Páginas sobre a chuva
5 Conhecer os vizinhos deveria ser mais agradável
Sua expressão não era das melhores, como se eu tivesse atrapalhado algo muito importante. Embaixo de seus profundos olhos verdes tinham olheiras recentes que se contrastavam em sua pele escura, mas não tinha sido a sua falta de sono que tinha me feito arfar e, sim, o filete de sangue que descia em sua têmpora direita. Ele estreitou os olhos, sem estar ciente de seu estado e mesmo com sem a sua permissão entrei em sua casa.
— Hey! — reclamou com a voz alta, mas rouca, como se tivesse gritado por muito tempo. Algo que ambos sabíamos que isso realmente tinha acontecido. — Você não pode sair entrando na casa das pessoas desse jeito.
Ignorei a bronca e continuei buscando um caminho por entre a bagunça que me levasse até o banheiro. Toquei na parede procurando por apoio e percebi que mais da metade do papel de parede estava rasgado ou repuxado. Se Lisa estivesse ali, surtaria. Sua mania por limpeza gritaria mais alto, colocando a arrumação como prioridade e não a saúde de seu vizinho. Com mais esforço do que gostaria consegui achar o banheiro e o kit de primeiros socorros no armário embaixo da pia. Quando retornei, vi que ele estava mais quieto.
Sentou-se na poltrona, pousando os cotovelos nas coxas e pressionando as palmas das mãos na frente do rosto pensativo. Tive receio em me aproximar e desencadear outra explosão semelhante a que estava acontecendo antes da minha chegada. Cautelosa, passei pelos objetos destruídos e me sentei no sofá ao seu lado. Ele permanecia encarando o nada, como se estivesse em um mundo – e em um momento – especial. O sangue em sua têmpora tinha estancado, o que me fez ficar menos apreensiva.
— Está sentindo tontura? — sussurrei.
Ele piscou com força e me encarou rude. Em seu momento pensativo tinha se esquecido completamente da minha presença.
— Por que eu estaria tonto?
Apontei para sua têmpora.
— Está sangrando.
Ele tocou o ponto que indiquei e fez uma careta. Arqueei uma sobrancelha dando um sorriso amargo, demonstrando que eu estava certa. Em resposta, ele revirou os olhos e se afastou um pouco de mim no mínimo espaço restante da poltrona. Posicionei o kit de primeiros socorros em minhas coxas e abri, preparando-me para começar a enfaixar a sua cabeça.
— Fique quieto — pedi.
Vendo minha mão com algodão e remédio se aproximando do ponto machucado, ele ergueu uma mão impedindo-me.
— O que pensa que vai fazer?
Bufei.
— Impedir que você morra com uma infecção. — dei um tapa em sua mão e antes que ele tentasse me impedir novamente, pressionei o algodão em sua testa. Ele soltou um grunhido de dor e fechou os olhos. Agora você vai ter uma razão real para gritar. — Tem sorte de eu ter chegado de viagem hoje, caso contrário ninguém teria te salvo dessa hemorragia — tentei zombar.
O vizinho de Lisa – Anthony, como se recordei segundos depois – permaneceu em silêncio. Passado o choque do primeiro contato com o remédio ele não esboçou mais nenhuma reação enquanto eu terminava de limpar. Deveria ter entendido a dica e continuado de boca fechada, mas queria garantir que teria paz para escrever meu livro.
— Você me deu um susto, hein — provoquei recendo um olhar de soslaio. Era um bom sinal, ele estava prestando a atenção no que eu dizia. — Estava tentando escrever meu novo livro – que, por acaso tenho um prazo ridículo de três meses para entregar – e escutei toda essa barulheira. O que houve? Um rato?
Novamente fui respondida com silêncio. Frustrada por esse tratamento de gelo, pressionei o seu curativo com mais força que o necessário. Anthony se retraiu e soltou um xingamento baixo enquanto minha expressão continuava neutra, como se esse movimento não tivesse sido premeditado.
— Prontinho! — fechei a caixa, colocando-a ao meu lado no sofá e bati com as mãos em minhas coxas, pegando impulso para me levantar. Parei na frente dele com as mãos na cintura e bati um dos pés no chão, chamando a sua atenção. — Um obrigado seria ótimo.
Seu olhar era frio, mas ao mesmo tempo parecia entrar em minha alma.
— Obrigado pelo o quê?
Apontei para seu curativo.
— Por ter feito isso para você.
Grasnou balançando a cabeça e desviando o olhar. Parecia estar querendo controlar a sua raiva e, inconscientemente, recuei alguns centímetros. Meus passos fizeram com que ele me olhasse de novo.
