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18 Sob Os Céus de Celestia – Parte I – Nuvens Negras
– Espere, Niele. – Reeve me chamou, interrompendo-me à descida da trilha que levaria aos pés do planalto, aonde se encontrava elevado o Santuário Selado.
Eu virei e o confrontei, sentindo-me estranha ao fazer isso. Reeve me olhava com uma expressão tristonha.
– Alguma coisa está diferente. Eu não sei dizer o quê, mas há alguma coisa em seus olhos que não… que não pertence a você.
Inconscientemente, desviei meus olhos dos dele.
– Sem dúvidas, a Niele que entrou no Santuário e a que saiu não é mais a mesma. – Eu disse, incapaz de não me comover com minhas próprias palavras.
– O que houve lá dentro?
– Eu recuperei um conhecimento que jamais deveria ter perdido. Uma parte de mim que estava lacrada… – Eu lhe devia aquela explicação, ainda assim eu estava hesitante. – Reeve, veja só.
Estendi então minha mão em direção a um dos pilares avulsos dali. Ele se levantou do chão por si só e começou a levitar no ar. Reeve e Fergo olhavam para o objeto cada qual com uma expressão diferente. Reeve parecia deprimido e pouco impressionado. Fergo estava inexpressivo e parecia menos impressionado ainda. Então, deixei que o pilar caísse no chão.
– Eu li sobre vocês nos documentos que encontramos no subterrâneo de Gaela. – Reeve falou, enfim. – Eu não tenho certeza se entendo ou quero entender o que está acontecendo.
Fergo se moveu até mim e me perguntou num cochicho:
– Foi você quem me trouxe para cá, não foi?
Eu balancei a cabeça afirmativamente. Fergo respirou profundamente e disse:
– Vou esperar vocês na nave.
E então ele desceu a trilha. Reeve se aproximou. Esperou que alguns momentos se passassem e perguntou:
– Quem é você de verdade?
Eu o olhava nos olhos. Reeve era exatamente como Teoremo havia sido em sua juventude. Aquilo me desequilibrava. Meu apreço por ambos era enorme. E isso era o que eu mais temera sentir.
– Reeve, eu não sou mais a Niele que você conheceu. Eu sou o Guia do outro universo e meu nome verdadeiro é Ayede.
Ele fixava o olhar em minhas pupilas, como se procurasse algum sinal de que eu ainda fosse a mesma pessoa.
E eu ainda era. Mas era preciso abandoná-la.
– E quem sou eu, Ayede? – Ele pronunciou o nome com dificuldade.
– Você é você, Reeve. – Coloquei a mão no rosto dele.
– Não minta. – Ele começou.
– Não estou mentindo. Eu não poderia enganá-lo nunca, Reeve. – Eu sabia que ele era excepcionalmente inteligente e teria juntado todas as peças do quebra-cabeça sozinho. Ele só precisava ouvir a confirmação. – Você é tudo o que você fez até hoje, é tudo que você viveu e é uma pessoa maravilhosa e… única.
Algumas lágrimas queriam fugir de minhas pálpebras. Antes que Reeve pudesse vê-las, virei-me e segui o caminho que Fergo havia tomado ainda havia pouco.
O caminho de volta a nave seguiu silencioso.
Fergo se posicionou diante os bancos do piloto. Ele hesitou por um momento e se virou para me encarar:
– Isso é suicídio.
– Fergo. Por favor. Leve-me para o Palácio Imperial.
– Niele… – Ele começou. – Eu provavelmente jamais entenderei a extensão de seu poder. Você me trouxe para esse universo e eu testemunhei sua fúria contra… – As lembranças da batalha contra meu eu enlouquecido pareceu perturbá-lo. – Contra Gaela.
A vila em chamas… Eu recusava a aceitar aquele acontecimento, mas ele estava em minha mente e era real. Eu ataquei e destruí Gaela quando consegui os poderes de Guia e pessoas inocentes sofreram por isso. Eu jamais me perdoaria.
– Mas, você deve lembrar, – Ele continuou, – que Ramona Celestia derrotou Athema e todos os Guardiões da Verdade no Santuário uma vez.
– Eu entendo sua preocupação e agradeço por isso. – Eu disse. – Mas isso é tudo consequência de meus atos. Eu preciso ir.
– Podemos pensar num plano.
– Se dermos mais tempo para a Imperatriz, certificaremos apenas que ela adquira mais conhecimento. A cada minuto Ramona ganha novas informações de todos os universos futuros e ela já tem poder demais, como você mesmo disse. Não podemos mais nos dar o luxo de sentar e conversar. Fergo, você fez com perfeição tudo que lhe incumbi. É a última coisa que te peço. Leve-me até a ilha do Palácio Celestia. E de lá, você e Reeve deverão ir para o mais longe possível.
