PREMONIÇÃO - Sangue Marcado
2 Fama e Sangue
Notas iniciais
Três dias se passaram desde o inferno envidraçado do Oceanic Line Aquarium. Três dias em que o mundo fora mais silencioso do que nunca — não por paz, mas pelo peso do que não aconteceu.
Miley Aster estacionou seu carro cinzento, um Jeep Grand Cherokee , no estacionamento estreito atrás do prédio da HADES, o jornal local onde trabalhava há cinco anos. O motor desligou com um suspiro cansado, o mesmo que ela soltou ao recostar a cabeça no banco.
O rádio ainda estava reproduzindo a cobertura da noite anterior: uma matéria especial sobre o atentado frustrado no aquário, com uma sonora em que Brad Eggers, bombeiro e ex-colega de escola, falava da bravura de uma mulher que ninguém esperava: Miley.
Ela desligou o som.
— Chega de mim por hoje. — murmurou.
Na verdade, ela queria estar focada no trabalho, atolada em pautas e revisões, como sempre esteve. Mas Adam Maddox, seu chefe de redação, havia sido claro:
“Vai pra casa, Aster. Dorme. Come. Pensa em outra coisa que não envolva sangue e desastres.”
Fácil de dizer.
Respirando fundo, Miley saiu do carro e cruzou o estacionamento com luzes amareladas e fracas, dando um ar sombrio mesmo as sete horas da manhã. O prédio da HADES tinha aquele cheiro antigo de papel, tinta e café queimado. O tipo de cheiro que, estranhamente, sempre a acalmava.
Ela entrou no elevador, ajeitando a alça da bolsa no ombro e tentando afastar a imagem daquele atirador mirando nela. Quando as portas metálicas se abriram no quinto andar, não esperava o que viu.
Todos os colegas da redação — fotógrafos, revisores, redatores e até estagiários — estavam em pé, alinhados entre as mesas bagunçadas.
E aplaudindo.
Miley ficou congelada.
— O quê...? — murmurou, sem saber se ria ou chorava.
— Senhores e senhoras! — exclamou Maddox, surgindo com seu terno desalinhado e café na mão. — A mulher que impediu um massacre e salvou dezenas de vidas... e ainda voltou pro trabalho! Essa é a S.ra Aster.
Miley levantou as mãos, sem jeito.
— Por favor, gente... eu só puxei um alarme.
— Você puxou coragem, minha cara. — Maddox deu um meio-sorriso. — E isso vale mais que qualquer manchete.
Entre aplausos tímidos e sorrisos sinceros, Miley caminhou até sua mesa, tentando esconder o rubor no rosto. Havia um buquê de flores esperando por ela ali. Lírios brancos em um arranjo delicado, envolto por uma fita escura.
Ela arqueou as sobrancelhas.
— Isso não é coisa da empresa, né? — murmurou.
Um pequeno cartão estava preso entre as flores. Apenas duas letras impressas no canto inferior:
B. E.
Antes que pudesse interpretar aquilo, Lana apareceu por trás dela como um fantasma bem-humorado.
— Alguém tem um admirador secreto. — comentou com um tom cantado, apoiando o queixo no ombro da amiga. — Aposto os cabelos brancos que não tenho que é o Brad.
Miley riu, aliviada.
— E se for o Nathan da contabilidade?
— Por favor, me deixe sonhar. — Lana respondeu — Afinal, não é todo dia que minha amiga tem um partidão.
Elas riram juntas. Miley abriu o cartão.
"Miley, me desculpa por não ter ligado antes. Os dias foram pesados. Mas ainda quero aquele milk-shake contigo — sem surpresas desagradáveis como a última vez. Me avisa quando estiver pronta. – Brad."
Ela sorriu.
Havia algo de sincero naquela mensagem. Algo que escapava da tragédia e se agarrava ao simples: um convite comum, entre duas pessoas que sobreviveram ao que ninguém deveria ter visto.
— Pelo sorrisinho deve ser coisa boa. E então? — perguntou Lana, mexendo em uma caneca de chá na mesa ao lado.
— Ele me chamou. — Miley tocou nas pétalas com delicadeza — Sem grandes surpresas, só... só a gente. Eu gostei disso.
Lana assentiu.
