O bairro onde Lana morava era silencioso demais para uma terça-feira à noite. As luzes dos postes filtravam-se pelas copas das árvores como faróis enfraquecidos, e o céu pareceu escuro demais para um lugar com tanto conforto.

Miley estacionou o carro no meio-fio e observou a amiga parada na porta da casa, encolhida num moletom surrado com o capuz caído e o coque frouxo, como alguém que não via a luz do sol há dias.

Os olhos de Lana estavam fundos por trás de seus óculos de descanso. Carregavam o mesmo brilho de quando algo te consome por dentro e você já passou do ponto de voltar atrás.

— Você tá bem? — perguntou Miley, saindo do carro e se aproximando.

— Na medida do possível sim.

— O que foi? Você pareceu nervosa no telefone.

— Entra. — Lana abriu a porta e não disse mais nada.

O interior da casa era um retrato de obsessão. A mesa da sala de jantar estava tomada por pilhas de papel, recortes de jornais, páginas impressas da internet e fotos espalhadas como num mural investigativo.

No centro da mesa, uma fotografia de turma da Mountain High School. Vários jovens posando para a câmera e ela reconheceu sendo uma das várias entrevistas que eles deram nos jornais. Alguns rostos estavam riscados com “X” vermelhos. Outros, circulados com caneta azul.

Além disso, havia uma capa de revista em destaque de uma marca famosa, onde o rosto totalmente cheio de procedimentos estéticos de uma modelo se destacava. Miley reparou que também havia um círculo azulado em sua cabeça com um ponto de interrogação ao lado.

Miley parou, desconcertada.

— Lana... o que é isso?

Lana suspirou, cruzando os braços.

— É a turma da excursão no aquário. Alguns deles... estão começando a morrer.

— Como assim “morrer”? — Miley deu um passo à frente, os olhos percorrendo os rostos conhecidos — Você tá brincando, né?

— Queria que fosse... mas não. — Lana puxou um impressão de jornal e o estendeu para ela como se estivessem em uma sala de investigação policial — Esse aqui é o Thomas Siegel. Um dos adolescentes da loja de conveniência.

Miley pegou a cópia da página de jornal e leu, o sangue gelando aos poucos.

"Jovem é decapitado após briga em ônibus escolar. Acidente grotesco chocou motoristas no centro de Nova York. Corpo identificado como Thomas Siegel, 17 anos."

Ela engoliu em seco.

— Ele estava lá... no aquário. Eu lembro. Ria alto, fazia piada com tudo.

— Eu vi ele morrer... com a cabeça no meu para-brisa. — Lana se sentou, cansada, como se reviver aquilo drenasse suas forças — Eu achei que era um coincidência, uma obra do acaso cósmico. Só que depois... veio outro nome.

Ela puxou um obituário impresso.

"Susan Morrison. 16 anos. Asfixiada após vazamento de gás em apartamento familiar. Falecida hoje às 02h47."

— Isso foi hoje? — Miley perguntou, pasma.

— Duas horas atrás.

Miley passou a mão pelo rosto, exausta. Depois fitou a foto da turma no centro da mesa. Agora, havia três “X” vermelhos nas faces sorridentes de Thomas e Susan e um outro rapaz que ela não reconhecia.

— Tá... mesmo que eu aceite que esses jovens morreram... isso não quer dizer nada. Coincidência. Talvez destino, se você quiser ser poética. Mas não uma maldição, ou... seja lá oque for.

Lana virou-se para ela, os olhos fixos.

— E Sean Black? O cadeirante? E Derek Morris? Você viu o que eles iam fazer, Miley. Tinha algo errado ali. Você viu antes de acontecer.

— Eu tive um pressentimento. O lugar tava estranho. Talvez a música, a tensão... — Miley tentou explicar a si mesma mais do que à amiga— Meu pai costumava dizer que tudo tinha um sentido maior. Que a Morte era um ciclo, um plano. Mas eu nunca acreditei de verdade. Ele dizia isso desde que escapamos daquele incêndio no shopping, lembra?

— Eu lembro. — Lana assentiu — Eu tava com você. A gente cabulou aula pra ver Amor Mata. E quase morreu por causa disso.

— E aquele homem salvou todo mundo. Um verdadeiro herói como... eu fui.

