Pais por acaso
86 Renesmee - Incêndio
Mais um dia no hospital. Mais um dia tentando equilibrar a rotina intensa com a preocupação constante que me rondava como uma sombra.
Acabei de sair de uma ligação. Serena tinha acordado com um resfriadinho. Nada grave, segundo Molly, mas o coração de mãe nunca escuta isso com calma..
— Molly? Oi! A Serena dormiu? Ela tomou o suco? E o narizinho dela, ainda tá escorrendo? E a fralda…? —
— Nessie, calma amor. Tá tudo bem, tá? Eu tô aqui.
Quando ela percebeu meu nervosismo, colocou o Jacob na linha. Só bastou ouvir a voz dele para meu peito aliviar um pouco
Houve um silêncio breve e, do outro lado, ouvi ela suspirar.
— Eu sei… é só que eu tô com saudade dela. E você sabe… eu...
— Eu sei, meu amor. —Me encostei na parede do corredor ouvindo ele falar. — Molly, pode nos deixar um minutinho?
Molly deu uma risadinha.
— Claro, Sr. Black. Já volto a brincar com a princesa — disse com leveza antes de encerrar a chamada..
— Você precisa confiar nela, Nessie. A Molly é ótima. Tem anos de experiência e adora a Serena. E a nossa filha está bem, está feliz. Você também precisa respirar um pouco, cuidar de você.
— É que… ninguém cuida como eu — ela murmurou, manhosa.
— Malcriada — ele me provocou.
— Te amo, seu chato — Respondi tentando me tranquilizar.
— Também te amo. Agora, respira fundo e vai tomar um café. A Serena vai continuar perfeita quando você voltar para casa, prometo.
Respirei fundo. Tentei acreditar.
Enquanto desligava, encontrei Jéssica nos corredores. Ela vinha com a prancheta abraçada, os cabelos meio bagunçados e a típica expressão de quem já estava no terceiro café do dia.
— Renesmee! — Ela me chamou. — O doutor Carter está procurando você. Ele disse que precisa de todos os residentes na sala dele.
— Obrigada, Jess — respondi, ajeitando meu crachá. — Lá vamos nós.
Seguimos apressadas até a sala onde já havia outros residentes reunidos. O doutor Carter, com seu habitual jaleco impecável e voz firme, estava em pé, com uma caneca nas mãos.
— Vai ser rápido, pessoal. Dois minutos, no máximo — ele disse ao notar que eu e mais dois colegas entrávamos. — Novas funções a partir da próxima semana. Vamos testar um novo rodízio e quero vocês mais integrados entre especialidades.
Ele apontou uma pequena folha sobre a mesa.
— Mike, você vai acompanhar os casos de ortopedia com o doutor Lin. Jéssica, pediatria com a doutora Elman. Renesmee, quero você na emergência geral. Sei que gosta de desafios e lá sempre tem.
— Obrigada, doutor — murmurei, assentindo.
— E lembrem-se: qualquer dúvida, meu ramal está à disposição. Não deixem de acompanhar os prontuários e sejam humanos. Sempre.
Ele sorriu brevemente e nos dispensou com um gesto.
Saí da sala ao lado de Mike e Jéssica, todos ainda digerindo as mudanças.
— Emergência geral? Você puxou a parte mais puxada, ruiva — Mike comentou com um sorriso.
— É. Mas eu gosto do caos controlado. — Respondi rindo.
— Vamos comer alguma coisa? — Jéssica perguntou. — Meu estômago está gritando.
— Vamos — concordei, e seguimos até a lanchonete do hospital.
O ambiente estava calmo, as luzes meio frias e a TV ligada no noticiário do meio-dia. Pegamos bandejas e nos aproximamos do balcão, mas algo na TV chamou minha atenção. Uma imagem aérea de destruição. Chamas intensas. E o nome da cidade estampado na tela me travou: North Bend.
"O incêndio teria sido causado por um acidente envolvendo uma carreta de combustível na interestadual..."
Meu coração disparou. Larguei a bandeja e levei a mão ao bolso, puxando o celular. Disquei o número de Jacob com dedos trêmulos. Ele atendeu no primeiro toque.
— Jake?! Acabei de saber do acidente. Estou indo pra casa — falei sem nem respirar.
— Amor, calma — ele disse com a voz firme. — Já pedi pra Molly, Ana e o Joseph irem pra casa dos meus pais. Estão seguros.
Fechei os olhos por um instante e encostei na parede da lanchonete, tentando manter a calma.
— Graças a Deus... vou pra lá também. Não consigo ficar aqui, Jake.
— Tudo bem — ele respondeu. — Mas vai com cuidado. As estradas estão bloqueadas perto da rodovia. Quando chegar lá, me avisa.
