Púpilos da máfia
2 Família Herdig
Notas iniciais

Seu primeiro contato com a máfia ocorreu quando fez dez anos, foi completamente acidental, ele era uma criança idiota correndo pelos corredores da mansão quando entrou em uma sala que não deveria e se escondeu em um armário, seu primo, com quem brincava não foi lhe procurar, e quando eu decidiu sair, algumas pessoas, incluindo seu pai entraram no cômodo. Com medo de levar bronca por estar ali, voltou para o armário e ficou escondido, deixando apenas uma fresta para observar o que acontecia.
Discorreu uma discussão com palavras as quais ele não podia citar na época sem levar um tapa, esdrúxulas o suficiente, para uma criança inocente como Matthew, ele, tapar os ouvidos e ficar esperando algum sinal, e ele veio. Um som estridente, algo como uma palma forte e sem eco, um claro disparo de arma, que o assustou e fez com que olhasse pela fresta, arrependendo-se no mesmo momento. Um dos homens que estava na discussão, agora estava no chão, com o rosto em cima de uma gigantesca poça de sangue. E quem segurava a arma era Carlo Herdig, seu pai, mesmo tentando evitar, um ruído agudo saiu de sua garganta, um soluço de horror, pensou não ter sido ouvido, mas uma gigantesca mão segurou em sua camiseta e puxou o garoto para fora do armário revelando o esconderijo. Seus olhos se arregalaram para o pai e ele parecia espantado com tal presença. Falou alguma coisa para o gigante que o segurava, em outra língua, parecia francês, e com isso saíram daquela sala em direção ao seu escritório.
Quando chegaram no destino, o homem lhe soltou e se retirou da sala junto com o restante das pessoas, excluindo Herdig, que se sentou na escrivaninha na frente de Matthew, com as mãos próximas ao rosto, os dedos entrelaçados, pensativo e um pouco desconcentrado. Ele olhou para o filho e não soube o que falar por alguns instantes.
— Você entende o que foi aquilo? – Ele perguntou extremamente sério.
— Você matou aquele homem? – Respondeu, com outra pergunta na verdade.
— Sim – Ele disse com uma frieza que invadiu minha alma – Sabe por quê?
O garoto balançou a cabeça negativamente.
— Por que ele me traiu – Ele falou se levantando e indo para a poltrona mais próximo a mim – E homens como nós não podemos ser traídos.
— Mas ele também era um homem. Como nós! – Implicou o rapaz.
Carlo com paciência pediu que o filho se aproximasse, e hesitante o garoto deu alguns passos para chegar mais perto do pai.
— Tem que entender que existem coisas complicadas no mundo – Disse Carlo – O emprego do papai, é mais complexo do que pode imaginar.
— O que você faz? – Ele inocentemente questionou.
O pai ficou pensativo e deu um exemplo que sabia que ele entenderia.
— Lembra-se do vilão do Batman? – Carlo disse – Pinguim?
— Lembro! – Exclamou o garoto animado – Ele é legal.
— Então! – Disse o pai compreendendo o sentimento do filho – Eu sou exatamente como ele. Só que sem o Batman.
— Você é mafioso? – Perguntou.
— Sim, mas não tem o que temer – Ele concluiu – Só sou ruim a quem merece e assim como eu você terá que aprender, filho.
— Entendo pai – Matthew concordou, mesmo que hesitante – Entendo...
***
20 Anos depois
— Matthew?! – Gritou meu pai – Está pronto para o almoço?
— Sim – Falei descendo as escadas em sua direção.
Ele estava arrumando a gravata no gigantesco espelho que tinha no hall da mansão, olhei para meu reflexo, os cabelos curtos e louros, olhos castanhos amendoados, uma camisa social, e um estereótipo físico muito agradável ao olhar da comunidade feminina. Eu tinha uma fama falsa de homem “galinha”, mas na verdade, fiquei com pouquíssimas mulheres durante meus trinta anos. Meu pai, um homem de 65 anos, gorducho quase careca, os poucos fios que lhe sobravam eram castanhos claros.
— Sua mãe chega de Roma amanhã – Meu pai avisou – Sairemos com ela para onde?
— La Ondé? – Sugeri – Ela gosta de frutos do mar.
— É uma boa ideia – Ele concordou – Pode fazer as reservas amanhã?
— Claro – concordei – Jantar?
— Sim, seria perfeito – Ele terminou de se arrumar e virou na minha direção – Está bonito, a filha dele não tem chances.