As duas ficaram em silêncio por um momento.

— Talvez... — Lana disse devagar — ...isso seja como aquilo. Só que agora foi com você. Você salvou dezenas. Mas talvez... talvez não fosse pra salvar.

Miley virou-se de súbito.

— Você tá dizendo que eu não devia ter feito nada?

— Não é isso. É que... quando algo grande é alterado, quando você muda o destino de tantas vidas... talvez o universo precise corrigir. Encontrar equilíbrio. E o equilíbrio sempre... sempre cobra. — Ela apontou os “X” vermelhos na foto — E se essa é a ordem? A que você viu? E se está apenas começando?

Miley olhou de novo para os rostos. Três. Thomas. Susan. Mais um terceiro “X”, já riscado

— Quem é o outro garoto?

— Rory Geller. Ele morreu há dois dias em uma corrida clandestina perto de New Jersey. O volante do carro atravessou o peito dele.

O sangue de Miley gelou.

O garoto tinha um sorriso largo na foto. Uma expressão leve e com um futuro todo pela frente. Ela se lembrou vagamente dele segurando um pacote de balas na fila da lanchonete do aquário.

— Três mortos. Todos da mesma turma e, olha, tem mais, garota. — Lana se levantou. Caminhou até a estante e puxou uma ficha — Descobri que a escola deles... a Mountain High School... fica em McGregor.

Miley se virou devagar, encarando a amiga.

— McGregor? Como... o condado vizinho ao nosso? McGregor e McKinley. Os “condados gêmeos”. A gente cresceu ali perto.

— Exato. E eu achei... ligações antigas. Pais que morreram antes do atentado. Destinos estranhos cruzando de novo. Miley... e se você não foi a primeira a mudar o destino?

Miley passou a mão pela testa, se sentando na cadeira em frente a Lana. O coração bateu pesado.

— Se for verdade... e isso for mesmo uma correção... então os 35 sobreviventes daquela seção do aquário estão em perigo.

Ela voltou os olhos para a foto da turma. Os sorrisos pareciam zombar dela agora.

Trinta e cinco. Cada um... marcado.

Ela inspirou fundo. A sala pareceu encolher ao redor dela, tentando sufocar ela lentamente assim como foi as toneladas de água a acertando na visão.

— Miley... quem é o próximo?


○○○

A luz suave da manhã atravessava as janelas panorâmicas da cobertura de mármore e madeira polida.

Travis Romero, 59 anos, ajeitava a gola do roupão branco enquanto ajudava seu marido, Dylan Zahler, a se levantar da poltrona e caminhar até a cozinha aberta, decorada com uma elegância minimalista. O som da chaleira elétrica preenchia o ambiente com seu vapor tímido.

Travis era o tipo de homem que envelheceu como vinho caro: cabelos cacheados tingidos de preto, ombros largos e um abdômen bem definido que ele fazia questão de manter em dia com sessões semanais de estética e academia personalizada.

Desde que se tornara um dos empresários mais bem-sucedidos da região, conhecido pelas concessionárias Romero Motors espalhadas por McGregor e cidades vizinhas, Travis construíra um império — e um estilo de vida luxuoso para si e para Dylan.

— Eu ainda sei onde fica a cafeteira, você sabe — brincou Dylan, sorrindo enquanto passava os dedos pela borda da pia de granito. Sua expressão serena era emoldurada por cabelos grisalhos e levemente ondulados, e usava um moletom cinza simples. Os olhos, opacos, sempre mantinham um traço calmo e carismático, mesmo sem enxergar.

— Eu sei, amor. Mas me deixa ser seu mordomo romântico por hoje. — disse Travis, preparando a prensa francesa com café moído na hora.

— Só hoje?

— Hoje e os próximos quarenta anos. — respondeu com um sorriso galante, entregando-lhe a caneca com cuidado.

O som de "Set Fire to the Rain", de Adele, começava a tocar baixo na playlist que Dylan colocou em seu celular. A voz intensa da cantora parecia envolver o apartamento, contrastando com a suavidade da manhã.

— Estava pensando... — disse Travis, indo até o quarto ao lado, tirando o roupão para colocar uma de suas camisas sociais — Por que você não vem comigo ao SPA hoje? A sauna está liberada, tem massagem, frutas frescas... Você sempre sai renovado de lá.

