Pagã

4 Demônios jogam os dados, anjos reviram os olhos


Notas iniciais
Então, não sei se alguém lê ou se lembra dessa fanfic. Mas eu leio e lembro dela e amo essa fanfic. Mas aqui vai o aviso: Eu estou revisando ela. Estou adicionando coisas que julguei que faltavam no capitulo para vocês entenderem, reescrevendo de uma forma que as coisas nos outros capítulos fiquem mais claras, entrando em detalhes em outros e tornando essa fanfic menos ansiosa. Recentemente comecei a fazer tratamento para o meu transtorno de ansiedade e percebi que a minha ansiedade era refletida nas minhas histórias e escrita; o que, eu creio, tornava difícil as pessoas entenderem. Daí relendo eu fui escrevendo e deixando mais clara para a minha mente lúcida e sem ansiedade. Eu percebi que faltava um capítulo entre o antigo capítulo 4 e escrevi esse, que, creio eu, vá ajudar a vocês entenderem bastante coisas e já criar o desenvolvimento dos casais. Eu demoro a postar, até porque estou no final da faculdade fazendo TCC e trabalhando em laboratório. MAS EU POSTO!!!! Só demoro kkkkkkkk rindo com respeito. Eu nunca desisto de uma fanfic (Esboroar, minha outra fic do Naruto, bem entende). Eu passei por uns problemas pessoais, por isso sumi. Mas eu revisei tudo, até a sinopse e dei os meus pulos. SUGIRO RELER TUDO, tá bem melhor e mais fácil para vocês entenderem. É isso. PS: Desculpa, não sei escrever capítulo pequeno. OBS: A cada início de POV, costumo colocar a primeira palavra em NEGRITO. Só para ajudar vocês na leitura do POV da Ino. SÍMBOLOS USADOS NA FIC E SEUS SIGNIFICADOS: »»×»» Quebra de tempo muito grande »» »» »» Quebra de tempo em minutos ou horas «»×«» Quebra de tempo curta »»»»ↄ«««« Mudança de pov

“Suas palavras na parede enquanto você reza pela minha queda

E as risadas nos corredores

E os nomes que já me chamaram

Eu os guardo comigo e espero pelo momento

Em que vou te mostrar como é ser definido por palavras jogadas ao vento

Te dizem: Você é o melhor

Mas quando vira as costas, eles nos odeiam

Uh, o sofrimento

Todo mundo quer ser meu inimigo

Poupe a compaixão

Todo mundo quer ser meu inimigo”

Enemy – Imagine Dragons

SAKURA

COM a bochecha apoiada na minha mão direita, estudo tudo ao meu redor catalogando as energias de cada um na sala. Hoje o dia está tedioso e calorento, e eu não sou a única a achar isso. Observando Hinata informando as atividades e novidades da semana, somente a notícia do novo professor de matemática me agrada. Desvio minha atenção para a árvore do pátio, as flores rosas já estão morrendo – igual a minha vontade de ver aula hoje. Antigamente costumava observar diariamente o ciclo das flores nascerem, crescerem e morrerem com certo fascínio moribundo. Lembro que fazia anotações sobre qualquer anomalia e para que serviam, Satomi me ensinou tudo que sabia sobre a utilização de ervas, flores e plantas para rituais e remédios. Talvez esteja sentada há anos no mesmo lugar, olhando para a mesma árvore, uma Faia, porque isso me aproxima dela de certa forma. É como se ela ainda estivesse aqui e só eu que não consigo vê-la ou encontrá-la.

A porta bate com força devido a ventania que entra pela minha janela, meu cabelo voa para todo lado. Ouço gritinhos histéricos e risadas altas, um belo caos. Da mesma forma que surgiu, inesperada, a ventania cessou. Procuro as meninas pela sala, Ino está do outro lado da sala tirando a manta amarela, que ela chama de cabelo, do rosto; Hinata abre a porta vermelha de vergonha e fala algumas palavras com alguém lá fora. Os professores separaram a gente por causa do surto do diretor, que organizou todas as turmas e as salas por ordem alfabética – odiei isso, não é assim que se surta. Nós três estamos separadas porque o louco acha que iniciais parecidas devem sentar com iniciais parecidas; quando não tem, ele junta as iniciais próximas que sobraram, tipo Hinata e Kiba.

Hinata volta para sala acompanhando um grupo de cinco adolescentes, entre eles está o garoto que vi alguns dias atrás com Tenten no shopping. Até às 7:40 da manhã o garoto consegue estar impecavelmente bonito. Hinata indica o espaço vazio na frente do quadro e caminha apertando as mãos, ansiosamente, até o professor.

Meu olhar volta para o menino, que me encara fixamente. É incontrolável o sorrisinho tímido que surge em mim, a beleza dele é tanta que chega a ser desconfortante. Desvio o olhar depois de alguns segundos de trocas de olhares intensos. Eu sou bonita, sejamos francas, mas nunca consegui atrair o olhar de pessoas como ele; perto dele eu sou aceitável.

O professor aponta para o local que eles devem sentar, segundo a ordem do maluco do diretor. Hinata passa a se sentar com um novato chamado Gaara, Ino com Kiba, Shikamaru me abandona e senta com o sumido do Rock Lee, Tenten finalmente arranjou uma parceira e quebrou a tradição de se sentar somente com meninos. Perdi meu fiel companheiro de soneca, agora estou sentada com o garoto do shopping.

Para constatar, pessoas são como Usinas Nucleares, emite energia que segrega as vezes o que estão sentindo e o que acham sobre mim ou qualquer outra coisa. Possuo a incrível habilidade de captar isso, como um radar de avião. Às vezes, devido a quantidade de energia que aquela pessoa emite, estar fraca, ou quando estou em um local cheio de pessoas; costumo sentir a energia das pessoas como se fossem minhas, o desejo por alguém, a tristeza por uma perda, a felicidade por comer aquela comida são coisas que sinto. Quando não estou preparada ou há muitas pessoas e consequentemente muita energia, uma dor lacerante atinge a minha cabeça e fica por horas a fio.

Um dos meus passatempos favoritos é catalogar as pessoas pelo que elas emitem, claro que onde há poucas pessoas e não me faça passar mal. Hinata, por exemplo, é algo acanhado e quase imperceptível, se bem que ultimamente vem sendo cada vez mais perceptível sentir a sua presença. Outro exemplo bom é a Ino, que sempre teve uma energia viva e ultimamente é quase um gás de vida para qualquer coisa; como se viver fosse a coisa mais maravilhosa do mundo.

O que me trás para o garoto que acaba de sentar ao meu lado. Esse garoto é diferente, é como se ele fosse um buraco negro, ou um morto – na verdade até morto possui um tipo de energia especifica, por isso sempre consigo acha-los e sentir sua presença mesmo sem vê-los. É como se ele fosse uma sombra no canto da parede, existe e ao mesmo tempo não é algo… Com traço vivo, sabe? Que é uma coisa da terra sem vida, como as sombras. Um efeito da terra. No entanto, existem, consigo ver com os meus olhos ele, submerso nesse vazio, e as sombras dos objetos.

— Oi. – cumprimento sorrindo e, de forma burra, erguendo a mão.

— Hm. – o cérebro dele ainda não acordou?

— Meu nome é Sakura Haruno. – como resposta ele finalmente me olha. – Sasuke, né?

— A neta de Satomi. – pelo menos uma frase.

— Isso. – aprendi a não responder sorrindo, por via das dúvidas costumo responder seria. – Sou eu. – quando ele fica em completo silêncio, optei por acrescentar uma informação. – Nos conhecemos no Shopping, quando você estava com a Tenten.

