Pais por acaso
50 Jacob- Entrevista de profissões
Eu estava revisando os prontuários de um paciente na UTI quando a doutora Gabriela Hale entrou na sala, acompanhada pelo Pietro Garcia. O paciente era um homem na faixa dos 50 anos, com um aneurisma cerebral identificado em um exame de emergência. O quadro dele era delicado, e precisávamos agir rápido.
– Jacob, Pietro, temos que decidir o melhor procedimento para esse caso. O aneurisma está localizado na região posterior, o que aumenta o risco de complicações se não fizermos a abordagem correta, – Gabriela comentou, sua voz calma, mas com a urgência de quem sabe que o tempo é crucial.
Pietro olhou para o prontuário, então para o paciente, antes de olhar para mim. – Concordo. A intervenção precisa ser precisa. O risco de ruptura é alto. Como você vê, Jacob?
Eu respirei fundo e olhei novamente para o paciente. Sabia que o tempo estava contra nós. – Eu recomendaria a cirurgia endovascular, se possível. A recuperação seria mais rápida, e o risco de complicações seria menor, dado o local do aneurisma. Mas precisamos monitorar bem os sinais vitais e garantir que o paciente não tenha uma reação adversa ao procedimento.
Gabriela fez uma anotação em seu bloco. – Perfeito. Vou coordenar com a equipe de cirurgia para agendar isso imediatamente.
Pietro assentiu. – Farei o acompanhamento da pressão arterial e sinais vitais nas próximas horas, até a cirurgia.
Saímos do quarto da UTI juntos, e caminhamos pelo corredor, discutindo rapidamente a logística da intervenção. Gabriela então olhou para o relógio e fez um movimento de desaprovação.
– Eu preciso ir, Jacob. Vou pegar um almoço rápido. Vamos nos falando depois, – ela disse, sorrindo para ambos.
Eu acenei, sabendo que ela precisava de um intervalo para descansar e recarregar as energias para o próximo turno. – Claro, Gabriela. Até mais tarde.
Ela se despediu e seguiu pelo corredor em direção à área de descanso. Quando ela desapareceu, Pietro virou-se para mim com um sorriso meio disfarçado.
– Então, o que você acha de Gabriela? – ele perguntou, com um tom de provocação.
Eu arqueei uma sobrancelha, já sabendo onde a conversa estava indo. – Gabriela é uma profissional excelente, Pietro. Isso é tudo. Ela sabe que nossa relação no trabalho é totalmente profissional.
Pietro deu um pequeno sorriso. – Não estou dizendo que não. Só acho que ela tem uma certa... admiração por você, sabia? Ela sempre fala de você de uma forma... especial.
Eu balancei a cabeça, não querendo entrar em especulações. – Não existe nada disso. Somos colegas de trabalho, e isso é tudo o que interessa aqui. Vamos manter o foco no que importa.
Antes que Pietro pudesse continuar, fomos interrompidos pela secretária Jamily, que apareceu no corredor, segurando um celular na mão.
– Doutor Black, o aluno que vai entrevistá-lo chegou. Ele está na recepção e aguardando. – Jamily disse, com um sorriso educado.
Eu assenti, já pensando no que precisava fazer. – Ótimo. Pode avisar a ele que o aguardarei na minha sala. – Olhei para Pietro rapidamente. – Depois a gente conversa mais sobre o caso do aneurisma.
Pietro fez um gesto afirmativo, e eu segui em direção à minha sala, com a mente já se voltando para o encontro com o aluno. Sabia que o tempo de conversa seria curto, mas ainda assim era importante dar essa entrevista. O trabalho nunca para.
Quando entrei na minha sala e vi o garoto sentado à minha mesa, a primeira coisa que percebi foi o semblante sério e a postura confiante que ele tinha. Mas o que me pegou de surpresa foi a semelhança entre ele e eu. A maneira como ele se sentava, os traços no rosto, os olhos escuros, o cabelo... era como olhar no espelho, mas com mais alguns anos de idade. Uma sensação de choque me percorreu.
