Púpilos da máfia
5 Café da Tarde: Matthew Herdig
Notas iniciais
Fiquei observando meu avô negociar por quase quarenta minutos, depois disso, meus pensamentos saltaram para um lugar bem distante dali, Florence Churill tinha me deixado desconcentrado. Ela era uma víbora, pronta para atacar todo momento e nunca tendo qualquer possibilidade de se descuidar e morrer com o próprio veneno. Fosse qual fosse o assunto ela tinha as palavras preparadas para sair dos lábios perfeitamente desenhados em um formato de coração. Uma consigliere, mulher, jovem e que não só fazia parte da família como era filha do Don, não era à toa que seu nome era conhecido por todas as famílias de Litoria.
Nosso país era pequeno, mas nossas histórias grandiosas, mesmo assim sempre houve algo nos negócios familiares que me assustava. Não apenas o fato de sermos quase assassinos, mas a devoção a esse trabalho, era pior do que casamento, quase uma maternidade e isso me espantava, mas quanto aos outros, e mesmo Florence, não parecia assustar, parecia ser parte da alma deles e eles da alma do negócio.
Ainda estava perdido em meus pensamentos, quando um estrondo, forte, seco e extremamente familiar surgiu, me tirando de todos os devaneios. Por sorte, estava na casa o meu avô e ninguém ouviria o tiro. Olhei espantado para a mesa onde estava a comida do café da tarde e a cabeça de um homem tinha se adentrado ao pudim. Thomas Jordan. Traficante, ajudante da família, jazia morto no jardim de inverno da mansão Herdig.
— Um caso para Poirot – Falei irônico, mesmo assim meu avô percebeu que eu estava mais assustado do que deveria.
Ele olhou para mim com uma sobrancelha elevada e feição incompreensível, levantou-se tranquilo, andou em direção a vitrola antiga que guardava ali. O som era audível por todo o jardim. Ele preparou os discos, e sem qualquer pressa escolheu um, a voz de Luciano Pavarotti correu por todo o Jardim, meu avô balançou a cabeça ao ritmo de Caruso, a letra um triste romance, era depressivo, mas era a paixão do meu avô e nunca tiraria isso dele.
— Venha comigo Matthew – Ele chamou e levantei um pouco apreensivo, me colocando ao seu lado e caminhando com ele por meio as plantas.
Lucio Antony Herdig, meu avô, um homem baixinho, de cabelos brancos, e quase oitenta anos, mesmo assim, continuava a comando de toda a família. Virei a cabeça olhando para o corpo de Thomas, já estava sendo retirado pelos serventes da família. “Século XXI nunca chegará para a Máfia” Pensei sorrindo sem graça.
— Quando eu tinha a sua idade – Meu avô começou a falar com sua voz grave e autoritária – Já tinha mais do que uma simples noção do que esta família fazia, estamos aqui há muito tempo, e você sabe disso.
— Sim, Senhor – Respondi quando ele fez a pausa para que eu pudesse dar minha palavra.
— Logo não estarei mais aqui e quando seu pai assumir, não poderá ter medo do som de um tiro – Ele falou, meu medo era notável de longe.
— Entendo – Falei com sua pausa.
— Esta tarde conheceu Florence Churill, não?
Assenti.
— O que achou dela? – Ele perguntou sem qualquer razão visível.
— Fria – Respondi sincero – E muito atraente.
— Ela é muito inteligente para idade, e toda a beleza, esconde o que ela já fez – Ele continuou, fazendo com que eu realmente me interessasse em tudo o que dizia – Quando a conheci, foi a pessoa mais gentil do mundo comigo, ela tem bom coração, sem dúvidas, mas está congelado pelos anos com a máfia, precisa de cuidado para ser acessado.
— Senhor? – Perguntei realmente em dúvida de suas intenções.
— Esqueça, entenderá mais cedo do que pensa – Ele deixou o assunto no ar, então entendi porque, Jason, meu melhor amigo vinha em minha direção – Vou indo para dentro, conversamos mais tarde.
— Alguma ajuda, vô? – Perguntei sabendo que ele negaria, balançou a cabeça como eu imaginei e continuou o caminho de volta.