— O mundo precisa de coisas simples. Depois de tudo, você merece isso.
Miley desviou o olhar para a televisão da redação, onde reprisavam a entrevista de Brad da noite anterior. Ele estava sério, com a farda amassada, mas firme. Falava sobre evacuação, sobre improviso, sobre coragem.
Mas quando mencionou o nome dela... seus olhos suavizaram.
— Miley Aster teve um instinto que nos salvou. Sem ela, eu... acho que muitos de nós não estaríamos aqui. Eu devo a ela mais do que posso dizer.
Miley sentiu uma pontada de algo novo: Admiração mútua. Não só pelo que tinham vivido — mas pelo que poderiam viver. Por um instante, ela fechou os olhos e respirou fundo.
Quando abriu de volta, viu Lana perdida em seus próprios pensamentos como se estivesse apreensiva com alguma coisa. Um fio invisível que puxava sua mente de volta para a visão. Para a Morte. Para tudo que quase aconteceu.
— Amiga, você tá bem?
— Só... um pressentimento. — Lana observou de relance o olhar atento de Miley e ela abanou a mão — Nada com que se preocupar. Relaxa.
— Tem certeza? Você anda muito... sensitiva ultimamente.
— Sempre tive um pouco disso, mas acho que depois daquele dia horrível no aquário as coisas ficaram mais pesadas...
Miley tocou a mão dela, arrastando a cadeira para mais perto.
— Você quer falar sobre isso? O que sente?
— Uma sensação de mau agouro. — Lana falou, tentando respirar mais calmamente — Não sei explicar, mas é como se sentisse que algo ruim vai acontecer antes de...
— Acontecer?
Lana assentiu e se atentou a Miley, estreitando seu olhar para ela.
— Você teve isso também, não? Naquele dia. Você me disse que viu tudo, viu eu... você morrer. Foi uma visão?
— Essas coisas não existem...
Lana a observou de forma incisiva e viu como o desvio do olhar da amiga havia pegado Miley em um ponto sensível. Ela sempre foi uma mulher durona e pragmática, sempre com a razão na frente da emoção.
— Mas não posso negar que algo... aconteceu. Ainda não sei o que é.
— Você teve uma premonição. — Lana disse — Já fiz uma matéria sobre isso e você se encaixa bem nisso.
Miley assentiu.
— Eu quero acreditar que... o que eu tive foi uma alucinação sabe. Mas realmente aquilo que vi... ia acontecer.
— O que te faz ser contra a acreditar que algo sobrenatural realmente aconteceu com você?
Mas antes que pudesse responder, Maddox reapareceu na entrada da redação e chamou em voz alta:
— Aster! No meu escritório. Agora.
Ela engoliu seco. Lana a observou com um olhar conspiratório antes de retornar a sua tela e colocar seus óculos de descanso na ponta de nariz.
— Já acabou a comemoração?
— Alguém quer falar com você. Linha direta da TV TURNER NEWS da Capital. Querem uma entrevista ao vivo com você e Brad... hoje à noite.
Miley parou. Seu coração bateu um pouco mais rápido.
— Ao vivo?
— Estúdio fechado, jornal das oito, transmissão regional. — Maddox piscou — Então capricha no figurino.
Miley assentiu, ainda sem fôlego.
Olhou para o buquê uma última vez. Respirou fundo.
E seguiu para a sala do chefe com a sensação estranha de que, por mais que quisesse escapar daquilo tudo... A história só estava começando.
○○○
O camarim da Turner News cheirava a spray de cabelo, nervosismo e holofotes estalando eletricidade.
Brad Eggers encarava seu reflexo como se estivesse prestes a encarar um incêndio. As luzes da moldura do espelho destacavam o suor na testa e o desconforto no queixo. Uma maquiadora gentil, mas firme, tentava suavizar a expressão dele com pó translúcido e base.
— Relaxe os ombros — pediu ela.
— Já estão relaxados — murmurou Brad, completamente travado.
A porta se escancarou sem cerimônia. Miley entrou e na mesma hora, os olhos dele se voltaram para ela.
Ela estava vestindo uma calça negra sóbrio e larga com um blazer branco por cima. O cabelo solto estava caindo sobre os ombros com naturalidade. Ela parou ao vê-lo, e ele ficou imediatamente sem graça, se levantando no mesmo instante.