O garoto se levantou imediatamente e estendeu a mão, interrompendo meus pensamentos.
– Oi, doutor Black. Eu sou Joseph Reed. – A voz dele era firme, mas parecia nervosa, como se também estivesse tentando processar o que estava acontecendo.
Eu olhei para a mão estendida por um momento, sem saber ao certo o que fazer. Eu sabia que tinha que seguir com a formalidade, mas, por dentro, tudo estava virado. Aceitei a mão dele, tentando disfarçar minha confusão.
– Jacob Black. Prazer em conhecê-lo, Joseph. – Minha voz saiu mais baixa do que eu queria, um reflexo do meu choque.
Joseph sorriu ligeiramente, mas notei que ele estava aguardando algo mais. Eu ainda estava tentando processar o que estava acontecendo, tentando entender por que ele se parecia tanto comigo. Respirei fundo e me concentrei.
– Então, você está aqui para a entrevista, né? – tentei seguir o protocolo, como se isso fosse uma situação qualquer, mas estava claro que não era.
Ele assentiu, puxando um caderno de anotações da mochila e colocando sobre a mesa.
– Sim, é para um trabalho escolar. Eu sou estudante da Franklin High School. O tema é "Carreiras na Medicina", e eu pensei em falar sobre a sua trajetória, já que sou muito interessado na área de saúde. – Ele falou enquanto organizava seus materiais.
Eu ainda tentava juntar as peças, mas estava tão desconcertado que me obriguei a me concentrar na conversa, mesmo que minha mente estivesse em outro lugar.
– Interessante... – Eu falei, tentando retomar a calma. – Você já tem uma ideia clara de que tipo de especialidade quer seguir?
Joseph olhou para mim por um momento, seus olhos intensos me observando, e eu senti um pequeno calafrio. Ele parecia tão... familiar.
– Eu estou mais inclinado para a cirurgia, especialmente áreas como neurocirurgia. O trabalho em equipe e o desafio de lidar com casos complicados sempre me chamaram a atenção. – Ele respondeu, com uma sinceridade que me fez admirar o foco que ele tinha para sua idade.
Tentei ignorar a sensação de que ele tinha algo mais importante para me dizer, algo que eu ainda não conseguia compreender. Mas a conversa estava fluindo, e isso me dava algum espaço para tentar lidar com o que estava acontecendo dentro de mim.
– Bom, parece que você já tem uma boa direção, então. A neurocirurgia é um campo muito desafiador, mas ao mesmo tempo recompensador. – Eu disse, forçando um sorriso, mesmo que a mente estivesse em outro lugar, tentando entender a situação. – Como posso te ajudar com a entrevista?
Joseph olhou para o caderno e começou a anotar algumas perguntas.
– Eu queria saber sobre como você escolheu a medicina, o que mais te motiva a continuar... Acho que essas são as principais para começar. – Ele disse, parecendo interessado.
Eu o olhei por um momento antes de responder, tentando manter a calma.
– Bem, minha motivação sempre foi ajudar as pessoas. O que me motivou a entrar na medicina foi a oportunidade de fazer a diferença na vida das pessoas. Você aprende a lidar com situações extremas, mas, no final, a gratificação vem de saber que fez algo bom. – Eu falei, com uma sinceridade que vinha da minha própria experiência.
Joseph anotou rapidamente as palavras, mas não parecia totalmente concentrado. O silêncio pairava entre nós, e, de novo, percebi o olhar fixo dele em mim. Algo que eu não conseguia ignorar.
Por um instante, me perguntei se ele sentia o mesmo que eu – algo fora do lugar, uma sensação de estranheza que pairava no ar. Mas, então, ele continuou com as perguntas, e eu tentei me concentrar na entrevista, embora a verdade fosse que eu não conseguia tirar os olhos dele.
O tempo parecia ter desacelerado enquanto eu tentava processar as palavras de Joseph. Mas eu não conseguia. O garoto continuava ali, sentado à minha frente, tão parecido comigo, mas ao mesmo tempo, com uma aura de mistério que eu não conseguia entender. Tentava focar na entrevista, mas minha mente não estava mais em estado de trabalho. Algo estava errado. Algo que eu ainda não podia entender completamente.