— É, boa memoria.

— Sou quase um HD de computador.

— É de familia?

Estranhamente é algo familiar, temos uma memória invejável que grava tudo desde estudos até receitas. Falam que faz parte da nossa maldição, já que os outros parentes de Satomi não possuem tal memória. O deus da vingança lançou isso na “maldição” para que ela nunca se esqueça o porquê de ser amaldiçoada – é o que eles dizem nos inúmeros boatos sobre ela.

— Sim.

O novo professor de matemática entra na sala e eu juro que é como se a sala ficasse mais leve e feliz. Talvez seja porque ele é extremamente belíssimo, como a fusão de todo ser masculino bonito em um homem só. Kakashi Hatake, até seu nome soa bonito. Sua voz melodiosa é como a de um deus e todos ficam em silêncio ouvindo ele falar de matemática como se fosse a coisa mais maravilhosa do mundo.

— Você faz alguma atividade extracurricular? – sua voz plácida quebra a magia da voz perfeita do senhor Hatake e leva a minha atenção até ele, o ser peculiar ao meu lado.

— Sim. – sussurrei sorridente, o professor é tão absurdamente bonito. – Muay Thai e informática. – nada, nem uma variação nele ou qualquer coisa. Sua aura continua um lago no breu de um eclipse lunar. Ele é só uma sombra macabra. – Você já sabe o que deseja fazer?

Optei por completar a resposta após o silêncio, para não morrer o assunto e também porque ele é estranho e me instiga a saber mais dele. Será que ele irá demonstrar algo? Ou será eternamente um breu?

— Sim. – e essa é a sua resposta, passa minutos e ele não completa ou diz qualquer coisa.

Ele é bonito, de longe o garoto mais bonito que já vi na minha vida, mas… Há algo estranho nele, além dessa áurea e uma vozinha gritando para ter cuidado com ele, que não é flor que se cheire; alguma coisa escondida nas sombras dele, algo mortal. Deveria ouvir essa voz, deveria pedir para trocar de parceiro, deveria me afastar, deveria matar minha curiosidade.

Mas ele é instigante, como se eu fosse um homem e ele uma sereia; seu canto seria esse breu e os seus olhos, seus malditos olhos que lembram uma Obsidiana Negra. Eu quero saber mais dele, saber porque ele é diferente e o que o tornou assim. E também ele está batendo o dedo na mesa no ritmo de It's Time do Imagine Dragons e ele está sussurrando umas partes da música, é a minha música favorita e eu sei fazer essa mesmíssima coisa. Ser bisbilhoteira é o meu mal e o meu traço tóxico.

— Gosta de Imagine Dragons? – sussurro acanhada.

— Não sei quem é.

— A banda que toca essa música que você está cantando.

— Não faço a mínima ideia do que você está falando, eu estou calado.

— Ah. – eu não sou louca, pelo menos não completamente e nem esquizofrênica para ouvir e ver o que não existe. – É que eu achei.

— Exato, achou. – ele me interrompeu impaciente? – Suposição não realista. – essa coisa me explica como se eu fosse uma criança de dois anos.

— Oh! – sem querer elevei bastante o tom da minha voz, o que acarretou em alguns olhos em nós.

— Você é sempre tão… chamativa assim?

— Por que eu sinto que você se esforçou para ser legal? – a pergunta brota de dentro de mim como uma erupção vulcânica, inesperada e veloz.

— Pelo visto não me esforcei o suficiente.

— Realmente, não se pode obrigar o burro a ser um garanhão. – dizendo isso, volto a minha atenção para a aula.

Outro traço tóxico meu, sou orgulhosa. Posso estar levando pedrada, mas não levarei pedrada parada como uma boneca de porcelana. Minha vó me educou a revidar, a não baixar a cabeça e que se eu chegar em casa sem ter batido, irei ser castigada. Uma vez uma garota me mordeu e eu não fiz nada, quando cheguei em casa Satomi me mordeu por não ter mordido a menina. Depois disso passei a morder quando me mordiam – e isso não é sobre mordidas.

— Interessante. – mesmo tendo ouvido, ignoro o garoto ao meu lado completamente, até ele claramente cantando músicas do Imagine Dragons.

Eu sou uma égua premiada e só devo me relacionar com garanhões, vovó vivia dizendo isso para mim – e continua soando estranho, não sei porque continuo falando essas coisas doidas de Satomi. Ino me fez prometer que nunca mais iria dizer isso em voz alta, porque era bizarro e eu claramente estou para um faisão – que literalmente significa ave colorida de penas curtas, aquela escrota.

Durante toda a aula de matemática ignoro os sons que ele imite ao tentar chamar a minha atenção, é isso ou ele está com um problema seríssimo na garganta. Guardo o meu material dentro da minha mochila rosa, papai comprou porque disse que lembrava a cor do meu cabelo e ele estava tão feliz quando me deu, que eu uso já faz uns quatro anos.

Antigamente eu tinha certo problema de autoestima por causa da cor natural do meu cabelo e das perucas que usava para esconder. Não adiantava pintar, porque destruía meu cabelo e a cor voltava mais viva do que nunca e mais rápido do que o esperado; como se fosse uma maldição mesmo. Mas vovó me ensinou a gostar do meu cabelo, a gostar de mim por inteiro. Serei eternamente grata a ela por me salvar de mim mesma, dessa versão cruel que eu tinha dentro de mim e me botava para baixo todo segundo.

Puxando o dinheiro do bolso da frente, evito trombar com Sasuke Uchiha. Vovó talvez tivesse razão em relação aos nomes e Sasuke Uchiha é um nome de prelúdio de problemas. Satomi vivia dizendo que o nome Uchiha era amaldiçoado, não ela. Creio que qualquer pessoa com o sobrenome de um deus “pagão” nessa sociedade é amaldiçoado, ter que aguentar pessoas intolerantes realmente é uma maldição horrenda.

Aproveito a muvuca para sair da sala e fujo dele e das perguntas nada discretas que as alunas fazem sobre ele. Gente, literalmente há outros novatos, mas todo mundo só quer saber do rostinho bonito ao meu lado.

Descendo as escadas no meio da muvuca, o que odeia, chego suada – tem partes que não são minhas – e cansada no refeitório, o caos dos minutos iniciais da cantina me levam a caçar Ino e Hinata. Como de costume, Ino está sentada embaixo de uma árvore do pátio, aproveitando a brisa e o cheiro de terra molhada. O que chama a minha atenção é o Cheetos roxo dela, aquele que vem três tipos de Cheetos em uma única embalagem, e seu guaravita geladinho.

—Cadê Hinata? – pergunto assim que sento.

— Também estava com saudades de você Sakura, estou ótima. – Ino estende o saco de biscoito para mim.

— Garota, a gente se viu e conversou não tem nem quatro horas. Tá tão carente assim?

— Me respeitem. – sua unha meticulosamente perfeita e roxa é apontada para o meu rosto.

— Cadê Hinata? Tenho que perguntar se ela me dá uma carona. – emendo após sua sobrancelha esquerda erguer, eu ainda acho um barato essa capacidade dela de levantar uma sobrancelha só.

— Momento dela. – e isso basta para mim.

Todos precisam de tempo para si, para ficar sozinho na própria companhia. Eu tinha certa preocupação com isso, até ela me explicar que só precisava de uns segundos para respirar e recalcular a rota. Respeito isso, é uma escolha dela – que eu não concordo, mas respeito.

— E? – Ino pergunta maliciosa, o que ela pergunta eu não sei.

— O que? – pego mais um biscoito dela após a pergunta. Rikudou disse para dividir a comida.