– Não! – Reeve se impôs. – Vamos lutar também.
Eu olhei para o rosto de Reeve. Ele estava disposto e determinado, mais do que nunca. Mas aquelas palavras não estavam sendo ditas uma primeira vez. Eu as ouvira antes, pela mesma voz, porém, não pela mesma pessoa.
E eu não repetirei esse erro.
Assenti para Reeve e então para Fergo. O último se deu por vencido e sentou-se em frente ao painel de controle da aeronave. Fergo acionou a alavanca e os respectivos botões para decolar a nave e logo estávamos em alta velocidade, cortando o céu em direção a ilha, onde se localizava o Palácio Imperial.
“Bem-vindos”, uma voz familiar ressoou em minha cabeça.
– O que é isso? – Reeve perguntou. Ele e Fergo puderam ouvir também.
– Ramona está usando telepatia. – Eu presumi. – Ela já sabe que estamos aqui.
“Eu já estava ansiosa.”
Flutuávamos sobre a ilha do Palácio Imperial. O lugar era um longo terreno plano e não havia nenhuma vegetação. Em todas as direções era possível ver enormes torres brancas – os únicos edifícios da ilha, exceto pelo Palácio Imperial que despontava ao longe – uma gigantesca construção que representava dois “cês” em horizontal, o infame logo da Corporação Celestia. Quem o via, presumia que o Palácio era feito de vidro, mas não havia nada mais resistente do que aquelas paredes espelhadas, que se misturavam com um revestimento de diamante. Uma fortaleza aparentemente impenetrável e indestrutível.
“Tomem cuidado, queridos. As torres podem ser belas de se ver, mas elas não gostam de turistas.”
E subitamente, as torres ao nosso redor tiveram seu topo removido por um mecanismo interno, como se fossem grandes potes cilíndricos com uma tampa pendente. Um canhão com cano retrátil se revelou do interior de cada uma delas.
– Ela vai atacar. – Fergo constatou. Levantei meus braços e me concentrei.
Os canhões se estenderam a quase a altura da própria torre, giraram em nossa direção e dispararam juntos contra nós. Contudo, seus tiros não fizeram efeito algum.
– Fergo, estou protegendo a nave. – Eu disse. – Continue em frente.
Flutuei para o topo da nave, atravessando o teto através de minha habilidade que me permitia tornar minha massa corporal intangível. Lá em cima, pude ter uma visão melhor da ilha e o posicionamento de seus edifícios. Novos tiros soaram. Através de minha força psíquica, consegui controlar a munição dos canhões para que voltassem contra si e destruíssem suas respectivas torres. Logo estavam todas destruídas, agora meras ruínas sobre o terreno da ilha. Voltei para o interior da nave. Já estávamos a um quilômetro de distância do Palácio Celestia e então, pedi a Fergo:
– Pare a nave.
Ele o fez sem hesitar. Planávamos a alguns metros do chão.
– Daqui seguirei sozinha. – Eu falei. – Sei que meras palavras jamais serão o suficiente, mas… Obrigada por tudo, vocês dois.
– Não. – Reeve foi até mim. – Nós podemos ajudar, ainda! Eu prometi que só voltaria quando você voltasse! Niele! Por favor!
– Reeve, eu não… — Comecei.
– Niele, eu não me importo! – Ele disse, aproximando-se de mim. – Eu não me importo o que você ou quem você é de verdade. Eu acredito nas suas palavras, mas você deve acreditar nelas também.
“Você é tudo o que você fez até hoje, é tudo que você viveu e é uma pessoa maravilhosa e única. E você foi e sempre será a Ni… Nossa Ni.”
– Pare! – Eu pedi. Por um momento, hesitei.
Então eu o abracei e deixei que minhas lágrimas rolassem.
– Perdão. – Eu disse, olhando em seguida em seus olhos.
Suas pálpebras fecharam gentilmente e ele então desmaiou. Segurei-o para que não caísse e o posicionei no chão, escorado na parede. Eu havia controlado sua mente para que perdesse a consciência.
– Nada disso faz sentido se você morrer. – As palavras saíam juntas de meu pranto. – Nada disso fez sentido se não é para deixar você viver.
Limpei meus olhos com as costas da mão e me virei para Fergo.
– Por favor, Fergo.
Ele olhou para mim sobre o ombro e assentiu.
