PREMONIÇÃO - Sangue Marcado
4 Estarei observando
O calor era intenso.
Brad avançava pelo corredor tomado por fumaça, o capacete pesado protegendo sua cabeça, mas não abafando o rugido do fogo que devorava tudo à frente.
O cheiro acre de plástico e tecido queimados se misturava ao gosto metálico do ar rarefeito.
Empurrando a porta do quarto com o ombro, letras cor-de-rosa denunciavam o nome "Mel", ele viu a garotinha encolhida num canto, os olhos marejados e brilhando de medo.
Ursinhos de pelúcia jaziam espalhados em um canto já começando a ser engolido pela fumaça negra. Um deles, um enorme tubarão de pelúcia, brilhava de forma trêmula — as chamas contorcendo o tecido num sorriso quase diabólico que fez um arrepio gelado correr pela espinha de Brad.
— Vai ficar tudo bem… — murmurou, agachando-se para envolvê-la nos braços.
Estalos foram ouvidos no corredor e Brad conseguiu ver lascas caindo do teto. Um ranger lento que denunciava que o caminho não estava mais tão sólido assim.
A menina soluçava baixo, ainda usando o seu pijama, agarrando-se ao seu pescoço como se fosse a única âncora no mundo.
Brad atravessou o quarto até a janela. Lá fora, a escada de incêndio aguardava, e abaixo, mangueiras jorravam água sem descanso, lutando contra o mar de fogo que se espalhava no andar abaixo.
O metal da escada queimava sob suas luvas enquanto ele desceu com passos firmes, tentando equilibrar o peso daquela vida em seus ombros.
No térreo, uma mulher negra e com um roupão chamuscado correu até eles. A mãe. Ela agarrou a filha com força, chorando de alívio.
— Meu Deus… — a voz dela tremeu — Obrigada! Muito obrigada.
— Não foi nada, moça.
— É claro que foi! Você foi uma anjo da guarda da minha pequena Mel! Era o destino você estar aqui! Muito obrigada!
Brad respirou fundo, limpando o suor que escorreu por seu rosto. O olhar da mulher era de uma gratidão quase desesperada, mas a palavra “destino” soou como um presságio, ecoando dentro dele.
Um aplauso espontâneo começou entre os moradores e curiosos do outro lado da rua. Reconheciam ele. O homem que salvara dezenas no massacre do aquário.
Brad acenou, um pouco envergonhado. Ainda não tinha se acostumado em ser o centro das atenções.
Um colega bombeiro, a farda vermelha coberta de fuligem, se aproximou com passos lentos. O rosto cansado denunciava a notícia que vinha.
— Não conseguimos salvar um senhor no andar onde tudo começou.
Brad fechou os olhos por um instante, o peso da derrota se misturando ao calor.
— Quem era ele? — perguntou a mulher com a filha, quase num sussurro.
— Não sei dizer. Foi no apartamento 345.
A mulher levou a mão na boca e suspirou, tentando conter as lágrimas. Brad levou ela até uma ambulância, onde a filha dela iniciou os primeiros-socorros.
— Aquele homem era Ed Roth. — Ela falou, olhando para o andar onde ele morava — Um senhor muito gentil que adorava jogar conversa fora. Que ironia cruel...
Brad franziu a testa. Sentiu algo ainda majs inquietante dentro de si.
— Como assim?
A mulher hesitou, antes de responder:
— Bem… ele dizia para todo mundo que tinha ganhado anos de vida depois de sair ileso do atentado que você evitou.
Brad olhou para cima, para o fogo que começava a ceder, mas continuava rugindo como uma fera ferida.
Dentro dele, algo se apertou — um misto de impotência e estranheza, como se uma sombra invisível tivesse decidido o destino de todos ali muito antes das chamas começarem.
○○○
DIA SEGUINTE
Miley Aster não conseguiu tirar Travis da cabeça.
Sentada sozinha na copa minúscula do Jornal da Hades, mexeu distraidamente nas batatas fritas já frias e murchas, os dedos trêmulos batendo na beirada de seu sanduíche. O intervalo do trabalho deveria servir para respirar, mas o ar lhe parecia pesado demais.
A imagem de Dylan ainda era nítida. O rosto dele tentando se manter firme, a mandíbula travada, os olhos úmidos que nunca se quebravam na frente delas. Mas Miley tinha visto. Tinha sentido.
E o silêncio dele, a forma como segurava a dor para não desmoronar diante dela e de Lana, foi como uma lâmina em seu peito.
