Páginas sobre a chuva
4 Trabalhar em casa seria melhor
O celular dele vibrou e um sorriso foi inevitável. Mesmo sem olhar a tela, ele sabia que era alguma coisa dela. Sem que ninguém da boate da qual fazia segurança visse, puxou o aparelho de seu bolso.
Você poderia trabalhar em casa? Estou realmente querendo que se esforce.
Junto com a mensagem tinha uma foto. Jillian estava deitada com a barriga para baixo na cama trajando nada mais que uma pequena calcinha vermelha. Seus cabelos loiros desciam em cascatas pelas costas, destacando sua pele clara. Seus finos e longos braços estavam dobrados, fazendo com que seu tronco se erguesse e pudesse focar os belos olhos azuis na câmera. Seus lábios torcidos em um sorriso provocador era um convite para que Anthony se juntasse a ela naquela cama.
Bloqueou a tela rapidamente quando viu um dos “engravatados” se aproximando, por mais que não tivesse se dado ao trabalho nem de lhe dar um segundo olhar. Respirou fundo, mantendo a posição confiança e o olhar ameaçador para quem quer que ousasse invadir aquela boate. Pensar que, poucos anos atrás, tinha estado lutando por eles o deixava irritado. Carregava a consequência da guerra em seu corpo e sua mente. Ainda tinha pesadelos com tudo o que tinha visto e acontecido, principalmente quando chovia. A dor fazia com que a lembrança fosse ainda mais viva.
Quando retornou teve que agradecer aos céus o apoio que teve de sua esposa, Jillian. Ela o recebeu de braços abertos e planos na ponta do lápis. No começo foi difícil se adaptar. Era como um alarme ambulante, sem conseguir abaixar a guarda em nenhum momento. Arranjar emprego em que pudesse usufruir de suas habilidades adquiridas no exército foi uma vitória. Anthony não conseguia conviver com o fato de apenas Jillian sustentar a casa. Estava incompleto, não morto.
No entanto, algo estava tirando Anthony dos eixos: o desejo irrefreável de Jillian em ter um filho. Antes do acidente era fácil – até mesmo natural – para ele imaginar uma criança correndo pela casa. Teria os olhos azuis de Jillian, mas sua pele escura. Talvez o sorriso dela e o cabelo dele. Não importava como fosse, portanto que fosse fruto de ambos. Mas isso era um pensamento longínquo desde que regressou. Reergue-se era sua prioridade.
O vibrar de seu celular fez com que ele escapasse das sombras que ameaçavam circular seus pensamentos. Era outra foto de Jillian, dessa vez de frente. Anthony engoliu em seco e guardou o celular novamente, por mais que soubesse que ela iria reclamar. Queria acreditar que a fome sexual de Jillian tinha a ver apenas com o seu retorno e a saudade que lhe acalentava, porém era seu relógio biológico dizendo que estava na hora de realizar os planos maternais que tinha idealizado.
Mais duas fotos foram enviadas antes que seu turno como segurança daquele lugar acabasse. Estava quase amanhecendo e pelo menos duas pessoas tinham passado mal. Tinha pena das mulheres que tanto se esforçavam para chamar a atenção daqueles homens. Muitos não olhariam para elas no dia seguinte, nem se lembrariam de seus nomes. Até mesmo passariam com novas conquistas na sua frente.
Um exemplo estava passando na sua frente naquele exato momento. Darren Hendrix com os braços ao redor de uma ruiva que quase não sustentava o próprio corpo sobre o salto. Conhecia-o através de Jillian e sua sede por notícias. Sabia que trabalhava no ramo musical e que era casado com uma escritora, uma pobre mulher que deveria estar se revirando na cama e se perguntando onde seu dedicado marido se encontrava.
Fechou as mãos com força e reteve a raiva que possuiu todo o seu corpo. Não era assunto seu e não faria ser. Tinha uma esposa ansiosa para tê-lo em seus braços e não na cadeia. Seu celular vibrou mais uma vez, como um lembrete do que lhe esperava em casa. Por isso, contrariando seus instintos, entrou no carro e dirigiu.
***************
— Você demorou — Jillian disse assim que a porta foi aberta.
Anthony suspirou sentindo-se realmente culpado por ter demorado e feito sua esposa ficar acordado até aquela hora, sabendo que ela teria que trabalhar no dia seguinte. Afrouxou sua gravata e deixou que seu corpo cansado repousasse no sofá. Seus olhos pesavam, um reflexo de sua troca de horários para dormir por conta do trabalho noturno.
Permitiu que eles se fechassem por um segundo antes de sentir um impacto em seu colo. Alarmado, quase derrubou sua esposa no chão. Sorte que segurou sua cintura e a puxou de voltou contra si. Jillian riu, ajeitando-se com as mãos nos ombros de Anthony e os joelhos no sofá.
— Você me assustou — ele disse com os olhos arregalados.
— Desculpe — pediu ainda rindo.
