Púpilos da máfia
8 O casamento de Kyla
Notas iniciais
Florence Churill
—Isso é deplorável – Disse Robert jogando as mãos ao alto, segurava entre os dedos, grossos, da mão direita um charuto importado, enquanto a outra mão passava pela cabeça penteando os fios que se levantavam com a aflição e nervosismo que ele sentia no momento – Como descobriram?! Aquele lugar é usado há anos décadas! Para o mesmo fim! Alguém esteve observando...
Eram poucos os momentos onde Robert Churill demonstrava sentimentos, fosse raiva, aflição, amor ou qualquer tipo, e quando o fazia entregava seus pontos mais fracos, curiosamente, estes eram bem imperceptíveis à olhos estranhos, mas não à mim. Eu era capaz de perceber, com facilidade, seus cabelos brancos se elevando e bagunçando e sua constante tentativa de acalmá-los, sem contar o charuto que não lhe era habitual. No entanto, eu era capaz de ver isto por morar com ele .
— O que devemos fazer? – Perguntei sentando-me no sofá de couro preto em seu escritório.
O escritório era um lugar elegante, completamente forrado de madeiras das mais maciças, obras de artes do renascimento, livros cobrindo os armários e prateleiras, e diversos focos de luz em pontos estratégicos, quando a cortina ficava aberta era possível observar o pequeno jardim aos fundos da casa, onde haviam várias roseiras de cores diferentes e era ali em que eu mantinha meu olhar no momento, mas não meus pensamentos, estes se encontravam distantes, em olhos amendoados que pareciam guardar mais do que demonstravam em sua superfície.
Meu pai já estava falando há algum tempo, e quando contei a ele sobre o jornal, tornou-se uma reunião entre ele e seus associados, então como ele tratava de assuntos dos quais eu apenas aconselhava quando necessário, dei-me o direito de deixar a mente flutuar sem ser tão detalhista por alguns segundos.
— Talvez seja uma boa ideia viajarmos agora – Ele falou depois de um longo tempo pensativo, tirando-me assim do devaneio.
— Podemos ir amanhã a noite – Falei levantando-me e pegando um pouco de seu whisky, derrubei o liquido âmbar em um copo pequeno, e coloquei algumas pedras de gelo – Depois do casamento...
— Ir no casamento pode ser um perigo Florence – Argumentou atentando-se aos meus movimentos – As famílias estarão suspeitando umas das outras, várias já faltarão para evitar suspeita...
— Pai, olhe com mais atenção – Falei assumindo finalmente meu papel – Talvez eles encontrem em suas fugas a segurança, mas quem não teme não se esconde.
Robert se apoiou em sua mesa vitoriana de marfim, cruzou os braços e ficou me observando enquanto eu estava parada bem em frente à ele, segurando meu copo e olhando as roseiras. Tomei um gole de meu Blue Label antes de terminar minhas conclusões.
— O sumiço do Kriston aconteceu logo após nosso almoço com os Herdig, e a notícia de sua morte chegou enquanto eu estava com a neta do próprio Don Herdig, então devemos entender isso como alguém querendo causar intrigas entre as duas famílias e não podemos deixar isto acontecer, entende? – Concluí enquanto ele ouvia atenciosamente minhas constatações – Se não aparecermos no casamento, pode parecer que estamos em fuga ou em atrito e é a última coisa que queremos agora, correto?
A sala se silenciou por longos minutos, mas como nos era comum, mantemos nossas posturas, continuei tomando meu drink e meu pai fumando seu charuto, quando tomei o último gole andei até a mesa e coloquei meu copo no pires, então me apoiei ao lado do meu pai esperando sua resposta. Ele manteve-se imóvel, e com aquilo eu segurei forte na beirada da mesa, tentando evitar o campo de visão de Robert.
— Está certa – Ele falou, finalmente, tranquilizando-me – Temos que estreitar as relações com os outros, ainda mais com os Herdig que são os mais próximos.
Foi quando um sorriso lhe tomou os lábios que eu me assustei, não era costumeiro e tinha um significado incompreensível e aquilo, com certeza, me deixaria apreensiva pelo resto do dia.
— Pode ir, Filha – Ele disse depois de perceber meu olhar – Amanhã o dia será longo...
— O que passa pela sua cabeça? – Perguntei enquanto me levantava para retirar-me da sala.
— Nada que lhe fará mal Florence – Ele respondeu sorrindo, então ainda confusa eu sai de seu escritório.