Aquilo a fez lembrar de Victor, seu pai. Do jeito como ela mesma reagiu à morte dele meses antes — o desespero cru, o chão se desfazendo sob seus pés. Ver Dylan tentando segurar as próprias ruínas apenas reabriu cicatrizes que ainda sangravam.
Ela estava perdida nesses pensamentos quando a porta da copa se abriu. Lana West entrou, os cabelos castanhos presos em um coque frouxo e um pingente de cristais no pescoço. A expressão gasta de quem havia atravessado o inferno.
— Posso me sentar aqui? — perguntou, quase num sussurro.
Miley respirou fundo e soltou uma piada seca, como forma de defesa:
— Só se você não roubar minhas batatas.
Um sorriso frágil passou pelo rosto de Lana, mas morreu rápido. Ela se acomodou, apoiando os braços na mesa.
— Mais alguém morreu?
Miley encolheu os ombros.
— Não sei. Muita gente saiu viva do aquário… é impossível acompanhar todos.
— É impossível definir quem será o próximo desse jeito. — Lana completou, cansada, o olhar perdido em seu próprio lanche — Pela Hecate, isso me deixa agoniada.
Miley a observou com atenção. Sabia o peso que Lana carregava: passar horas como testemunha de Dylan para reconhecer o corpo do marido.
Dylan, cego, só podia confiar nos ouvidos e nas mãos alheias. Miley não teve coragem de entrar na sala da autópsia — apenas ouviu, do lado de fora, o choro contido do velho homem.
Um som curto, quebrado, que ainda ecoava em seus ossos. Lana também não comentou, mas Miley viu nos olhos dela como aquilo a havia marcado.
— A gente precisa fazer alguma coisa, Lana. — disse, firme, quebrando o silêncio — Antes que isso chegue até nós. Eu… eu não quero ver ninguém que eu amo morrer.
Lana hesitou, como se tivesse guardado aquilo por tempo demais, e então puxou algo do bolso da jaqueta. Um cartão de visitas.
— O que é isso? — Miley arqueou a sobrancelha, pegando o pedaço de papel.
Era de uma cartomante. Letras douradas num fundo preto envelhecido: Fiona Morgan – Leituras, destinos, revelações.
— Você está brincando comigo? — Miley soltou, quase rindo.
— Não. Pesquisei. Fiona… tem um passado conturbado. Algumas tragédias que ela evitou, ou pelo menos diz que evitou. Usa isso como propaganda.
Miley torceu a boca, intrigada e desconfortável ao mesmo tempo.
— Isso soa falso.
— Talvez. Mas ela sabe de algo. — Lana insistiu, mordendo um pedaço de seu hambúrguer — Ela também teve uma visão uma vez. Horrível. E conseguiu evitar que se cumprisse. Igual a você.
Miley ficou em silêncio, passando o dedo pelo cartão como se fosse uma chave ainda fechada. A curiosidade começou a corroer a dúvida. Levantou-se de súbito, pegando a bolsa.
— Então vamos até ela.
— Agora? — Lana piscou, surpresa.
— Agora. Cada minuto que passa, alguém morre.
Sem esperar resposta, Miley saiu apressada com uma lata de refri em uma das mãos, pensando que aquilo substituiria seu almoço.
Lana veio atrás dela, alcançando as chaves de seu carro em cima da sua escrivaninha. As duas iriam sair com pressa, mas algo chamou atenção delas.
O corredor do jornal estava tomado por uma agitação incomum, vozes altas, telefones tocando sem parar. Repórteres corriam de um lado para o outro.
Miley agarrou o braço de Maddox, seu chefe, que atravessava a redação aflito e com vários papéis imprimidos sobre mandado de prisão em uma das mãos.
— O que está acontecendo?
Ele a encarou com olhos arregalados, voz acelerada:
— Encontraram o paradeiro de Sean Black. O maldito terrorista que tentou fazer aquela merda. Perto de Nova Jersey.
Miley sentiu o estômago gelar. O relógio invisível da morte pareceu acelerar cada vez mais. E a corrida contra o inevitável acabava de ganhar uma nova peça no tabuleiro.
○○○
Sean Black abriu os olhos devagar, como se tivesse dormido dentro de um poço sem fundo.
O teto rachado do motel barato o encarava, sujo e desbotado, e o som distante de carros na rua misturava-se ao zumbido de um aparelho de ar-condicionado que nunca funcionava direito.
Ele respirou fundo, o peito pesado.
O sonho ainda latejava em sua mente: Se viu no aquário, a pistola firme nas mãos, todos mortos. Inclusive Thomas e Rory Geller — os valentões que o atormentaram durante toda a adolescência. No sonho, eles caíam um a um, o chão ensanguentado, e ele, livre da sombra deles.