— Você sempre sai bronzeado e querendo me convencer a fazer um botox, isso sim. — brincou Dylan, rindo. — Mas acho que não hoje. Ainda tenho duas aulas de libras pra preparar. E também... acho que prefiro ficar por aqui.

— Você trabalha demais, Dylan. Aposentar não te faria mal. Já fiz as contas, a gente poderia viver bem até os cem sem preocupações.

— E eu viveria morrendo de tédio. — respondeu com um suspiro leve — Além disso, hoje faz quatro dias desde o ataque no aquário. Como o tempo passa, não?

Travis se inclinou um pouco, olhando para ele com ternura. Mesmo sabendo que Travis estava no cômodo ao lado, Dylan ergueu um sorriso.

— Eu sei. Li sobre isso. E fiquei aliviado de verdade... tipo, de não ter acontecido uma tragédia.

— Eu também. Acho que quero comemorar isso. Nada grande... só uma festa com os nossos amigos mais próximos. Uma noite leve. Risadas, música boa, talvez vinho demais.

Travis riu, indo com seu blazer azulado em uma dos braços até ele e apertando a mão do marido.

— Só marcar a data, querido. Me diga quando, e eu cuido de tudo. Com DJ, garçons, iluminação azul... e você sendo o centro da noite.

— Não precisa de tanto luxo, Travis.

— Eu exagero porque amo. — disse Travis, beijando a mão de Dylan com carinho — Agora... eu vou sair. Preciso pegar um bronzeado antes que esse céu fique nublado de novo. Mas volto antes do almoço. Com donuts.

— Traz de morango, hein? Sem açúcar em cima, como eu gosto.

— Pedido anotado.

A música de Adele seguia no fundo, seu refrão ecoando sobre um amor perdido e como o fogo da paixão queimava seu rosto.

Travis se afastava em direção ao elevador privativo, deslizando os óculos escuros no rosto com um charme quase cômico. Dylan continuou sentado, sorrindo sozinho, o vapor do café subindo calmamente enquanto ele tocava o anel de casamento em seu dedo de forma leve.


○○○

O sol já lançava tons dourados sobre o asfalto enquanto Lana e Miley saíam do colégio Mountain de McGregor.

O prédio estava silencioso, envolto em uma aura pesada de luto. Para Lana, aquilo tudo parecia parte de um filme de ação barato — a típica dupla de garotas se metendo em algo muito maior do que elas. Ela não pôde deixar de sorrir ao pensar nisso. Afinal, haviam entrado em uma investigação, deixado de cumprir um trabalho, e estavam metidas até o pescoço tentando enganar a Morte.

Miley, por outro lado, estava menos entusiasmada. Seu cenho franzido deixava claro que o dia não estava indo como planejado. Seu rabo de cavalo ruivo estava firme e balançava de um lado ao outro com a pressa em seu andar.

— Uma hora de viagem pra isso? — ela resmungou, chutando uma pedrinha no chão. — Eles decretam recesso por causa dos mortos e pronto. Tudo fechado. E a cereja do bolo foi a secretária me olhando como se eu fosse uma psicopata por querer a lista de alunos. De heroína, virei lunática em dois minutos.

Lana vinha logo atrás, tentando acompanhar o passo raivoso da amiga.

— Você é uma lunática, só que da melhor espécie. — ela riu — Pelo menos isso tudo me lembrou das vezes que a gente cabulava aula juntas.

— Sim, exceto que naquelas vezes a gente tava fugindo de prova, não da porra da Morte — retrucou Miley.

— É... nada é perfeito.

Chegaram ao estacionamento praticamente vazio, exceto os carros dos funcionários da diretoria. Crianças pequenas riam e corriam na calçada próxima, voltando da escola infantil.

Era como se a vida continuasse, alheia às tragédias recentes. Miley entrou no carro, observando a cena com certa frustração.

— Vinte e cinco pessoas estiveram naquela noite no aquário... — murmurou ela, bufando — Não vamos conseguir encontrá-las a tempo. Até rastrear todas... metade já vai estar no necrotério.

Lana encostou-se ao carro. Ela estava tocando seu pingente de cristal no pescoço com certa ansiedade.

— E agora? Qual é o plano?

