Notas iniciais
Será que hoje Sakura e Sasuke conseguem ter uma conversa civilizada?

Ela releu a penúltima linha da sua história preferida mais uma vez, buscando refletir sobre seu significado. Quando pequenas, ela e Hinata amavam contar e recontar aquela história bailarina que decidira que pintaria todas as cores, descobrindo cada uma de suas características até tomar uma para si, viajando por cada um dos doze reinos das cores. Assim conheceu a exuberância do Laranja, a vitalidade do Vermelho, o equilíbrio do Verde, a leveza do Amarelo... Andou por cada reino deslumbrada com a beleza das cores, até chegar à calma do Azul, onde havia amor e paz. Mas apesar da serenidade e conforto do Azul, a bailarina das cores sentia que ainda precisava terminar sua jornada, que aquela altura necessitava de apenas uma cor para ser completa.

Em geral, nos teatros e coliseus onde espetáculos inspirados na obra eram exibidos, com uma bailarina dançando enquanto tingia o mundo de todas as cores, isso significou sua desgraça, uma vez que sua vida tingiu-se de negro ao misturar todas as cores. A história tinha uma nuance romântica, onde a bailarina encontrava seu amor no reino Azul, e era punida por abandoná-lo.

''E então a bailarina encontrava-se na penumbra onde os sonhos cobram seu preço'' era última frase do conto, e costumava ecoar em sua cabeça lembrando-a que algo naquela interpretação não estava certo.

— Sakura. — chamou o homem de olhos ônix, tirando-a de sua dispersão. Ela parecia tão absorta em sua leitura, sentada no parapeito da janela com expressão suave e algumas mechas rosa caindo pela sua face enquanto o resto do cabelo estava preso em uma espécie de nó que parecia ter sido inventado na hora, que ele quase chegou a ponderar a interrupção.

Quase.

— Alguns artigos traduzidos e sua bibliografia. — anunciou ele, mostrando que sua presença era seguida por Naemi trazendo um carrinho repleto de livros para o interior do quarto.

Os últimos dias haviam sido assim, obras chegando enquanto ela e Hinata passavam o dia tentando avalia-las.

— Suponho que será útil entender no que ele se baseava.

— Claro, enquanto têm outros pra fazer isso, é genial. — reclamou fitando a pilha de livros, remexendo-se na janela para se virar para ele, embora tivesse que admitir que não era uma má ideia.

Estava surpresa por sua presença. Não o via desde o primeiro almoço com Saya, que a havia convidado a comparecer a outras refeições. Convite, na verdade, era um eufemismo. Tratava-se de uma intimação, visto que não possuía a opção de recusar. As refeições deixaram de ser trazidas pra seu quarto. Não sabia dizer por que ela ainda se mantinha tão interessada na presença delas no jantar e Sasuke não parecia disposto a compactuar com seus caprichos, uma vez que não mais aparecera.

— As publicações pendentes devem chegar no fim da semana. — informou ignorando seu protesto.

Sakura acenou brevemente.

— Então, veio conferir se a pilha está em ordem cronológica de lançamento, se os pergaminhos vão bem ou algo assim, sir? — perguntou fazendo continência na última palavra em deboche. Mas realmente curiosa em saber o motivo de sua visita.

Ele passou o olhar pelas pilhas de livros e por ela por um segundo. Desconfiava que ela se quer soubesse o significado de ordem.

— Há registro de invasão na sede do Condado de Yosh, alguns documentos foram furtados há pouco mais de dois anos. — falou ele se referindo à antiga mansão do conde, que foi transformada em base política por sua família.

— Isso entra na minha ficha de crimes? — perguntou não propriamente com ironia. Às vezes parecia que sua anistia era apenas uma pegadinha, onde achariam qualquer motivo para mantê-la presa.

—Deveria, mas só estou interessado em saber quais tipos de informação levantou.

— Ah. — falou fingindo súbita compreensão. — Quando pode ser útil a vocês não é crime.

O general se limitou a franzir o cenho e esperar mais respostas. Não queria ceder a provocações daquela mulher insolente. Havia coisas mais importantes que isso.

— Nós roubamos esses documentos, a maioria se tratava de balanços patrimoniais, débitos e plantas das propriedades. — interveio Hinata, que observava as notificações do general atenta. — A intenção era descobrir possíveis inimigos e pessoas importantes para ele através de alguns documentos.

— Na época descobrimos que se casou duas vezes, teve três filhos, lutou pela independência de Ametrísia, antiga colônia do País de fogo, e foi roubado por seu contador. — contou. — Além outras coisas que não foram tão pertinentes pra o Tamísia.

Ele as ouviu em silêncio, mas com um olhar inquisidor ainda, como se esperasse haver algum furo.

— Em todo caso, espero resultados. — falou, enfatizando que devia sua parte no tratado.