Mas quando acordou, não havia sangue. Apenas silêncio. Um alívio amargo o percorreu. Nada daquilo tinha acontecido.
Mas a culpa permaneceu: a intenção bastava.
Levantou-se preguiçosamente, arrastando os pés até o banheiro estreito. O espelho rachado refletiu um rosto que pareceu não ser mais o dele: olheiras profundas, olhos vermelhos de noites em claro.
Seus cabelos encaracolados, castanhos escuros, escapavam debaixo da touca amarrotada. A barba crescia desordenada, manchando o queixo e as bochechas. Ele pensou em deixá-la, talvez ficasse irreconhecível. Talvez se tornasse alguém que não fosse Sean Black.
Apoiou as mãos na pia.
— Derek… por que eu ouvi você? — murmurou, a voz quebrada.
A lembrança o corroeu. Derek Morris, com suas ideias de vingança contra aqueles que os ridicularizavam, parecia tão convincente naquela noite.
Eles, diferentes, frágeis, tímidos, até compartilhando segredos íntimos que viraram munição de chacota para a turma.
Sean não queria isso. Nunca quis. Mas foi. Aceitou.
As lágrimas vieram sem permissão. Escorreram lentas, ardendo contra a pele cansada.
Ele sabia agora: o destino já tinha feito o trabalho sujo. Thomas, Rory, os outros… todos caindo em acidentes bizarros.
Havia lido em um jornal abandonado no chão do quarto. As manchetes falavam de acidentes de carro, vazamento de gás, mortes horríveis.
Se soubesse que todos já estavam marcados, nunca teria aceitado se explodir em uma cadeira de rodas.
O mundo não precisava dele para punir. Sean puxou a pistola da barra da calça. O frio do metal pesou em sua mão. Encostou o cano na própria têmpora, olhando-se no espelho.
O reflexo devolveu apenas um homem quebrado, vazio. O dedo tremeu no gatilho, mas nada aconteceu.
— Eu sou um covarde até nisso...
Com um suspiro trêmulo, ele abaixou a arma, enfiando-a de volta no cós. Não queria morrer ali, sozinho, no fedor de mofo de um quarto barato. Se fosse para acabar, que fosse longe de tudo.
Saiu do quarto. O corredor estava estranho demais, abafado demais, apesar do burburinho dos hóspedes nos quartos vizinhos. Risadas, gemidos, televisões ligadas. Sons que não o deixaram dormir a noite toda.
Desceu as escadas, cada passo ecoando como batida de tambor. A recepção estava vazia. Nenhuma das duas recepcionistas, que costumavam fofocar atrás do balcão, estava lá.
A televisão desligada, a sala mergulhada em uma calma suspeita. Sean sentiu o coração acelerar.
Sean passou por um carrinho de limpeza abandonado em um canto perto de uma porta enferrujada que levava ao estacionamento do subsolo. Seria algo natural, mas viu como havia um cabo desencapado de abajur perto de uma poça de água.
O zelador havia parado de limpar aquele chão por algum motivo e deixado tudo aquilo de qualquer jeito, o que chamou atenção de Sean.
— Calma...
Chegou perto das portas de vidro fosco e totalmente embaçadas por sujeira. E então as viu: luzes vermelhas e azuis piscando do lado de fora.
Polícia. FBI. Talvez todos.
O coração explodiu em batidas violentas. Ele cambaleou para trás, escorregando em uma poça de água deixada por um balde de limpeza. A água deslizou para frente pela sola do tênis dele, entrando no cobre exposto do fio.
Um estalido elétrico zumbiu no ar e viu faíscas voarem contra suas pernas. Por pouco não caiu. Agarrou-se à parede, arfando, os dedos trêmulos.
Não podia ser ali. Não pelas mãos deles. Se fosse morrer, seria pelo próprio gatilho.
Virou-se e correu. As portas dos fundos davam para um corredor estreito, úmido, cheiro de lixo.
No entanto, antes que chegasse à saída, dois policiais armados surgiram do outro lado, bloqueando a passagem.
Sean prendeu o ar, o corpo inteiro vibrando de adrenalina. Sem pensar, disparou na direção oposta, descendo pelas escadas do subsolo.
Elas levavam ao estacionamento, e talvez, só talvez, à fuga.
○○○
O volante tremeu nas mãos de Miley enquanto ela avançava pelas ruas movimentadas da cidade.
A pressa queimava nela como febre, e cada farol vermelho parecia uma barreira contra a urgência que estava sentindo.