Eu estava no meio de uma resposta sobre minha vida profissional quando Joseph fez uma pergunta que me pegou de surpresa.
– Você tem filhos, doutor Black? – Ele perguntou, de maneira calma, mas eu percebi um toque de curiosidade em sua voz.
Eu respirei fundo, tentando voltar à normalidade e responder como se fosse uma conversa comum. Naquela altura, eu estava apenas tentando manter a compostura.
– Sim, eu tenho um filho, Seth. Ele já é adulto, e está trabalhando. E a minha esposa está grávida, vamos ter uma menina. – Eu sorri um pouco, falando de forma tranquila, mas sentindo um nó na garganta ao mencionar a gravidez. Era emocionante, mas também estava começando a ser difícil de lidar com o turbilhão de sentimentos que essa conversa estava gerando.
Joseph olhou para mim com atenção e, por um momento, seus olhos brilharam com um tipo de compreensão que me deixou inquieto. Ele murmurou baixo:
– Ah, sim, a doutora Cullen, né? – Ele parecia meio distraído ao falar, como se estivesse pensando em algo mais. Quando ele percebeu o que disse, seu semblante mudou. Ele ficou nervoso de repente, mexendo nas mãos.
Eu, por um momento, fiquei sem saber o que responder. Renesmee. A doutora Cullen. Por que ele mencionaria ela? Como ele saberia disso?
– De onde você conhece a doutora Cullen? – Eu perguntei, sem conseguir esconder a desconfiança na minha voz. Algo estava fora de lugar, e o nome de Renesmee no meio da conversa me fez imediatamente perceber que essa entrevista não era o que parecia ser.
Joseph imediatamente se encolheu na cadeira. Ele desviou o olhar, e a tensão no ar ficou evidente. Ele parecia tentar encontrar as palavras certas, mas parecia que estava perdido.
– Eu... – Ele começou, mas logo se interrompeu, como se estivesse lutando contra algo. Então, ele ficou de pé, aparentemente querendo sair da sala, mas algo me dizia que eu precisava pressioná-lo, precisava entender.
– Não, você vai me responder agora. – Eu disse, me levantando e indo até ele. O olhar de Joseph estava nervoso, e eu percebi que ele estava lutando para controlar seus sentimentos. – Eu não vou deixar você sair até me explicar o que está acontecendo aqui.
Joseph olhou para mim, com os olhos cheios de uma mistura de frustração e arrependimento. Ele deu um passo para trás, como se estivesse tentando fugir da conversa. Mas, com um suspiro, ele se viu preso. Ele olhou para mim diretamente e, por fim, disse as palavras que me desestabilizaram por completo.
– Eu menti. Não Vim fazer uma pesquisa escolar. – Ele disse, a voz agora embargada, como se estivesse liberando um peso muito grande de suas costas. – Eu precisava conhecer o meu pai. Não consegui mais esperar, e... e é você. Você é meu pai, Jacob Black.
O mundo ao meu redor desabou. As palavras de Joseph estavam tão claras, tão simples, mas ao mesmo tempo impossíveis de serem aceitas. Como? Como ele poderia ser meu filho? Eu não sabia de sua existência até agora. Não fazia sentido. Eu senti um frio tomar conta de mim enquanto minhas pernas vacilavam. Eu tentava processar, mas não conseguia.
– O que... você... – A única coisa que consegui articular foi uma pergunta sem resposta.
Joseph olhou para mim com os olhos marejados, mas sua expressão era resoluta. Ele parecia estar esperando uma reação, e eu não sabia se estava preparado para o que ele tinha acabado de revelar.
Eu me afastei dele, sentindo o peso de suas palavras me esmagando. Não conseguia entender como aquilo era possível. Meu corpo estava em choque. O que ele tinha dito? Eu... pai? E Renesmee... eu tinha perdido o controle. Eu não sabia o que fazer.
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