— Sim, já pode ir preparando o Yemaya. — afirmou presunçosa e otimista com a perspectiva de rever o navio. — Não demoraremos a embarcar

— É uma expedição oficial. — disse o general. — Não usaremos seu navio.

Ouvir aquilo foi como ter cada uma de suas entranhas perfuradas com lanças de fogo.

— Como? Vai deixar de usar o navio abençoado pela própria rainha das águas? Esqueça a expedição, nunca ouviu falar que um capitão nunca pode abandonar seu navio? — indagou exasperada enquanto Hinata se interpôs entre eles, esforçava-se para mantê-la longe do general. —Ele morre, ok? A tripulação inteira naufraga se ele viajar em outro navio.

— Chega Sakura. — pediu Hinata, torcendo pra não haver retaliações por parte do general.

Ele havia sido até então um homem digno, mas as posturas de Sakura não havia sido das mais toleráveis.

Quando sua atenção se voltou para o homem, não pôde ver ali uma expressão raivosa, só a mesma expressão de indiferença indecifrável.

— Vai precisar de melhores estratégias que contos infantis e navios mágicos. — disse com o usual tom monótono, fazendo-a perceber que não soava a mais lúcida das pessoas falando isso.

A corrente de irritação que emanava de si não se dissipara com aquela postura, mas tentou mais uma vez esclarecer as coisas.

—Você nunca esteve lá, não sabe como é. — disse com os lábios crispando. — As fronteiras entre o real e o intangível são praticamente inexistentes, a noção de realidade é distorcida. Não sei como, mas há um apanhador de sonhos que estabiliza nossa percepção do real.

— Nem seu povo dá crédito a essas crendices. — falou, referindo-se ao fato de seu povo se quer cultuar deuses. Em geral, eles acreditavam entidades espirituais, mas nunca como força criadora, ou mesmo necessariamente superior, presentes no nosso mundo, que podiam ser de luz ou de trevas.

A mulher suspirou, esforçando-se pra retomar o controle. Sendo sincera, não era bem o apanhador de sonhos que a fazia querer seu navio. Mas não admitiria o que era.

— Faça como quiser. — cedeu.

A missão era dele, em todo caso.

— Acho que estamos entendidos. — finalizou, dirigindo-se a porta.

Ela assistiu sua saída, procurou não olhar para a mulher de fios azulados, que trajava um vestido azul turquesa, com um corpete de decote baixo, ao estilo nobre do País de Fogo, saia em formato de sino e detalhes em tule, no silêncio que se seguiu.

Saya havia sido definitivamente generosa com elas. Ela própria estava usando uma túnica verde musgo, marcada na cintura à moda usual de seu povo, que embora simples, possuía um corte fino e revelava-se assim uma delicadeza para com ela. Em seus armários, possuía outras em cores frias, como era de costume do seu povo, e calças para usar como era de seu gosto.

Ambas já haviam retomado suas respectivas leituras quando Sakura expressou uma questão que a incomodara desde que recebera a proposta de colaborar com a decodificação do mapa.

— Você acha que eles querem o quê com isso? — perguntou, fazendo Hinata olhar para os lados, como se por um segundo, não tivesses certeza que ela estava falando mesmo com ela. Nos últimos dias, haviam falado só o indispensável, e Sakura não podia reclamar a autoria de nenhuma das iniciações de interação. — Digo, duvido que estejam atrás apenas de ouro. — explicou, notando a leve incerteza dela.

— Não faço ideia, mas também não acho que seja o caso. — respondeu ao notar que Sakura estava mesmo se dirigindo a ela. — Aquela ilha é maluca, se eles planejam ficar mais de quinzes minutos a explorando-as como fizeram com todo o continente estão fadados ao fracasso.

— Isso só me faz estar menos inclinada a cooperar. — afirmou em um sussurro, notando as sobrancelhas da amiga se arquearem incrédula.

— Você não percebe o que isso pode significar? — questionou Hinata, encarando-a seriamente — Poderemos ter uma nova vida, depois que isso acabar. Trabalhar, ter uma casa... Nossa família perto. Sem roubos, sem fugas... Uma vida normal...

Sakura limitou-se a fita-la por um longo segundo. O País de Fogo também havia roubado seu lar quando invadiram sua cidade, expropriando os bens de seu pai, que logo cedeu ao vício em álcool. Sua mãe trabalhava na casa dela até então, e perdeu tudo novamente quando ficou sem emprego após o incidente.


— Acho que esse é o seu tipo de coisa. — disse Sakura, não por mera implicância. O mar havia sido sua casa até então. A única que conhecia desde a extinção de sua tribo.


— Tudo bem, tenho que ir. — respondeu visivelmente decepcionada, adiantando-se em preparar alguns livros.

Ela não pode ignorar o fato de se sentir magoada por desapontá-la. Aquilo era importante para ela. Ela tinha o direito de querer uma nova vida.

