Pais por acaso
43 ( Capítulo Especial) Joseph- Quem são meus pais?
O caminho para o orfanato parecia mais longo do que deveria. O carro estava silencioso, exceto pelo som do motor e pelo ocasional suspiro da minha mãe. Eu olhava pela janela, tentando me preparar para o que estava por vir. Helen apertava o volante, claramente tão nervosa quanto eu, mas não dizia nada.
Quando chegamos ao Orfanato Nova Esperança, meu coração começou a bater mais rápido. Um homem esperava do lado de fora, encostado no carro. Era meu pai, Mark. Ele olhou para mim e para minha mãe com uma expressão séria, mas havia gentileza em seus olhos.
– Você tem certeza disso, Joseph? – perguntou, indo direto ao ponto assim que saí do carro.
Eu assenti, respirando fundo.
– Tenho, pai. Preciso saber.
Ele ficou me observando por um momento, então colocou a mão no meu ombro e deu um leve aperto.
– Tudo bem. Vamos entrar.
Entramos juntos, e o ambiente era acolhedor, mas simples. As paredes estavam decoradas com desenhos infantis, e havia móveis coloridos espalhados pela recepção. Uma mulher nos recebeu com um sorriso gentil.
– Bem-vindos ao Orfanato Nova Esperança. Sou Susan Oliver, assistente social. Como posso ajudá-los?
Helen deu um passo à frente, sempre pronta para me proteger.
– Meu filho, Joseph, foi adotado aqui há quinze anos. Ele descobriu recentemente e gostaria de saber mais sobre seus pais biológicos.
Susan franziu o cenho por um momento, parecendo considerar as implicações.
– Entendo. – Ela olhou para mim com um olhar compreensivo. – Joseph, você sabe que, em casos de adoção, os nomes dos pais biológicos são protegidos por lei, certo?
Assenti, sentindo o peso dessas palavras.
– Sim, mas... Eu preciso saber.
Ela sorriu, um sorriso leve que parecia dizer que entendia minha necessidade.
– A lei é bastante rigorosa sobre isso, mas há uma brecha em casos como o seu, onde o próprio adotado deseja saber, e os pais adotivos também aprovam. Porém, é necessário um pedido formal ao juiz.
Helen franziu o cenho, preocupada.
– Isso demora muito?
Susan balançou a cabeça.
– Depende. Geralmente, pode levar algumas semanas, mas, assim que for autorizado, informaremos vocês imediatamente.
Mark respirou fundo e olhou para mim, depois para Helen.
– Vamos fazer o que for necessário. Como começamos?
Susan pegou um formulário em sua mesa e o entregou a Mark e Helen.
– Este é o primeiro passo. Preencham a solicitação, e nós enviaremos ao tribunal. Assim que o juiz aprovar, poderemos fornecer as informações que Joseph procura.
Peguei o formulário das mãos dela, meus dedos tremendo levemente.
– Obrigado, senhora Oliver.
Ela sorriu para mim mais uma vez.
– Você é um jovem corajoso, Joseph. Não importa o que descubra, lembre-se de que isso é parte da sua história, mas não define quem você é.
Essas palavras ficaram comigo enquanto saíamos do orfanato. Agora, era uma questão de esperar. E, enquanto esperava, sabia que meu mundo estava prestes a mudar para sempre.
...
A aula de biologia estava tão arrastada que eu tinha certeza de que o relógio na parede estava sabotando a turma, retardando os ponteiros de propósito. O professor, senhor Peterson, falava algo sobre genética, mas minha cabeça estava em outro lugar. Ao meu lado, David cutucou meu braço, sussurrando:
– Alguma novidade do juiz?
Suspirei, tentando não demonstrar a ansiedade que estava guardada há semanas.
– Nada ainda. Eles disseram que poderia demorar, mas já passou um mês.
David franziu a testa, balançando a cabeça.
– Cara, isso é muita enrolação. Devia ter uma fila expressa pra essas coisas.
Sorri de canto, mas antes que eu pudesse responder, a voz firme do senhor Peterson cortou o murmúrio.
– Melhorias! – Ele me chamava assim desde o ano passado, uma brincadeira por causa do meu hábito de tentar melhorar os trabalhos depois de entregá-los. – Já que sua conversa parece mais interessante que o DNA, por que não compartilha com a turma?
A sala explodiu em risadas, e eu afundei na cadeira, tentando esconder o rosto.
– Não, senhor Peterson. É só... genética do dia a dia – murmurei, arrancando mais risadas da turma.
– Muito bem, então concentre-se, senhor Melhorias, antes que eu decida melhorar sua nota com um belo zero.
David riu, me dando um leve empurrão. O sinal finalmente tocou, e todos começaram a arrumar suas coisas.
Quando saí do prédio, ainda rindo do jeito exagerado de Peterson, vi algo que me fez parar. Meus pais estavam estacionados bem em frente à escola. Achei estranho, já que nunca vinham me buscar, a menos que algo importante tivesse acontecido.
