Pais por acaso
35 Jacob- O pai da mãe do meu filho
A conversa com os médicos fluía naturalmente, mas minha atenção não estava totalmente ali. De tempos em tempos, meus olhos percorriam o jardim até encontrar Nessie, que conversava com um pequeno grupo próximo à fonte. Ela parecia radiante, mas o cansaço nos olhos ainda era evidente para mim. Aproveitei uma pausa na conversa e me despedi educadamente, movendo-me em sua direção.
Ao me aproximar, ela percebeu minha chegada e deu aquele sorriso discreto que sempre conseguia desarmar qualquer preocupação minha. Coloquei-me ao lado dela, mantendo a postura de alguém casualmente integrado à conversa.
— Você está roubando toda a atenção aqui, Nessie. — murmurei baixo o suficiente para que só ela ouvisse, um toque de carinho na voz. — Acho que vou precisar te tirar daqui no final de semana.
Ela riu, levando a taça de suco aos lábios, tentando disfarçar a diversão que tomou seu rosto.
— E o que você tem em mente, doutor Black?
— Algo calmo e reservado. — Inclinei-me um pouco mais perto. — Só nós três.
A risada dela foi breve, mas genuína.
— "Nós três", hein? Sempre tão sutil, Jake.
Antes que eu pudesse responder, Elizabeth surgiu de repente, segurando uma taça de vinho e carregando uma expressão que misturava diversão e desafio.
— Ora, ora, o casal do ano! — Ela disse, o sorriso enviesado e os olhos brilhando mais do que o normal, como se já tivesse bebido um pouco demais.
Senti meu coração parar por um segundo. Meu olhar foi direto para Elizabeth, então para Nessie, que estava visivelmente nervosa, o sorriso desaparecendo de seu rosto.
— Elizabeth. — Minha voz saiu mais firme do que eu pretendia, tentando recuperar o controle da situação.
Mas ela não parou.
— E pensar que uma gravidez pode mesmo unir um casal tão improvável. Que história!
O impacto das palavras dela foi instantâneo. Meu peito ficou apertado, o sangue parecia correr mais rápido, e minha mente já estava buscando formas de minimizar o estrago. Nessie estava pálida, mas manteve a compostura, embora seus dedos tivessem se apertado levemente ao redor da taça.
A tensão me acompanhava enquanto Carlisle fazia seu discurso sobre o novo hospital, mas minha mente estava em outro lugar. Onde estava Elizabeth? Eu a procurava discretamente entre os convidados, tentando avaliar seus próximos passos.
Foi quando senti o toque leve de Esme em meu braço, sua voz doce me chamando de volta à realidade.
— Jacob, querido, você é o próximo. Está tudo bem? — Ela perguntou, inclinando a cabeça levemente, em um gesto que transmitia preocupação.
Respirei fundo, tentando afastar meus pensamentos.
— Sim, Esme. Estou bem. — Respondi, oferecendo-lhe um sorriso tranquilo, mesmo que forçado.
Ela apertou meu braço levemente, como se quisesse me passar confiança, e caminhamos juntos até o palco. Antes de subir, procurei Nessie com os olhos e a encontrei ao lado de Bella. Quando nossos olhares se cruzaram, ela me deu um pequeno sorriso. Mesmo fraca, ela tentava me tranquilizar. Meu coração se aliviou por um momento, e subi ao palco com a postura mais firme.
Meu discurso foi breve, mas direto, destacando as oportunidades que o novo hospital traria e o impacto positivo que poderíamos causar. Ao terminar, recebi aplausos calorosos e desci do palco, encontrando Carlisle que se aproximou, colocando uma mão firme no meu ombro.
— Jacob, você foi excelente. Estamos orgulhosos de tê-lo como parte da equipe. — Disse ele, com aquele entusiasmo genuíno.
— Obrigado, Carlisle. Significa muito para mim. — Respondi, com um aceno de cabeça.
Depois disso, todos os Cullens se reuniram para a foto oficial. Esme, como sempre, organizava tudo com cuidado. Bella estava ao lado de Nessie, e meu olhar voltou a procurá-la, como sempre fazia. Ela parecia cansada, mas ainda mantinha um sorriso.
Foi então que, enquanto os flashes ainda capturavam os momentos, a voz de Elizabeth ecoou pelo salão, clara e confiante, vinda do microfone.
— Boa noite a todos!
Os murmúrios cessaram rapidamente, e todos os olhares se voltaram para ela. Meu corpo ficou tenso instantaneamente. Elizabeth estava prestes a iniciar o seu show.
A atmosfera na sala de estar era tensa, quase sufocante. Todos os Cullen estavam presentes, alguns sentados, outros de pé, mas todos com os olhos fixos em mim e Nessie. Eu segurava a mão dela com firmeza, oferecendo o máximo de suporte enquanto Edward caminhava de um lado para o outro, claramente tentando controlar sua raiva.