— Miley — disse ele, como se estivesse aliviado e surpreso ao mesmo tempo.
Ela sorriu, sem deixar de parecer um pouco cansada.
— Brad. Olha só você, todo... iluminado. — brincou, apontando a uma mancha pálida na bochecha dele.
Eles se aproximaram e se abraçaram de leve. Um contato breve, mas carregado de camadas não ditas. A maquiadora tossiu forçadamente e Brad voltou a se sentar na cadeira.
— Tentei te ligar — disse ele, sendo maquiado — Várias vezes, na verdade.
— Eu vi — respondeu Miley, se escorando na bancada — Só... não tava no clima. Acho que desliguei do mundo por um tempo.
Brad assentiu, compreensivo.
— Entendo. Senti sua falta.
Ela desviou o olhar, meio sem saber onde colocar as mãos. Miley se amaldiçoou por não saber o que dizer para ele.
— Fico feliz que esteja bem. E famoso, aparentemente. Te vi hoje na TV.
— Ah, não... — Brad riu, coçando a nuca, sem graça — Foi estranho. O pessoal do batalhão me levou num bar depois daquele dia. A gente precisava espairecer... e de repente, umas pessoas me reconheceram. Tiram fotos. Me deram cerveja de graça.
— A glória da tragédia. — Miley sorriu, amarga. — Talvez eu escreva um livro. Tipo a Kimberly Corman, lembra dela?
Brad franziu o cenho.
— Corman... esse nome me soa familiar.
— Aquela que sobreviveu a um desastre rodoviário anos atrás. Escreveu “Final Destination” ou algo assim. Virou referência de sobrevivente sensitiva. Vendeu até os direitos do livro.
— Ah, é verdade. — Brad sorriu. — E você? Vai virar escritora famosa agora?
— Quem sabe. Ainda tô tentando descobrir por que minha mente virou um alarme de tragédia.
Ele ficou mais sério. A voz abaixou.
— E como você sabia, Miley? Como exatamente aquilo ia acontecer?
Miley hesitou, observando a maquiadora de relance. O ar ficou mais denso.
— Não sei explicar. — respondeu. — Eu sempre fui da lógica. Do racional. Meu pai era o contrário... vivia dizendo que a Morte estava atrás dele. Que cada sinal, cada "coincidência", era parte de um plano traçado.
— Ele acreditava nisso mesmo?
Ela assentiu, o olhar perdido por um instante.
— Com uma fé cega. Achava que tudo era inevitável. Só porque ele estava no cinema quando alguém salvou o shopping de uma explosão uns dez anos atrás, e que aquilo virou uma "corrente" invisível, onde pessoas morriam em sequência. Ele acreditava que tudo levava a... um propósito. À Morte, no fim.
Brad tocou suavemente o braço dela.
— Sinto muito.
— Obrigada. — Ela forçou um sorriso — Mas acho que tô começando a entender o que ele via... e isso me assusta.
Antes que Brad pudesse responder, uma mulher enérgica e com uma prancheta em mãos surgiu pela porta.
— Miley, querida! Você tá deslumbrante! — disse a produtora, estalando os dedos para a equipe — Só vamos dar uns retoques e você entra no estúdio em vinte minutos, tá bem? Cinthia, como está o Bradley?
— Acabei agora. — Falou ela, tirando os pincéis do rosto dele.
— Ótimo! Se quiser dar um espacinho para Miley seria ótimo, querido. — falou a produtora — Se quiser tem café aqui na copa.
— Vou aceitar. — respondeu ele, tentando não parecer tão ansioso.
Enquanto a equipe se voltava para Miley, ela se sentou em frente ao espelho vazio. A maquiadora começou a mexer nos seus cabelos com cuidado e elogiando ela.
— Você foi uma grande heroína naquele dia, moça. Que o mundo tenha mais pessoas como você.
— Obrigada. — Miley falou, sentindo corar.
Ao colocar o celular na bancada, ele escorregou de leve e caiu no chão.
— Droga...
Ela se abaixou, pegou o aparelho e congelou. A película de vidro havia trincado. Mas não era um simples rachado.