– Boa sorte. Vemo-nos depois que tiver feito o que você tem que fazer.
Sorrimos um para o outro. E no momento que ele se virou para o painel e religou os motores da nave, atravessei o compartimento pelo chão, flutuando até a ilha. Assim que toquei meus pés sobre o terreno, a nave já estava longe dali.
Ao longe eu podia ver o Palácio Imperial. No momento que dei um passo em sua direção, a voz de Ramona Celestia voltou a soar em minha cabeça.
“Eu espero do fundo do meu coração, que você saiba que as torres foram meras distrações. Não quero que você pense que somos capazes apenas daquilo. O que eu preparei para você é de uma magnitude muito maior. Querida, você tem minha palavra: não vou te subestimar.”
E quando a voz da mulher cessou, vinda de trás do Palácio, uma nuvem negra surgiu encobrindo o céu: centenas de naves negras se locomoviam no ar lentamente para a frente do palácio, como um desfile de caças. O chão a frente do Palácio se abriu e de dentro emergiram tanques de guerra. Milhares de canhões apontavam em minha direção.
“Espero que você se divirta com nossos brinquedos.”
E então, como raios no céu, as naves voaram em minha direção, disparando tiros incessantemente, tornando a ilha um festival de fogos. Corri em direção ao Palácio, concentrando-me para que meu corpo se tornasse intangível e a munição não me acertasse. Os tanques avançaram contra mim, rolando suas bases sobre o terreno e estourando os sons de tiros no ar. Controlei uma das naves que estavam próximas através da força psíquica e a joguei contra as outras naves. Uma fila de explosões irrompeu no céu e logo vários veículos negros rodopiavam em direção ao chão e se explodiam no impacto.
Voei até uma das naves próximas e atravessei suas paredes, chegando em seu interior. Um dos tanques apontou contra a nave aonde eu estava, bem como três outras atiraram contra a aliada sem dó. A nave logo voou pelos ares e eu voei através de seus fragmentos, passando em alta velocidade pelas outras e criando um campo de força circular a minha volta, como uma bolha protetora. A medida que eu passava por elas, meu campo as acertava e elas se estouravam no ar. Os tanques atacavam incansáveis lá de baixo, ressoando seus tiros ensurdecedores. O campo se encarregava de defender-me deles, embora o impacto me arremessasse contra direções que eu não pretendia ir, o que estava me atrapalhando. Passei então a controlar os tiros dos tanques para que se curvassem e destruíssem os veículos ao redor, mas não era o suficiente.
Entrei numa das naves para que pudesse desligar meu campo de força por um instante e concentrar num plano novo. Felizmente, tive tempo o bastante para isso. Antes que a nave que eu agora estava fosse completamente destruída pelas outras, uma cratera se abriu na ilha sob boa parte dos tanques e todos foram engolidos pelo buraco. Logo eu estava flutuando sobre os fragmentos de uma parte da "nuvem negra". Uma delas se aproximou centímetros de chocar contra mim. Não tive tempo para tornar-me abstrata, mas controlei a nave a tempo. Fiz com que ela girasse ao meu redor e chocasse contra as naves próximas, criando um campo de força sobre ela para que ela não se destruísse, mas acabasse com as outras com que entrasse em contato e então, soltei a que estava em meu poder. Ela rodopiou pelo ar e se chocou contra o “nada” a alguns metros acima e caiu.
Mas o quê?!
Foi somente neste ponto, que percebi que não havia mais céu sobre mim. A ilha toda agora estava coberta por uma cúpula camuflada, cuja imagem imitava o céu lá fora. Enquanto eu me defendia de novas investidas dos veículos da Corporação, uma forte chuva começou a cair: ou pelo menos, uma simulação de chuva. A cúpula estava jorrando água por toda a ilha. Uma das naves se chocou contra mim. Tornei-me incorpórea a tempo, mas fui atingida por uma descarga elétrica que teria me matado, caso eu não tivesse me atirado contra o chão a tempo e criado um campo de força ao meu redor. Todas as naves e tanques restantes estavam cobertos por uma camada de energia elétrica e a água ajudava nisso. Eu só poderia me defender com o campo de força agora, o que limitava minhas habilidades de ataque. A cúpula também estava simulando relâmpagos aleatórios.
No cenário tempestuoso, as naves e tanques aguardavam uma nova ordem de ataque, enquanto eu me recuperava do impacto.
“Preparada para o segundo round, querida?”
Levantei-me e movi meu cabelo molhado do meu rosto. E, usando um pedaço da faixa ao meu braço, prendi meus fios num rabo-de-cavalo lateral.
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