— A moda antiga. — disse Miley, dando uma olhada conspiratória — Vamos stalkear cada aluno, e depois os mais velhos. Depois disso, vêm os adultos. Quem não estiver em rede social, vamos caçar por registros.Não tem outra opção.

— Vai ser fácil achar a Sadie, pelo menos. — Lana comentou.

Miley ligou o motor e bufou.

— Sadie só morre depois de um velho ser empalado por um arpão. Literalmente. Vi em detalhes quando tive a visão. Depois disso, o homem bomba explode a escada. Sadie é a primeira a ser engolida pelo fogo.

Lana empalideceu.

— Jesus, Miley…

— Acredite, eu preferia não lembrar.

Enquanto saíam do estacionamento, Miley se deixou levar ao imaginar se alguém que ela salvou estaria morrendo naquele momento até que Lana soltou um aviso alto:

— CUIDADO!

Miley freou bruscamente. Uma menina de tranças havia atravessado bem na frente do carro, junto com um grupo de amigas. Ela se virou por um instante e cruzou o olhar com Miley.

— Aquela é... — murmurou Miley.

— PIPER! — falou a garotinha de franja e aparelho ao lado da Piper — Olha por onde anda.

— Essa garota estava no aquário. — Miley falou.

— Você tem certeza?

— Ela me olhou como se acreditasse em mim. Vamos guardar esse nome.

Lana anotou no celular enquanto observava Piper e as amigas seguirem a calçada, rindo como se nada tivesse acontecido. Era estranho. Perturbador até. Como algumas pessoas conseguiam seguir em frente, mesmo após olhar a Morte no rosto?

— E quando a gente encontrar todos? O que pretende fazer? — Lana perguntou.

— Reunir eles. Como num último apelo. Uma reunião, uma tentativa de quebrar esse ciclo maldito — respondeu Miley, ligando o ar-condicionado. — Droga. Tá quente demais... se eu não ligar isso, eu vou morrer queimada.

Mas, naquele instante, algo chamou sua atenção.

Do outro lado da rua, um outdoor da Motors Romero passava lentamente, montado sobre um caminhão de propaganda. A imagem de um homem sorridente, vestido com um terno branco engomado, reluziu sob o sol.

Mas havia algo estranho na foto. Um dos lados estava saturado demais, e a face parecia... queimar. Como se o calor do sol estivesse derretendo a imagem em tempo real. O rosto estava borrado. A pele pareceu carbonizada, quase derretendo.

Miley apertou os olhos, depois freou de vez.

— O que foi? — perguntou Lana.

— O próximo é ele. O homem do arpão. É ele.

— Como você sabe?

— Motors Romero. Eu fiz uma matéria sobre as concessionárias em ascensão na região, uns anos atrás. A cara dele não me é estranha. Eu entrevistei esse cara... acho que era alguma coisa Romero. Ele é o dono de uma das linhas de franquia. Se ele não se mudou nos últimos cinco anos... — ela pegou o celular e começou a digitar freneticamente. — ...a gente vai estar na cobertura dele em trinta minutos.

— E como você tem tanta certeza que é ele?

Miley riu. Um riso de puro escárnio.

— É fácil seguir as pistas. Tudo muito óbvio, parecendo esperar para ser notado. Acho que a Morte gosta de lançar dicas do que esta por vir e acho que aquele cara não terá uma morte muito tranquila.

Lana sorriu, impressionada com a conexão de pontos de Miley.

— Isso é bizarro… e genial. Você acha que consegue convencê-lo?

Miley soltou um leve riso nervoso.

— Eu não sei. Mas se ele não acreditar, vai ser mais um cadáver na lista.

Elas aceleraram pela rodovia, deixando para trás a escola vazia, as crianças risonhas e o sol poente... enquanto, ao longe, os olhos distorcidos do outdoor continuavam a encarar, como um aviso silencioso do que estava por vir.


○○○

O dia estava pesado, abafado, e ainda assim o DANTE SPA & WELLNES exibiu seu habitual ar de calmaria forçada.

Pelos fundos do edifício de madeira que exalava riqueza e poder, uma cena destoava dessa serenidade: dois operários equilibravam-se sobre o telhado inclinado, puxando lentamente um enorme aparelho de ar-condicionado para encaixá-lo na estrutura. O equipamento oscilava com o vento, rangendo a cada tranco.