Demorou um pouco para que ele retribuísse o riso, mas quando o fez foi como um sinal positivo para a aproximação que Jillian fez.
Abaixou o rosto lentamente diminuindo a intensidade do sorriso até que ficasse charmoso e o beijou com suavidade na bochecha. Foi lento e casto, como um teste para saber quando era a reação do marido. Ele apertou sua cintura, puxando-a com mais força contra ele. Jillian passou a ponta do dedo pelo rosto do marido, desde a testa até o maxilar, apreciando a maciez de sua pele. Quando ele abriu os olhos, Jillian quase derreteu. Era de um castanho claro quase âmbar, muitas vezes mudando para o verde. Tinha sorte de ter um marido tão lindo e atencioso como aquele.
Beijou-o com urgência, segurando sua nuca enquanto se mexia em seu colo. Ela o queria com todas as forças e quase doía pensar no tempo em que ficaram separados. Jillian precisava de Anthony desde o dia em que se conheceram no colégio. Precisava dele como quem precisava de ar. Só havia um problema...
— Jillian, pare — Anthony pediu. — Estou cansado.
... Ele não precisava dela.
Os dedos dela tinham alcançado o cinto – o que era um avanço comparado com as outras tentativas. O rosto de Anthony estava sereno, por mais que em seus olhos houvesse uma briga. Ignorou o pedido do marido, puxando um pouco do robe de cetim para o lado, mostrando a pele desnuda.
— Não estou preocupada com nada. — ela murmurou com o rosto a centímetros do dele. — E também não estou usando nada. — moveu as mãos para os ombros dele, mexendo lentamente como em uma massagem. — Você anda trabalhando tanto. Não suporto essas noites sozinha. — moveu o quadril contra o dele quase implorando uma reação. Estava impaciente e quente. Tinha esperado a noite toda por aquele momento. — Sabe que por mim você não precisaria trabalhar. Mas aqui em casa, tem que se esforçar. Eu mesma posso te promover. E sabe a nossa cama? — inclinou com a dupla intenção de ter seus seios amostra e poder sussurrar no ouvido dele — Vai ser o seu novo escritório.
Mordeu o lábio inferior com expectativa e beijou o ponto abaixo da orelha, no canto do maxilar. Tentou abrir o cinto do marido mais uma vez, mas foi retida pelas garras de aço que eram as mãos dele.
— Eu realmente cansado, Jill.
Essa foi a gota d’água para Jillian. Levantou-se com raiva, fechando seu robe e cruzando os braços contra o peito. Anthony suspirou como se previsse que toda aquela cena fosse acontecer. Levantou-se também, indo em direção a esposa querendo dar uma justificativa, mas ela recuou assim que ele ameaçou tocá-la.
— Você não me quer mais. — ela disse desviando o olhar.
Não era uma pergunta, mas ele se sentia obrigado a responder.
— Claro que quero! — exclamou e tentou tocá-la mais uma vez. Conseguiu entrelaçar suas mãos, o que a fez encará-lo. — Só estou cansado, já disse.
Mas, infelizmente, Jillian era uma mulher perceptiva. Anthony não poderia reparar nos pequenos sinais que dava, mas ela sim. E por mais que quisesse negar o que estava acontecendo a si mesma, era como se a verdade estivesse sendo esfregada na sua cara.
— Você não quer filhos. — ela sussurrou e foi a vez de Anthony desviar o olhar.
O coração de Jillian se quebrou e se apurasse os ouvidos, conseguiria escutar os pedaços jazidos no chão. Recuou, querendo evitar qualquer contato com Anthony. Foram anos de angústia aguardando o seu retorno, idealizando uma vida perfeita com filhos e o homem que amava ao seu lado. Tudo meticulosamente planejado e destruído. Ela abriu a boca com a intenção de gritar, fechou os olhos com a vontade de chorar, mas tudo o que fez foi virar as costas e se trancar no quarto.
Quando Anthony acordou no dia seguinte, apenas os pertences dele estavam na casa.
**************
Nos dois anos que se passaram, controlar as dores durante a chuva se tornou uma missão quase impossível e por muitas vezes ele cedia à loucura. Parou de contar quantos vasos quebrou na casa que por muitos anos pertenceu aos seus pais. Voltar para lá trouxe um alívio que a casa que dividia com Jillian não tinha. Esfregou o joelho com sôfrego e pressionou os lábios, impedindo que seu choro fosse mais alto. Algo que era humanamente impossível.
Berrou como um animal ao bater a mão contra o abajur, mas a dor permanecia ali. Respirava com força sem focar em um ponto específico. Seus olhos estavam borrados pelo passado e uma névoa de lamúria. Quando a campainha tocou, levantou a cabeça subitamente. Quem poderia ser? Esperava que não fosse a polícia. Com a dificuldade que carregava durante anos, caminhou até lá e abriu a porta.
A mulher a sua frente arfou e ele franziu o cenho.
Por que ela parecia tão familiar?
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