Finalmente, ele parou e se virou para mim, os olhos ardendo em questionamento.
— Quero explicações, Jacob. Agora. — Sua voz era baixa, mas carregada de autoridade.
Respirei fundo, tentando manter a calma.
— Edward, eu conheci Nessie muito antes de saber quem ela era. Antes de saber que era sua filha, ou que seria minha residente. — Comecei, a sinceridade marcando cada palavra. — Foi uma coincidência que nossos caminhos se cruzaram novamente no hospital. Eu jamais me aproveitaria da posição dela como minha residente.
— Coincidência ou não, Jacob, isso não muda os fatos. — Ele rebateu, cruzando os braços. — O hospital tem regras, e vocês dois claramente as ignoraram.
Nessie interveio, sua voz firme, apesar do nervosismo visível.
— Pai, dentro do hospital, sempre tivemos uma relação estritamente profissional. Eu nunca fui tratada de forma diferente dos outros residentes. — Ela pausou, encarando-o diretamente. — Você pode perguntar a qualquer pessoa da equipe.
Edward estreitou os olhos para ela e, em seguida, voltou sua atenção para mim.
— Mesmo assim, Jacob, isso é inaceitável. Você é o diretor agora. O que acha que isso diz sobre a sua liderança?
Antes que eu pudesse responder, Carlisle se levantou e colocou uma mão no ombro de Edward.
— Edward, basta. — Sua voz era calma, mas carregava um tom firme. — Eu acredito na Nessie e no Jacob. Eles são adultos e responsáveis por suas próprias ações. E, mais importante, não há nada que possamos fazer sobre o que já aconteceu.
Edward balançou a cabeça, claramente frustrado.
— Isso não significa que eu concorde.
— Não espero que concorde, Edward. — Eu finalmente disse, mantendo o tom calmo, mas decidido. — Só espero que confie na sua filha e em mim. O que temos é real, e não começou no hospital. Isso é algo que aconteceu fora daquele ambiente, onde somos apenas Jacob e Nessie, não diretor e residente.
Edward ficou em silêncio, ainda parecendo dividido, mas não disse mais nada.
Esme, que havia observado tudo em silêncio, se aproximou de Nessie, colocando uma mão gentil no ombro dela.
— Todos nós já cometemos erros ou passamos por situações complicadas, Edward. O que importa agora é como seguimos em frente como uma família.
Nessie apertou minha mão, e eu soube que, pelo menos por enquanto, tínhamos o apoio que precisávamos.
Edward respirou fundo, o olhar fixo em Nessie e em mim por um momento. Depois passou a mão pelos cabelos, um gesto que eu sabia significar que ele estava lutando contra um turbilhão de emoções.
— Preciso de um tempo para digerir tudo isso. — Disse, a voz mais controlada, mas ainda carregada de tensão. — Um neto... Minha filha, que eu ainda vejo como minha menininha, está grávida. E do meu melhor amigo.
Seus olhos encontraram os meus, e havia uma mistura de mágoa, surpresa e talvez um toque de traição ali. Sem esperar por resposta, ele se virou e subiu as escadas, os passos ecoando pela casa silenciosa.
Bella, que havia observado tudo com preocupação, se levantou do sofá.
— Vou conversar com ele. Ele só precisa de um pouco de tempo. — Disse, lançando um olhar encorajador para Nessie antes de seguir Edward.
A sala ficou em silêncio por alguns segundos, até que Carlisle se aproximou, seu rosto tranquilo e sereno como sempre.
— Isso vai se resolver. — Ele disse, sua voz carregada de convicção. — Edward só precisa assimilar as coisas à sua maneira. O que importa agora é Nessie e o meu bisneto.
Ele se virou para Nessie, abrindo os braços para ela.
— Estou muito orgulhoso de você, querida. E, mais importante, estou aqui para vocês, sempre.
Nessie hesitou por um momento, mas logo se deixou envolver pelo abraço caloroso de Carlisle.
— Obrigada, vovô. — Ela murmurou, a emoção transparecendo em sua voz.
Eu observei o momento, sentindo uma parte do peso em meus ombros diminuir. A tensão na sala começou a se dissipar, e, pela primeira vez naquela noite, eu senti que talvez conseguíssemos passar por tudo isso como uma família.
Carlisle olhou para mim, o sorriso ainda presente.
— Jacob, você sempre foi parte dessa família. E agora, mais do que nunca, é importante que nos apoiemos.
Assenti, sentindo uma gratidão que não conseguia expressar em palavras.
— Obrigado, Carlisle. Isso significa muito para mim.
Ele colocou uma mão firme em meu ombro e sorriu.
— Vocês não estão sozinhos.
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