— Não ouse dizer que foi por mim. Sabemos por quem você fez isto e não foi por mim. — retorquiu. Seus ombros estavam tensos e ele não parava de esfregar suas mãos. Se continuasse fazendo isso por muito tempo em breve veríamos fogo. Ergueu os olhos para mim, quase que em um desafio para ver se eu não desviava. Engoli em seco, mantendo-me altiva e escondendo meu tremor. — Estou te reconhecendo. — agitou um dedo na minha direção e soltou um riso curto pelo nariz. — Você é a esposa daquele empresário metido. Vi vocês dois juntos na capa de uma revista.
Minhas mãos se fecharam em punho e foi minha vez de ficar tensa. A raiva subiu pela minha cabeça e por mais que minha pele escura não mostrasse, meu rosto estava quente. Evitei que todos os xingamentos possíveis escapassem de minha boca e, pela primeira vez desde que entrei, ele sorriu, porém era um sorriso carregado de ironia.
— Ele é meu ex-marido. — corrigi e seu sorriso se ampliou. Ah! Então meu vizinho era do tipo que se divertia com o sofrimento alheio. — Você deve ter lido uma revista bem antiga.
Senti que ele queria responder ao meu desaforo, mas se conteve, querendo que eu fosse embora. Cruzei os meus braços mostrando que isso não aconteceria tão cedo. A chuva tinha estiado um pouco, estabilizando-se em um ritmo suave. Anthony ergueu os seus olhos fixando-os na janela e acariciou seu joelho.
— Você machucou aí também? — perguntei abaixando-me para analisar.
Entretanto, no momento em que meus dedos ameaçaram roçar no seu jeans, ele se levantou bruscamente fazendo-me cair para trás. Meus olhos se arregalaram pela surpresa e novamente temi que ele fosse recomeçar sua destruição.
— Não me toque! — ele gritou apontando o dedo para o meu rosto. Respirava pesado, o que era audível por toda a casa. — Nunca mais tente me tocar! — repetiu mais baixo, todavia não mudava o tom de voz perigoso.
Por mais que cada célula do meu corpo gritasse para que eu fugisse, não conseguia mover um músculo sequer. Anthony ficou parado esperando uma resposta que o convencesse e eu balancei a cabeça devagar, concordando. Talvez seu temperamento instável fosse o motivo para que Lisa não me quisesse ali, mas fui teimosa ao ignorá-la.
Anthony passou as mãos por sua cabeça como se quisesse reencontrar a razão. Inclinou a cabeça para trás, respirando fundo repetidas vezes e fez uma careta. Aproveitei quando ele estava de costas e me levantei com lentidão para não chamar a sua atenção. Meu coração estava disparado e a porta parecia mais distante do que realmente estava.
Era irônico que me encontrasse em uma situação assim em que todo o meu corpo me alertava do perigo e eu não conseguia me mexer. Era um castigo por tantas vezes que fiz um dos meus personagens estar em uma situação semelhante. Anthony se virou para mim e eu fiquei tensa esperando por um ataque. Ele se aproximou com cautela, como se calculasse os seus passos. Em contrapartida, minha respiração ficou mais alta e desesperada. Ele parou na minha frente e estendeu a mão, fechei os olhos esperando o golpe que não veio.
— Você tem que ir — ele disse ajeitando uma mecha do meu cabelo. — Não é seguro.
Se fosse em outra situação eu teria rido de sua frase clichê naquele contexto, poderia usá-la no meu livro. Na atual conjectura, continuei parada até que sua mão estivesse distante e soltei o ar que nem percebi estar segurando. Assenti, concordando em finalmente ir embora e ele suspirou aliviado.
Deixei que ele andasse na frente e permiti que meu corpo fugisse das sensações de adrenalina. No entanto, só consegui relaxar quando eu estava parada na soleira de sua porta novamente com pingos de chuva acertando minha cabeça. Anthony olhou para a chuva por curtos segundos, como se estivesse nostálgico. Demorou sua atenção ali e eu presenciei a mudança de suas emoções, desde a cruel saudade até a raiva. Percebi que ele sutilmente mexeu a perna e sua expressão mudou para dor.
Ainda estava curiosa para saber o que tinha acontecido, mas cuidadosa para não fazer nada precipitado. Pensei que ele tinha se esquecido de mim, mas voltou a me encarar e a sua expressão mudou para culpa.
— Obrigado. — murmurou antes de fechar a porta na minha cara.
Fiquei parada por mais alguns segundos antes de arrastar os meus pés de volta para a casa ao lado. No caminho acendi o cigarro para que meu corpo relaxasse diante da dose de nicotina. Antes de chegar a porta, escutei mais um vaso se quebrando e tive o instinto de voltar. Duas coisas me impediram: a precaução e o telefone ensandecido que tocava. Tinha certeza que se ignorasse mais uma ligação de Lisa, Anthony seria visitado pela polícia.
Eu deveria ter deixado esse assunto para trás e simplesmente ter comprado fones de ouvido. Até mesmo tampões de ouvido. Ao invés disso, a primeira coisa que disse à Lisa no telefone depois da bronca foi:
— O que aconteceu com o seu vizinho?
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