Logo abaixo, a parede de vidro que se estendendo por todo o corredor interno refletiu o brilho do sol. Lá dentro, cada sala de spa tinha uma promessa de relaxamento.

No entanto, a vibração das marretas e o zumbido estridente das furadeiras, vindos das obras, ecoavam sutilmente pelo chão, atravessando paredes e ressoando nos canos como uma pulsação mecânica.

No interior da sauna a vapor seco, escondida da vista dos clientes, uma das válvulas de gás tremeu com um som seco — tac. Um estalo quase imperceptível, mas suficiente para abrir uma pequena fissura. Dela, começou a escapar um fluxo constante e silencioso, espalhando-se pelas entranhas de metal de uma das caldeiras.

O ar, saturado e inodoro, se acumulava como um predador à espreita, aguardando um motivo para atacar.

Foi nesse instante que Travis dobrou a esquina e se aproximou da entrada principal. Ele ajustou a mochila no ombro e parou diante do grande banner recém-colocado para receber clientes:

Respire fundo… aqui, o mundo lá fora não pode te alcançar.”

Travis arqueou uma sobrancelha, um sorriso enviesado surgindo por um segundo — o tipo de frase que, naquele dia, parecia carregada de ironia.

— E lá vamos nós! — Falou ele para si mesmo.

Ao entrar, foi recebido por uma recepcionista de voz melosa, que o conduziu até a sala de tratamento. O ambiente exalava aromas de óleos essenciais, mas ao fundo, abafado, ainda era possível ouvir os ruídos da obra — BAM… BZZZZ… CLANK. Ele notou, mas não deu importância.

— Mas que barulheira é essa? — Travis resmungou, podendo sentir a vibração pelas trepadeiras penduradas em uma treliça de madeira ao seu lado — Parece que é um terremoto.

— Eu lamento... estão apliando as salas das jacuzzi e de pilates. — falou ela, ajudando o senhor a se sentar na mesa de massagem — Acho que como falta pouco, eles querem terminar antes do final do semana.

Ela riu sem graça e Travis meneou a cabeça, se deitando:

— Um pouco mais alto e eu quase fico surdo.

A sessão começou com uma esfoliação na pele, grãos aromatizados deslizando lentamente sob movimentos circulares. Depois, vieram as pedras quentes, colocadas com precisão ao longo da coluna, irradiando calor profundo. Travis relaxou, mas havia algo… deslocado.

Entre um toque e outro, o eco distante de um martelo se misturava ao som relaxante que tocava nos alto-falantes.

Ao término da massagem, a funcionária o conduziu até o corredor lateral. O chão brilhava sob a luz filtrada pela grande parede de vidro — a mesma que, lá fora, tremeu levemente a cada impacto das obras.

Ele reparou como era um corredor aconchegante com suas paredes de madeira e colunas pintadas com cores quentes e fortes, dando uma combinação agradável com o gramado lá fora.

Estava tudo indo bem até um garoto derrubou um coquetel de uma bandeja no chão ao tentar entrar na sala de tratamento estético. Um líquido vermelho com pedaços escarlates, provavelmente morango, se espalhou até chegarem aos pés de Travis.

— Ai, que susto! — falou a funcionária, levando a mão no peito — Tenha mais cuidado!

— Perdão! — Falou o garçom — Acabei tropeçando.

— Senhor Romero, por aqui... — A funcionária estava quase dando as costas e continuando quando parou e viu que não estava sendo seguida — Senhor?

Travis analisava a cor agressiva no chão branco e como aquilo aparentava algo mais profundo e brutal. Ele engoliu em seco.

No ar, uma fina reverberação se misturava a algo mais: uma sensação estranha, quase como um pressentimento abafado no peito.

Travis ergueu o olhar por um momento, encarando a porta fechada da sauna onde faria sua próxima sessão. Piscou, respirou fundo… e seguiu em frente.

— Não foi nada. Só toma mais cuidado, rapaz! Poderia ter me matado de susto!

O garoto riu da piada sem graça por educação e voltou a limpar sua bagunça no chão. Lá dentro, as caldeiras aguardavam, o gás invisível acumulando-se, impaciente.


