Pais por acaso

49 Jacob- Mudanças



Assumir o cargo de diretor-geral do Cullen Medical no Pike Street foi, sem dúvida, um dos maiores desafios da minha carreira. Eu passei o último mês imerso em reuniões, revisando relatórios financeiros e ajustando processos que poderiam melhorar o desempenho do hospital. Não era exatamente o que eu imaginava fazer quando decidi seguir a medicina, mas havia algo gratificante em saber que cada decisão que eu tomava impactava diretamente a vida de tantas pessoas.

Esse novo cargo veio com responsabilidades maiores, mas também com mais liberdade. Eu consegui ajustar minha agenda para estar presente nas consultas de pré-natal de Renesmee, algo que eu não abriria mão por nada. Ela estava radiante – e exausta – com a gravidez. E, honestamente, eu nunca me senti tão nervoso e empolgado ao mesmo tempo.

Morarmos juntos foi uma transição mais natural do que eu esperava. A casa agora estava cheia de detalhes que eram puramente dela: livros espalhados pela sala, travesseiros extras na cama, e o som suave da sua risada preenchendo os momentos de silêncio. Eu descobri que amava acordar ao lado dela, ouvir seus planos para o dia enquanto tomávamos café e dividir as responsabilidades da casa.

Mas não vou mentir, havia algo diferente agora. Talvez fosse o fato de que, em poucos meses, eu seria pai. Pai de uma menina.

– "Uma menina, Jake!" – eu me lembro de Alice dizendo no ultrassom, o sorriso dela tão brilhante quanto o da própria Nessie.

Eu sempre achei que não tinha muitas preferências sobre o sexo do bebê, mas algo mudou quando ouvi aquelas palavras. Uma menina. Minha filha. Só pensar nisso fazia meu peito apertar com uma mistura de emoção e medo.

Será que eu conseguiria ser o pai que ela precisaria? Como seria protegê-la, ensiná-la, e, eventualmente, deixá-la crescer e enfrentar o mundo? Eu tinha tantas perguntas e nenhuma resposta.

Todas as noites, antes de dormir, eu me pegava olhando para Nessie. Ela dormia tranquila ao meu lado, as mãos frequentemente pousadas sobre o pequeno volume que já era visível na barriga. E era nesse momento que eu sentia a maior certeza de todas: eu faria qualquer coisa por elas.

Tudo parecia estar no lugar. Trabalho, casa, minha esposa, minha filha a caminho...

Mas, no fundo, havia algo no comportamento de Nessie que eu não conseguia ignorar. Pequenos momentos de distração, sorrisos que não alcançavam os olhos dela, perguntas que pareciam cheias de significados ocultos. Eu tentava não insistir, convencido de que era apenas o peso da gravidez e a adaptação às mudanças.

Mas, às vezes, eu me perguntava... O que ela estava escondendo de mim?

....

Eu já havia perdido as contas de quantas vezes liguei para Renesmee naquela tarde. Meu celular parecia uma extensão da minha mão, cada ligação sem resposta aumentava minha ansiedade. Quando soube no hospital que ela havia saído após o almoço, meu alarme interno disparou. Nessie nunca deixava de me avisar onde estava, ainda mais agora, com o bebê.

Depois de tentar contatá-la sem sucesso, recorri a Bella e até Edward. Ambos me garantiram que não sabiam onde ela estava, mas prometeram avisar caso tivessem notícias. Apesar de tudo, fiquei com uma sensação incômoda, como se algo estivesse fora do lugar.

Agora estava sentado no sofá do nosso apartamento, o relógio marcando quase 8 da noite. Cada minuto parecia uma eternidade, e meus pensamentos não paravam de criar cenários – nenhum deles bom. Estava começando a cogitar sair e procurá-la quando ouvi o som da chave girando na porta.

Nessie entrou, com o semblante tranquilo demais para alguém que passou o dia fora sem dar notícias. Levantei-me apressado e fui até ela.

– Graças a Deus, amor, onde você estava? – perguntei, aproximando-me e segurando seus braços, preocupado.

Ela me encarou em silêncio, seus olhos pareciam buscar alguma resposta dentro de si.

– Nessie? – insisti, minha voz carregada de preocupação.

– Eu... tive um contratempo, Jake. Nada sério.

"Contratempo"? Era tudo o que ela tinha a dizer? Algo não fazia sentido.

– Que tipo de contratempo? – perguntei, tentando manter a calma, mas era impossível ignorar a angústia que crescia dentro de mim.

– Não foi nada, de verdade. Só... coisas do trabalho – ela disse rapidamente, desviando o olhar.


Era uma desculpa que não fazia o menor sentido, mas antes que eu pudesse insistir, ela me abraçou, enterrando o rosto em meu peito.

– Eu estou bem, Jake. Estou aqui agora.