– E aí, o que eles tão fazendo aqui? – perguntou David, olhando para o carro.
Dei de ombros, tentando parecer despreocupado.
– Sei lá, talvez esqueceram de me avisar que eu virei milionário.
David riu enquanto eu dava um soquinho no ombro dele.
– Te vejo amanhã, Melhorias.
– Até amanhã.
Caminhei até o carro, tentando decifrar a expressão de meus pais. Helen parecia nervosa, enquanto Mark mantinha uma seriedade incomum. Entrei no banco de trás, largando minha mochila ao lado.
– Aconteceu alguma coisa? – perguntei, olhando de um para o outro.
Helen virou-se para mim, segurando um envelope branco.
– Isso chegou hoje.
Fiquei olhando para o envelope por um momento antes de pegá-lo. Meu coração disparou enquanto abria cuidadosamente, puxando o papel de dentro. Era um documento oficial. Li o cabeçalho: Certificado de Adoção.
Continuei lendo, e meu olhar parou no espaço destinado ao nome da mãe biológica. Lá estava escrito: Elizabeth Cullen.
Eu olhei fixamente para aquele nome, sentindo meu mundo girar. Elizabeth Cullen. Não era um nome qualquer. Era um nome que eu reconhecia.
– Elizabeth Cullen – sussurrei, mais para mim mesmo do que para eles.
Helen observava com cautela, como se temesse o que eu faria em seguida.
– Essa... Essa é a sua mãe biológica – disse ela com a voz baixa, cheia de cuidado.
Eu mal podia acreditar. Elizabeth Cullen era real, e agora eu sabia o nome dela. E, de alguma forma, isso parecia mudar tudo.
Narrado por Joseph
O caminho de volta para casa foi um borrão. Eu mal ouvi o que meus pais diziam, minha mente estava presa no nome que agora ecoava como um mantra: Elizabeth Cullen. Quem era ela? Por que me deu para adoção? E por que agora, depois de todos esses anos, parecia tão urgente saber tudo sobre ela?
Assim que chegamos em casa, saí do carro antes mesmo de Mark desligar o motor. Helen chamou meu nome, mas eu já estava entrando, subindo as escadas rapidamente. Quando cheguei ao meu quarto, fechei a porta com força e me joguei na cadeira diante do computador.
O nome Elizabeth Cullen piscava na minha mente como um letreiro de neon. Com as mãos tremendo, digitei no campo de busca. Inúmeros resultados apareceram, mas antes que eu pudesse começar a explorar, uma batida na porta me interrompeu.
– Joseph? – Era Helen. – Podemos conversar?
– Não agora! – respondi, a voz mais alta do que pretendia.
A porta se abriu lentamente, e Helen e Mark entraram.
– Filho, sabemos que está confuso – disse Helen, sentando-se na beira da cama. – Só queremos ajudar.
– Ajudar? – perguntei, girando na cadeira para encará-los. – Ajudar como? Vocês conheciam ela? Sabiam alguma coisa?
Mark balançou a cabeça, cruzando os braços.
– Não sabemos nada sobre ela diretamente, mas... conhecemos esse sobrenome. Cullen.
Minha testa franziu.
– Como assim?
– Existe um hospital em Seattle – explicou Helen. – O Cullen Medical. É famoso, e o sobrenome pode não ser uma coincidência.
Isso só aumentou minha curiosidade e, ao mesmo tempo, meu desespero. Voltei para o computador e continuei a digitar, ignorando a presença deles por um momento.
Finalmente, depois de algumas tentativas, encontrei algo. Uma conta em uma rede social. Elizabeth Cullen. Havia poucas fotos públicas, mas uma em particular me fez parar. Lá estava ela, uma mulher bonita com longos cabelos castanhos claros e um sorriso que parecia conhecido de um jeito que eu não conseguia explicar.
Meus olhos se encheram de lágrimas enquanto eu olhava para a tela. Era minha mãe biológica. Aquela que me deixou.
– Por quê? – sussurrei, minha voz quebrando. – Por que ela me abandonou?
Helen se aproximou, colocando uma mão em meu ombro.
– Joseph, você não sabe o que aconteceu. Pode haver muitos motivos.
– Ela parece rica – falei, apontando para as fotos dela em lugares caros, com roupas elegantes. – Se ela tinha tudo isso, por que me deixou?
As lágrimas escorriam pelo meu rosto, e Helen me puxou para um abraço.
– Filho, não é porque alguém tem dinheiro que a vida é simples – disse ela com ternura.
Mark se aproximou, ajoelhando-se ao meu lado.
– Nós não podemos responder a essas perguntas, Josh, mas estamos aqui por você. Sempre.
Eu chorei no ombro de Helen, sentindo uma mistura de raiva, tristeza e confusão. Por mais que os Reed fossem meus pais em todos os sentidos que importavam, não havia como evitar a necessidade de descobrir quem era Elizabeth Cullen e por que ela decidiu me dar para outra família.
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