Paciente 99
7 Raio X
Notas iniciais
— Victory? – Uma voz familiar chamou.
Minhas pálpebras se abriram, e tudo que a minha visão mostrou, nebulosamente, foi o rosto da minha mãe, que tornou a me chamar.
— Mãe! – Respondi, e minha voz saiu trêmula e fraca.
Eu estava deitada na minha cama, ainda no quarto. A luz do dia estava forte e eu ainda estava dormente com aquela injeção que a doutora me dera. Aparentemente a chuva se fora.
— A médica me falou que você fugiu com um garoto ontem à noite, é verdade?
— É, mas...
— Eu nunca a vi agindo deste jeito, o que houve? – Perguntou, sua voz estava calma para quem recebera uma notícia destas, e sua mão clara e quente tocara meu rosto.
— Eu fiz isso por um motivo. Eu não gosto desse lugar. – A olhei, séria. A frase ainda soou um pouco grogue.
— O quê?
— Todos são loucos aqui. Além disso, desde que eu cheguei, passei a ter umas... visões.
— Tem certeza de que não são os remédios?
— Eu acho que tem a ver com.… magia.
— Fala baixo – mamãe pediu, olhando em volta, embora estivéssemos sozinhas no cômodo – Você sabe que nunca foi capaz de fazer isso.
— E você sabe os remédios que a doutora me dá? Porque eu não sei. E esse sedativo? Isso é permitido? – Indaguei.
— Isso foi para você não fugir, Vic, e isso é tudo coisa da sua cabeça.
— Eu ainda não menstruei, mãe. E posso ver que passando os meus dias aqui eu não irei.
— Se você esquecer isso por um tempo, quem sabe isso acontece. – Ela me olhou nos olhos, afagando os meus cabelos.
— Por favor, me tira daqui! – Implorei, a cada palavra que dizia minha voz sumia mais.
— Eu bem que queria, mas já paguei o tratamento, e além disso não falta muito tempo. Continue firme, filha.
*
Eu apaguei de novo, parecia que aquela toxina, ou droga ou seja o que Margarete me aplicou ficava mais intensa com o passar do tempo, e quando acordei estava sentada em uma cadeira de rodas, sendo empurrada por um corredor, branco obviamente, e a médica estava na frente, com seu jaleco e segurando uma planilha como sempre.
Tentei me remexer e questionar aonde estava sendo levada, porém me faltava forças. O sujeito que me guiava parecia ser bem forte. Meus olhos não se mantinham abertos por muito tempo. Ao chegar ao fim do corredor, uma porta foi aberta pela médica, e eu fui levada para dentro.
Era uma salinha apertada, onde aguardava um velhinho de cabelos prateados e vestido de branco, como todos os funcionários do hospital, mas seus óculos e o relógio em seu pulso eram prateados.
— Podem deixar ela comigo. – Falou, grave.
— Cuide bem de Victory. – Margarete avisou, deixando a sala em seguida, fechando a porta. Isso fez uma faísca de raiva surgir em meu coração.
— Vejamos, pedras na vesícula? – Ele folheava a minha ficha, sem olhar para mim, e eu não respondi, ainda fraca.
— Podemos começar logo, vamos ver o que tem dentro de você. – A frase soou estranha, e eu fui novamente empurrada até um estreito corredor que levava a outra sala, escura e de luzes apagadas. A cadeira de rodas ficou no centro do cômodo, e algumas placas de metal flutuavam no teto, o que pareceu tortura.
O senhor passou a manusear as placas, as descendo e posicionando como queria. Eu permaneci imóvel e sem reação, ainda sob o efeito do remédio. Em seguida ele entrou em uma porta, ainda dentro da sala, onde por um vidro me observava onde aparentava ser uma câmara.
— Por favor, continue assim, Victory... – sua voz saiu de uma caixa de som na parede, depois de falar próximo a um microfone.
Um ruído alto começou depois de um tempo, claramente a máquina estava operando. Após algumas luzes piscarem o doutor disse: — não se mexa.
Logo ele saiu da câmara e voltou a me mover – Agora precisamos fazer isso em outra posição. – Ele mexeu na cadeira de rodas até eu ficar de costas para ele, quando entrou de novo pela porta. A máquina operou mais uma vez, e ele repetiu a ação, me trocando de pose até a consulta terminar.
— Agora fique aqui até eu ver o resultado do exame. – O médico avisou, se ausentando em sua “câmara” novamente, e agora parecia que minhas forças estavam voltando, meus olhos conseguiam se manter abertos e não sonolentos o tempo todo como antes. Estiquei os dedos da mão, e o membro respondeu corretamente. Minha visão já não estava mais comprometida.
Foi com a vista voltando a funcionar que vi algo perto da roda da cadeira, deslocado do resto do ambiente, uma pedra brilhante e reluzente, no escuro da sala, que eu identifiquei na hora como mais uma daquelas joias.
“ A próxima estará no Raio X”, foi o que Tag escreveu enquanto estava sonâmbulo.
Sua cor era vermelha como sangue, e suas partículas delicadas e perfeitas reluziam conforme o ângulo em que era vista. Precisei fazer um esforço enorme para alcança-la, ao me abaixar e levar o meu braço até o objeto, o pegando e o guardando no bolso da roupa hospitalar. Ocupava quase a minha mão toda, e era sem dúvidas legítimo e precioso. Por sorte o homenzinho estava muito ocupado lá dentro.
Em alguns minutos, ele saiu trazendo alguns papéis, conforme o tempo passava meus sentidos retornavam.
— Eu simplesmente não entendo. Como isso é possível? Eu nunca coisa assim! – O senhor reposicionava os óculos enquanto lia os papéis, provavelmente olhando os meus raios X. – Eu não sei o que é isso, mas com certeza não são pedras na vesícula. – O que ele queria dizer com isso?!
Fale com o autor