Púpilos da máfia
7 Preparativos: Florence Churill
Notas iniciais

Kyla chegou na minha casa já passava das 11 horas da manhã, e eu estava com uma ressaca maravilhosa, depois do que havia acontecido com Kriston e com a notícia de que não iríamos para Beira-mar, decidi ir para uma balada qualquer e valeu a pena cada segundo e cada gole, principalmente depois de encontrar lá, ninguém mais ninguém menos que Matthew Herdig, mais bêbado que um gambá e seu amigo, Jason que me fez uma companhia ótima depois que Herdig desmaiou. Até me convidou para terminar a diversão em casa, mas precisava levar o amigo embora e ficou de ligar, no entanto, minha ressaca me impediu de mexer no telefone.
Quando descobri que Kyla era neta de Lucio Herdig fiquei impressionada com as coincidências que são capazes de acontecer, estudei com aquela menina durante quatro anos de faculdade, até viajamos juntas para fora do país, e nunca tinha me interessado em perguntar sobre sua família, talvez por ela querer saber sobre a minha e eu me sentir mal em não contar. No entanto, há dois meses, quando recebi seu convite de casamento me surpreendi com o sobrenome paterno dela, o qual ela não utilizava com frequência. Seu nome completo Kyla Marince Herdig e eu era sua madrinha.
Quando ela me enviou o convite, fiquei pensativa quanto a possibilidade de sua família não gostar da minha presença, e senti-me na obrigação de contar a verdade e perguntar a ela se teria algum problema. Kyla entendeu e me contou que sabia sobre as coisas que a família fazia e fez questão de ligar para o avô no mesmo dia, que deixou bem claro que não só seria um prazer me receber no casamento como fazia questão de convidar meu pai. No momento senti um pouco de suspeita, então avisei à Robert que tínhamos recebido o convite, e para minha surpresa ele aceitou e falou que seria incrível, logo decidi não questionar mais nada e apenas participar do casamento de Kyla.
Então, quando ela chegou naquela manhã gritando para que eu me arrumasse, levei um susto tremendo, mas obedeci e saímos em direção ao centro. Ela tinha que buscar o vestido de casamento dela e finalmente conseguira pagá-lo, quando questionei sobre o surgimento do dinheiro ela preferiu não responder, e como não é de minha competência, mantive-me calada, coisa que eu vinha fazendo há muito. Fazia tempo que não via Kyla tão animada, ela me contava durante a faculdade como era sua família e o quanto complicados eram seus problemas com ela, sabendo agora que os problemas eram quase os mesmos que os meus, tive um pouco de piedade, mas ela não estava tão envolvida quanto eu.
Andávamos pelo centro que estava bem vazio para um sábado, o dia estava muito quente e as pessoas pareciam não querer sair na ruas de Marino, nossa cidade. As pessoas que andavam naquele momento por entre as lojas e realmente estavam ali por ela, eram adultos com idade acima dos quarenta, maior parte casais, as mulher usando roupas mais elegantes do que normalmente se usaria, a maior parte de tecidos leves e claros, que deixavam as pernas à mostra, os homens por sua vez se contentavam com camisa social contando com mangas dobradas e bermudas não muito longas e confortáveis. A parte mais jovem, mais próxima da minha idade se “aglomerava” em frente a lanchonetes e pequenos quiosques que vendiam refrescos, aparentemente todos chegavam da praia.
Enquanto íamos em direção a loja do vestido de Kyla eu havia aproveitado para pegar o meu próprio, um longo vestido de um forte pigmento de azul-petróleo, tecido leve e confortável sem laços ou renda, uma alça simples e um único cinto brilhante fino que marcava a cintura e dava um charme ao vestido. O casamento aparentemente seria focado em tons de azul, muito original em um país cercado pelo mar em que o casamento seria em uma mansão a frente de uma encosta.
— Você acha que vai ficar bonito esse tom em todas as outras damas? – Kyla perguntou.