A voz que ouviu vindo de fora quando Hinata abriu a porta para se retirar a fez tomar uma decisão. O general devia estar dando recomendações aos seus guardas ainda e era possível reconhecer seu timbre dali, apesar de não entender sobre o que falava. Suspirou e se obrigou a se dirigir a porta, chocando-se com os guardas que faziam sentinela do lado de fora. O general aparentemente havia se dirigido as escadas de saída, talvez ainda fosse possível alcança-lo.

— Preciso falar com o general. — avisou incisiva, ao ser barrada instantaneamente pelas espadas dos guardas

— Receio não poder atender a sua reivindicação, senhora. — respondeu um deles. A última palavra fora dita com um tom de escárnio que ela solenemente ignorou.

— É em caráter de urgência — insistiu. — Será pior se não me acompanhar. — prosseguiu mantendo o olhar firme até perceber que o guarda ponderava a ideia. Sabia o quanto podia ser persuasiva.

— O que está acontecendo? — perguntou uma voz grave, de uma presença que parecia se aproximar.

Ela olhou imediatamente, deparando-se com os olhos de ônix que começara a se familiarizar. Podia ver sua mandíbula travada, e sua pulsação através do seu pescoço.

— Senhor eu... — tentou explicar o soldado, com certa ansiedade pra se justificar.

— Preciso falar com você. — adiantou ela, precipitando-se em sua direção quando foi barrada firmemente pelas espadas.

— Deixe-a. — ordenou o homem, impondo-se em sua frente e encarando o soldado. Seus olhares se cruzaram por um segundo, e ela pôde notar que suas mãos se tocaram no ato, e a puxou para si imediatamente, interrompendo o contato com certo constrangimento.

Ele pareceu notar sua reação, e se afastou, enquanto os guardas abaixavam as espadas que interrompiam sua passagem e aguardou esperando que dissesse o que desejava.

— Talvez esteja faltando algo importante. — disse após olhar hesitante para os soldados e para ele.

Pôde ver o interesse na expressão do homem, que deu um passo em sua direção.

— Vamos entrar. — propôs em tom sóbrio, direcionando-se ao quarto.

Ela se virou e entrou no quarto, permitindo sua passagem.

—Não é de bom tom entrar em um quarto de uma dama, senhor. — ironizou enquanto caminhava pelo quarto. Apesar de ter acabado de roubar uma kunai de um dos guardas, ainda era resistente a ideia.

— É o que dizem, pena que eu não vejo uma. — disse ele com um sorriso entrecortado.

Ela sustentou seu olhar com a mesma indiferença. Não iria se sentir humilhada porque ele a via como uma inferior.

— Eu e o Reed fomos traídos há um tempo. — informou, voltando ao assunto que levara o homem ali. — Um dos nossos homens se vendeu para um corsário que desejava o Tamísia, e apesar de termos evitado isso, o Reed morreu durante a tentativa.

— O Reed era seu capitão. — inferiu, buscando se lembrar de já ter ouvido o nome.

— Sim, não costumo dizer isso de muita gente, mas ele era um bom homem. — disse Sakura, não sabendo por que estava deixando a conversa chegar a um tom tão pessoal.

— Mais um caso de condescendência aos mortos, pelo visto. — constatou o homem, fazendo-a notar que ‘’bom’’ era uma verdadeira hipérbole. Reed talvez fosse no máximo uma pessoa minimamente decente.

— É talvez não bom, bom. Talvez uma qualidade do tipo ‘’não me matou quando descobriu que eu era uma mulher’’ ou ‘não ser um completo calhorda’’.

— Talvez ele não tenha sido tolo o suficiente pra ter arrancado o braço direito e sabia reconhecer uma conveniência

Sakura o encarou de modo pouco amigável. O clima afável da conversa teria sido mantido se não soubesse o que ele quis dizer com conveniência. Era boato corrente que ela era amante de Reed. As pessoas afirmavam isso com tanta certeza que ela quase podia achar que podia se tratar de uma verdade que se esqueceram de informar a ela.

Ele nem desconfiava da interpretação da mulher quando a viu mudar o tom da conversa. Não que não tivesse ouvido as histórias sobre ela ser amante do falecido capitão, ou duvidasse delas, mas não colocaria isso em pauta de qualquer modo. Não imaginava destinos que não envolvessem violações no assoalho de um navio e um corpo jogado ao mar para uma mulher na pirataria. O envolvimento com o capitão pode tê-la livrado de uma sina ainda pior.

— Em todo caso, o nosso traidor não teve sucesso na missão, mas levou alguns manuscritos que tínhamos roubado de Dominic sem eu se quer ter tido tempo de avaliar. — falou, retomando o assunto central. — Provavelmente esperando pegar o Tamísia e decodifica-lo um dia.

— Então temos uma missão. — deduziu a olhando fixamente.

Sakura assentiu.

Notas finais
Pretendo manter a média de aproximadamente 1000 caracteres por capítulo, mas hoje deixei ele longo assim pela própria fluidez do capítulo. Espero que tenham gostado.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.