— Como o Sasuke é? Todas as meninas com quem conversei estão com tanta inveja de você.

— Grosso! – novamente elevo a minha voz por culpa daquele ser.

— Que? – Ino franze o rosto todo ao exclamar descrente.

— É grosso e bem estranho. – agora quem aponta para o rosto sou eu. – Tu me fica longe dele e daqueles germes estranhos dele, divido comida contigo e não quero os germes dele.

— Sakura, minha filha, não é isso que a população quer saber sobre ele.

— Mas é a verdade. – pego mais dos cheetos de requeijão.

— Por isso somos excluídas. – seu dedo aponta para mim em uma virada de humor das duas. – Somos francas demais.

— E isso é bom. – sorrindo inocentemente para ela, pego e bebo um pouco do seu guaravita.

— Como vamos para as festas legais do último ano escolar sem termos colegas?

— Eu tenho colegas, não sei do que tu tá falando.

— Colegas que dão festas memoráveis. – suas mãos agarram a minha camisa alinhada e impecável, ainda, pelo TOC de mamãe. – Nós combinamos que esse ano ia ser nosso e memorável.

— Ai, – tiro suas mãos sujas de Cheetos de mim. – tá bom.

— Vá se socializar com ele. – sua mão faz um movimento para que eu me levante e vá atrás do Sasuke Uchiha, que entrou na quadra de basquete não tem nem dois minutos.

Não é que eu sinta a presença dele, ou coisas do tipo. É que havia uma verdadeira legião atrás dele e dos amigos, como seguidores fiéis.

— Tá. – a contragosto faço o que ela pede.

Vou atrás do garoto que me irritou somente para Ino ir em festas, que fim horrendo o meu. Tento desfazer a minha cara de cu antes de abrir a porta da quadra, me arrastei por metade do caminho como um zumbi. Abri somente uma frestinha da porta para poder contar até dez antes de entrar. Sou surpreendida assim que entro, estranhamente a quadra está cheia de grupinhos; mais grupinhos do que costuma ter. O meu alvo está apoiado na mureta da arquibancada agarrado a bela menina da 302, Chino, por pouco ela teria a incrível sorte de ter ele na sua sala.

Há ao total três turmas do terceirão, a minha é a 303, mais conhecida como Os Restantes, ou Os Esquecidos; quase nunca tem coisas boas na minha turma, por ter poucos alunos e a maioria ser bolsistas como eu. As outras duas turmas se acham superiores e a maioria dos populares é da 302. Como a Chino, que é conhecida por ser “a dona” da escola.

Respiro fundo e marcho em direção a eles. Sasuke parece um rei estudando a sua população, até que eles formam um belo casal – ambos lindos de morrer e com cabelo hidratado e brilhante. Não sei muito bem o que irei falar com ele, a ideia que surge enquanto caminho até ele é começar do zero.

— Sakura, que bom te ver aqui. – Guy surge entre Sasuke e eu, estava a poucos passos dele. – Já ia atrás de você para falar sobre a próxima aula de Muay Thai.

Lee é o responsável para passar as informações envolvendo as aulas de Muay Thai, mas como ele vem faltando dias seguidos, como a vice-sei-lá-o-que quem está encarregada de avisar os alunos sou eu.

— Ah, tudo bem. Eu só tenho que resolver uns assuntos aqui e falo com o senhor.

— Aquela é a Sakura, – Sasuke sabe quem eu sou. – a avó dela se suicidou e dizem que ela é desequilibrada como a avó. – a filha da puta fala alto o suficiente para que eu possa ouvir. – Todo mundo suspeita de um suicidio quando ela falta, sabia?

Se eu não fosse acostumada, e o professor Guy não me segurasse e me arrastasse pelo caminho ao qual percorri, eu teria mostrado para ela o meu lado desequilibrado.

— Você não é o que os outros dizem maldosamente sobre você. – ele diz me empurrando para fora da quadra.

— Eu sei disso. – minha avó vivia dizendo a mesma coisa.

Satomi acreditava que eu deveria me fortalecer de dentro para fora, então para ser a melhor versão de mim, eu tinha que gostar de mim antes – do lado feio e imperfeito, o pacote completo. Ela começou essa abordagem depois de um tempo, dizendo que nem sempre poderia me ajudar e que eu deveria saber o que é verdade e o que é boato malvado. Ela estava certa, infelizmente não terminou essa parte crucial do seu treinamento. Então vez ou outra eu soco a cara babaca de um ser burro o suficiente para falar mal da minha vó e de mim na minha frente; eu não tenho sangue de barata.

— Guarda essa raiva para o treinamento, minha galinha premiada. – isso não é nem ofensa, até porque o Lee é chamado de Galo premiado e mais coisas estranhas. – Temos um grande torneio chegando e você não pode ser eliminada devido a brigas escolares. A.

— Sua raiva é o seu maior ponto fraco, é para você controlar ela não o contrário. – termino a frase que ele vive me dizendo.

O professor Guy é estranho e tem um grande monesselão? Sim, sem sombras de dúvidas ou margens para contestar as minhas palavras. Mas ele é o único ser de coração bondoso nesse inferno de escola particular. Onde os outros julgam, ele ajuda; onde outros vêem uma causa perdida, ele vê alguém claramente necessitando de ajuda. Ele me ajudou quando precisei e serei eternamente grata a ele e ao ser que habita onde ficaria suas sobrancelhas.

Amo ele, mas essas sobrancelhas às vezes me assustam e eu acho que elas têm vida própria. Mas só os seus alunos podem achar isso, o resto vai sentir a fúria da juventude da galinha premiada.

— Exato, minha galinha premiada.

— Nós podemos ofender os alunos agora? – o professor sexy de matemática questiona Guy com diversão brilhando em seus olhos.

— Claro que não. – o professor de matemática aponta para mim. – É algo de pupila e sensei, Sakura – seus braços finalmente me libertam. – é a minha aluna mais premiada e empenhada.

— Muito prazer em conhecê-la, premiada. – fico rindo desconcertada por causa da sua voz rouca e seu olhar para mim. – Bem… Normal, creio eu.

— Vez ou outra que ela buga, mas tudo bem. – o tapa de Guy em meu ombro me empurra levemente para longe da porta. – O que você quer, professor Hatake? – parece o meu futuro sobrenome, Sakura Hatake.

— Bem, eu ainda não conheci a escola e os alunos e me falaram que você sabe de tudo daqui.

— Porque sou o melhor professor daqui. –Guy dá um daqueles sorrisos “charmosos” dele.

— Porque você age como se ainda tivesse a idade deles. – eu prendi a risada, mas não deu para prender o som que tal ato provoca.

Guy lança um olhar levemente psicótico para mim. O que me faz ter a resposta rápida de fugir e com a desculpa boa de sempre.

— A Hinata está me chamando, adeus. – desato a correr pelo pátio em direção a Ino.

A verdade é que não vi Hinata pela metade do recreio e estou desesperada para saber com quem irei pegar carona. Meus pais se negam a comprar outra bicicleta para mim desde que ela foi destruída por um caminhão, estou vindo de carona com Ino e sua bicicleta roxa chamativa. Mas hoje Hinata chegou atrasada e isso é sinal de que ela veio de bicicleta, ela só vem de bicicleta quando perde a hora.

O sorriso esperançoso da Ino me deixa levemente triste, ela realmente está contando comigo e eu sequer falei com ele. Coçando o pescoço, me aproximo lentamente dela. Tenho que dar um jeito nessa cagada que fiz.

— E? – sequer sentei antes dela perguntar.

— A Chino estava agarrada no pescoço dele.

— Faz sentido. – sua mão bate no banquinho com o saco de biscoito e tudo. – Eles manipulam tudo a favor deles, aqueles monstros da 302.

