Pais por acaso

87 Renesmee- Em meio ao caos



— Elizabeth... — minha garganta secou ao pronunciar seu nome, como se eu precisasse confirmar que aquilo era real.

— Você está tão linda, Renesmee. Quase tão bonita quanto a dor no seu rosto vai ser quando descobrir o que eu fiz.

— O que você quer?! — gritei, já sentindo as lágrimas arderem nos olhos. — Onde está a Serena? E o Joseph?! Eles estão com você? Diz alguma coisa, por favor!

Do outro lado, o silêncio durou segundos eternos antes que ela falasse com um tom sussurrado e cruel:

— Você me tirou tudo, Nessie. A chance de ser feliz, o amor da minha vida, o respeito da minha família...

— Elizabeth, não... Não faz isso...

— Agora é a minha vez de tirar tudo de você.

E então... silêncio. A linha caiu.

— NÃO! — gritei, o celular escorregando da minha mão e batendo no chão de mármore com um som seco. — NÃO!

— Nessie! — minha mãe correu até mim, segurando meus braços. — O que foi? Fala comigo!

Eu só conseguia chorar, os joelhos falhando.

— Ela tá com a Serena... e com o Joseph...

Esme se aproximou às pressas e nos envolveu a todas.

— Vamos resolver isso, querida... nós vamos encontrar eles...

— Ela disse que vai tirar tudo de mim... tudo...

As palavras mal saíam enquanto eu tremia nos braços da minha mãe, tentando respirar, tentando entender se aquilo era mesmo real. Mas antes que qualquer uma de nós pudesse reagir de novo, a voz do repórter voltou a preencher o ambiente com um golpe que me tirou todo o fôlego:

"Voltamos com informações atualizadas. O helicóptero hospitalar Zero Sete da Cullen Medical continua desaparecido. O piloto, identificado como o doutor Jacob Black — neurocirurgião e diretor geral da unidade — estava à frente da missão de resgate em North Bend."

O mundo girou.

Senti meu corpo perder as forças.

— Não... não ele... não o Jake...

Tudo ficou branco. A imagem da TV, o rosto da minha mãe, o calor da sala... tudo foi engolido por um redemoinho surdo e gelado.

A última coisa que ouvi foi o grito da minha mãe:

— Renesmee!

E então... escuridão.


A escuridão não durou para sempre.

Mas eu quase desejei que durasse.

Porque abrir os olhos foi como despertar dentro de um pesadelo — só que este era real.

A luz suave do quarto mal disfarçava o peso no meu peito. Minha garganta ardia. Meus olhos ardiam. Meu coração... parecia esmagado por uma dor insuportável.

Minha filha estava desaparecida.

E Jacob... Jacob estava em um helicóptero que não dava sinal.

Comecei a chorar em silêncio. Lágrimas quentes escorriam pelas laterais do meu rosto sem que eu tivesse forças para impedi-las.

— Mãe... — murmurei, como uma criança perdida.

Bella estava sentada ao meu lado, me olhando com olhos marejados e um carinho que só uma mãe poderia ter mesmo em meio à sua própria dor.

— Molly e Anna estão na sala com a polícia. Eles estão investigando tudo, Nessie. Você precisa se levantar, filha.

Balancei a cabeça devagar, tentando reunir algum traço de força. Meus músculos doíam como se tivessem sido golpeados por dentro. Mas não podia ficar ali. Serena precisava de mim. Jacob precisava de mim.

Me levantei devagar, ainda tonta, e saí do quarto. Meus pés tocavam o chão como se fossem feitos de pedra.

Ao entrar na sala, fui recebida por um amontoado de vozes, fardas, celulares tocando, papéis sendo passados de mão em mão. Tudo parecia distante, abafado, como se eu estivesse debaixo d'água.

Molly me viu primeiro. Seus olhos vermelhos. Seu rosto pálido. Ela correu até mim.

— Renesmee... me perdoa... eu... eu não consegui protegê-los...

— Me diz o que aconteceu — pedi, segurando seu braço. Minha voz falhou. — Por favor...

— Elizabeth usou o carro da Leah... ela... ela estava armada.

Meu coração parou por um segundo.

— Leah? A Leah Clearwater?

— Sim — Molly confirmou com a cabeça, chorando. — Mas um policial já disse... que a encontraram desacordada em uma estrada rural. Está no hospital.

Eu cambaleei para trás, sendo amparada por Anna, que estava pálida como papel.

— Então... ela não ajudou...

— Não... Elizabeth só usou o carro. Ninguém sabe como ela conseguiu.

Antes que eu pudesse falar algo, a televisão ao fundo capturou minha atenção. Um novo boletim extraordinário começava.

"Já são mais de três horas desde o desaparecimento do helicóptero da Cullen Medical, que fazia uma rota de evacuação de emergência. O doutor Jacob Black, que pilotava a aeronave, é um dos desaparecidos. As autoridades ainda não têm sinal da aeronave."

Foi como se o chão se abrisse sob meus pés.

Me apoiei no sofá, tremendo, sem conseguir conter o choro que rasgava do meu peito.

— Não... — sussurrei. — Isso não pode estar acontecendo.

Fechei os olhos, sentindo tudo girar. Serena nas mãos de uma mulher vingativa. Jacob perdido no meio do nada.