Mesmo desconfiado, envolvi meus braços ao redor dela, apertando-a contra mim. Seu gesto de carinho parecia um esforço para encerrar a conversa, mas ao invés de me tranquilizar, apenas reforçou minha sensação de que ela estava escondendo algo.

Enquanto a segurava, tentei afastar esses pensamentos. Talvez fosse apenas a gravidez deixando-a mais reservada ou distraída... Mas uma voz na minha mente me dizia que havia mais nessa história. E eu descobriria o que era, cedo ou tarde.

A luz da manhã atravessava as cortinas da cozinha enquanto Renesmee e eu tomávamos café juntos. Ela estava mais tranquila, rindo baixinho de alguma piada que fiz sobre o bebê. Apesar da normalidade aparente, minha desconfiança da noite anterior ainda pairava no ar. Mas não era hora para insistir.

– Quer mais suco, amor? – perguntei, apontando para a jarra.

– Não, estou bem assim. – Ela sorriu, colocando a mão na barriga. – Mas talvez sua filha queira.

Eu ri, levantando-me para encher o copo dela. – Minha filha terá o melhor, sempre.

Após o café, levei Renesmee ao hospital. Assim que parei o carro na entrada, inclinei-me para beijá-la.

– Boa sorte hoje, amor. Não se sobrecarregue, ok? – eu disse, segurando sua mão.

– Pode deixar. Te vejo à noite. – Ela sorriu, saindo do carro.

Enquanto eu a observava entrar no hospital, um breve aperto no peito me lembrou da sensação incômoda da noite anterior. Respirei fundo, afastando os pensamentos, e segui para o hospital novo, no coração de Seattle.

Ao chegar, minha secretária, Jamily, me recebeu com a agenda do dia em mãos.

– Bom dia, doutor Black. – Ela sorriu. – Temos uma novidade hoje. Um aluno da Roosevelt High School pediu para fazer uma entrevista com você. É para uma atividade escolar sobre profissões.

Parei para refletir. A ideia de inspirar jovens sempre me agradou, e não era a primeira vez que recebia pedidos como esse.

– Ah, legal. – Sorri, pegando o tablet com meus relatórios. – Pode agendar para depois dos atendimentos. Quero ver se consigo ajudar.

Jamily anotou algo no computador, ainda sorrindo.

– Perfeito. Vou avisá-lo.

Segui para minha sala, pronto para mais um dia de trabalho. A rotina no hospital era intensa, mas eu amava cada parte dela. Ainda assim, uma pequena parte de mim continuava pensando em Nessie e no que poderia estar passando pela cabeça dela. Hoje, contudo, o foco seria meu trabalho – pelo menos até o final do dia.

Eu segui pelos corredores do hospital, meu pensamento ainda voltado para Renesmee. Mesmo com o novo hospital, com as novas responsabilidades e a correria, minha mente não conseguia parar de se preocupar com ela. Ela estava bem, mas eu sabia que algo parecia diferente nos últimos dias.

Foi quando virei o corredor do bloco de internações que vi Gabriela com um tablet em mãos, revisando prontuários. Quando me viu, seu rosto se iluminou com um sorriso.

– Doutor Black! Justo quem eu queria encontrar.

Eu parei à sua frente, retribuindo o sorriso. – Bom dia, doutora Gabriela. Está tudo bem com os pacientes?

– Sim, tudo sob controle. – Ela colocou o tablet debaixo do braço e se aproximou. – Mas na verdade, queria falar com você sobre outra coisa.

Arqueei uma sobrancelha, curioso. – Diga, estou ouvindo.

– Estou organizando uma festa de aniversário na sexta-feira, na The Crocodile, você conhece? É uma boate aqui em Seattle. Vai ser uma comemoração pequena, só com amigos e colegas do hospital. Queria convidar você e sua esposa.

Eu sorri com o convite, mas minha mente rapidamente foi para Renesmee. Eu sabia que ela estava mais tranquila, e a gravidez estava deixando ela menos disposta para essas coisas.

– Agradeço muito, Gabriela, mas acho que a Nessie não vai querer ir. Ela está mais reservada por causa da gravidez. Festas não são muito a cara dela no momento.

Gabriela deu uma risadinha, parecendo entender. – Tudo bem, sem pressa. O convite está de portas abertas, se mudar de ideia. Vai ser divertido, e quem sabe ela até se anima. Uma noite fora pode ser boa para os dois.

Eu balancei a cabeça, sorrindo. – Se mudarmos de ideia, eu aviso. Mas... a verdade é que acho que ela vai preferir ficar em casa.

– Combinado! – Gabriela deu um passo para o lado, já se preparando para continuar. – Boa sorte com o trabalho, e se precisarem de uma pausa, a festa estará lá.

Eu a observei seguir para o corredor, ainda com um sorriso discreto no rosto, e então segui para meu próximo compromisso, com a sensação de que, por mais que houvesse o convite para diversão, meu foco naquele momento era, sem dúvida, a minha família e a minha esposa.