○○○

O hall de entrada do edifício reluziu sob a luz amarelada dos lustres, refletida no mármore impecável do piso.

Miley e Lana atravessaram as portas automáticas, o sopro gelado do ar-condicionado dissipando o calor abafado da rua. O lugar cheirava a uma mistura de produto de limpeza e polimento de madeira cara.

Na recepção, um segurança alto e de braços cruzados as olhou de cima a baixo antes de indicar com o queixo a parede lateral, onde um interfone prateado exibia uma fileira de botões.

Miley apertou o de “PH – Cobertura”, o som do clique ecoando seco.

Um estalo. Então, uma voz rouca masculina, carregada de impaciência:

— Alô?

— Olá… Travis está? — perguntou Miley, tentando manter o tom firme.

Do outro lado, um suspiro audível.

— Ele não está. E se forem jornalistas, façam um favor: deixem ele em paz. Só com hora marcada.

Lana trocou um olhar rápido com Miley, que se aproximou mais do aparelho, como se pudesse encurtar a distância com a força da própria voz.

— Eu não sou jornalista. Meu nome é Miley… eu estava no Aquário. Evitei o massacre.

Houve uma pausa. Não longa o bastante para ser dramática, mas o suficiente para transparecer descrença.

— Ah, claro… — a voz soou com um sarcasmo contido. — E eu sou o presidente.

— Eu sei que parece absurdo. — continuou Miley, sem se abalar — mas eu vi o que ia acontecer. Salvei algumas pessoas. Inclusive… talvez tenha salvo o Travis.

— Olha moça, se isso for uma brincadeira...

— Não é. Eu realmente sou a Miley. Eu preciso falar com ele urgentemente, senhor. É algo sério e que só pode ser falado pessoalmente.

O silêncio que veio depois foi diferente. Mais pesado. Como se o homem do outro lado estivesse revendo mentalmente algo que não queria admitir.

— Você disse Miley, certo? — perguntou por fim, num tom mais neutro.

— Sim.

Um bip soou, e a trava da porta interna se liberou com um clique metálico.

— Podem subir. Apartamento da cobertura.

Miley respirou fundo. Lana ajeitou a alça da bolsa no ombro. As duas atravessaram o corredor acarpetado, rumo ao elevador espelhado, sem trocar uma palavra.

No entanto, o ar ali já pareceu mais carregado, como se o encontro que as aguardava no topo tivesse um peso que nenhuma das duas queria nomear ainda.


○○○

O vapor denso abraçava Travis como um cobertor quente, enquanto ele se recostava no banco de madeira, os olhos fechados, imaginando a grande festa que faria. Luzes, música alta, risos… e a pessoa que ele amava ao lado, brindando a uma nova vida.

Mas a fantasia começou a se dissipar quando percebeu algo diferente. O calor estava mais pesado, mais sufocante. Ele abriu um pouco os olhos e, através da cortina de vapor, viu as pedras da caldeira reluzindo com um brilho estranho, mais intenso do que lembrava.

Passou a mão no rosto, se abanando, sentindo as gotas de suor escorrerem como se sua pele estivesse prestes a ferver.

— Relaxa... Isso é normal. — Falou ele, tentando manter a calma.

Lá fora, nos fundos do spa, os operários martelavam e perfuravam o telhado, sacudindo toda a estrutura.

Um pó fino, resultado das obras, foi se acumulando nos dutos de ventilação, obstruindo a saída de ar da sauna. O ambiente, antes sufocante, começou a se tornar um forno.


○○○

O elevador subiu lentamente, sacolejando a cada andar. Miley sentiu o ar rarefeito e o peso do momento. O vento que bateu contra as janelas já anunciava que lá em cima não haveria lugar para hesitar.

Quando a porta se abriu, ela e os outros pisaram no piso frio da cobertura. À frente, um homem de braços cruzados observava o horizonte da cidade como se estivesse esperando que algo caísse do céu.

Era Dylan.

— Você é realmente quem diz ser? — disse ele, sem se virar. Sua voz era dura, como a de alguém que já tinha se trancado contra qualquer surpresa.

— Sim, senhor... — Miley deixou as palavras arrastarem para falar seu nome.

— Pode me chamar de Dylan.

