País do Fogo
5 Convite
Notas iniciais
Ao voltar para a sala de reuniões, percebeu que os olhares curiosos persistiam com sua presença ali, alguns se atreveram a murmurar gracejos que a fizeram desejar sair dali o mais rápido possível antes de conseguir uma condenação por lesão corporal. Apesar de se tratar de hostilidades que deveria estar acostumada com o tempo como pirata, ainda era adepta a ideia de que um punho no nariz era capaz de calar uma boca.
Sentiu-se grata quando os guardas a escoltaram para fora dali, mas pode notar a diferença do percurso que escolheram, passando dessa vez por um jardim amplo, de grama verde e chafariz no centro e em seguida por um salão de abóbada ornamentada em ouro e escadas em dupla hélice e uma segunda sala, com uma enorme mesa de madeira em seu centro.
A mulher de cabelos cinza ocupava a extremidade da mesa, sendo seguida pela presença soturna do general. Hinata estava presente também, virada de costas para ela, parecendo muito concentrada em não olhá-la.
— Sakura, não é? — perguntou ela com um ar descontraído. — Sente-se, eu sou Saya.
Sakura se deteve, observando a mulher por um momento. Não pela estranheza do pedido, mas por ela não parecer ser o que se espera de alguém da realeza. Seus fios cinza eram curtos, em um corte onde as mechas da frente eram maiores que as da nuca. Ela também usava uma túnica carmesim, revestida por um gibão escuro, o tipo de roupa que as mulheres do povo costumavam usar acompanhados de calças.
— Adoro batatas, mas acho que não entendi. — hesitou Sakura observando a mesa farta. Não estava disposta a ceder aos caprichos de uma senhora da corte, por mais que usassem calças e cortes ousados.
— A companhia de criminosos parece ser um novo hobby. — falou o general, encarando Saya a espera de explicações.
— Somos duas mulheres que sabem o que é estar em uma posição de poder, seria interessante uma conversa. — disse ela com um sorriso simpático.
Uma sondagem. Constatou para si mesma, sentando-se ao lado de Hinata, que parecia disposta a não encará-la. Duas podiam jogar esse jogo.
— A propósito, contamos com 16 talheres. — falou ela, mostrando que estaria atenta a alguma tentativa de ataque.
— Não se preocupe, seria realmente muito indelicado se algum sumisse. — falou descontraída.
Houve um momento de silêncio previsível, mas indesejado.
— Seu irmão já deve tê-la informado de nossa conversa. — prosseguiu, mudando de assunto e se referindo a conversa sobre o Conde Dominic mais cedo.
O último portador do Tamísia havia sido um homem talentoso. Nascera na primeira colônia a se emancipar do País de Fogo, escrevera livros e poemas líricos durante toda a sua vida, e fora apaixonado por astrologia e outras ciências esotéricas. Sakura então sugeriu que começassem por seus livros e poemas, pois sabia que a arte costumava conter os elementos mais reveladores sobre uma pessoa, talvez até sua própria alma.
— Sim, parece uma boa ideia investigar a pessoa do conde. Ele teve uma trajetória curiosa, foi um dos primeiros a estudar a criação de campos de conversão a partir da energia etérea.
— Parece um tema de seu interesse. — incentivou em tom afável e sinceramente curiosa. Não seria a única sondada ali.
— Passei metade da vida estudando isso. Nossa ciência tem avançado como nenhuma outra se utilizando dos campos de conversão para rearranjar a matéria, nossa medicina e alquimia têm criando substância que até então eram impossíveis. Já podemos até falar em reconstrução de tecido, manipulação de biomassa. Acho que se evoluímos nos últimos dois séculos, seus estudos foram os responsáveis.
— Realmente fascinante, mas me debrucei mais sob sua literatura. Uma de minhas histórias favorita foi escrita por ele. — falou Sakura se referindo a sua paixão pela história da Bailarina das Cores.
— Isso explica a falta de objetividade do plano. — disse Sasuke com indiferença, precipitando-se em pegar os talheres, sem mesmo olhá-las.
Ele havia se mostrado cético com a ideia desde o começo, ouvindo-a com ar de descrença e encerrando a breve reunião logo após, mal dando a chance dela argumentar.
— Qual é a objeção? — desafiou Sakura arqueando as sobrancelhas, cansada daquela incredulidade no que sabia fazer de melhor.
Mesmo antes do Tamísia, decriptografar códigos era sua habilidade. Decodificar cofres, mapas de sangue e mensagens interceptadas de mercenários, piratas inimigos, lordes e da guarda real, fora um dos motivos que a fizeram se tornar braço direito de Reed, seu antigo capitão. Além de ser uma estrategista nata, claro.
— Arte, alma... Isso soa muito pouco objetivo. — falou, ainda sem deter sua atenção nela.
— E não é pra ser. A codificação do Tamísia se baseia na subjetividade do portador, por isso é quase imprevisível. — argumentou Sakura.
— Então ler meia dúzia de poemas e contos infantis é a nossa grande solução. — disse sarcástico.
— Sim. — afirmou convicta. — A arte é a melhor expressão da subjetividade de alguém.
O general voltou seu olhar para ela finalmente. Ela estava começando a teorizar que se ele ou Hinata olhassem para ela, queimariam instantâneamente, tamanho o esforço que estavam fazendo para ignorá-la. Se estava se estava prestes a rebater seu argumento ela jamais saberia, pois a discussão foi interrompida por uma voz grave e masculina.
— Ignore essas objeções. — disse um homem de cabelos escuros que iam até o maxilar adentrando a sala de refeições. — Receber ajuda não é algo que Uchihas sabem lidar.
— Integrante da trindade real, suponho. — respondeu fitando o segundo herdeiro real, Itachi Uchiha. Ele e o general chegavam a ser parecidos. Os mesmos olhos negros e soturnos. Bem diferentes dos olhos verdes vivos e cabelos cinza de Saya, que era filha do primeiro casamento do imperador.
— Sim, então deve entender o mau humor do meu irmão: Ele é o que tem que matar mais gente para chegar ao trono. — falou, se referindo ao fato dele e da Saya estarem à frente em níveis de sucessão.
— Acho que não posso captar o problema. — afirmou, encarando-o com um sorriso mórbido.
— Ela é boa. — disse olhando para o irmão. Uma reação bem descontraída, considerando que ela havia praticamente afirmado que não veria problemas em mata-lo.
Ele suspirou.
— Enfim, você quer se debruçar exclusivamente sobre um lugar comum, sem nem cogitar outras possibilidades, apenas por ter dado certo da primeira vez. — falou, preparando-se para se retirar da mesa. — E não vai funcionar.
Sakura engoliu em seco. Ele estava sugerindo que estava deixando algo passar. E só naquele momento lhe ocorreu que realmente estava. Seu ímpeto de falar em seu insight foi cortado por a voz de Saya.
— Não terminou sua refeição. — protestou Saya, observando sua saída.
Por um momento parecia que não tinha ouvido, pois continuou seu caminho até a porta, parando no último segundo.
— Não tenho apetite para comungar com criminosas, nem para fazer parte do seu circo. — falou, sem se virar. Já havia obtido o bastante daquilo.
Se ele a estivesse olhando, Sakura forçaria sua melhor cara de ofendida, mas só conseguia pensar que sobrariam mais batatas.
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