— Eu não tive a menor chance. – internamente estou sorrindo de felicidade, externamente finjo estar triste.

— Tudo bem, amiga. – isso! – Você pode falar com ele durante as aulas. – merda!

Forço um “eh” nada feliz em resposta. O resto do recreio passa com Ino contando os seus planos para conquistar os novos alunos e ser chamada para festas. E eu só fico comendo o Cheetos que ela não quis mais, até que foi bom.

A volta para a sala, no entanto, foi bem interessante. Enquanto Ino ia no banheiro, fiquei esperando ela no corredor e quando reconheci a voz de Sasuke por perto, decidi ir ajudar o plano de Ino. Espiei o corredor para me certificar que a garota da 302 não está colada nele e, sorte ou azar, não está. Novamente respirei fundo três vezes, contudo, o teor da conversa me impede de seguir adiante com o meu plano – da Ino.

— Eu tentei, eu me esforcei ao máximo em ser sociavel e ouvi asneira dela. – Sasuke é aquele tipo de pessoa que tem o mesmo tom de voz para tudo, até para reclamar. Não acredito que Chino conseguiu ser desagradavel assim em minutos. – Ela me chamou de burro!

Opa, é sobre a pessoa maravilhosamente perfeita e incompreendida aqui. Eu tive os meus motivos e razão – só para constar. Depois de ser citada, aproximei o meu ouvido para mais perto do outro corredor. Me interessei deveras na conversa deles.

— Não fica assim, nem todo mundo entende essa sua cara de cu e mal humor. – obrigado desconhecido.

— Eu juro que vou arrancar as suas tripas e espalhá-las pela cidade. – irei aderir essa frase com Ino, só para deixar anotado.

— Também te amo, amigo. – o amigo dele tenta alguma coisa que resulta em um tapa estalado e forte pelo eco que dá. – To aqui para o que você precisar, princeso.

— Vai a merda.

— O que? Talvez seja por isso que ela não gosta de você, reclama de tudo.

— Ela me odiou desde que me viu! – ele fala com tanta convicção que até eu acreditei por uns segundos, na verdade eu senti tesão. – Eu achei que seria fácil me aproximar dela quando a vi no shopping, mas não é!

Agora estou me questionando se fui grossa ou muito ríspida com Sasuke, é que são dez horas da manhã e eu estou cagada de sono. As pessoas perdem o controle de si mesma quando com sono, poxa.

— Sakura, certo? – acredito que o meu grito foi ouvido na escola toda. O susto foi tanto que cheguei a pular e bater na quina da parede. – É feio espiar conversa alheia.

— De onde que você surgiu? – toco em meu coração para ver se ainda estou viva, foi um susto daqueles.

— Daqui. – o garoto novo, de cabelo vermelho, indica o corredor logo atrás.

— Não se faz isso. – apoio as mãos no joelho e respiro fundo umas quatro vezes enquanto tento acalmar o meu coração galopante.

Eu nunca tomo sustos na minha vida, sempre sei quando tem pessoas me olhando ou se aproximando; é o meu famoso sentido aranha, ou, segundo Satomi, parte dos meus dons . Porém, eu não sinto nada em relação a ele; só uma curiosa sensação de familiaridade. Esse é o meu primeiro susto em anos e a primeira vez que o vejo na vida.

— Sakura. – Sasuke me chama.

Estou encurralada entre a cruz e a espada, só que eu sempre estou encurralada entre a cruz e a espada. Por isso a minha reação é rápida e eu já invento uma desculpa. Comigo é bate e volta em segundos, a vida não tem muitas chances de me humilhar – e eu me orgulho disso.

— Estamos atrasados para a aula, por gentileza, todos para a sala de aula antes que Hinata sofra punições por nossa culpa. – falei tão séria esse caó, que o loirinho realmente acreditou e arregalou os olhos.

— Vamos, não quero prejudicar Hinata. – dizendo isso ele agarra a manga da blusa de Sasuke e sai arrastando ele pelo corredor, como se fosse uma criança levada sendo arrastada pela mãe impaciente.

— Bonitão, para sala já. – indico a direção da sala tentando não rir da minha cara de pau. Eu estou de parabéns.

— Bonitão? – que legal, ele consegue erguer uma sobrancelha só que nem a Ino.

— Hum… É. – meu sorriso malpropício o faz repuxar um dos lados dos lábios.

— Não esqueça de avisar isso a sua amiga no banheiro.

— A Ino, droga! – desato a correr para o banheiro, para minha sorte Ino está apoiada perto da porta rindo com a mão na boca.

— Punição? Sério? – ela indaga entre risos.

— Momentos desesperadores pedem medidas desesperadas. Vem, – estendo a mão para ela. – vamos fingir que o que eu disse era verdade.

— Mentirosa sinistra. – sua mão bate na minha.

Rindo voltamos para a sala, onde todos, exceto nós duas, já estavam sentados e com os cadernos abertos. Sasuke me dá uma brecha para sentar no meu lugar – perto da janela. As suas palavras tocaram em uma parte em mim que eu gosto e não gosto. Outro traço tóxico meu é que tenho muita empatia pelo próximo. Talvez seja porque eu literalmente sou uma empata, mas nunca se sabe. O mal da empatia é que caso você tenha demais, você passa a condenar atos seus, mesmo os certos e os de defesa. Vovó avisava para ter cuidado com esse lado do meu dom; que ao mesmo tempo que é um grande trunfo meu, é o meu maior ponto fraco.

Passo o resto da manhã esperando a oportunidade perfeita para puxar assunto com ele e recomeçar do zero. Porém, não consigo um segundinho sequer. O dia passa tão rápido e atarefado, que quando o sinal toca e, todos saem rápido da sala, eu fico para trás para poder terminar de escrever o que está no quadro.

Depois de uns oito minutos, jogo tudo dentro da mochila e desato a correr atrás das meninas. Antigamente podia se esperar o amigo na sala de aula, mas a professora nojenta de religiões proibiu isso e agora os alunos devem se virar para esperar os colegas na hora da saída.

Procuro elas no lugar de sempre, embaixo da enorme Faia do pátio; mas não as encontro, a bruxa deve ter passado por aqui e expulsado elas. O segundo lugar é longe e terei que correr para chegar lá antes que seja tarde. O estacionamento da escola fica depois do pavilhão azul e do refeitório, é uma caminhada gostosa – para não dizer o contrário – até lá.

Por isso desato a correr igual uma louca, com a mochila saltitando nas minhas costas. Subo escada, desço, entro dentro dos prédios, saio desvairada e quase não consigo parar de correr quando chego no estacionamento, literalmente tive que segurar em uma pequena árvore e parar no meio fio. Porém, fiz todo o percurso em um tempo recorde de quatro minutos; sim, eu contei pelo meu relógio de pulso. Estou ofegante e com sede, mas bati um recorde que disputei comigo mesma.

Meu braço é puxado bruscamente para trás, o que faz o meu corpo voar de encontro com o corpo esguio de Sasuke Uchiha. Minha cabeça bate na altura do ombro dele, para olhar o seu rosto sou obrigada a erguer a cabeça.

Estudando cada micro detalhe dos meus olhos, Sasuke está a centímetros do meu rosto. Só a sua altura o impede de estar com o rosto colado ao meu. Nossas respirações ofegantes se cruzam em uma só enquanto seu olhar continua fixado nos meus olhos, ele sequer pisca. Minhas bochechas esquentam e espero que seja pela corrida que fiz, e não por causa do seu olhar hipnotizante.