A rachadura cortava exatamente a imagem de uma selfie antiga dela com Lana. A linha atravessava o rosto da amiga, passando diretamente pela sua boca. Exatamente onde Lana havia sido baleada, na visão.
O sangue pareceu sumir das veias de Miley. O ar ficou mais espesso.
Ela fechou os olhos, respirou fundo e balançou a cabeça, tentando afastar o pensamento. Era apenas coincidência. Só isso.
— Tudo bem, senhorita Aster? — perguntou a maquiadora.
— Tudo ótimo. — mentiu, forçando um sorriso.
O espelho devolveu seu reflexo, mas os olhos — os olhos diziam outra coisa. Algo estava à espreita.
E aquela entrevista... talvez não fosse apenas uma celebração.
Mas um prenúncio.
○○○
O fim de tarde já estava dando os últimos vestígios do sol quando Lana West cruzou as portas de vidro da HADES, apertando contra o peito uma pasta abarrotada de documentos sobre colunas futuras.
O frio que surgiu pareceu mais cortante do que nos outros dias. Não era o tipo de vento de julho, era... outro tipo de frio. Interno.
— Estranho. — Resmungou ela — Muito estranho.
Seu Volvo cinza, envelhecido mas fiel, a esperava sob a luz fraca do estacionamento da empresa. Ela destravou a porta, acomodou-se no banco do motorista.
Jogou as pastas no banco do passageiro — anotações para as próximas colunas de comportamento, cultura e uma seção especial sobre traumas coletivos. Irônico, pensou. Era como tentar escrever com a alma partida em cacos.
Ela passou seus dedos sobre o filtro dos sonhos que sempre esteve pendurado em seu retrovisor como um sinal de sorte. Lana imaginou canalizar suas energias boas ali antes de girar a ignição.
A jornalista ligou o rádio para afogar o silêncio que ameaçava vir com ela.
“I’m sorry for everything, oh everything I’ve done...”
A batida pesada de “Shots” – Imagine Dragons explodiu nos alto-falantes.
— Ai, não — murmurou, já incomodada com a coincidência — Tiros? Agora?
Trocou rapidamente de estação até cair em uma transmissão familiar. A trilha mudou para algo neutro. Profissional. Jornalístico.
A entrevista.
“E conosco esta noite, Miley Aster e Brad Eggers — os dois que impediram o massacre no Oceanic Line Aquarium…”
Lana recostou-se no banco, finalmente respirando fundo. Seu carro saiu da empresa e seguiu as ruas.
Apesar de tudo, ela estava feliz pela amiga. Miley tinha enfrentado o impossível — mesmo que se recusasse a dizer que realmente viu algo.
E agora, lá estava ela: virando notícia, sendo tratada como heroína. E com planos ambiciosos.
Miley não parava de repetir nos últimos dias que talvez usasse isso para lançar um livro. Se tornar uma voz pública. Tornar o trauma... em plataforma.
Lana não a julgava, mas...
Ela viu alguma coisa.
Teve uma visão.
E agora fingia que foi puro instinto. Mas Lana estava lá. Ela sentiu também. Aquilo era sobrenatural. Inexplicável. Assustador.
Ela apertou o volante, perdida em pensamentos.
A vida de Miley sempre fora turbulenta.
Desde adolescentes, sempre em fuga de algo.
Aquela tarde no cinema veio à mente como uma foto manchada de sangue.
Elas cabulando aula para assistir Amor Mata, um slasher sangrento proibido para menores. O pai de Miley as seguindo, furioso, até o saguão... e então, o alarme de incêndio. O pânico. A multidão.
E aquele homem.
O desconhecido que puxou o alarme. Que salvou dezenas de uma explosão engolir o setor de ampliação de novas salas de cinema.
Ela nunca soube seu nome. Onde será que ele estaria agora?
Lana suspirou, olhando o retrovisor. O sinal à frente ainda estava vermelho. Ela engatou a primeira e seguiu, diminuindo a marcha ao virar na Avenida Cypress, parando logo atrás de um ônibus escolar amarelo com os dizeres "Mountain High School" pintados nas laterais.
O veículo estava lotado de alunos agitados — adolescentes ainda com energia de sobra, empurrando-se, fazendo caretas, rindo de forma estridente. Alguns brincavam de lutar, outros gritavam jargões internos que só eles entendiam.