Ri rapidamente com sua reação e seguimos na direção do carro que nos levaria ao restaurante que Churill escolheu, a família sócia a nossa máfia, que na verdade, era inimiga, mas com a bandeira de paz levantada conseguíamos viver pacificamente até então. A garota, Florence, tinha seus 25 anos e terminava a segunda faculdade, depois de cursar comércio exterior na melhor faculdade do país, optara por começar economia, pelo bem do comércio do pai. Histórias dela me diziam que ela era fria e muito inteligente, quanto a aparência, pouco tinha ouvido, o máximo que eu sabia é que ela era morena e tinha olhos claros. Ela fazia alguns serviços sujos, mas suaves, em nome do pai e até onde eu ouvi, nenhum deles havia falhado. Era uma arma poderosa.
Por minha vez, eu havia optado por relações internacionais e parei por aí, continuei no negócio da família, tratando de assuntos mais particulares, meu pai me mandara para alguns treinamentos particulares e participei pouquíssimo tempo de um treino na marinha. Depois que fui mandado embora, voltei para as particularidades da família e me tornei o braço direito de meu próprio pai, e como seu sucessor, era uma brilhante ideia. Eu tenho um irmão mais novo, ele tem 16 anos, Jordan. Mas sendo o mais novo, não era considerado sucessor pelo meu pai, na verdade, eu mesmo tinha dúvidas se ele sabia quem nosso pai era.
Carlo Gerard Herdig, chefe da mafiosa família Herdig, dono dos negócios internos da cidade, como bares e boates. E as vezes precisava dar um jeito em alguém.
— Onde é o almoço? – Perguntei quase desinteressado, olhando o celular.
— No Tolien — Ele respondeu focado na vista da janela – Eles gostam de comida natural, não entendi muito bem.
— É um bom restaurante – Conclui.
Meu pai deu de ombros e sorri com essa reação tão comum dele.
Quando entramos no restaurante logo reconheci Churill, estava exatamente igual, os cabelos grisalhos e o sorriso de negociante, mas enquanto meu pai cumprimentava o “colega”, meu olhos correram imediatamente para a figura ao seu lado e para ajudar, Nina Simone cantava ao fundo, era uma distração perfeita, como fora descrita por alguns. Os olhos demarcados por um delineado muito bem feito, e eu não notaria isso em nenhuma outra mulher, o cabelo de um castanho diferente, nem muito claro, nem muito escuro, preso de um jeito que um dos fios ficava caindo na frente de seus maravilhosos olhos verdes como a mais brilhante floresta, discreta com um vestido preto básico, mas bem sexy. O que completava aquilo era o batom vermelho, extremamente provocante. Sem me dar conta, fiquei olhando para ela muito tempo.
— Conhece meu filho? – Disse Carlo me tirando do devaneio – Matthew.
— Acho que já nos vimos – Churill disse estendendo a mão, rapidamente eu lhe entreguei a minha para um rápido aperto – Minha filha, Florence.
— Mas que menina, linda – Meu pai falou enquanto segurava a mão da garota, sorridente e dava um beijo entre os dedos – É bem mais que o pai.
Ela soltou uma risada, verdadeira e que entregava a voz, suave como seda.
— Não sei nem como reagir a isso, mas obrigada mesmo assim – Ela disse, e confirmado, ela tinha uma voz extremamente provocante. Que ódio daquela mulher.
— Matthew? – Meu pai me atentou.
— Oh! – Eu falei, passando por despercebido e me aproximando de Florence, se ela queria jogar, por que eu não podia- É um prazer, Senhorita Churill.
Imitando o gesto do meu pai de um segurei sua mão e dei um suave beijo nos seus dedos e imaginei que aquilo pudesse representar algo, mas sua postura autoritária feminina, não se afetou nem um pouco, ao contrário, ela pareceu ler meu pensamento e apertou minha mão como cumprimento.
— O prazer é todo meu, Senhor Herdig – Ela falou, e sua voz me fez engolir em seco, me senti um pouco fraco com aquilo, mas não deixei que fosse perceptível.
Todos nos sentamos, em silêncio, logo quebrado por Robert.
— Florence – Ele chamou a filha que encurvou a cabeça levemente – Por que não escolhe um vinho? Ela é boa nisso.
Ela sorriu, novamente, o que sempre trazia lados negativos em ter que se intrometer com mulheres da máfia, elas tinham o poder de sedução, que só elas tem. Ela estava vestida sem nenhum provocativo maior, estava agindo normalmente e apenas seu sorriso me deixava, não intimidado, mas até animado, em lugares que eu não queria. Florence olhou a carta de vinhos e pegou algum português, quando o garçom chegou com o vinho, nossos pais já estavam com uma conversa animada e por isso, a confirmação ficou conosco. Ela por sua vez pegou a taça, e sempre com o olhar em mim, fez toda a cerimônia de um provador de vinhos, cheirou, revirou o liquido na taça e provou.
— Perfeito – Ela disse, ainda olhando para mim – Extremamente provocativo, não acha, Senhor Herdig.
— Se está dizendo, senhorita – Respondi, ela apenas sorriu.
Como eu disse, provocativa e sedutora, como o inferno.
Fale com o autor