***
Matthew Herdig
A casa estava uma bagunça, as pessoas corriam para todos os lados com pratos, talheres, copos, enfeites e tecidos nas mãos. O cheiro de comida percorria pela casa assim como os apressados empregados que a estavam organizando, Kyla tinha se trancado no maior quarto da gigantesca casa junto com sua mãe, algumas amigas e sua madrinha, Florence. Quando a vi naquele dia ela foi o ser humano mais educado com que eu já havia conversado, e não mantinha em seu redor a comum frieza que geralmente lhe acompanhava, parecia muito animada, mas os olhos mantinham-se na mesma velocidade para captar tudo ao seu redor, então ela me cumprimentou rapidamente e se fechou no quarto junto com Kyla.
Quanto a mim, tentei manter minha rotina normal, no entanto, com o jardim da casa lotado de mesas, tive que me embrenhar na sala de visitas para conseguir ler. Naquele dia meu pai não tinha trabalhos para fazer, mas meu avô recebeu diversas visitas, que na verdade eram pessoas a lhe pedir favores, não queria me importar com aquilo no momento. Não consegui me concentrar na leitura, então observei com atenção a movimentação na casa, o casamento seria por volta das 18h00, quando o sol se punha e a maré era mais baixa nos rochedos ao lado da nossa casa. Na festa tocaria música dos anos 80 para baixo, um acordo entre os noivos e que me alegrara muito.
— Atencioso com os preparativos? – Sobressaltei-me quando ouvi a pergunta, e olhei para trás para ver quem era.
Florence estava em pé ao meu lado, com um roupão branco e o cabelo preso em um rabo alto, não havia maquiagem nenhuma em seu rosto, revelado muito bonito mesmo sem ela. Fiquei a observando por mais tempo do que imaginei, pois ela perguntou o que eu estava olhando quando finalmente sai do meu devaneio.
— Nada – respondi me levantando e ficando de frente para ela – Posso ajudar?
Ela sorriu para mim, sua educação momentânea me assustava mais do que sua frieza casual.
— Kyla pediu que entre comigo hoje na cerimônia – Ela falou com tranquilidade, ergui minha sobrancelha questionando-a, imediatamente ela continuou a explicação – Aparentemente o padrinho de Joshua se machucou em uma partida estúpida de futebol e não poderá aparecer, ela ficou tão nervosa que quase acabou o casamento, mas aparentemente o noivo ainda vem.
Sua história me fez rir um pouco, e percebi que ela sorria enquanto olhava para meu rosto, tomei como felicidade de seu dia, mas preferi não fazer muito mais.
— Tudo bem, acho – Respondi – Está de acordo.
— Faz parte da amizade – Ela respondeu, e novamente ergui a sobrancelha, então ela acrescentou rindo – É brincadeira. Vou voltar para o covil das madrinhas.
Sorri com o comentário e vi-a virando-se de costas para mim e indo em frente, mas não parecia ter um rumo exatamente, então andei um pouco até chegar ao seu lado, não tinha percebido quão mais baixa que eu ela era.
— Precisa de ajuda para se encontrar? – Perguntei.
Ela fechou os olhos e fez uma careta, mas virou a cabeça para cima e abriu apenas o olho direito.
— Por favor? – Ela falou animada.
— Vamos – Falei enquanto a guiava para o quarto onde as mulheres estavam.
— Obrigada, não estou acostumada com o tamanho da casa – Ela falou surpreendendo-me.
— Como é sua casa? – perguntei tranquilamente.
Ela ergueu a sobrancelha parecendo surpresa.
— Uma típica vitoriana no bairro de Rosalia – Ela respondeu ainda com a sobrancelha erguida – Tem apenas três quartos, mas é muito bonita e confortável na minha opinião.
— Entendo...
— Matt! – Ouvi alguém me chamar e tanto eu quanto Florence nos viramos para ver quem era, minha mãe vinha em minha direção e parecia não ter percebido a presença de Florence – Matt querido precisa se arrumar, faltam poucas horas para o casamento e...Senhorita Churill.
— Senhora Herdig – Ela falou cumprimentando minha mãe com toda a delicadeza, e esta pareceu surpresa.
— Não sabia que estava a acompanhado Matt – Ela falou depois de sorrir para Florence.
— Estava levando-a de volta para o covil das madrinhas – Respondi e vi um sorriso lateral erguer-se no rosto de Florence.
— Entendo, bem estou indo para lá agora e acho que seu amigo chegou, não quer que eu à leve? – Mamãe perguntou com muita animação, ela não se importava nem um pouco com as rivalidades, e deixava isso muitíssimo claro.