Estava perdendo tudo. Tudo.

— Eu quero minha filha! — gritei, sentindo meu corpo tremer de tanta dor. — Eu quero o Jacob! Eu quero eles de volta!

Minha voz ecoou pela casa como um trovão, despedaçada pela angústia. As lágrimas escorriam sem controle, sufocando minha respiração. Meus braços tremiam, minhas pernas fraquejavam, e eu sentia como se algo dentro de mim estivesse se despedaçando, pedaço por pedaço.

Edward tentou se aproximar.

— Nessie, por favor, calma — ele pediu com a voz firme, mas eu me desvencilhei dele num movimento desesperado.

— Não me pede pra ficar calma! — gritei, sem conseguir raciocinar — A Serena tá lá fora com aquela mulher! O Jake... meu Deus... o Jake pode estar...

Não consegui nem terminar a frase. A dor na garganta cresceu, como se fosse engolida por uma pedra enorme.

Bella veio até mim e me envolveu com os braços.

— Filha... escuta minha voz... você precisa respirar, por favor — ela sussurrava, mas eu chorava ainda mais forte, me agarrando a ela como uma menina pequena.

— Mãe... ele prometeu... o Jake prometeu que ia se cuidar... — minha voz falhava — A Serena... ela precisa do pai dela...

— Eu sei, meu amor. Eu sei — Bella dizia, a voz trêmula, tentando me sustentar. — Nós vamos trazer os dois de volta, você vai ver.

Mas eu já não escutava mais. A dor era tão grande, tão intensa, que parecia que eu não cabia mais dentro de mim. Meus joelhos cederam, e Esme apareceu rápido para me amparar junto com Bella.

— Vamos levá-la para o quarto — Bella disse com firmeza, tentando manter a calma enquanto me ajudava a andar.

Tudo estava embaçado. As vozes, as luzes, as mãos me guiando. Eu só chorava.

— Jake... me escuta, por favor... volta pra mim... volta...

Minha visão escureceu por instantes. Quando abri os olhos, já estava deitada, ofegante, e Edward estava ao lado da cama com uma seringa na mão.

— Não... não me apaga... por favor, eu preciso ficar acordada... eu preciso lutar por eles...

— Nessie — ele sussurrou, com os olhos marejados — você precisa descansar. Isso vai te ajudar a respirar, só um pouco.

— Mas... e se eles precisarem de mim? — supliquei, com os olhos turvos de lágrimas.

— Nós vamos cuidar de tudo. Eu prometo.

Senti a picada no braço e, em poucos segundos, a onda de sedação tomou conta do meu corpo. Meus olhos pesaram, minha respiração desacelerou, mas meu coração... meu coração continuava quebrado, repetindo o nome dos dois amores da minha vida.

Jacob.

Serena.

Voltem pra mim... por favor.


A escuridão parecia me engolir outra vez, mas algo… algo começava a romper o silêncio.

Uma voz.

Familiar. Quente. Que fazia meu coração reconhecer seu dono mesmo antes da mente entender.

— Nessie… amor… Eu tô aqui ...

Senti um toque suave, o calor de mãos grandes entrelaçando as minhas. Meu peito arfou como se tivesse sido puxado de volta à vida. Meus olhos se abriram com esforço e, por um instante, tudo era luz e sombra. Até que eu vi.

— Jake? — sussurrei, a voz rouca e trêmula.

Ele estava ali. Sentado na beira da cama, com o rosto abatido, um curativo na testa e o braço esquerdo enfaixado até o ombro. Mas era ele. O meu Jake.

Sem pensar, pulei em seu pescoço, o abraçando com força, as lágrimas jorrando como se um rio tivesse rompido dentro de mim.

— Meu Deus, Jacob! Você tá aqui… você tá aqui!

— Ei, ei… calma, amor — ele sussurrou no meu ouvido, envolvendo meus ombros com o braço bom. — Tá tudo bem agora. Eu tô aqui. Tô com você.

Eu soluçava contra o peito dele, agarrada como se minha vida dependesse disso.

— Eu pensei… eu pensei que tinha te perdido — confessei com a voz embargada. — Não faz mais isso comigo, por favor. Nunca mais me assusta assim!

— Eu sei… eu sinto muito, Nessie — ele beijou o topo da minha cabeça com carinho. — Eu tentei ligar, mas as linhas caíram… quando o helicóptero desceu, eu… eu só pensava em vocês.

Levantei o rosto e olhei dentro dos olhos dele.

— A Serena, Jake… e o Joseph…

Ele respirou fundo, com os olhos sérios e firmes.

— Eu juro pra você, Renesmee. Eu vou trazer a nossa princesa de volta. E o Campeão também. Nem que eu tenha que atravessar o mundo com as próprias mãos.

Fechei os olhos e encostei minha testa na dele.

— Eu acredito em você — sussurrei. — Mas agora… só por um instante… fica aqui. Me deixa sentir você respirando.

— Eu não vou a lugar nenhum — ele murmurou, me apertando mais forte contra ele. — Tô aqui. E a gente vai trazer nossa família de volta. Juntos.

E ali, no peito dele, entre lágrimas e promessas, deixei meu coração descansar por um segundo… mesmo em meio ao caos, porque ele estava ali. E isso já era esperança.