médicos diziam que Serena poderia nascer a qualquer momento. Mas, para ser honesta, essa nem era minha maior preocupação naquele momento.

Joseph.

Algo em seu olhar havia mudado. O mesmo menino que outrora corria até mim com histórias empolgadas, agora mal me dirigia a palavra. Quando Jacob estava por perto, ele fingia normalidade. Mas bastava meu marido sair para o hospital, para o mercado ou para qualquer lugar, que Joseph se tornava outra pessoa. Frio. Reservado. Às vezes, até ríspido.

Ele evitava sentar à mesa comigo. Passava mais tempo no quarto com fones nos ouvidos, e quando cruzávamos pelos corredores da casa, desviava o olhar ou fingia estar ocupado com o celular.

Jacob havia comentado comigo, semanas atrás, sobre a reaproximação de Elizabeth. Disse que ela estava tentando reconstruir uma relação com Joseph — e que o garoto parecia querer isso. Jacob relutou, mas no fim permitiu. "Pelo bem dele", foram suas palavras.

E eu entendi. De verdade. Eu mesma incentivei que ele conhecesse sua mãe, desde o começo. Mas agora… algo estava diferente.

Na última terça-feira, quando ofereci a ele um prato de lasanha — a favorita dele —, Joseph respondeu com um simples:

— Não tô com fome.

Nem sequer olhou pra mim. E depois, quando insistente perguntei:

— Aconteceu alguma coisa, Joe?

Ele me lançou um olhar duro, um que jamais imaginei vindo dele, e respondeu:

— Por que você finge se importar?

Aquilo me atingiu como uma flecha. Não respondi. Apenas me levantei, com as mãos tremendo levemente, e fui para o quarto. As lágrimas só vieram quando fechei a porta.

Desde então, venho observando em silêncio. Prestando atenção em pequenos gestos, escutando conversas pela metade. Ontem mesmo, ouvi ele sussurrando ao telefone:

— Ela sempre quer parecer perfeita. Mas eu sei o que a Elizabeth disse... ela tem razão.

Meu coração gelou.

Elizabeth. A sombra que parecia estar se aproximando devagar, feito neblina numa manhã gelada. Invisível, mas sufocante.

Hoje, decidi que não vou mais ignorar. Algo está acontecendo. E se ela estiver usando Joseph pra nos separar... se estiver envenenando o coração do meu menino...

Então que venha.

Porque ninguém — ninguém — mexe com a minha família impunemente.

Vamos continuar a cena agora, do jeitinho que combinamos:


Eu respirei fundo antes de bater levemente na porta entreaberta do quarto. Joseph estava sentado na beira da cama, olhando para o celular com os ombros tensos.

— Ei, posso entrar? — Perguntei com um sorriso gentil.

Ele deu de ombros, sem me olhar. Entrei mesmo assim, sentando na pontinha da poltrona perto da escrivaninha.


— Você tem estado tão quieto ultimamente… senti sua falta. Queria saber se a gente pode conversar um pouco. Está tudo bem?

Joseph suspirou alto, finalmente levantando os olhos para mim. Seu olhar estava carregado de algo que eu não conseguia definir… mágoa, talvez.

— Tudo bem? — Ele repetiu com sarcasmo. — Você nem percebeu que eu parei de jantar com vocês, que fiquei mais no quarto, que… que estou sumindo da sua vida aos poucos. Mas tudo bem, né? Porque agora tudo gira em torno do bebê.

Eu congelei. As palavras dele cortaram fundo.

— Joe, não é assim… Eu amo você. E mesmo com a chegada da Serena, você continua sendo meu filho também.

— É? — Ele se levantou de repente, a voz mais alta do que antes. — Porque não parece. Parece que você está ocupando tudo! Cada conversa, cada plano, cada carinho é sobre a Serena. Será que ainda tem espaço pra mim?

Meu coração se apertou, e eu me levantei devagar, tentando alcançá-lo.

— Claro que tem espaço. Joseph, você é tão importante pra mim quanto antes. Está tudo muito novo, confuso… mas eu nunca quis te deixar de lado.

Tentei tocá-lo, mas ele se afastou com um olhar magoado.

— Sabe de uma coisa? Eu vou sair. Os garotos do prédio vão jogar no campinho. Pelo menos lá ninguém finge que se importa.

Antes que eu pudesse responder, ele saiu, batendo a porta atrás de si.

A dor no peito foi instantânea. Me apoiei na parede, tentando respirar fundo, tentando não chorar. Mas, antes que pudesse recuperar o fôlego, senti algo quente escorrendo pelas minhas pernas.

Olhei para baixo — a mancha se alastrando no tecido da minha calça.

Minha bolsa tinha estourado.

— Não… não agora — murmurei, levando a mão à barriga. — Serena…

Tentei me manter em pé, mas a dor começou a irradiar pelas costas.

Peguei o celular com dificuldade, as mãos trêmulas, e disquei para o número que nunca falharia.

— Jake…

Tentei respirar fundo, mas o ar parecia não entrar nos meus pulmões. A dor… veio em ondas, intensas, cortantes. Meu celular escorregou dos dedos trêmulos, caindo no chão com um baque surdo.

— Jake… — sussurrei, mas minha voz não passou de um fio de ar.

Meus joelhos cederam, e eu caí de lado no chão frio da sala, com o rosto contra o tapete. Senti a barriga endurecer, uma pressão tão violenta que arrancou um gemido involuntário dos meus lábios.

Tudo ficou meio embaçado, confuso.

Passos correndo. Portas se abrindo. Gritos ao longe.

E então... a voz dele.

— Renesmee! — Jacob.

Ele soava apavorado. Havia um tom em sua voz que eu nunca tinha ouvido antes, um desespero que me cortou mais do que a dor física.


— Ligue pra emergência! Agora! — Ele gritou para alguém, talvez para Claire, talvez para Embry. Não sei.

Depois, outra voz. Mais aguda, mais hesitante.

— Eu não sabia! Eu juro! Eu só… eu só fui jogar…

Joseph.

Ele estava ali. E estava assustado.

Queria dizer a ele que estava tudo bem. Que eu o amava. Que ele não tinha culpa. Mas as palavras não saíam. Só um gosto metálico na boca e um zumbido estranho nos ouvidos.

Sirenes.

O som ficou mais forte, invadiu tudo.

Senti mãos me envolvendo, vozes abafadas trocando instruções rápidas. Luzes. Movimento.


Mas eu já não conseguia mais acompanhar. Tudo ficou turvo. Um véu escuro se fechando sobre minha visão.

— Aguenta, amor… Eu tô com você. Serena tá bem, só aguenta mais um pouco… — a voz de Jacob, quebrada.

Tentei sorrir, mas não consegui. A dor era demais.

Antes que a escuridão me levasse por completo, fiz o único pedido que importava.

Por favor… salvem a minha filha.