— Já me perguntou isso algumas vezes e já lhe respondi várias vezes que sim – Respondi sorrindo suave para minha amiga, depois disso ela segurou minha mão e puxou-me para a loja a nossa direita, aparentemente a de seu vestido.
Era um lugar pequeno, mas acolhedor e extremamente elegante, com móveis rústicos colocados em lugares estratégicos, vários manequins com aqueles gigantescos e bufantes vestidos brancos, os quais eu preferia me afastar. Sentei-me em uma cadeira bem a frente da recepção enquanto Kyla conversava animadamente com a mulher, depois de um tempo ali, elas se retiraram no intuito de colocar o vestido como teste final, minha amiga pediu que eu esperasse em frente à uma pequena passarela onde ela apareceria em pouco tempo mostrando o vestido. Assim o fiz, mudei de cadeira para uma bem em frente ao local indicado e fiquei sentada mexendo no celular.
— Quem diria, você é a pessoas das coincidências? – Ouvi alguém falar atrás de mim e virei a cabeça para ver quem era.
Deparei-me com um rapaz sorridente, de cabelos negros quase raspados, barba aparada como se crescesse perfeitamente desenhada, olhos castanhos bem escuros e profundos. Era o rapaz, amigo de Matthew Herdig com quem eu havia estado naquela madrugada.
— Jason, certo? – Falei devolvendo-lhe o sorriso – O que faz por aqui?
Ele contornou as cadeiras ao lado das que eu estava sentada e ficou ao meu lado, observando-me atentamente. Pareceria alguém com muita confiança se eu observasse apenas os olhos, que não se dilatavam com o nervosismo, no entanto, sua perna mantinha um balançar ritmado e seus dedos eram estalados mais do que uma vez por minuto, o que demonstrava um claro Tique nervoso.
— Você é Florence correto? – Ele falou tentando manter a voz grave e estável, outro tique – Foi um prazer conhecê-la noite passada.
— Igualmente – Respondi sincera.
— Irá ao casamento da prima do Matt? – Jason questionou com muita naturalidade.
— Sim, ela é minha melhor amiga, estou esperando-a, na verdade — Quando disse isso, Jason se levantou devagar, mas ficou olhando em meu rosto.
— Então deixe que eu me retiro, para que possam ficar mais confortáveis – Ele falou e eu ia, por educação dizer-lhe que não era necessário, mas antes ele continuou – Preciso comprar um terno, vejo-lhe no casamento amanhã?
Sorri para ele e fui correspondida do mesmo modo.
— Amanhã nos veremos então.
Ele foi para o lado masculino da loja que lhe possibilitaria cumprir seu objetivo, voltei à mexer no celular enquanto esperava a chegada de Kyla. Ela demorou cerca de vinte minutos para aparecer, então pude entender o porque da demora. O vestido dela era gigantesco, desde à saia até as mangas que chegavam no pulso e eram feitas de uma renda fina e delicada que começava nos ombros e descia até o fim do vestido, branco como a neve e pomposo como um bolo de casamento, com tules gigantescos e uma obrigação amigável de dizer:
— Está maravilhosa! – Disse animada, ela estava bem, eu quem era insuportável.
— Obrigada!!! – Ela respondeu e se aproximou para me abraçar, ela parecia querer chorar, mas não deixei que o fizesse, insisti que ela retirasse o vestido e deixasse as lágrimas para o dia seguinte – Ok! Vou me arrumar e já vamos embora.
— Vou esperar lá fora – Comentei e ela acenou a cabeça confirmando.
Sai da loja e fiquei do lado da vidraça, observando o movimento inóspito da espécie de pombos que dominaria o mundo em um futuro não muito distante, quando um homem jogou em meus pés um jornal perfeitamente enrolado, novíssimo. Olhei para direção para onde o homem partiu, vi um careca, baixinho, vestido de sobretudo se apressando, e apesar da curiosidade, deixei que ele fosse e peguei o jornal.
Enzel Fernin Kriston
Encontrado morto na ponta da beirada
Suspeita de assassinato por vias mafiosas
Joguei o papel com força e ódio na lixeira mais próxima e liguei para o meu pai imediatamente.
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