Miley reparou que ele era cego pelos seus olhos leitosos e ficou pensando em como ele se mostrou bastante solícito em deixar duas estranhas subirem ali para conversar com ele.

Dylan apontou para o sofá ao seu lado e ele foi, sem grandes dificuldades, até se sentar. Miley e Lana foram na outra ponta do sofá, se sentando próximo de uma lareira acessa aconchegante.

— Eu apenas deixei vocês subirem porque você, minha querida Miley, foi a responsável por um saco de ossos velhos como eu estar em pé agora. Acho que quando chega em uma certa idade... nós só queremos aproveitar o máximo de tempo possível com quem amamos, não?

Miley sorriu. Era difícil ela contar toda a tragédia que iria arruinar aqueles pensamentos. Ela se aproximou dele, tocando suas mãos e ele automaticamente as segurou com firmeza.

— A vida é uma dádiva mesmo. E obrigado por ter nos deixado vir até aqui. Isso significa muito para nós.

— Eu... te ouvi em uma entrevista na rádio. Você foi fabulosa, garota. Só que eu acho que você não veio até aqui para me ouvir tagarelando, não?

Ela riu de forma contida.

— Eu sou Miley Aster e aqui também está minha amiga, Lana West. Nós viemos até aqui para falar com Travis Romero. Ele está?

— Ele saiu faz algum tempo. Porque?

Miley olhou para Lana, compartilhando um misto de emoções nada agradáveis somada a tensão.

— Nós não estamos aqui à toa. — respondeu Lana — Três pessoas que estavam no aquário.... bem... já morreram. E achamos que Travis pode ser o próximo.

Dylan parou de sorrir lentamente para encará-los. O ceticismo estava estampado no rosto dele.

— Vocês... tem certeza disso? São realmente as mesmas pessoas?

— Sim. Nós confirmamos.

Ele deu um meio sorriso sarcástico.

— Vocês parecem aqueles malucos que vendem teorias no metrô.

— Eu não vim aqui para te convencer com histórias. — Miley insistiu — Eu vim para salvar Travis.

O silêncio se instalou por alguns segundos, quebrado apenas pelo assobio do vento passando entre as antenas da cobertura. Lana observou as vidraças, imaginando se a Morte estaria ali.

Dylan desviou o olhar, claramente desconfortável, mas algo na expressão de Miley pareceu minar sua descrença.

— Você disse... três pessoas? — ele perguntou, hesitante.

— Três. Todas ligadas de alguma forma a este lugar, e todas mortas na mesma ordem da minha... visão. — Disse Miley, firme.

Dylan respirou fundo. Passou a mão pelo rosto, como quem não queria acreditar, mas já começava a aceitar.

— Se isso for verdade... eu preciso falar com alguém. — disse ele, puxando o celular do bolso.

Seus dedos tremiam levemente enquanto discava.

— Vou ligar para o meu marido.

O som da chamada ecoou no viva-voz. Uma vez... duas... três... Mas ninguém atendeu.

Dylan ergueu sua cabeça para Miley, seus olhos desfocados mergulhados em um ceticismo dando lugar a uma sombra de medo.

— Ele sempre atende. Sempre.


○○○

O vapor denso e sufocante tomava conta da sauna, tornando cada respiração um desafio pesado e úmido. As gotículas quentes escorriam pelo rosto de Travis, misturando-se ao suor e caindo como pequenas lâminas líquidas em sua pele avermelhada pelo calor.

— Tá quente aqui...

Ele ergueu o braço para limpar a testa, quando percebeu, na penumbra turva, a tela do celular piscando em cima do banco — uma chamada perdida de Dylan.

O coração deu um salto, mas antes que pudesse pegar o aparelho, um estalo metálico e grave ecoou pelas paredes.

— Que isso?

Ele reparou acima de sua cabeça a superfície do teto de madeira tremulando com tanto calor e pequenos jatos de gás saindo e ondulando o ar em volta. Ele sabia que aquilo não era uma coisa boa.

Ele se levantou rápido, tentando abrir a porta. Ao tocar, o metal queimou sua mão instantaneamente, arrancando-lhe um grito gutural que ecoou abafado pelo vapor.

— TEM ALGUÉM AÍ?