Houve um breve silêncio. E então um aperto estranho no peito. Um pressentimento. Aquele tipo de sensação que não vem com lógica, só com instinto.
— Jake… promete que vai se cuidar também? Promete para mim?
— Prometo, meu amor. Vai tranquila. A gente se fala logo, tá?
— Tá bom… te amo.
— Também te amo.
Desliguei com a respiração ainda pesada, como se algo em mim dissesse que eu precisava correr, mas com cuidado.
Voltei à minha sala, peguei minha bolsa com movimentos automáticos, deixei um bilhete rápido para Carter com a justificativa, e saí do hospital sem olhar para trás.
Meu coração estava acelerado… e não era só pela pressa. Era medo. Era instinto. Era a sensação de que algo estava prestes a acontecer.
---
O trânsito estava um caos. Sirenes ecoavam à distância, carros parados por quilômetros, buzinas impacientes e o céu tomado por uma névoa escura, como se o próprio dia estivesse em luto.
Dirigia com uma mão firme no volante e o coração cada vez mais apertado. Liguei para Molly. Uma vez. Duas. Três. Nada.
— Atende, Molly... por favor, atende...
Mas a ligação caía direto na caixa postal. Meus dedos tamborilavam o volante, nervosos, até que o som do rádio me fez prender a respiração:
"Devido ao incêndio de grandes proporções em North Bend, torres de transmissão estão comprometidas. Algumas regiões estão sem sinal de celular, o que dificulta o contato com familiares. Ainda não se sabe a extensão completa dos danos..."
Suspirei, tentando me acalmar. Ok... talvez seja só isso. Sem sinal. Talvez estejam seguros. Talvez...
Apertei de novo o botão de chamada, dessa vez para Jacob. Mas o telefone chamou... chamou... e caiu.
— Droga. Droga!
A fila de carros parecia não andar. Cada minuto ali me dilacerava. Um congestionamento interminável. Duas horas se arrastaram como uma tortura, e a cada minuto minha mente criava cenários terríveis que eu tentava, em vão, afastar.
Quando finalmente cheguei à mansão Cullen, o céu já estava começando a escurecer. Estacionei o carro apressada, mas travei assim que percebi:
Molly não estava lá.
O carro dela. O de Joseph. Nenhum sinal deles.
Saí correndo, o vento frio da tarde batendo no meu rosto. Abri a porta da casa com força e encontrei minha mãe na sala.
— Mãe?! A Molly... ela chegou com Serena e o Joseph?
Bella se virou para mim, surpresa com meu tom.
— Não, filha. Achei que estavam com você...
— O quê?! — Meu coração pulou no peito.
Edward estava próximo à escada, ao telefone, a expressão tensa. Esme, sentada no sofá, tinha os olhos fixos na TV, onde as chamas de North Bend ainda dominavam as imagens.
— Ela não me atende... nem o Joseph... — falei com a voz embargada enquanto pegava o celular de novo. — Tentei falar com eles no caminho, mas... nada.
Minha mãe se levantou rapidamente e segurou meu braço.
— Calma, Nessie... talvez o sinal ainda esteja ruim.
Mas antes que eu respondesse, o repórter da TV prendeu nossa atenção:
"Acabamos de receber informações preocupantes: um helicóptero hospitalar, identificado como pertencente ao Cullen Medical Center, desapareceu há pouco em meio ao tempo instável e à fumaça densa da região. Ainda não há confirmação oficial de vítimas, mas testemunhas relatam ter visto a aeronave sobrevoando North Bend momentos antes de perder contato."
Senti um aperto no peito. Um gelo na espinha. Helicóptero... hospitalar... Cullen Medical...
Edward desligou a ligação com um estalo seco e me olhou, sério.
— Eu vou verificar isso agora.
Mas antes que pudesse dizer algo, meu celular vibrou nas minhas mãos. A tela acendeu com um nome que me fez respirar de alívio por um segundo.
Filho Postiço Joseph.
— Ai, graças a Deus... — murmurei, correndo para atender.
— Alô?! Joseph?
Mas... não era a voz dele.
Era fria. Cheia de escárnio.
— Oi, sobrinha...
Congelou tudo dentro de mim. O som daquela voz foi como uma lâmina me atravessando.
— E-Elizabeth... — sussurrei, a garganta apertando.
Meus olhos se arregalaram e minha mãe correu até mim ao ver meu rosto perder a cor.
— O que foi? — Bella perguntou, aflita.
Mas eu não conseguia responder. Tudo o que ouvia era a respiração lenta e cruel do outro lado da linha... e a certeza que a escuridão que tanto temíamos... estava mais perto do que nunca.
Fale com o autor