Ao lado, Lana West segurava o cinto com força, os olhos arregalados. Seus dedos não paravam de mexer em seus anéis como forma de se acalmar.
— Miley, pelo amor de Deus! Se não quiser partir antes da hora, vai devagar!
Miley mordeu o lábio, desviando entre dois carros. Deu para ouvir as reclamações deles ficando para trás.
— Impossível. Se a morte ainda não me marcou, não é hoje que vai ser. Mas… vou tomar cuidado, eu prometo.
As buzinas ecoaram quando ela avançou no próximo cruzamento. O sinal vermelho brilhante logo acima delas. Um carro freou bruscamente, a poucos metros do lado em que Lana estava.
O grito abafado de Lana escapou, seguido de sua respiração descompassada. Ela fechou os olhos, e imediatamente a memória voltou: a cabeça decapitada do garoto, rolando em seu para-brisa dias atrás.
A imagem vinha como flash, e a náusea a fez prender o ar.
“Não vai acontecer com a gente… não vai… Sean é o próximo”, repetiu para si mesma como mantra.
— Miley… se chegou na vez do Sean... — falou, ainda com os olhos fechados — Isso significa que o resto dos alunos...
— Eles estão mortos. — respondeu Miley, rápida, focada na rua — Havia mais pessoas para serem mortas antes de Sean, mas se chegou na vez dele... quer dizer que já morreram.
— Eram tão jovens... — Lana abriu os olhos, inconformada.
Miley não disse mais nada. Entrou bruscamente em um estacionamento público e desligou o carro, os pneus ainda rangendo. As duas saíram.
O ar daquele início de tarde estava pesado, abafado, misturado com o cheiro de gordura quente vindo de um carrinho de cachorro-quente.
O rádio do vendedor tocava uma música antiga, de melodia doce mas letra sufocante. Miley só pegou alguns trechos: “Every breath you take…” seguido de uma reportagem cortada sobre tiros.
O refrão "Estarei te observando... todo santo dia" pareceu um aviso aos ouvidos delas. A sensação era de que até as canções conspiravam contra elas.
Miley sentiu uma brisa fria para um dia quente como aquele, balançando seus cabelos ruivos. Seus olhos de águia repararam um skatista passando com uma camisa estampada com uma banda de rock chamada WILD STRANGERS.
— Essa mulher deve morar aqui perto. — Falou Lana.
Miley estava absorta nisso quando esbarrou em alguém.
— Cuidado! — murmurou, e então o reconheceu. — Brad?
Ele a olhou com estranheza. Brad pareceu estar no meio de uma corrida matinal pela regata branca marcada contra o peitoral e a bermuda esportiva.
— O que você está fazendo aqui? Está me seguindo?
Miley arqueou as sobrancelhas, incrédula.
— Como assim seguindo você? O que você faz aqui?
Brad apontou para um prédio antigo do outro lado da rua. Na lateral, uma pichação grotesca: um alvo mal pintado, branco e preto. Miley sentiu um calafrio percorrer sua espinha.
— Eu moro aí. Apartamento no quarto andar.
Miley tentou rir, mas a tensão endureceu sua voz.
— Muita coincidência a gente se encontrar de novo.
— Coincidência demais... — respondeu ele, com o mesmo desconforto, ele observou Lana e a cumprimentou — Olá, tudo bem?
— Ultimamente não.
Brad franziu a testa ao ouvir aquilo e reparou como as duas mulheres estavam com uma apreensão estranha.
— O que vocês fazem desse lado da cidade?
— É… uma longa história. — Miley respirou fundo, passando a mão no rosto para se livrar de seus problemas — Mas resumindo: estou tentando parar as bizarrices que estão acontecendo com os sobreviventes.
Os olhos de Brad mudaram. Um brilho de tensão, como se tivesse ouvido algo que confirmasse seus próprios medos. Ele não riu, não duvidou. Apenas assentiu, quase em silêncio.
— Eu também acho que tem algo errado. — disse, por fim — Ontem mesmo fiquei sabendo que um senhor que estava no aquário… morreu. Incêndio na cozinha. Eu estava lá, tentando ajudar.
Lana cruzou os braços, firme.
— Então já foram quantos? Oito? Dez?
Miley coçou a cabeça, nervosa, balançando a mão como se espantasse os pensamentos.
— Ainda é muito louco acreditar nisso. Que existe algo maior, movendo a vida da gente como peças num tabuleiro.
— Agora você acredita em mim, né? — Lana falou, sorrindo, observando ao redor — Eu sempre sabia que existia algo, a própria natureza, a deusa, magia, sei lá o que... controlando cada passo que damos no nosso dia a dia. E saber que isso é real é...