— Cuidado. – dizendo isso roucamente, Sasuke larga o meu antebraço e se afasta como se nada tivesse acontecido.

Fiquei minutos olhando dele para o local ao qual eu seria arremessada pelo carro. Não foi a quase morte que me deixou catatônica, até porque sempre andei lado a lado com a morte; a verdade é que a morte é praticamente familiar para mim. Foi a pequena e rápida variação nele, uma luz fraca e tímida na escuridão. Um vagalume vermelho em um breu crescente.

Durante toda a minha vida eu observei pessoas, estudei elas e suas áureas. Passei tanto tempo nisso, que acabei ficando boa em ler tudo ao meu redor. Eu tenho certo fascínio moribundo por quem as pessoas realmente são, não o que aparenta. Vi tudo conte coisa, mas nunca ninguém como ele. Ainda não sei o porquê, ou o como, mas esse garoto é diferente. É como se ele fosse uma sombra assustadora em um dia chuvoso, só que aí surge um relâmpago rápido na equação e tudo que há é um gatinho assustado e desejando ser acolhido. É dois em um aparentemente.

Vendo-o caminhar majestosamente para a saída do estacionamento, me pego sem saída. Droga, agora quero observar ele para saber o que ele é. Mesmo ele sendo levemente mal humorado.

»»»»ↄ««««

“Às vezes, eu sinto que todo mundo é jovem e atraente

E eu sou um monstro na montanha

Grande demais para sair por aí, lentamente cambaleando até sua cidade favorita

Com o coração perfurado, mas nunca morto”

Anti-Hero – Taylor Swift

HINATA

RESPIRO fundo mais de dez vezes, odeio essas parte da minha função como representante de turma. Ficar na frente de inúmeras pessoas me apavora, me causa uma avalanche de ansiedade e ataque cardíaco; chega a dar dor física. Como não temos muitos alunos novos, raramente faço isso. Só que hoje se superou, mais de um; valeu por cada ano que não tive que fazer isso.

O som assustador surge logo atrás da porta do zelador, gemidos sofridos misturados com pedidos de ajuda. Eu não quero sair daqui, é o meu local seguro; deveria ser seguro contra isso também. Faz alguns dias que as coisas não são como eram, está fugindo do normal. Primeiro eram gemidos baixos, depois algumas palavras desconexas gritadas ao vento e então essas pessoas surgem e somem de repente, como se fossem neblina.

Eu vi muitos filmes de terror ao longo da minha vida, Ino é vidrada neles, e eu sei bastante coisa. São espíritos tentando falar comigo, é isso ou estou ficando louca de vez. Desde pequena sentia coisas, via vultos e pressentia alguns acontecimentos, mas eram coisinhas pequenas que não me afetavam e outras pessoas tinham. Mas isso, o que vem acontecendo comigo, ou estou esquizofrenia, ou ficarei possuída por algo.

Hoje de manhã vi claramente minha professora de artes do nono ano, que morreu há três anos, pedindo para ter cuidado com os anjos. Enquanto vinha para a escola presenciei uma cena perturbadora de um homem ser atropelado, arremessado para o alto e em seguida bater no chão com um som nojento; eu gritei de horror e tampei os olhos de Hanabi. Quando todos ficaram me encarando como se eu fosse louca e nada horrorizados, foi quando percebi que era uma dessas cenas loucas de filme de terror.

São cenas rápidas e que a cada dia piora e aumenta. Eu não quero ser louca, ou esquizofrênica; já é difícil não sendo isso, imagina sendo. O meu ex me chamava de louca, dizia que eu via coisas onde não tinha e isso tornava difícil a convivência comigo. Claro que ele não falava dessas cenas, mas se antes já era difícil conviver comigo, imagina agora com essas cenas. Eu tenho pavor de estar sozinha novamente, não quero perder Sakura e Ino por culpa de loucuras minhas. A vida já é difícil com elas, imagina sem.

— Ei, tudo bem com você? – faz tempo que não ouço essa pergunta, porque eu fiquei muito boa em esconder de todos tudo o que eu sinto. Não quero preocupar os poucos amores que ainda tenho e me tornar um problema inconveniente.

— Sim. – respondo baixinho, com o peito ainda contraído de medo e as mãos tremendo.

— Não acredito em você, mas darei o benefício da dúvida. – estou com a sensação novamente de que sou um problema e estou incomodando esse garoto. – Sabe, tá tudo bem não estar bem, ninguém consegue ficar bem todo santo segundo. – mas eu tenho que estar bem, sempre. Se ficar mal uma sucessão de problemas podem surgir na minha ausência. – Claro, a exceção são os filhotes. Eles sempre estão felizes.

— Eu realmente estou bem, eu só. – estou cansada de tanta estranheza, problemas e louquice.

— Precisa de uns segundos, de todo esse caos que é a vida. Tô certo?

— Sim. – minha resposta poderia muito bem ser considerada um suspiro de cansaço.

— É bem complicado esse negócio de vida. – sua risada me alegra momentaneamente, é estranhamente contagiante. – Na infância achamos que crescer é a coisa mais legal do mundo, que a vida é fácil, e, quando finalmente crescemos, a vida fica assustadora e fora do nosso controle.

— É isso. – e mais um pouco. – Eu só queria que a vida pegasse mais leve comigo.

— E esses momentos de fuga são para isso, certo? Respirar e ter um tempo longe do caos. – sim; mas não digo isso nem para as minhas amigas, por que falaria para um estranho? Em vez disso, fico em silêncio. – Às vezes eu tenho a sensação que a vida parece gostar de brincar comigo, de que eu sou o soldadinho favorito dela e por isso passo por bastante aprovações e bizarrices.

— Esse é um bom jeito de descrever e ver a vida.

— Alguém tem que desmascarar essa safada, não? – minha risada é espontânea, a forma que ele diz “safada” soa engraçada para mim.

— Sim, alguém tem que falar a verdade sem temer as artimanhas dessa safada. – tento imitar a sua forma engraçada de dizer.

Pela primeira vez na vida, fico feliz de não estar sozinha nessa hora, não me sinto incomodada por ter alguém ao meu lado nessa hora. Ele é como um dia ensolarado, afastando todas as nuvens carregadas e deixando o frescor do dia e da vida.

— Sabe o que a gente pode fazer?

— Lutar contra a vida? – suspiro cansada, sempre ouço isso.

— Não. – que? – Parar para comer. – que? – Aí depois de descansar e digerir a comida, lutar contra a safada da vida.

— Que? – digo entre risos.

— Não tem como lutar com o bucho vazio, né? Gosto de comer antes de lutar contra a vida. – ele consegue risadas verdadeiras e espontâneas de mim de uma forma fácil demais. – Ei, você já comeu ramen?

— Já, por que? – a curiosidade que me leva a questioná-lo.

— Eu me viciei, comi antes de vir para cá hoje; para me dar forças para enfrentar a vida.

— No café da manhã?

— Sim! Você pode ler um livro, ouvir sua cantora favorita ou comer a sua comida predileta antes de enfrentar a vida.

— Achei que tinha que comer antes de enfrentar a vida.

— Mas é, você vai estar alimentando a sua alma.

— Boa forma de ver a luta contra os males da vida.

— Sabe o que é bom?

— O que?

— O sanduíche de atum da lanchonete e o suco de morango. – ele com certeza é louco.

— Você acha isso mesmo? – é horrível, intragável.

— Claro, é delicioso e diferente.

— Diferente com certeza, mas delicioso?

— Sim! – ele fala com tanta certeza que me faz rir, aquela comida tem gosto de terra e eu já comi terra.

— Tem gosto de terra.

— Como você sabe o gosto de terra? – o menino pergunta entre risadas.