Ele ignorou a vermelhidão dos dedos e forçou a pegar novamente na porta, mas a maçaneta se soltou com um estalo seco, ficando a alça metálica em sua mão.

O som da alça do lado de fora caindo no chão o fez entrar em pânico.

— Não… não, não! — murmurou, tentando empurrar a estrutura de madeira reforçada, sem sucesso.

A madeira sob seus pés estava tão quente que parecia querer ceder, mas não cedeu. Ele chutou a porta, socou, implorou — mas cada golpe apenas devolveu um baque seco e surdo, como se a sauna fosse uma caixa selada, decidida a mantê-lo ali até o fim.

O ar ficou mais denso. Seus joelhos cederam, e ele caiu, sentindo as fibras da madeira colarem em sua pele suada e já marcada pelo calor. O vapor, antes apenas um manto opaco, agora pareceu vivo, envolvendo-o, penetrando cada poro. Seus ouvidos zumbiam, e a visão piscava em tons de vermelho e branco

Foi então que ele começou a ouvir seu coração batendo em seu peito e a tontura tomando conta de si. Travis recuou, o peito arfando, quando o mundo explodiu num rugido ensurdecedor.

BOOOOOMMM!!!

Tudo ficou em um clarão alaranjado intenso.

A caldeira, agora um monstro de ferro em fúria, arrebentou a parede, lançando estilhaços incandescentes. Uma das placas quentes atingiu o abdômen de Travis, rasgando-o em um corte profundo.

O calor era tão intenso que a carne queimava enquanto se abria, e ele soltou um berro agudo, olhando horrorizado para o vermelho vivo e pulsante que agora escapava de si.

A parede destruída ao seu lado dava diretamente para o corredor e movido por um instinto de sobrevivência, pisou nas brasas com os pés nus, sentindo suas solas queimarem dolorosamente.

— SOCORRO!!!

No impulso desesperado, sua toalha caiu de sua cintura e automaticamente mostrou coisas que Travis não queria, mas que naquele momento, eram irrelevantes.

Um dos seus intestinos ficou preso no vão da abertura incandescente e afiada, puxando como uma linha de novelo de lã vermelha lentamente.

A dor o fez urrar, quase dobrando os joelhos, enquanto tentava se soltar. O som pegajoso e molhado do órgão esticando ecoou pelo corredor, cada centímetro um tormento.

— Socorro! SOCO...

Num passo errado, ele se desequilibrou. O corredor de vidro que levava ao vestiário parecia brilhar com a luz da explosão atrás dele, e, num piscar de olhos, Travis caiu contra a vidraça.

O impacto fez ele cair no gramado em meio à chuva de cacos, onde pousou de bruços e com um puxão doloroso e final de suas entranhas saindo. Ele gritou, onde um caco comprido e afiado entrou em sua garganta.

O céu de sua boca se encharcou de sangue assim que o pedaço da vidraça penetrou na sua carne, interrompendo o grito no mesmo instante com um ruído abafado e molhado.

— O que é isso? — Falou uma cliente abrindo a porta de ioga — Meu Deus!

— Alguém chama os bombeiros! — Berrou um funcionário correndo pelo corredor.

Os clientes e operários, que corriam para ver o que havia acontecido, pararam estarrecidos. A explosão final da sauna iluminou o corredor e desmoronou seu teto, espondo seus canos incendiados e derretidos.

Do lado de fora do coredor, se revelava Travis caído, nu, com as vísceras ainda presas à abertura irregular da parede e estendidas como um fio grotesco ao longo do chão encharcado.

Seu olhar já era vazio, mas a cena parecia congelada no horror.



Notas finais
FALA AÍ GALERA! como vão? Esse capítulo demorou para sair pois estava entrando em um novo trabalho de CLT kkk e acabei deixando um pouco de lado a história. Acho que esse foi o capitulo mais longo até aqui. Nem eu acredito que fiz tudo isso kkk. Esse acidente da sauna me inspirei em alguns casos isolados de acidentes envolvendo explosões e pessoas que desmaiam após a pressão da sauna exceder o limite (sim, aparentemente é raro, mas pode acontecer). E lá de vai mais um corpo, quem será o próximo? Se você leu até aqui, muitíssimo obrigado pela leitura! Fico feliz em ter chegado até aqui. Até o próximo capítulo!