— Uma bosta.
— Eu não seria tão rude assim... mas é.
Brad franziu a testa.
— Do que vocês estão falando, afinal?
Miley hesitou por um instante, então perguntou direto:
— Você já ouviu falar de Fiona Morgan?
Brad soltou um riso frouxo, um sorriso cansado.
— Difícil alguém não conhecer.
O silêncio que veio depois pareceu ainda mais pesado que o trânsito da cidade.
○○○
O frio daquela tarde pareceu grudar na pele de Sean Black enquanto ele disparava pelo estacionamento mal iluminado, os tênis rangendo sobre o asfalto manchado de óleo.
Entre fileiras de carros estacionados, as luzes vermelhas e azuis piscavam intermitentes, refletindo nos vidros e metal como espectros vibrantes.
Por um segundo ele pensou ter visto uma sombra estranha atrás de si. Parada. Parecendo analisar ele como se fosse uma presa, mas logo esse pensamento sumiu no segundo seguinte.
— Polícia! Para onde está! — a voz grave ecoou atrás dele, seguida de tiros secos que quebraram parabrisas e espalharam estilhaços pelo chão.
Sean sentiu seu coração bater tão rápido que doía. O som das balas ricocheteando o fez abaixar a cabeça, correndo em zigue-zague entre SUVs e sedãs, procurando qualquer sombra que o escondesse.
Ele se amaldiçoava a cada passo: por ter aceitado a ideia idiota de Derek, por ter sido fraco ao ceder aos desejos cruéis, por ter deixado as piadas dos outros se transformarem em decisões fatais.
"Se eu tivesse sido firme… nada disso teria acontecido."
Ele queria ver seus pais. Queria pedir perdão, mesmo sabendo que, agora, eles o enxergavam como um monstro. Uma lágrima escapou, que ele limpou com raiva, até que, por um milagre momentâneo, conseguiu atravessar uma porta de serviço nos fundos.
O corredor que encontrou era estreito, úmido, com paredes descascadas e pichadas com obscenidades. Lâmpadas amareladas piscavam, lançando sombras que pareciam se mover sozinhas.
O ar tinha cheiro de mofo e um desespero avassalador a cada passo dado. Seguindo adiante, Sean saiu para um beco. O silêncio, pela primeira vez, era completo.
Ele olhou para trás — ninguém em sua cola. Um alívio amargo percorreu seu peito. Talvez seu desejo se cumprisse ali: morrer num canto esquecido, longe de tudo.
Até ouvir a buzina.
Virando-se, seus olhos encontraram os faróis cegantes de uma van de entregas vindo em alta velocidade. O reflexo foi puro instinto — rolou para o lado, sentindo o joelho raspar no asfalto e queimar de dor. A van seguiu seu caminho, ignorando-o.
— Merda!
Ofegante, Sean se levantou, puxou a mochila para as costas e ajustou a arma semiautomática na cintura. O peso metálico contra a pele era a última certeza que tinha.
Só havia uma bala — reservada para ele.
Quando respirava fundo para seguir em frente, um estalo seco ecoou. Um impacto surdo atravessou seu peito. O mundo pareceu parar enquanto um zumbido agudo preencheu seus ouvidos.
Ele olhou para baixo e viu a mancha vermelha se espalhando na camisa negra. Virou-se com a boca entreaberta. Na outra extremidade do beco, policiais armados avançavam, gritando para que ele se rendesse.
Ele conseguiu ouvir um helicóptero se aproximando no alto, tentando captar o melhor ângulo daquela cena. Sean deu dois passos trôpegos para trás, mas a dor o fez vacilar.
Foi então que os rostos apareceram. Não os dos policiais, mas de seus pais — serenos, tristes — e, logo atrás deles, Derek, olhando-o como no último dia, antes de tudo ruir.
Ele sabia que estava morrendo e que aquilo não passava de imaginação, mas se sentiu acolhido no fim por quem ele mais amava.
Nenhum deles dizia nada, mas Sean entendeu: estava na hora de largar o fardo.
Com as mãos trêmulas, ele ergueu a arma até o queixo.
— GAROTO! — Ordenou o policial andando até ele com sua arma em riste — ABAIXA ISSO!
Sean ignorou, sentindo o cano pressionando delicadamente abaixo de sua mandíbula. Ele viu seus pais perto dele e então fez o que tanto queria.
Fechou os olhos. E apertou o gatilho. O som ecoou pelo beco como um trovão abafado.
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