— Prefiro não comentar. – respondo a sua pergunta rindo também.

— O passado nos condena, certo? – mesmo não rindo, ainda há resquícios de risada em sua voz.

— Sim. – assim como na minha.

Foi em um desses momentos alegres da vida que comi terra. Era uma brincadeira boba de verdade ou consequência, que só podia ser ideia da Ino, e não me lembro da pergunta, mas lembro de Sakura rindo ao me desafiar a comer a terra da roseira da tia Kurenai. Tudo porque a fiz beber um copo contendo todos os refrigerantes da casa da Ino, resquícios de chuchu – que tinha sido molhado e comida pela Ino – e gordura de carne do churrasco. Eu também fui uma criança terrível, principalmente quando estava somente nós três.

Mas isso está chegando ao fim, Sakura planeja em ir para uma faculdade na capital e Ino para o país do vento em busca da faculdade dos seus sonhos. E eu vou ficar aqui, sozinha com todo esse filme de terror; cuidando de mamãe e Hanabi – como sempre.

— Ei, vem, vamos comer juntos. – sua voz é a única coisa que já me tragou do fundo do poço. – Tá na hora de se fortalecer.

Ergo a cabeça para observá-lo. É o menino loiro de olhos azuis, o que chegou hoje. Seu sorriso consegue iluminar até aqui embaixo na escuridão da casa de máquinas, aqui, entre um poço – literal dessa vez – e uma máquina abaixo da escada, é o único lugar que encontrei e que as vozes são abafadas e na minha mente só há eu. Sem demandas para ser perfeita, sem ter que ser a mãe da minha mãe sonhadora e da minha irmã impetuosa, sem vozes e mais vozes na minha cabeça e, recentemente, ouvidos; só eu, Hinata. Pelo menos havia só eu antes.

Eu não me fortaleço, eu fujo. Porque há tanta coisa me esmagando, tanta pressão, expectativas, sonhos e obrigações. Fugir é uma forma do meu corpo, imerso em um lago congelante, se debater pedindo ar.

— Por que? – não sei se a pergunta é para ele, ou para mim; mesmo assim perguntei.

— Uma hora ou outra a água imunda do poço vai te pegar e, – é quase despercebido o seu suspiro cansado escondido na sua voz alegre. – vai por mim, cedo ou tarde você tem que enfrentar os problemas. Então é melhor se alimentar.

— Você não entende.

— Muitos problemas para resolver ao mesmo tempo, uma pressão constante de superiores e coisas novas assustadoras? Vai por mim, eu sei. – seu tom é alegre e jovial, mas ao mesmo tempo cansado e cheio de aprendizado. – Uma hora ou outra temos que lutar, querendo ou não. A única coisa que você pode evitar é cair sem lutar, não levantar a bandeira branca sem nem ter tentado.

— Como que você sabe? – é bem específico até.

— Todos temos problemas, a diferença está em como os enfrentamos. – novamente sua mão é estendida para mim. – Eu aprendi a me fortalecer antes de lutar e eu estou fazendo com você o mesmo que fizeram por mim, dando uma mãozinha.

Ele tá certo, antes era só eu no meu lugar seguro. Mas até aqui as cenas assustadoras, os sussurros e gemidos estão me acompanhando. Não tem mais rotas de fuga, estou na beira do precipício e ou eu luto, ou eu caio. E eu quero tanto, tanto, tanto, conhecer o mundo, ver tudo que o criador criou e suas criaturas fascinantes.

Levanto cuidadosamente, com medo de cair dentro do poço no sentido literal. Alinhando as pregas da minha saia, tento parecer o mais normal e mentalmente saudável que consigo. Mesmo com a luminosidade baixa, consigo perceber as formas do seu corpo e o quão bagunçada sua roupa está.

— Você é a representante da turma, certo? Hinata. – seguro a mão levemente bronzeada.

— Isso. – Em um único puxar ficamos cara a cara, após a surpresa complemento a minha saudação padrão. – Prazer.

— O prazer é todo meu. – seus olhos são mais bonitos de perto, de um azul vivo e límpido. Seus cílios são tão loiros que mal parece possuir. Quando ele sorri seus olhos brilham como a primeira luz feita pelos deuses. – Eu amei conversar com você, Hinata.

— Eu também. – sinto frio quando o seu corpo quente se afasta do meu e em segundos sou levada a um novo problema. – Você poderia manter essa conversa entre nós?

— Óbvio que irei, o que conversamos é somente entre eu e você; nem meus amigos sabem desse meu lado.

— As minhas também não.

É um problema que eu tenho que resolver como o ser responsável que sou, minhas amigas tem sonhos e vidas joviais e perto delas eu me sinto leve; não quero estragar nossa amizade com esse lado adulto que criei.

— Amanhã no mesmo horário? – Naruto sorri após me perguntar alegremente.

— O que? – estou realmente confusa agora.

— A nossa conversa. – por que ele está falando tão naturalmente?

— Você quer conversar comigo amanhã também? – Naruto concorda com a cabeça como se fosse a coisa mais clara e óbvia do mundo. – Por que? – porque alguém ia querer conversar comigo mais de uma vez?

— Você é uma ótima companhia e bastante perspicaz, conversar com você é bom e me deixa alegre.

— É que você é alegre e isso é contagiante. – guardo a parte dele ser como um sol para mim.

— Não vou mentir e dizer que é a primeira vez que ouço isso, porque já ouvi bastante. Mas, – covinhas surgem em suas bochechas quando ele sorri. – já faz tempo que não ouço isso. – sua mão segura rapidamente a minha e deixa um beijo casto na palma da minha mão. – Obrigado.

— Você é franco. – o nervosismo com a aproximação de seus lábios me desconfigurou.

— Agora sim é a primeira vez que ouço isso, franco; me chamavam de sem noção por dizer o que penso.

— Não. – sorrio para ele, isso é algo que gostei nele logo de cara. – Franqueza é bom.

— Para Hinata, – Naruto finge bater em algo invisível e deixa a mão molenga, mas o braço erguido. É idêntico ao meme que Ino vive usando do Bob Esponja, o do “Tu é?”, até sua expressão engraçada é a mesma. – assim você me deixa mimado.

Fico rindo dele por segundos, eu só tenho uma crise de risada. E eu sei que isso ficará guardado nas minhas memórias felizes; mesmo que amanhã ele me ignore e eu volte a ser um fantasma, ainda vou lembrar da sua bondade e da sua carinha ao recriar o meme do “Tu é?”.

— Vamos comer, milady. – Naruto me oferece um braço para segurar e o outro aponta para a porta. – Temos que conversar sobre onde será o encontro de amanhã.

— Você é tão seguro de si. – digo com um sorriso que não sai de mim a minutos.

— Eu sou muitas coisas, você vai descobrir mais amanhã. – suas sobrancelhas erguem e seu sorriso luminoso assume metade do rosto dele. – Agora é tarde demais mocinha, nós vamos conversar com frequência.

— Vamos meu lorde. – seguro seu braço para caminharmos juntos para longe da escuridão e barulho da sala do zelador. – Temos muito que resolver em pouco tempo.

Ao longe consigo distinguir as vozes humanas e as vozes assombrosas, pela primeira vez me sinto levemente bem – e isso é melhor que nada. Irei seguir o seu conselho de comer e enfrentar a safada da vida. Até porque, ficar parada não tem ajudado muito.