Lana tentou se concentrar na entrevista.
“— Miley, como você sabia? Como pôde ter tanta certeza de que havia um atentado prestes a acontecer?”
A voz da amiga surgiu do rádio, mais hesitante:
“— Eu... não sei explicar. Achei estranho dois adolescentes estarem agindo de forma tão estranha assim que entraram. Acho que isso foi meu gatilho... para ter a alucinação que tive do ocorrido.”
Lana estreitou os olhos. Então viu.
Um dos garotos se pendurou na janela, rindo alto demais. O corpo projetado para fora, os braços balançando, a cabeça quase saindo completamente. Ele gritava algo em zombaria, sem perceber o perigo.
E foi quando o caminhão-tanque apareceu. Pesado e longo, rangendo feito uma besta metálica.
Vinha pela pista lateral, reduzindo para virar à direita. Bem ao lado do ônibus. Lana sabia que estava perto demais e aquela cabeça tentando sair, mas sua gola ficando presa na moldura da janela, a fez sentir um pavor horrível em seu peito.
Lana arregalou os olhos.
— NÃO...!
O adolescente berrou, tentou forçar sua cabeça para dentro, mas a gola continuou presa. O caminhão estava vindo com força e Lana fechou os olhos para aquela cena.
PLOFT!
O impacto foi seco com o estalo feio da espinha se partindo. O corpo do garoto caiu bruscamente para dentro do ônibus em meio a gritos dos alunos.
E a cabeça foi arremessada para trás com uma linha líquida e vermelha se desmanchando no ar, traçando um risco sangrento que sujou o asfalto até chegar ao capô do Volvo.
A cabeça pousou na parte superior do para-brisa de Lana com um baque leve e ela viu o crânio deslizando para baixo lentamente como se fosse uma peça de manequim.
A boca semiaberta. Ainda com o eco da risada.
Lana gritou.
Um grito agudo, atravessando o vidro, o rádio e o ar parado.
O rádio continuava:
“— Foi tudo muito racional, sabe? Não acredito muito em crendices, mas se o destino existe... ele foi bem camarada comigo.” — dizia Miley.
A respiração de Lana ficou curta. Suas mãos tremeram no volante. Ela não conseguiu tirar os olhos do rosto morto, esmagado contra o vidro.
Ela conhecia aquele garoto. Mountain High. Estava na loja de conveniência.
No aquário. No dia do aquário.
As peças começaram a se alinhar. E Lana sabia:
aquele garoto era só o começo.
○○○
A água quente deslizava pelas costas de Miley Aster como se pudesse levar consigo os últimos vestígios do que ela havia vivido.
Três dias.
Três longos, surreais dias desde o atentado frustrado no Oceanic Line Aquarium.
No começo, ela acreditou que ficaria tudo bem. Que se fechar dentro do apartamento por um tempo a ajudaria a se recompor. Que bastaria desligar o celular, fechar as cortinas e deixar o tempo correr — como um machucado que se cura sem ser tocado.
Mas não foi assim.
Ela mal podia sair de casa sem ser cercada por microfones. Fotógrafos escondidos entre os arbustos do prédio. Gente gritando seu nome na calçada. Um deles chegou a seguir seu carro por quase três quarteirões, gritando perguntas e conjecturas.
— “Você se considera uma heroína?”
— “Acha que o terrorista foragido irá atrás de você?”
Eles estavam famintos.
Mais do que pelos fatos, estavam atrás do espetáculo. Do mito.
Miley ja esteve do lado deles, sendo a jornalista que sempre correu atrás de perguntas certeiras e diretas. Agora ela sentiu como era estar no alvo disso e ter que dar respostas.
— Eu espero que Sean Black se renda à polícia. — falava ela, quando eles insistiam nisso — Só isso.
Sean era o adolescente de 17 anos que escapou do aquário. Ele era o falso cadeirante e o homem-bomba que havia se destroçado em mil pedaços carbonizados e sangrentos naquele devaneio cruel que teve.
Não estava com medo de ser pega por uma vingança mesquinha, pois havia se isolado de tudo e todos para tentar ao máximo evitar isso.
E Miley, de certa forma, alimentava esse mito, mesmo que a verdade fosse mais confusa do que ela própria conseguia explicar.