Jason, tinha minha idade, nos conhecemos na faculdade, a amizade veio com o tempo, assim como a confiança e a mentira sobre os negócios da família, mas ele nunca pareceu desconfiar ou se o fez, não se importava.
— Hey, Cara – Ele falou oferecendo a mão, segurei rapidamente e logo soltamos e fomos andando para dentro da casa, meu quarto era a primeira porta do andar de cima, lotado de coisas sobre filmes e bandas, uma guitarra, que nunca aprendi a tocar no canto e roupas de um lado pro outro. Jason me falou como estava a vida, a namora que tinha terminado e o trabalho que estava uma merda.
— Veio aqui para reclamar? – Perguntei enquanto sentava na cama, para jogarmos qualquer coisa no videogame.
— Vim aqui para chamar você pra ficar bêbado – Ele falou me jogando uma camiseta preta qualquer – Vamos sair, tá rolando uma festa muito louca no Prime.
— No Prime? – Perguntei curioso, estava precisando de uma bebida e de outra música que não fosse ópera – Falou – Falei trocando de camisa.
— Sério?! – Ele falou surpreso, com razão, não era comum eu ir a festas.
— É, vamos logo – Falei – Eu dirijo.
***
Quando chegamos na frente da boate, eu já queria me arrepender, a casa de shows era propriedade dos Churill, e não queria problemas hoje, logo após conhecê-los, torci para que ninguém da família estivesse lá nessa noite. Uma fila enorme estava na nossa frente, então falei meu nome para o segurança, que pediu meu RG e a senha, que era algo muito simples na verdade. Provando que era de uma família, ele me deixou entrar, ouvi as reclamações dos outros que esperavam do lado de fora mais nem me incomodei. A música da noite GDFR estava já deixando meu cérebro queimar e logo fui a procura do bar, algumas doses de tequila depois eu já estava tonto, mas uma voz conhecida surgiu perto de mim.
— Quem diria, ver você duas vezes no mesmo dia? – Florence Churill falou sentada ao meu lado no bar, seus olhos pareciam focados nos meus , mas eu sabia que ela estava analisando friamente tudo o que acontecia ao redor.
Eu por minha vez, foquei no vestido dela, branco com pedrinhas azuis na altura do peito, ficava um pouco além da metade da coxa e deixava um decote razoável de seu busto, mas ela nem de longe parecia uma prostitua, seu cabelo castanho, na altura da cintura preso de um jeito que a fazia parecer uma princesa, uma princesa gostosa. Era o que dizia minha me muito embaçada.
— Ver você novamente é bem mais que um prazer – Falei sem realmente saber o que eu dizia.
Um sorriso enorme se formou em seus lábios vermelhos, ela falou alguma coisa para o barista, que se recusou a me dar mais alguma dose e depois andou em volta de mim a procura de alguma coisa. Ela encontrou Jason, que parecia bem interessado no que quer que ela fosse dizer. Ela se esgueirou nele, e falou algo em seu ouvido que o fez sorrir. Me vi sendo levado para um sofá.
— O que foi cara? – Perguntei para ele, eu simplesmente tinha exagerado ou alguém tinha posto algo na minha bebida.
Jason apenas riu e voltou para Florence, quando vi os dois se beijando, tudo apagou.
Na manhã seguinte, o sol me acordou junto com uma dor de cabeça horrível de ressaca. Nada tinha ficado guardado, apenas os lábios vermelhos de Florence e depois eles grudados em Jason, que estava bem ao meu lado.
— Acorda! – Exclamei dando um saco não muito forte na coxa dele.
— Cara você ficou muito bem ontem, tive que te trazer carregado – Ele falou – Me tirou uns bons momentos da noite passada.
— O que houve? – Perguntei enquanto tomava aspirina.
— Deixa para lá, to indo – Ele falou pegando o que lhe faltava e quando estava na porta sua cabeça retornou – Ah, seu pai falou que tem reunião familiar as 10h30, em uma hora, pra ser exato, no salão.
“Fodeu” Pensei no mesmo instante.
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