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“Eu estive sem dormir à noite, porque eu não sei como me sinto

Eu estava esperando por você, só para dizer algo verdadeiro

Há uma luz na estrada e eu acho que você sabe”

Let It All Go – Rhodes Feat. Birdy

INO

DURANTE toda a semana, senti essa sensação de traição e desamor, como se nunca tivesse de fato sido amada – mesmo sendo. Nas noites sentia que uma parte de mim faltava, que havia algo errado dentro de mim. Então eu me afogava em mim, no sentido literal da frase. Fiquei assustada, achando que estava morrendo, ou que era crise de ansiedade. Tomei bastante remédios e fiz tudo que a minha psicóloga falou para fazer nesses momentos; spoiler, não adiantou muito, mas pelo menos aliviou. Esse sentimento horrendo de dor me seguia a todo segundo, pelo menos até cinco horas atrás.

Existem epifanias de tudo conter jeito e coisas, mas eu nunca achei que existia uma epifania de desejo e um sentimento, que é novo, amor. Uma parte de mim, que vivia em constante luto, sente que já viveu tudo que esse amor tem para oferecer e deseja mais. É mais estranho quando explico, não irei falar em voz alta não. Só que de qualquer jeito, terei que conversar comigo mesma sobre essa loucura toda. A loucura no caso se chama amar Gaara No Sabaku, um estranho nome para um garoto igualmente estranho.

Estava tudo um caos dentro de mim até ele surgiu na porta e todos os meus demônios e dores emocionais – sem explicação – evaporaram. É como se ele fosse a cura para essa dor que carrego comigo desde sempre.

No atual momento estou fazendo algo que nunca compreendi, porque os homens já vinham até mim no ponto certo. Estou colhendo informações, escondida no banheiro e tentando ouvir os sussurros entre ele e Shikamaru. Estou parecendo uma stalker de filme de terror – e disso eu entendo. Ou talvez eu esteja com medo de repetir o incidente matutino. Estou até agora morrendo de vergonha e querendo enfiar a minha cabeça dentro da terra.

Quando eu o vi de manhã, fui acertada por esse amor. Como se Rikudou jogasse na minha cara um bolo enquanto falava “Você quer o amor da sua vida? Então tome sua vagabunda”. Enchi tanto a paciência de Rikudou, que ele simplesmente foi direto e certeiro, cheguei a ficar sem ar ao vê-lo – real, não conseguia respirar, era como me afogar.

Então aconteceu o incidente. Só existem duas explicações possíveis, ele caminhava em câmera lenta e só existia nós dois no mundo, ou eu estava chapadona de muita cafeína. Aposto na primeira, até porque não sou louca a tal ponto; sou louca no sentido de gastar o réu primário, não em ver homens caminhando em câmera lenta.

Quando ele chegou perto de mim, era como se a vida explodisse em cores e luz e tudo ficasse mais claro e bom. A voz mansa e profunda dele era tudo que existia para mim, além dos seus belíssimos olhos verdes escuros.

— Ino? – ele pergunta com o olhar sereno fixo no meu rosto.

— Ja. – respondi o “sim” em sueco, o que soa como “iá”.

Não tinha como piorar isso, certo? Errado, porque eu sou perfeita em tudo que faço.

— Você pode tirar a sua mochila para que eu possa sentar? – eu só ri ruidosamente e tirei a mochila.

Ele me ignorou o resto da aula e quando me olho no recreio, era como se eu fosse uma criatura estranha a ser estudada. E eu não julgo, porque compreendo. Ainda quero sumir por isso e estou temerosa de agir que nem uma pateta na sua frente novamente. Gaara No Sabaku tem o incrível dom de me desconcertar e eu só o “conheço” em menos de seis horas. Ainda assim, eu quero tanto falar com ele, conquistar ele, amar ele e ter ele só para mim; que eu enfrentaria todas as minhas esquisitices e medo de não ser boa o suficiente para ele.

Gaara não é toda essa beleza como os amigos. Ele é bonito que dói? Sim, óbvio. Mas parece haver um consenso de todos que há uma aura estranha ao redor dele que suprime a beleza e o torna melancolicamente sombrio e nada atraente. Exceto para mim, mais um pouquinho dele e eu fico miando em cima de um telhado.

Os gritinhos de desespero pelo meu amor recém descoberto, e de difícil desenvolvimento da oratória da minha parte, ecoam mais alto que o esperado. Por segundos suplico a Rikudou para eles não terem ouvido o meu surto, mas o meu perfeito mundo novamente vem ao chão.

— Ino? – Shikamaru pergunta na porta do banheiro.

— Hum. – eu sou perfeita para o caos do nervosismo romântico.

— Tá tudo bem? – meu coração acelera com a voz dele tão perto novamente.

Até a voz dele é perfeita para mim; o jeito que ele pronuncia tudo lentamente e sereno me deixa louca, fora de si. É o meu primeiro amor na vida e eu não estou agindo de maneira normal.

— Você quer que eu chame a Sakura?

— Não! – isso será um assunto tocado no nosso chá da tarde mensal, assim poderei desenvolver melhor o que sinto e como explicar racionalmente.

— Você está estranha hoje, não está sendo você.

Exato, como ele vai me querer se não estou sendo eu? Como já disse e repito diariamente, eu sou Ino Sarutobi, eu não temo nada – só espinhas e roupas que não combinam como opção –, eu sou imparável e um evento da natureza. Eu sou essa Ino segura que os meus pais criaram para ser assim, não essa coisa insegura.

Estapeio a parede e caminha orgulhosamente, levemente ansiosa, para a porta. Shikamaru literalmente está parado na frente da porta com o meu recém descoberto amor ao seu enlaço.

— Vamos? – perguntei com falsa alegria para Shikamaru.

— Claro, eu só tenho mais algumas para resolver com o Gaara. – seu dedo aponta para o garoto de cabelo vermelho sangue ao seu lado.

— Você se chama Gaara, né? – é a primeira vez que me dirijo a ele, meu coração parece um carro a duzentos por hora.

— Não ouviu? Foi o que ele acabou de dizer.

— Grosso! – isso o pega de surpresa, que nem a sua resposta grossa me pegou desprevenida. Papai sempre falou para bater quando me baterem, devolver na mesma hora.

— O que você disse?

— Grosso. – empino meu nariz ao responder. – Ou além de grosso é surdo também?

Gaara só fica rindo e me olhando nostálgico. O sorriso dele é bonito, dá vida no rosto sombrio dele. Não é que ele seja feio, é que ele tem algo que assusta na forma de olhar para as pessoas; meio serial killer.

— Ino, certo?

— Exato. – ergo o queixo ao sorrir. – Ino Sarutobi.

— Um nome belíssimo para uma pessoa belíssima. – acariciou o meu ego, droga.

— Obrigado. – meu sorriso angelical é acompanhado por piscadas teatrais.

— Perdoe a minha falta de decoro com você. – gente, ele fala chique. – Deveria tratá-la como a dama que é.

— Não vou mentir, deveria mesmo. – suas mãos calejadas seguram as minhas, que são bem hidratadas, diferente das dele que tem calos.

— É um prazer conhecê-la, senhorita Ino.

Meus deuses, estou apaixonada por um homem de beleza mediana e que fala como um senhor no auge dos seus setenta e cinco anos. Nossa, estou apaixonada por um pescoçudo com cara de poucos amigos e muitos problemas. Que emoção! Sabia que no momento que me apaixonasse por um homem seria O Momento, mas não achei que o ser, em questão, seria O Momento também.

— Gostei do seu novo amiguinho, Shikamaru. – em um movimento bem calculado, ajeitei o meu cabelo e sorri sedutora para ele. – É igualmente prazeroso conhecer você, Gaara.