A espuma escorreu pelos ombros quando ela apoiou as mãos nos azulejos úmidos. Fechou os olhos.
O som do jato d’água se misturava com os fragmentos da memória: o som das balas ecoando dentro do aquário, os gritos da multidão, o cheiro do sangue misturado à água salgada e o corpo de Brad jogado contra o chão.
Mas naquela noite...
Naquela noite da entrevista, ele estava bem. E eles riram. Se olharam nos olhos.
Ela ainda podia sentir o calor do abraço, o gosto leve de uma boa conversa depois, o momento em que ela quase o chamou para sair depois do estúdio.
Mas então... os flashes. O mar de gente. E ela, como sempre, congelou.
Desligou o chuveiro. A toalha envolveu seu corpo com um abraço frio e áspero. Vestiu um moletom largo, daqueles com cheiro antigo de tranquilidade, e foi até a cozinha.
A janela da sala estava entreaberta, deixando a brisa noturna entrar com dedos finos e gelados.
Ela estremeceu, mas não fechou ainda. A noite estava estranhamente bela. Azulada, suave, mas... havia algo de inquieto no ar.
— Tô começando a ficar pirada.
Abriu a adega. Pegou uma garrafa de vinho tinto e serviu uma taça generosa.O líquido girou como sangue novo sob o cristal.
A luz baixa da luminária fazia sombras dançarem na cozinha. Uma cadeira puxada fora do lugar. Um pano de prato meio torcido. Um jornal aberto, esquecido.
Pequenos detalhes que, em outro dia, passariam despercebidos. Mas hoje...
Hoje havia silêncio demais.
Ela fechou a janela com um estalo. E então olhou para a mesa. Seu notebook, ainda aberto. A tela ainda mostrava o documento em branco.
O cursor pulsava como um batimento cardíaco esperando uma decisão.
Miley se sentou, respirando fundo. Tomou mais um gole do vinho, o sabor ácido despertando algo em sua boca.
— Tá. Vamos tentar. — disse para si mesma.
Posicionou os dedos no teclado. Começou a digitar.
"Capítulo 1 — A Morte que não veio."
As palavras vinham em jorros. Fragmentadas. Intensamente pessoais.
Ela escreveu como se rasgasse um diário secreto. Falava do instante em que sentiu o zumbido no crânio e daquele cheiro da água tratada. Do vidro tremendo. Do homem tatuado.
Aquela sensação inexplicável de que tudo estava prestes a acabar e da certeza, do tipo que não se pode fingir, de que aquilo já havia acontecido antes.
O cursor avançava enquanto o vinho era engolido.
A madrugada mergulhava o mundo num manto cada vez mais espesso de silêncio.
○○○
O celular vibrou com insistência sobre a mesa como zumbidos de uma colmeia nos ouvidos. Miley acordou sobressaltada, o rosto colado ao teclado.
As teclas imprimiram marcas vermelhas em sua pele. Ela piscou, o mundo ainda embaçado.
5h03.
— Lana? — Atendeu com voz rouca. — Alô?
— Miley?
A voz do outro lado pareceu trêmula. Assustada.
— O que foi? Tá tudo bem?
— Não. Não tá. Eu... eu vi um garoto morrer. Na minha frente.
Miley sentou-se, a mente voltando em pedaços.
— Como assim?
— Ele era um dos adolescentes da Mountain High. Aquele grupo de colégio que estava no aquário, lembra? A cabeça dele... o caminhão... o vidro... foi um acidente horrivel!
Um arrepio percorreu a espinha de Miley.
— Calma, Lana. Tenta respirar. Me conta tudo com calma.
— E não é só isso. — Ela fez uma pausa se recompondo e ficando mais séria — Outro aluno da mesma escola morreu um dia antes. O painel do carro esmagou seu tórax, numa corrida ilegal. Dois mortos. Dois que estavam lá naquele dia.
Miley fechou os olhos.
O vinho ainda no fundo da taça. A taça ao lado de um jornal qualquer — e a mancha escura sobre ele, que antes não havia reparado, agora formava algo.
Uma caveira borrada. Seus olhos tortos parecendo duas órbitas vazias a observando com atenção.
Ela se levantou rápido, o coração acelerando como o cursor piscando no notebook.
— Eu tô indo. Me espera.
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