— Florence, se importa? – Perguntei olhando para ela.
— Nenhum pouco – A garota respondeu sorrindo.
— Então ótimo, vamos? – Minha mãe lhe perguntou.
Florence assentiu enquanto ia para perto dela.
— Florence – Falei me despedindo – Até daqui a pouco.
— Flora – Ela falou, me surpreendendo – Pode me chamar de Flora, e até...
— Até – Falei sorrindo e vendo-a continuar o caminho conversando com minha mãe.
***
Havia se passado um pouco mais de uma hora depois da conversa com Florence, e agora eu me encontrava no quarto com Jason, e uma cerveja na mão. Ele jogava videogame e eu estava praticamente hipnotizado e perdido na memória do que havia acontecido. Eu sabia que meu amigo falava comigo, mas conseguia responde-lo apenas com sim e não e ele não parecia se importar com minha desatenção, conversar com Florence como se fossemos amigos, foi algo muito estranho, e tornara-se ainda mais quando ela me disse para chamá-la por um apelido.
— Matthew! – Alguém falou tirando-me do devaneio, era meu pai – Temos que ir, está na hora.
— Vamos cara – Jason riu enquanto eu levava uma bronca de Carlo.
Coloquei o terno e a florzinha que ficava no bolso deste, então me olhei no espelho. O terno era cinza claro e a flor era uma jasmim, pelo menos era o que haviam me informado. Meu cabelo estava banhado em um tipo de gel que minha mãe tinha jogado no meu cabelo, o mesmo tinha acontecido com Jason e com Joshua que havia entrado no quarto há poucos segundos. Joshua o noivo de Kyla era um cara muito simpático que não fazia ideia no que estava se metendo e provavelmente nunca precisaria saber, cada vez mais a família Herdig deixava de ser uma família mafiosa, e o único que não percebia isso era Lucio.
— Deixe de pensar nisso – Meu pai falou arrumando minha gravata azul ou verde, não soube dizer – Ele não precisará se meter nesse tipo de assunto.
— Desde quando lê pensamentos – Perguntei sorrindo.
— Você não tem ideia...- Ele respondeu terminando de dar o nó na minha gravata – Pronto, vamos.
Florence Churill
Todos estavam prontos e colocados em seus lugares, Kyla manteria a tradição com o atraso habitual das noivas, dito que ela se atrasaria apenas cinco minutos, mesmo estando na casa onde seria o casamento. Deste modo todos se colocaram em seus lugares para que os padrinhos entrassem, o noivo esperava na frente. Olhei-me no espelho, o vestido chegava um pouco acima dos meus tornozelos e o sapato ficava amostra, assim como o de todas as outras madrinhas. Desci as escadas na direção do jardim que ocorreria o casamento, era tão próximo do mar que me deixava surpresa, mas ali não era próximo da parte com areia, para chegar lá teríamos que seguir a procissão que o casamento formaria, pois a festa seria lá.
Assim sendo, cheguei no local da cerimônia e vi todos os padrinhos e damas preparadas, esperando a noiva, Joshua e sua mãe estavam bem colocados em frente ao juiz de paz e a mãe de Kyla também estava na parte da frente da cerimônia, avistei meu pai sentado confortavelmente ao lado dela e conversavam alegres, próximos à Carlo e Jullie, a mãe de Matthew, que estava bem na minha frente.
— Pronto? – Perguntei à Matthew que se assustou com minha chegada, apenas ri um pouco o tomei o seu braço – Temos que ir para trás, quantas pessoas tem aqui?
— Umas trezentas...- Ele respondeu sorridente, então olhei-o atentamente – Família e amigos apenas...
— Seria interessante como era antigamente, ver os fotógrafos tentando entrar como era para os eventos da máfia – Falei rindo das cenas de filmes antigos que muito retratavam a realidade.
— Você gosta de estar neste mundo? – ele perguntou sincero, me deixando surpresa.
— Na verdade não – Respondi e desta vez a surpresa foi dele, mas eu mesma não entendi o porquê de estar contando isso à ele, mas não me senti mal em falar-lhe sobre aquilo, ele mesmo parecia estar ali por obrigação, então por que eu deveria mentir – Faz parte da tradição, mas se eu pudesse mudar algo na minha vida, seria essa obrigação...Imagino que com você seja o mesmo...
Ele assentiu, olhando diretamente em meus olhos, então quando viramos para entrar na fila dos padrinhos, vimos que Kyla já estava presente e deste modo pudemos nos aprontar e começar a cerimônia.
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