Tropeço no meu próprio pé ao sentir uma pontada de dor no alto da minha testa, é como se minha cabeça estivesse sendo aberta. Novamente não consigo respirar, um líquido com gosto de ferro me enche de dentro para fora. Minha vista clareia ao ponto de mudar as cores no corredor e um nevoeiro surge do canto do meu olho e lentamente suga tudo que vejo para dentro de si.

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O SALÃO de baile anual dos Uzumaki está lotado com os mais diversos deuses e todos prestam atenção nos três deuses que despertam interesses de cochichos. Os dois príncipes da morte e a bela deusa da floresta, um casamento peculiar inesperado devido ao status inferior da deusa; é o que todos sussurram nas minhas costas.

— Esse é o seu noivo, o grande senhor de Sunagakure e a futura morte, Gaara No Sabaku. – o príncipe Kankuro de Sunagakure me “apresenta” ao seu irmão.

— É um prazer conhecê-la, senhorita Ino. – certo, iremos fingir que não conversamos sozinhos todo dia de tarde; seria um escândalo se descoberto.

— É igualmente prazeroso conhecer você, Gaara. – seu sorriso cúmplice aumenta o meu sorriso sagaz.

Gaara tem me feito feliz ultimamente, é o motivo que me faz levantar de manhã e quando me deito para dormir é o motivo que me faz querer que o amanhã chegue o mais rápido possível. Eu só quero estar ao seu lado. Eu quero ficar aqui com ele pelo resto da criação.

Mas a sua voz me trouxe para fora do meu reconfortante momento.

— Ino! Ino! – seus braços envolvem a minha cintura enquanto eu tento recuperar o ar. – Ino! Ino! Por favor, não! De novo não! De novo não! De novo não!

Minhas unhas cravaram em seu antebraço. Novamente um só, um o complemento do outro; como sempre foi e sempre será.

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— INO, sai do sol. – Shikamaru me chama receoso.

O que eu estou fazendo parada no portão da escola? Eu odeio ficar esperando aqui, não tem onde se esconder do sol escaldante de meio-dia e nem as sombras das árvores contribui. Por que eu vim aqui mesmo? Eu resolvi os meus problemas na diretoria? Falei com a Sakura? Não consigo me lembrar de muita coisa desde que saí da sala de aula.

— Merda! – mais uma coisa para conversar com a psicóloga Shizune.

— O que houve? – Shikamaru pergunta preocupado.

— Nada. – como a rainha da atuação, forço um sorriso descontraído. – Você viu a Sakura?

Mudar o foco para algo padrão, utilizando sempre um foco verdadeiro. Mesmo Shikamaru sendo um gênio até ele caí nisso, ou ele finge muito bem. Seu dedo aponta para a coisa estabanada correndo em nossa direção; Sakura não morre cedo. Sua mochila, em um tom de rosa pastel, saltita as suas costas e suas bochechas e ponta do nariz tingidas de um tom leve de vermelho.

— Onde você estava? Tô te procurando a mais de vinte minutos. – Sakura diz ofegante.

— Aqui. – respondo receosa.

— Não mesmo, passei aqui várias vezes atrás de você.

Não lembro como vim parar aqui, a única coisa que sei é relacionada a quase vinte minutos atrás, segundo Sakura; e sinto uma sensação de paz e leveza. Isso só pode significar uma única coisa: Estou tendo lapsos de memória de novo.

Desde que fui achada aos seis anos até agora aos dezessete, possuo uma condição estranha e “sem causa” de lapsos de memória. Alguns médicos acreditam que a origem seja o ferimento que eu tinha na cabeça quando fui achada na floresta, mesmo os inúmeros exames mostrando que sou mais saudável que um touro premiado e não possuo nenhuma sequela no meu cérebro. Não lembro muito dos primeiros meses nos hospitais – mais um agradecimento do lapso de memória –, mas ao que parece fiquei quase cinco meses entrando e saindo do hospital devido a um ferimento na cabeça e a minha completa falta de lembranças e apagões – como esse que acabei de ter. Depois de um tempo tudo só passou e eu fui uma criança feliz e normal. Meus pais acreditam na teoria do trauma psicológico e eu concordo com eles e a psicóloga Shizune.

— Que horas são? – meus pais me ensinaram a sempre checar a hora para saber por quanto tempo “apaguei”.

— Uma e cinco, por que? – Sakura me estuda de cima a baixo.

Tenho um “apagão” de cerca de vinte a trinta minutos, um lapso de memória fraco. Na minha infância já me esqueci de três horas e esse é o meu parâmetro. O maior de todos é o meu lapso de seis anos.

— Nada. – dou de ombros e caminho ao lado de Sakura até a beira da calçada. Antes que ela comece o interrogatório a lembro do meu aviso semanal. – Sua mãe vai brigar com você de novo por chegar tarde na cafeteria.

Sakura só trabalha às segundas na cafeteria da mãe dela; ela costuma ser pontual, mas, sem a bicicleta, creio que chegará mega atrasada hoje.

— Você não vai lá hoje? – fazendo uma careta ao franzir o nariz, nego a pergunta dela. – E Hinata?

— Já foi. – Shikamaru responde por mim, porque eu realmente não sei nada desses minutos de lapso.

— Droga! – seguro o seu cabelo e a puxo para mais perto.

— Carro! – ultimamente Sakura é um chamariz para carro que surge do nada, ainda bem que eu estou atenta por ela.

Sempre gostei de acreditar que eu era tipo o homem aranha e possuía o sensor aranha, que funciona bastante quando estou perto das minhas amigas inconsequentes na hora de atravessar a rua. Ou talvez meus pais pegaram muito no meu pé com qualquer coisinha que possa desencadear a minha morte ou causar um outro ferimento sério. Com o tempo compreendi que esse medo deles era medo de me perder, ou me ver com a cabeça aberta jorrando sangue novamente.

— Obrigado. – mesmo com o seu agradecimento, continuo segurando o seu cabelo por um tempo; é a terceira vez em três dias, ela anda terrível ultimamente.

— Por favor, me diz que você não quer matar a Sakura arrancando o seu couro cabeludo, na frente de todos, só por causa de um cheetos. – a voz rouca e lenta de Shikamaru me faz querer rir da sua pergunta.

— De nada. – solto o cabelo e belisco sua cintura. – E não Shikamaru, se eu for matar a Sakura, será de carro. – grito perto dela para vê se entra na sua cabeça que ela deve olhar para os dois lados antes de atravessar. – É 100% de certeza que ela não vai olhar para os dois lados da rua e será atropelada.

— Ficando racional e trabalhando com porcentagem, ein, quem te viu que te vê, Ino Sarutobi. – Sakura desata a correr quando tento arranhar seu braço. – Tá passando muito tempo contigo Shikamaru.

— Eu sei. – seu sorrisinho presunçoso me faz bater levemente nele rindo.

— Vamos, se não meu pai mata a gente.

É praticamente um ritual anual nosso, com o Chouji também incluso, de ir até a cachoeira e escrever em um barquinho tudo que desejamos até o próximo ano e o soltamos antes da queda da cachoeira. Se o barquinho sobreviver, o sonho irá se realizar antes de completar um ano.

Ano passado desejei achar o amor, como o dos meus pais, e, realmente, antes do ritual anual, eu achei o meu amor no inesperado Gaara No Sabaku. Amor à primeira vista, como desejei com tanto afinco. Eu só não pensei muito em como conquistar e seguir com a história depois de achar o meu grande e único amor. Eu ainda sou novata nessa história de amor, então espero que seja fácil e pacifico.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Sobre a parte da Ino, que deve ter bugado a mente de vocês; essa é a minha intenção. Vai ficar mais claro com o decorrer essas sobreposições de personalidade e lembranças. Espero ainda que tenha alguém aqui kkkkkkkkk